O género de um cão – comentário a M.S.Tavares

Caro Miguel, o seu cão bem pode ladrar contra a TLEBS, mas o que ele nunca será é um objecto gramatical.
Apesar de ter substância, não será nunca um substantivo, nem masculino, nem feminino. Se insiste na masculinidade do bicho, isso apenas o emparelha com terreno, carro, tiro, pau e sofá, etc., isto é, um montão de coisas do mesmo género, mas que não entram na zoologia, do mesmo modo que ele.
A gramática de que estamos a tratar diz respeito à língua, mas ela não é a língua que todos nós falamos, mas sim um discurso sobre ela. Os setecentos anos da língua não são os mesmos da gramática. E, tanto uma como outra, sofreram muitas mudanças nesse decurso.
Se acha que devem ser os pais a ensinar a gramática às criancinhas, para que serve a escola? Os pais inteligentes sabem que para ensinar as criancinhas em matérias em que não são especialistas, ou mesmo em que o sejam, têm que ver os textos por onde os filhos estudam. É isso que eu faço!
Meu caro, Miguel Sousa Tavares, há mais de 20 anos que eu ensino aos meus alunos do 2º ciclo que o artigo é um determinante. Para a maior parte deles isso é canja! O mesmo acontece com a designação de "nome", que já aparecia na gramática do João de Barros (1540).
Se um aluno meu disser que "cão" é um substantivo, eu direi: "Certo! É o mesmo que nome". Mas o que eu ensino é que "cão", não o seu, evidentemente, é um nome.
Não sei que gramática o acompanha, mas, se eu lhe fizesse a relação dos termos gramaticais de muitas das gramáticas anteriores à TLEBS, o senhor ficaria espantado. Por exemplo, a do Celso Cunha e a do Lindley Cintra. Pois lá está "nome epiceno", parassíntese, modificadores, adjunto adnominal, adjunto adverbial, adjectivo adjunto adnominal, pronome oblíquo, gerúndio anteposto, oração coordenada sindética, orações adjectivas restritivas, silepse de género, etc..
Provavelmente, demasiada conversa para quem se fica pelo substantivo masculino, singular e, por isso mesmo, deveria desistir de ensinar gramática.

Advérbio disjunto restritivo do valor de verdade da asserção

Diz Maria do Carmo Vieira (http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_19.html) que na TLEBS existe esta designação, mas a única subclasse que eu encontro é a dos advérbios disjuntos, sem mais nenhuma especificação.

Se um manual do 7º ano inclui isto como um conceito a aprender, está errado. A TLEBS não vem resolver o problema da didáctica no ensino da gramática. Os manuais são sempre um problema! Eu preferia trabalhar sem eles, mas, infelizmente, a decisão não compete ao professor, mas sim à escola!

Eu, por exemplo, no 2º ciclo, não vou dar aos meus alunos a distinção entre advérbios adjuntos e advérbios disjuntos. Como as duas classificações dos advérbios se reportam a critérios diferentes, acho perfeitamente legítimo explicar-lhes o que são advérbios de modo, de lugar e de tempo, assim como de afirmação, de dúvida e de negação (as chamadas classes semânticas).

Mais tarde, num outro nível de análise sintáctica, outro professor poderá mostrar-lhes como uns podem "completar" ou "modificar" verbos ou adjectivos (para simplificar) e outros podem modificar frases.

Uma estrofe dos Lusíadas lida pela TLEBS

Num texto publicado a 22/11/2006 no DN, agora antologiado no Ciberdúvidas, Vasco Graça Moura (VGM) dá-se ao trabalho de analisar um exercício feito por professores numa acção de formação da TLEBS. É uma apresentação que já há algum tempo andava na boca do mundo, quero dizer, dos blogs.

Para ler o artigo do VGM, a que me reporto, clique aqui.

O exercício criticado encontra-se no sítio da DGIDC, para o qual não consigo fazer a hiperligação, porque o "site" está muito lento. Já o tenho há muito tempo no meu computador, por isso, copiei-o para uma pasta da Net e coloco aqui a ligação. Clique aqui:
Trabalho sobre uma estrofe dos Lusíadas, feito por professores da Escola José Régio de Portalegre.

Eu fiz muitos exercícios deste género no meu 5º ano do liceu. Ler estrofes d’Os Lusíadas, a desfazer anástrofes, a identificar as frases coordenadas e subordinadas é um bom exercício de análise gramatical que, não dará muito prazer à maioria dos alunos.

Mas nada na TLEBS sugere que a obra, Os Lusíadas, seja lida inteiramente dessa maneira.

O material disponibilizado no sítio da DGIDC tem um valor muito desigual. Alguns são medíocres, outros são bons. Está lá a título de trabalhos realizados nas acções de formação da TLEBS. Alguns apresentam no fim, conclusões da avaliação do trabalho realizado com os alunos, nem sempre abonatórias para os conceitos da TLEBS!

Há mesmo trabalhos que incluem termos já alterados pela TLEBS, o que é um erro grave.

De facto, com um material que é eventualmente útil, mas tem muitos erros, o Ministério não lhe deveria chamar "Materiais de Apoio".

Vejo este exercício sobre a estrofe de Camões, mais como um trabalho dos próprios professores a apreenderem as noções da TLEBS. Para os alunos seria demasiado complexo, com terminologia desnecessária, não por ser TLEBS, mas por demasiado picuinhas na análise gramatical.

