O eduquês como dialecto

Processos sem sujeitos

Extraído de http://www.alamedadigital.com.pt/lancamento/o_eduques.php . Acho excelente porque ilustra muito bem a ilusão sociológica que elimina os sujeitos que agem – professores e alunos – para relevarem os processos.

 

Não me vou dar ao trabalho de recensear exemplos de críticas ao eduquês no discurso dos professores, dos políticos, dos encarregados de educação e dos… pedagogos.

Às tantas, é como se nunca ninguém tivesse estado do lado negro da coisa. Isto é, o eduquês é sempre outro.

Tentar definir “eduquês” é o cabo dos trabalhos. Vou me limitar a dar alguns contributos para essa definição.

Primeiro que tudo, o eduquês é um dialecto. Não um dialecto de uma língua natural como o português, mas um dialecto profissional internacional que se desenvolve em praticamente todas as línguas ocidentais. Uma gíria ou um calão, se quiserem ser rigorosos. Isto quer dizer que uma afirmação em eduquês pode ser traduzida para português vulgar. Alguns exemplos, do vulgar para o eduquês:

– aulas, lições – processo de ensino-aprendizagem

– ensinar – organizar o processo de aprendizagem.

– autoridade – gestão educativa

– estudar – descobrir

– decorar – descobrir

– reprovar, chumbar, repetir o ano – ser retido (pois o referente não pode ser expresso com uma frase na forma activa)

– chumbo – retenção

– falta disciplinar – mediação disciplinar

– mau comportamento – atitudes pouco adequadas

– castigo – não há

– passar de ano – transitar

– nota – nível

– professor – orientador educativo (por exemplo, na Escola da Ponte não há professores)

– actividade – projecto

– aprender – construir aprendizagens

– plano de aula – (eduquês antigo), deve-se dizer plano do processo de aprendizagem

– conhecimentos – não há (veja competência)

– saber – não há (veja saber-fazer)

– competência – saber-fazer que o aluno desenvolve no processo de ensino-aprendizagem.

– saber-fazer – coisa que resulta do processo de descoberta em situação de ensino-aprendizagem.

– objectivo – palavra de eduquês antigo: não se definem objectivos, elencam-se competências.

– frequências – testes sumativos em eduquês antigo, actualmente, provas de avaliação do processo de ensino aprendizagem.

– aluno – sujeito do processo de ensino-aprendizagem ou construtor das suas competências.

Como vimos, há coisas do “vulgar” que não são dizíveis em eduquês. Por isso, os orientadores educativos, dizem-nas com as palavras de antigamente. Quando não têm nenhuma autoridade eduquesa por perto falam com prazer em “vulgar”. Alguns até se atrevem a dizer que dão aulas e ensinam coisas aos alunos. Isto é dum grande atrevimento, pois, verdadeiramente, os aprendentes são os construtores das suas próprias aprendizagens e os orientadores educativos estão lá só para organizar esse processo da forma o mais invisível possível.

Metas de aprendizagem – para quê?

O Ministério da Educação está a trabalhar na elaboração de metas de aprendizagem, por ciclo e por ano, para as disciplinas do ensino básico e espera-se que estejam completas no final deste ano lectivo1.

Uma vez que já temos programas a cumprir, com objectivos e conteúdos, torna-se necessário descobrir a que necessidade responde este novo elemento programático.

É verdade que os programas actualmente em vigor não informam rigorosamente os desempenhos esperados e foram publicados há cerca de dezassete anos, o que na actualidade é um período longuíssimo tendo em conta a extraordinária evolução das ciências e das tecnologias e as mudanças que ocorreram no nosso quotidiano.

Os programas incluem objectivos gerais da disciplina, conteúdos e processos de operacionalização. Na Língua Portuguesa, que conheço bem, consideram-se como domínios a comunicação oral, a leitura, a escrita e o funcionamento da língua. Os objectivos referem-se a estes domínios, mas de uma forma muito ampla e genérica. Os processos de operacionalização indicam processos e são, numas vezes, objectivos operacionais, noutras, tipos de actividades.

A onda das competências conduziu à reelaboração programática n’O Currículo Nacional (2001) que não teve a intenção de se substituir aos programas, mas apenas de determinar as competências essenciais. Nesse documento, os domínios da língua portuguesa são designados de competências específicas. Em vez de funcionamento da língua, aparece conhecimento explícito e a comunicação oral é desdobrada em compreensão do oral e expressão oral. Para cada um deles, introduzem-se níveis de desenvolvimento por ciclo. Por exemplo, da leitura no 2º ciclo evolui-se para uma maior complexidade no 3º ciclo:

2ª ciclo: Capacidade para ler com autonomia, velocidade e perseverança

3º ciclo: Capacidade para reconstruir mentalmente o significado de um texto (literário e não literário) em função da relevância e da hierarquização das unidades informativas deste.

O documento remete para um texto mais específico que determina os níveis de desempenho de cada competência2. Foi desta obra de 1997 que foram retirados os desenvolvimentos acima referidos. Para cada competência nuclear, especificam-se objectivos de final de ciclo. Por exemplo, no 2º ciclo sob a designação de “Criação de autonomia na leitura e de hábitos de leitura”, introduzem-se objectivos bastante específicos, como:

Ler em voz alta, restituindo ao ouvinte o significado do texto

Identificar as ideias importantes de um texto e as relações entre as mesmas.

No 3ª ciclo:

Ler com fluência, conservando em memória o significado do texto

Reconstruir mentalmente o significado de um texto em função da relevância e hierarquização das unidades informativas deste.

Utilizar chaves linguísticas e textuais para desfazer ambiguidades, deduzir sentidos implícitos e reconhecer usos figurativos.

