Já em 2007, no tempo de Sócrates, tinham os militares conseguido impor um tratamento excecional na reforma da administração pública, com uma disposição que assegurava que os militares não seriam incluídos – o que significava a manutenção dos privilégios deste “corpo especial”.
Agora, vemo-los de novo em pé de guerra. Põem-se assim, evidentemente, como outros setores do estado, quando sentem que o governo lhes está a mexer nos bolsos.
No encontro nacional de 22 de Outubro, vemos, então, duas personagens curiosas: um sargento dos dias de hoje e um capitão de Abril, Vasco Lourenço, a argumentarem contra os cortes no rendimento dos militares no ativo e pensionistas. O segundo recordar-se-á que o 25 de Abril começou precisamente com a insatisfação dos capitães de carreira contra direitos outorgados a capitães milicianos. Acrescenta, por isso, o discurso igualitarista de solidariedade com todo o povo.
Contudo, quando se trata de reivindicar, fala-se claramente da especificidade dos militares como argumento maior. Então, se estes cortes são globais, aplicados a todos os assalariados do estado, que sentido faz falar da condição específica dos militares? É que Lima Coelho chegou a falar desses mesmos privilégios, como justificados precisamente por eles arriscarem a vida na defesa da pátria.
Os que arriscam realmente a vida são os que partem em efetivas missões e não todos os que o juraram fazer. Em todo o caso, não me compete contestar a justeza destas reivindicações. Apenas pretendo destacar a moldura discursiva, e ideológica, igualitarista e solidária utilizada para, na verdade, justificar uma exceção.
É com alguma graça que leio a ameaça velada dum novo 25 de Abril contra o PREC da direita. Se for, começará da mesma maneira do que o primeiro, com os interesses da carreira militar. Resta saber como acabaria uma tal contra-revolução (contra a dita revolução da direita, evidentemente).