O currículo nacional trata apenas das competências linguísticas e comunicativas, e não do material cultural que é objecto de trabalho – neste caso, diferentes tipos de textos social e culturalmente significativos que fazem parte de reportórios cujo conhecimento é um valor importante, como é o caso da história da língua e da literatura e das próprias obras mais celebradas.

Talvez as competências não existam em estado puro e necessitem da explicitação de conhecimentos e contextos de realização que não aparecem no currículo nacional. Será que se pode expressar tudo na linguagem das competências e haverá vantagem em fazê-lo?

É de esperar então que as metas de aprendizagem anuais integrem não só o que é competência, isto é o saber-fazer, mas também conhecimentos que o aluno tem que adquirir e investir na leitura e na escrita. É pouco provável que se possa ser um bom leitor sem possuir o conhecimento dum imaginário que é cultural, histórico e geográfico.

Uma vez publicadas as metas de aprendizagem, que faremos com elas?

A maior parte dos professores tem uma ideia do desenvolvimento ideal no programa da sua disciplina e sabe situar os seus alunos relativamente a esse percurso. Se ele entende que um seu aluno está atrasado, que precisa de mais tempo, o que pode fazer? A maior parte das vezes, não consegue levá-lo a reter o ano, nem pode fornecer apoios pedagógicos e a diferenciação que consegue fazer na sala de aula é mínima pois tem de avançar com o programa e responder também às dificuldades dos que acompanham regularmente o curso. O resultado é a maior parte das vezes ficarem itens importantes por aprender, lacunas que nunca mais serão preenchidas e que assumirão especial gravidade se constituírem pré-requisitos das unidades seguintes, o que é comum acontecer nas línguas, em Matemática e em Física.

A este respeito, convém dizer que a liderança pedagógica está toda nas mãos da tutela, pois as escolas não têm nem a coragem nem a apetência para abordar os problemas e inventar soluções e continuam a colocar no papel coisas que não têm qualquer concretização, medidas fantasiosas que todos sabem que não vão resultar em nada.

Formam-se turmas “diversificadas” em todos os aspectos que têm como resultado que alunos de elevado potencial não conseguem realizar aprendizagens minimas porque vários dos seus colegas desfasados do programa se alheiam completamente. Há um “sociologicamente correcto”, caro à nossa anterior ministra, que fundamenta isto que em termos de produtividade pedagógica é uma aberração, pois o professor sabe que tem que aferir o seu programa ao diagnóstico feito e ou baixa o nível ou eleva-o sacrificando uns ou outros.

Resulta pois daqui que as metas de aprendizagem servirão para alguma coisa se soubermos o que fazer com elas, pois são uma forma de avaliação que ou tem consequências ou não servem para nada.

A ideia de que as metas de aprendizagem se reportariam aos anos de escolaridade e que, por isso mesmo dependiam da elaboração de programas anuais deixou-me um pouco perplexo. Pois parece-me que continuamos num esquema de escolaridade altamente conteudístico e não no domínio das competências.

Nos “attainment targets” do National Curriculum inglês de que já aqui falei3, as metas de aprendizagem reportam-se à disciplina e não ao ano de escolaridade e são:

eight level descriptions of increasing difficulty, plus a description for exceptional performance above level 8. Each level description describes the types and range of performance that pupils working at that level should characteristically demonstrate4.

O professor pode utilizá-las para informar os pais sobre os progressos anuais dos seus alunos e tem obrigatoriamente que fazer a sua avaliação no final do ciclo (key stage)5. Entretanto, no “program of study” estabelece-se para cada “key stage” o nível de desempenho esperado para a maioria dos alunos.

Toda a escala foi parametrizada para que todos os níveis correspondessem ao que é lícito esperar que a maioria dos alunos adquira ao fim de um determinado ciclo. Por exemplo, no final do key stage 2, dos 7 aos 11 anos, a maioria dos alunos estará no nível 4, e no final do key stage 3, dos 11 aos 14 anos, no nível 5 ou 6, a todas as disciplinas. Quer dizer que os níveis de desempenho foram definidos a pensar num percurso ideal.

Quando um professor reporta um nível atingido, de 1 a 8, está a remeter para uma pequena descrição que explicita o que um aluno desse nível é capaz de realizar. Este esquema uniforme funciona no currículo inglês porque não apresenta especializações disciplinares como o nosso. Por exemplo, há uma única disciplina de Science dos 5 aos 14 anos.

Com metas referidas ao ano, que decisões poderemos tomar em consequência dos desempenhos realizados pelos alunos? Vamos continuar a votar notas arbitrariamente – ou por motivos extrínsecos – para “passar” os alunos? Isto é, para os enviar como problemas para outros professores?

Não acho que a retenção de ano seja uma boa medida. É apenas uma maneira de organizar o processo de aprendizagem. É um mau método, reconheço. Há outras soluções feitas sem batota no que respeita à avaliação dos alunos, sem medidas que autorizam a concessão de níveis sem os desempenhos correspondentes.

O nosso sistema é óptimo para desculpar e camuflar o insucesso. O que é paradoxal pois num primeiro momento cria uma situação chamada de “insucesso”, a seguir cria todos os expedientes para evitar que alguém caia nessa categoria. O problema é que ao atribuir a etiqueta de bem sucedido a quem não o é, ao reconhecer motivos que justificam esse fracasso, esconde-o e inibe o mal-sucedido de tentar melhorar.

De facto, o insucesso é tão artificial como o sucesso, pois há uma nível negativo definido com muita arbitrariedade. Se a linha de água é um nível de desempenho necessário para abordar os programas do ano seguinte, então porque se admitem justificações para insucesso, sejam elas quais forem, se o aluno não está preparado para o ano seguinte?

Na verdade, não há positivas nem negativas. A marca de 50% nos testes tão do agrado de muitos professores não significa absolutamente nada em termos de conhecimento. Significa apenas selecção, nada mais. Há apenas alunos que aprendem muito depressa, outros que aprendem mais lentamente, melhores numas coisas, piores noutras, pois variadas são as inteligências, diferentes as inclinações.

Gostaria de um sistema baseado na verdade, orientado para marcas de desempenho que os alunos desejassem prosseguir e não esta coisa do 2 a 5, com batota no 3.

2Inês Sim-Sim, Inês Duarte e Maria José Ferraz – A língua materna na educação básica. Competências Nucleares e Níveis de Desempenho, Lisboa, 1997.

4“oito níveis de dificuldade crescente e uma descrição de “performance” excepcional acima do nível 8. Cada nível descreve os tipos e níveis de realização que os alunos conseguem nesse nível” (traduzido por mim de http://www.nc.uk.net/nc_resources/html/valuesAimsPurposes.shtmlm, feito o download em 28-08-2007 21:39:36)

5“The National Curriculum makes expectations for learning and attainment explicit to pupils, parents, teachers, governors, employers and the public, and establishes national standards for the performance of all pupils in the subjects it includes. These standards can be used to set targets for improvement, measure progress towards those targets, and monitor and compare performance between individuals, groups and schools.”

“In deciding on a pupil’s level of attainment at the end of a key stage, teachers should judge which description best fits the pupil’s performance. When doing so, each description should be considered alongside descriptions for adjacent levels.” (http://www.nc.uk.net/nc_resources/html/valuesAimsPurposes.shtmlm feito o download em 28-08-2007 21:39:36)

Metas de aprendizagem – para quê?

O Ministério da Educação está a trabalhar na elaboração de metas de aprendizagem, por ciclo e por ano, para as disciplinas do ensino básico e espera-se que estejam completas no final deste ano lectivo1.

Uma vez que já temos programas a cumprir, com objectivos e conteúdos, torna-se necessário descobrir a que necessidade responde este novo elemento programático.

É verdade que os programas actualmente em vigor não informam rigorosamente os desempenhos esperados e foram publicados há cerca de dezassete anos, o que na actualidade é um período longuíssimo tendo em conta a extraordinária evolução das ciências e das tecnologias e as mudanças que ocorreram no nosso quotidiano.

Os programas incluem objectivos gerais da disciplina, conteúdos e processos de operacionalização. Na Língua Portuguesa, que conheço bem, consideram-se como domínios a comunicação oral, a leitura, a escrita e o funcionamento da língua. Os objectivos referem-se a estes domínios, mas de uma forma muito ampla e genérica. Os processos de operacionalização indicam processos e são, numas vezes, objectivos operacionais, noutras, tipos de actividades.

A onda das competências conduziu à reelaboração programática n’O Currículo Nacional (2001) que não teve a intenção de se substituir aos programas, mas apenas de determinar as competências essenciais. Nesse documento, os domínios da língua portuguesa são designados de competências específicas. Em vez de funcionamento da língua, aparece conhecimento explícito e a comunicação oral é desdobrada em compreensão do oral e expressão oral. Para cada um deles, introduzem-se níveis de desenvolvimento por ciclo. Por exemplo, da leitura no 2º ciclo evolui-se para uma maior complexidade no 3º ciclo:

2ª ciclo: Capacidade para ler com autonomia, velocidade e perseverança

3º ciclo: Capacidade para reconstruir mentalmente o significado de um texto (literário e não literário) em função da relevância e da hierarquização das unidades informativas deste.

O documento remete para um texto mais específico que determina os níveis de desempenho de cada competência2. Foi desta obra de 1997 que foram retirados os desenvolvimentos acima referidos. Para cada competência nuclear, especificam-se objectivos de final de ciclo. Por exemplo, no 2º ciclo sob a designação de “Criação de autonomia na leitura e de hábitos de leitura”, introduzem-se objectivos bastante específicos, como:

Ler em voz alta, restituindo ao ouvinte o significado do texto

Identificar as ideias importantes de um texto e as relações entre as mesmas.

No 3ª ciclo:

Ler com fluência, conservando em memória o significado do texto

Reconstruir mentalmente o significado de um texto em função da relevância e hierarquização das unidades informativas deste.

Utilizar chaves linguísticas e textuais para desfazer ambiguidades, deduzir sentidos implícitos e reconhecer usos figurativos.

O currículo nacional trata apenas das competências linguísticas e comunicativas, e não do material cultural que é objecto de trabalho – neste caso, diferentes tipos de textos social e culturalmente significativos que fazem parte de reportórios cujo conhecimento é um valor importante, como é o caso da história da língua e da literatura e das próprias obras mais celebradas.

Talvez as competências não existam em estado puro e necessitem da explicitação de conhecimentos e contextos de realização que não aparecem no currículo nacional. Será que se pode expressar tudo na linguagem das competências e haverá vantagem em fazê-lo?

É de esperar então que as metas de aprendizagem anuais integrem não só o que é competência, isto é o saber-fazer, mas também conhecimentos que o aluno tem que adquirir e investir na leitura e na escrita. É pouco provável que se possa ser um bom leitor sem possuir o conhecimento dum imaginário que é cultural, histórico e geográfico.

Uma vez publicadas as metas de aprendizagem, que faremos com elas?

A maior parte dos professores tem uma ideia do desenvolvimento ideal no programa da sua disciplina e sabe situar os seus alunos relativamente a esse percurso. Se ele entende que um seu aluno está atrasado, que precisa de mais tempo, o que pode fazer? A maior parte das vezes, não consegue levá-lo a reter o ano, nem pode fornecer apoios pedagógicos e a diferenciação que consegue fazer na sala de aula é mínima pois tem de avançar com o programa e responder também às dificuldades dos que acompanham regularmente o curso. O resultado é a maior parte das vezes ficarem itens importantes por aprender, lacunas que nunca mais serão preenchidas e que assumirão especial gravidade se constituírem pré-requisitos das unidades seguintes, o que é comum acontecer nas línguas, em Matemática e em Física.

A este respeito, convém dizer que a liderança pedagógica está toda nas mãos da tutela, pois as escolas não têm nem a coragem nem a apetência para abordar os problemas e inventar soluções e continuam a colocar no papel coisas que não têm qualquer concretização, medidas fantasiosas que todos sabem que não vão resultar em nada.

Formam-se turmas “diversificadas” em todos os aspectos que têm como resultado que alunos de elevado potencial não conseguem realizar aprendizagens minimas porque vários dos seus colegas desfasados do programa se alheiam completamente. Há um “sociologicamente correcto”, caro à nossa anterior ministra, que fundamenta isto que em termos de produtividade pedagógica é uma aberração, pois o professor sabe que tem que aferir o seu programa ao diagnóstico feito e ou baixa o nível ou eleva-o sacrificando uns ou outros.

Resulta pois daqui que as metas de aprendizagem servirão para alguma coisa se soubermos o que fazer com elas, pois são uma forma de avaliação que ou tem consequências ou não servem para nada.

A ideia de que as metas de aprendizagem se reportariam aos anos de escolaridade e que, por isso mesmo dependiam da elaboração de programas anuais deixou-me um pouco perplexo. Pois parece-me que continuamos num esquema de escolaridade altamente conteudístico e não no domínio das competências.

Nos “attainment targets” do National Curriculum inglês de que já aqui falei3, as metas de aprendizagem reportam-se à disciplina e não ao ano de escolaridade e são:

eight level descriptions of increasing difficulty, plus a description for exceptional performance above level 8. Each level description describes the types and range of performance that pupils working at that level should characteristically demonstrate4.

O professor pode utilizá-las para informar os pais sobre os progressos anuais dos seus alunos e tem obrigatoriamente que fazer a sua avaliação no final do ciclo (key stage)5. Entretanto, no “program of study” estabelece-se para cada “key stage” o nível de desempenho esperado para a maioria dos alunos.

Toda a escala foi parametrizada para que todos os níveis correspondessem ao que é lícito esperar que a maioria dos alunos adquira ao fim de um determinado ciclo. Por exemplo, no final do key stage 2, dos 7 aos 11 anos, a maioria dos alunos estará no nível 4, e no final do key stage 3, dos 11 aos 14 anos, no nível 5 ou 6, a todas as disciplinas. Quer dizer que os níveis de desempenho foram definidos a pensar num percurso ideal.

Quando um professor reporta um nível atingido, de 1 a 8, está a remeter para uma pequena descrição que explicita o que um aluno desse nível é capaz de realizar. Este esquema uniforme funciona no currículo inglês porque não apresenta especializações disciplinares como o nosso. Por exemplo, há uma única disciplina de Science dos 5 aos 14 anos.

Com metas referidas ao ano, que decisões poderemos tomar em consequência dos desempenhos realizados pelos alunos? Vamos continuar a votar notas arbitrariamente – ou por motivos extrínsecos – para “passar” os alunos? Isto é, para os enviar como problemas para outros professores?

Não acho que a retenção de ano seja uma boa medida. É apenas uma maneira de organizar o processo de aprendizagem. É um mau método, reconheço. Há outras soluções feitas sem batota no que respeita à avaliação dos alunos, sem medidas que autorizam a concessão de níveis sem os desempenhos correspondentes.

O nosso sistema é óptimo para desculpar e camuflar o insucesso. O que é paradoxal pois num primeiro momento cria uma situação chamada de “insucesso”, a seguir cria todos os expedientes para evitar que alguém caia nessa categoria. O problema é que ao atribuir a etiqueta de bem sucedido a quem não o é, ao reconhecer motivos que justificam esse fracasso, esconde-o e inibe o mal-sucedido de tentar melhorar.

De facto, o insucesso é tão artificial como o sucesso, pois há uma nível negativo definido com muita arbitrariedade. Se a linha de água é um nível de desempenho necessário para abordar os programas do ano seguinte, então porque se admitem justificações para insucesso, sejam elas quais forem, se o aluno não está preparado para o ano seguinte?

Na verdade, não há positivas nem negativas. A marca de 50% nos testes tão do agrado de muitos professores não significa absolutamente nada em termos de conhecimento. Significa apenas selecção, nada mais. Há apenas alunos que aprendem muito depressa, outros que aprendem mais lentamente, melhores numas coisas, piores noutras, pois variadas são as inteligências, diferentes as inclinações.

Gostaria de um sistema baseado na verdade, orientado para marcas de desempenho que os alunos desejassem prosseguir e não esta coisa do 2 a 5, com batota no 3.

2Inês Sim-Sim, Inês Duarte e Maria José Ferraz – A língua materna na educação básica. Competências Nucleares e Níveis de Desempenho, Lisboa, 1997.

4“oito níveis de dificuldade crescente e uma descrição de “performance” excepcional acima do nível 8. Cada nível descreve os tipos e níveis de realização que os alunos conseguem nesse nível” (traduzido por mim de http://www.nc.uk.net/nc_resources/html/valuesAimsPurposes.shtmlm, feito o download em 28-08-2007 21:39:36)

5“The National Curriculum makes expectations for learning and attainment explicit to pupils, parents, teachers, governors, employers and the public, and establishes national standards for the performance of all pupils in the subjects it includes. These standards can be used to set targets for improvement, measure progress towards those targets, and monitor and compare performance between individuals, groups and schools.”

“In deciding on a pupil’s level of attainment at the end of a key stage, teachers should judge which description best fits the pupil’s performance. When doing so, each description should be considered alongside descriptions for adjacent levels.” (http://www.nc.uk.net/nc_resources/html/valuesAimsPurposes.shtmlm feito o download em 28-08-2007 21:39:36)

O AZ do Ministério da Educação e Santana Castilho

Hoje no Público, de 18 de Março, Santana Castilho critica o folheto AZ do Ministério da Educação (A a Z da Educação. 2005-20091). O Z deve querer dizer mesmo que acabaram e que nada mais têm a fazer.

Vem a propósito comentar o comentário de Santana Castilho por as suas afirmações coincidirem com muito do que aqui tenho escrito.

À elogiada redução das “desigualdades no acesso à formação e ao conhecimento“, responde Santana Castilho:

“Era bom, mas não foi. Quando diminuiu a exigência do ensino ministrado na escola pública para níveis indigentes, mais não fez que acentuar as desigualdades. Os que só contam com a escola pública como fonte de saber estão hoje mais frágeis e empobrecidos. Os outros pagam no privado o que o Estado diz que dá mas não dá”

No post anterior, disse isso mesmo: a generalização facilitista de certificações escolares é um presente envenenado. Creio que os que acreditam na escola procuram algo que os diferencie, algo que custa a adquirir e não a indiferenciação que ignora os conhecimentos e as habilidades conquistadas.

Se aqui defendi o fim dos “chumbos”, não é por ser facilitista, mas por verificar os fracos resultados que a repetição de ano tem como estratégia pedagógica. Os países escandinavos reduziram a repetição de ano para níveis insignificantes. E se o PISA revela que esses países têm alunos do 10º ano com desempenhos que não ultrapassam o que se espera dum aluno do 7º ano, a verdade é que o nível global é muito superior. Creio que, num sistema assim, o que diferencia os alunos não é o ano em que estão, pois todos chegam a todos os anos, mas sim os desempenhos efectivos na avaliação do dia a dia.

Na Finlândia, por exemplo, parece-me que as expectativas das famílias vão para a possibilidade maior ou menor dos jovens entrarem para a universidade ou de acederem a cursos profissionais, de acordo com as capacidades efectivamente demonstradas.

A falta de clareza no significado, a confusão de critérios e a manipulação das desculpas, que vão da ordem do NEE, aos problemas socio-afectivos, ao risco de delinquência e aos dramas familiares, conduzem a pautas de notas, equalizadas, alinhadas, em que o caos que lhes dá origem é esquecido.

A luta contra o abandono escolar é uma das preocupações que faz já hoje subir os níveis “3”, cuja percentagem aumentará estrondosamente com a avaliação do desempenho docente. Creio que, em breve, atingiremos a fasquia de menos de 2% de repetições de ano da Finlândia, mas duvido que os testes PISA evidenciem essa fulgurante ascensão.

Será que quando atingirmos 98% de sucesso escolar, o dito abandono acabará na mesma proporção? Como os jovens com menos de 16 anos terão cada vez menos lugar no mercado de trabalho, e o lugar onde brincam, arranjam amigos e namorado(a)s é a escola, é provável que sim.

A questão é se os resultados avaliados em testes de leitura, matemática e ciências terão um melhoramento comparável.

Actualmente, um grupo considerável de alunos encontra-se ainda sujeito ao seguinte esquema que já aqui denunciei:

CHUMBO – REPETIÇÃO DE ANO – FACILITISMO

São demasiados os alunos que, na repetição de ano, continuam a não ter um aproveitamento positivo. Nessa altura, as suas notas são sujeitas a votação e eles passam por facilitismo.

Há muitos alunos cujos professores já concluíram que vêm para a escola, apenas porque têm que vir e o que interessa não é ensinar-lhes o que quer que seja, mas sim proporcionar-lhes uma estadia agradável que não lhes altere demasiado a estrutura neuronal, sobretudo o hemisfério esquerdo.

Optar pelo global, pelo sincretismo, pela espontaneidade, em que tudo se liga a tudo, é a via a adoptar, pois o que interessa é ser e estar. Mais do que o saber, deve a escola proporcionar o aprender a ser – na célebre expressão de Edgar Faure -, em que o ser é cada vez mais um misto de preceitos éticos que dá pelo nome de valores que se confunde muito frequentemente com a moral cristã e cada vez menos com a bagagem cultural e científica, com que as disciplinas clássicas integram o jovem na complexidade do mundo em que vive e lhe aumentam o poder sobre a realidade, completam a formação cerebral com poderosos instrumentos intelectuais, como a leitura, a escrita, o desenho, as técnicas, as artes, o cálculo, a geometria, a álgebra e o conhecimento científico, histórico e geográfico que lhe representam o mundo numa cada vez mais ampla multiplicidade de dimensões (sem pretender ser exaustivo).

As taxas de abandono ainda são elevadas e por isso Santana Castilho critica a extensão da escolaridade obrigatória:

“Se não conseguimos cumprir a escolaridade obrigatória de nove anos, para que serve subir a fasquia senão para aumentar o desastre?”

Evidentemente, o objectivo é manter as crianças o máximo tempo possível na escola, pois a política educativa está nas mãos de sociólogos, preocupados com a socialização e não com a formação humanística e científica:

“Transformar a escola numa enorme caserna, onde se guardam criminosamente crianças durante 12 horas em cada dia é objectivo de vesgos, mas não é objectivo de quem saiba o que é uma criança e o que deveria ser uma família. O que este Governo fez foi promover um conceito estalinista de educação, encarando os pais como meros operários a quem se retira o convívio e a responsabilidade pelos seres que geram. Alimentar uma solução em que os pais não têm tempo para estar com os filhos não põe coisa alguma ao serviço dos alunos e das suas famílias“.

Exames – email para Henrique Monteiro

Do artigo de H. Monteiro (Expresso, 1 de Março):

"Falar de exames é, para Ministério e sindicatos, como falar do diabo. No entanto, a sua realização seria a forma mais justa de avaliar o desempenho dos professores e o que realmente interessa: a qualidade da transmissão de conhecimentos"

"Vejamos, por exemplo, o caso da avaliação dos professores. Se tudo fosse feito de forma simples (e não da forma pretensamente científica que os burocratas da 5 de Outubro gostam de apregoar), seriam considerados melhores professores aqueles cujos alunos tivessem melhores resultados. Simples? Para o Ministério não é, porque o Ministério se opõe a exames nacionais, cujos resultados seriam a única forma de aferir, de modo justo e igual para todos, os conhecimentos adquiridos."

Email:

O seu artigo é de uma imbecilidade angustiante.

 

Com os exames, nunca se sabe o que estamos a avaliar:

– o nível económico e cultural dos pais;

– a qualidade dos explicadores que o aluno tem em casa;

– o acesso a bens culturais;

– o trabalho do encarregado de educação;

– as potencialidades cognitivas dos alunos;

 

Por causa de vários desses factores, tenho uma turma que tem 2 alunos de desempenho bom e 6 que mal sabem ler (dos quais 4 ou são repetentes ou já repetiram anos no 1º ciclo) e 11 com um desempenho satisfatório (com alguma condescendência).

 

O nível de leitura dos 6 acima referidos impõe um trabalho especial de diferenciação pedagógica. Uma vez tendo já determinado as suas características, sei que não lhes posso exigir o mesmo que à maioria, nem posso adaptar o programa da turma para o nível que eles têm, pois isso deixaria os outros a não aprender nada.

Tenho à partida 6 alunos que sei que não poderão ter o mesmo sucesso numa prova normalizada, aferida aos programas oficiais.

Acresce que algumas destas crianças vêm para a escola porque a lei assim o exige, senão estariam a trabalhar no campo ou nas obras. Creio que o Henrique Monteiro quer devolvê-las a esses lugares.

 

Ora, há um colega meu que tem uma turma que tem, apenas, 1 aluno com as características dos meus 6 e tem 10 ou 12 alunos, entre o bom e o muito bom, que fazem sempre o trabalho de casa, nunca faltam, nunca repetiram o ano e vêm a todas as aulas.

O êxito dos alunos dele será muito superior ao dos meus, ainda que ele seja pior professor do que eu!

 

Embora os exames possam ser úteis, não servem de maneira nenhuma para avaliar os professores.

O que está em causa – viva o 8 de Março!

Os movimentos críticos da avaliação do desempenho que o Ministério da Educação quer impor à Escola expressam um mal-estar muito profundo que resulta não só desse último diploma, mas também da forma como a gestão do défice se repercutiu na profissão docente – a talho de foice!

De repente, milhares de professores viram a sua carreira interrompida. Repare-se que não se trata de uma mudança na estrutura da carreira negociada, sofrida, com medidas de transição que acautelassem expectativas justificadas, mas de uma brusca brutalidade. Professores que estavam em vias de apresentar relatório para a mudança de escalão, descobriram que já não valia a pena fazê-lo.

A seguir, o Ministério impôs aos professores um novo horário de trabalho, com uma componente não lectiva "presencial", a reduzir perigosamente o tempo disponível para elaborar enunciados, corrigir testes, elaborar projectos de trabalho com os alunos e um grande etc.

Para uma grande parte dos professores, a componente não-lectiva tornou-se lectiva, com as aulas de substituição, sem que as respectivas horas extraordinárias lhes fossem abonadas.

A divisão entre titulares e não-titulares soou arbitrária para a maior parte dos professores, incluindo a maior parte dos que se conseguiram incluir na nova categoria. Muitos dos que concorreram e falharam sentem que não são piores e, muitas vezes, são, mesmo, melhores do que alguns dos que foram agora investidos do título.

Por vezes, a sensação de injustiça vem da avaliação dos critérios do próprio concurso, outras, da comparação do trabalho efectivamente realizado na escola. É que até agora a progressão salarial tinha apenas relação com a antiguidade e muitos dos que faziam a Escola desenvolver-se e desempenhavam cargos não pertenciam aos últimos escalões da carreira. E muitos dos professores agora agraciados de "titulares", desempenhavam as suas funções num grau mínimo de exigência e olhavam com desprezo para a inovação tecnológica e para as questões pedagógicas e científicas mais prementes no universo da educação.

O concurso para titular premiou esses mesmos professores, redundantemente, pois, como já estavam no topo da carreira, dispensavam a homenagem. Portanto, podemos concluir que o concurso foi REDUNDANTE e ARBITRÁRIO.

Depois de reduzir drasticamente o tempo disponível para preparar aulas, produzir materiais didácticos adaptados a alunos com dificuldades, e etc., o Ministério aparece com um dispositivo burocrático de avaliação com itens de observação, incluindo a observação de aulas alheias, com ponderações, alienações numéricas a impor a uma classe ainda não refeita das mudanças anteriores.

As escolas vão parar para fazer a avaliação da classe docente. Da bolsa de substitutos disponíveis, migrarão titulares que em vez de substituir vão complicar as aulas dos seus avaliados. Será que os titulares da biblioteca terão também de abandonar esse trabalho para fazer avaliação? Os apoios pedagógicos continuarão a fazer-se?

Qual será o preço desta avaliação ponderada, antes classificação, redução a número do diverso, coisa do tipo do que fazemos aos alunos com a escala de 1 a 5 a condensar milhares de coisas diferentes?

Todos os que batem palmas à Sra. Ministra da Educação por ela ter conseguido "pôr os professores na ordem", fazem-no justificadamente, pois o Estado Português S. A. R. L., – sim aquela empresa que oferece cargos chorudos como prémio de carreira a políticos medíocres e aos amigos dos políticos medíocres e respectivos "compagnons de route" –  tem na Sra. Ministra um dos mais eficazes capatazes no que toca a conter a massa salarial! A talho de foice!

Muitos colegas perdem-se a discutir coisas como os critérios do concurso para titular, o que me parece completamente irrelevante. Por aí, só encontramos divisões.

É o próprio concurso que é uma aberração, precisamente por sancionar o sistema que quer condenar e promover a mediocridade, numa indiferenciação que continua. Em todos os sistemas, há pessoas verdadeiramente medíocres, há pessoas que se esforçam com mais ou menos êxito que consideram criticamente as suas falhas e procuram melhorar e outros que são bons, verdadeiramente exemplares.

Ora o concurso para titulares juntou todos no mesmo molho, como já estavam nos escalões de topo e deixou de fora muitos bons que mereciam ser promovidos e não o foram em benefício de alguns medíocres ou de menor merecimento.

Isto tem que ser dito com todas as letras e temos que deixar a cantiga alienante de que nós os professores somos isto ou somos aquilo. Não somos nada mais do que as outras profissões. Temos uma deontologia não precisamos que nos digam como ensinar, como avaliar.

NÃO PRECISAMOS DE ACÇÕES DE FORMAÇÃO PARA AVALIAR OS PARES. Posso ser avaliado por qualquer colega e posso avaliar qualquer outro. A questão é: quem de nós tem o direito de o fazer e como o vai fazer e com que garantias, pois somos concorrentes uns dos outros e essa concorrência aumenta com a instauração de um sistema de avaliação selectiva deste género.

Perguntem: que acção de formação teve o Armando Vara para ir para a administração da CGD e, depois para o BCP?

Abandonemos os argumentos de oportunidade do género "as aulas de substituição não servem para nada". Não! As aulas de substituição melhoraram o ambiente da escola em muitos aspectos. Cabe ao substituto torná-la proveitosa. O problema não é esse: É que é um TEMPO LECTIVO. Os professores que fazem substituições têm que se preparar com materiais e planos de actividades para tornar proveitoso o tempo dos alunos. E essas horas são lhes roubadas.

Por isto tudo e muito mais, estarei no 8 de Março!

Chumbos e facilitismo – dois amigos inseparáveis

Lembro-me que, há uns anos, tive um aluno do 5º ano que praticamente não sabia ler. Na verdade, isto está sempre a acontecer. Agora mesmo, no presente ano lectivo, tenho situações semelhantes. Mas para concretizar o que quero dizer, prefiro pensar naquele aluno em particular que me deixou bastante impressionado sobre o "não saber o que fazer" em que nos deixa o actual sistema educativo.

Não vou acusar o professor do primeiro ciclo de o ter deixado passar, pois eu não tive solução muito diferente. Nestes casos, também não vale a pena acusar os pais que esperam de nós soluções e não recriminações. Sei que qualquer que seja o encaminhamento que dermos aos nossos alunos, está tudo nas nossas mãos, isto é, nas mãos da escola e do sistema educativo.

O António já tinha repetido o ano duas vezes no primeiro ciclo. Dizer que ele não sabia ler é um exagero. Penso que o professor do primeiro ciclo deve ter ficado feliz quando conseguiu que ele lesse, com êxito, alguns textos muito elementares, mas a leitura dele era demasiado lenta e, quando questionado sobre um texto, um conto de Grimm, com alguma adaptação, por exemplo, ele não conseguia responder a algumas questões de compreensão da história que, para a maior parte da turma, eram demasiado óbvias.

O António tinha apoio às disciplinas mais estruturantes da aprendizagem: língua portuguesa, matemática e língua estrangeira. Mesmo assim, nos conselhos de turma, os professores continuavam a queixar-se dos magros resultados.

Ele fazia progressos em Língua Portuguesa, mas continuava a considerável distância dos desempenhos médios do 5º ano de escolaridade. Em termos de avaliação, eu tinha duas hipóteses: aferir aos critérios dos programas do ensino básico ou aos desempenhos médios da turma. Em ambos os casos, o António ficava com negativa (nível 2, para não o desmotivar com o 1).

Contudo, a velocidade de leitura aumentou, a compreensão também e diminuiu o número de erros ortográficos e de construção frásica. Ainda assim, eu não o podia premiar com um nível positivo, pois nos testes tinha sempre nota negativa. Digamos que ele tinha passado de testes de 20% para testes de 35%.

Sem o catalogar como aluno de necessidades educativas especiais, eu não me sentia autorizado a fazer testes específicos para ele. Já fizera a experiência de testes diferenciados para os alunos que tinham tido negativa no teste anterior e recebi como resposta, o protesto de alguns dos alunos médios e respectivos encarregados de educação que se queixavam de que eu estava a favorecer alguns alunos.

Eu sabia perfeitamente como fazer um teste em que o António tivesse nota positiva, mas não o podia fazer porque na turma havia, além de cerca de 14 alunos de nível médio, 3 de elevado potencial, que esperavam que a "matéria nova" aparecesse no teste. Ora a "matéria" do António era, na sua maior parte, do 1º ciclo e eu confesso que não fui bem sucedido em completar as lacunas na aprendizagem do António; tampouco as aulas de apoio, ou "compensação educativa", surtiram esse efeito.

Penso que é uma falha ética dar a um aluno, uma tarefa que sabemos de antemão que ele não será capaz de realizar, mas o nosso sistema de ensino, apesar de falar em pedagogia diferenciada, exige e mantém o mito da avaliação e classificação equitativa e universal expressa numa escala de 1 a 5.

Ora, se defino objectivos específicos para um certo aluno, não posso avaliá-lo de acordo com critérios universais. A pedagogia diferenciada cai por terra, com o mito da avaliação aferida pelo programa ou, mesmo, por uma norma aferida à turma.

Penso que os alunos devem ser motivados a vencer os obstáculos reconhecidos, tendo como prémio uma apreciação positiva. Por outro lado, os objectivos devem ser definidos próximo do nível em que o aluno já se encontra.

Há disciplinas em que o professor consegue trabalhar com alunos com diferentes desempenhos. Julgo que é o caso da Língua Portuguesa. Apenas o mito da equidade e da universalidade dos critérios impede a tão propalada progressão adapatada às capacidades de cada aluno.

No nosso sistema de avaliação, a linguagem e as escalas, servem para o seguinte: dizer a quase 20% dos alunos que eles não estão a fazer nada na escola.

Por outro lado, enquanto medida das aprendizagens realizadas, a escala de 1 a 5, não nos serve para quase nada. Na classificação, inclui-se o comportamento e as atitudes e valores, de tal maneira que quem olha para uma pauta, não pode estar seguro do desempenho real dos alunos em cada uma das disciplinas.

A escala também não serve para motivar os alunos. No caso do António, o resultado era o seguinte: melhorou na leitura e na escrita, mas não o suficiente para ter nível 3. Resultado: o António pode continuar a progredir em aprendizagens essenciais para o seu futuro, mas sempre com negativa, pois vai estar sempre atrás dos outros.

Consequentemente, repetirá vários anos do básico, para chegar ao fim. E nós ainda lhe pedimos que se sinta motivado e que se esforce por fazer melhor! Quando passa de ano, não será porque lhe tenha sido reconhecido algum progresso, mas porque os professores entendem, justificadamente, que uma nova repetição não adianta nada.

Numa estimativa grosseira, o António representa, no mínimo, 15% dos alunos do básico. À passagem de ano naquelas condições, podemos chamar facilitismo.

É facilitismo porque para essa passagem de ano, os professores são obrigados por lei a atribuir nível 3 a umas quantas disciplinas, com critérios inteiramente extrínsecos, chegando ao ponto de as notas serem votadas, unicamente para o aluno não reprovar mais uma vez.

De quem é a culpa tanto do facilitismo como dos chumbos?

Não é dos professores que não têm outra solução que não seja ou facilitismo ou chumbos, e que são, estranhamente, acusados das duas coisas. Também não é inteiramente atribuível aos alunos, pois não são eles que fazem as classificações. Eles estudam mais ou menos, têm pais e professores mais ou menos competentes, e diferem todos em termos de competências.

A culpa é de quem criou este sistema que:

– Obriga todos a ir à escola.

– Pressupõe que todas as crianças normais são capazes de realizar com sucesso as aprendizagens em desempenhos médios e acantona todos os que não são capazes em categorias diversas.

– Deixa para uma categoria cada vez mais residual os incapazes que reprovam.

– Como não suporta o seu insucesso, o sistema soluciona o caso com facilitismo.

Os responsáveis políticos arranjam sempre maneira de passar, alternadamente, as duas mensagens: chumbos e facilitismo. Pensem nas declarações dos vários ministros e secretários de estado da educação, de ontem até hoje, e reconhecerão as ditas mensagens com a maior das facilidades.

O António, corresponde a um certo aluno, em que estou a pensar neste momento mas, na turma dele, havia mais dois com as mesmas características e a minha experiência diz que sãp 3 em cada 20, numa estimativa prudente, portanto, os 15% que passarão no Ensino Básico com duas histórias inevitavelmente interdependentes: a dos chumbos e a do facilitismo. É claro que também a presença destes alunos nas turmas obriga os professores a um certa aferição de critérios de onde resulta que muitos dos bons, serão provavelmente, apenas, suficientes e alguns dos melhores, serão apenas, bons. O facilitismo espalha-se assim como uma praga a que ninguém pode sensatamente escapar.

Desigualdade social e sucesso escolar

Um relatório da inspecção escolar britânica mostra que o rendimento determina em cerca de 50% a probabilidade de ter boas classificações no ensino secundário. Lembro que "Secondary", no sistema inglês, inclui classes do 7º ao 14º ano de escolaridade (de 11/12 a 18/19 anos de idade). Dito de outro modo, jovens de famílias com rendimentos baixos, estão à partida com 50% de probabilidades a menos dos que pertencem a classes de rendimentos elevados.
Na suposição de que o relatório coincide também com a nossa realidade, podemos concluir que ao classificar os professores pelos resultados escolares atribuídos por eles próprios, o Ministério de Educação nunca saberá se está a premiar ou a castigar a sua capacidade para vencer as barreiras sociais ou a sua arte de escamoteá-las.
Veja o artigo no Guardian:
http://education.guardian.co.uk/ofsted/story/0,,2193573,00.html?gusrc=rss&feed=8