A estrofe analisada é a seguinte:

Aqui os dous companheiros conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorífera, queimava
O Tioneu, e assim por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.

(Estrofe 12, Canto II)

VGM começa por contestar a ambiguidade linguística do nome próprio Deus. A ambiguidade linguística é essencial ao jogo literário. Quando Camões diz "Naquele Deus", transforma-o em nome comum. Pois só faz sentido usar "naquele", na medida em que ele vem falando de outros deuses (Baco, no caso). Experimentemos alterar e pôr Jeová, e perder-se-ia este jogo e não se aceitaria "Naquele Jeová". Não haveria Deus como nome próprio: seria um deus contra outro.

Esta ambiguidade é desfeita, num nível superior, suprasegmental, com a expressão, "falso deus". Se é falso, não existe. Ambiguidade, sim! Entre "Deus" e "falso Deus". Portanto, não concordo com VGM, quando diz que:

«A expressão "naquele Deus" não o dessingulariza. Não pressupõe, antes exclui a existência de outros. Basta ler. É um mero expediente enfático e métrico.».

Pouco importa que se tenha escolhido "naquele" por causa da métrica (não sabemos se é esse o caso). O facto é que está lá!

Todos entendem que a ambiguidade linguística de "Deus verdadeiro" e de "Deus falso" é resolvida na estrofe, mas o trabalho poético consistiu em gastar alguns versos a pôr um Deus falso a adorar um Deus verdadeiro. Ora se é falso, não existe, e não pode adorar o verdadeiro. É este o jogo de Camões que, quanto a mim, inclui a negada dessingularização.

De resto, em qualquer Gramática a singularidade dos nomes próprios continua a ser um problema: "Mas que António é esse?" Se alguém formula a pergunta assim, põe em dúvida a singularidade do referente.

VGM assinala justamente erros no trabalho, como "aquela Pancaia" ser na verdade "a Pancaia". Não há nada no texto que permita concluir que a Pancaia é perífrase de "ilha", a não ser recorrendo, ao que Umberto Eco designa por enciclopédia. Concluindo: a Gramática não substitui a Retórica, nem a necessidade de conhecimento histórico e cultural para compreender o texto.

Quanto à complexidade terminológica, tudo se resume ao seguinte: um nome, numa frase, é o núcleo de um grupo nominal que pode desempenhar as funções de sujeito, complemento directo, predicativo do sujeito, predicativo do complemento directo e outras. O problema está em descobrir a sua função, numa anástrofe. Daí a complexidade da designação, num momento anterior à determinação:

"Núcleo de um grupo nominal em posição pré-verbal", por exemplo, antes de determinar que "o mundo", apesar de estar antes do verbo, é Complemento Directo.

Quanto aos conceitos, quando VGM diz que "noções reaccionárias como sujeito, predicado, complemento directo, complementos circunstanciais, dão lugar a embrulhadas rebarbativas" está a ser tão exacto quanto os autores com "aquela Pancaia". É que os três primeiros termos são usados no trabalho e estão na TLEBS.

Quanto aos "complementos circunstanciais" acho adequada a sua substituição por "modificadores", uma vez explicado que "complemento" é um grupo exigido pelo verbo, pelo nome, ou por um adjectivo.

Para mim, qualquer terminologia que dê conta da diferença entre a obrigatoriedade ou a acessoriedade do acrescentar de um sintagma estará certa. A noção de "circunstancial" sugere a inclusão de circunstâncias de uma acção. Ora, muitas vezes, os ditos complementos circunstanciais não são circunstância, são a própria acção: "Fui a Paris". O verbo pôr implica complemento directo (os joelhos) e locativo (em terra). Ao passo que o verbo produzir exige apenas complemento directo.

Concordo inteiramente que o poema deve ser lido com o mínimo de gramática e retórica e informação enciclopédica necessária à sua compreensão. Aqui e ali poder-se-á desfazer umas anástrofes de modo explícito. Pode-se também utilizar o texto para análise gramatical, para evidenciar a sua complexidade linguística e para fazer exercício. Mas, a gramática deve ocupar uma parte pequena no trabalho da leitura d’Os Lusíadas.

O exercício feito aqui com terminologia gramatical renovada não é mais maçador do que aquele que eu fiz no meu 5º ano do liceu, com a divisão de orações, a classificação de palavras, etc. Até que ponto é que, apesar de "maçador" é necessário, é uma questão que aos professores cumpre responder.

Nomes e substantivos

Para ser mais exacto, devo acrescentar que João de Barros considerava adjectivos e substantivos como subclasses dos nomes, dando continuidade à distinção aristotélica entre substâncias e qualidades. Mas será adequado defender hoje em dia que há uma substância a que atribuímos qualidades? E então quando o substantivo for o nome duma qualidade: beleza, por exemplo? Numa expressão como "O quadro é de uma beleza sublime", torna-se uma substância, enquanto em "O quadro é belo", é belo que é o nome da qualidade que atribuímos à substância do quadro?

A tradição gramatical

Muito engraçado! Há sempre alguém que nos dá mais uma dica. Motivado pelo debate da TLEBS, tinha na ideia, ir ver a velha gramática (1540) que o João de Barros fez para o seu príncipe e a, também pioneira, do Fernão de Oliveira. Ainda não tive tempo para isso.
Mas, agora, ao espreitar o valiosíssimo Ciberdúvidas, dei com uma citação do João de Barros, feita pela Filomena Viegas, a propósito da substituição do termo "substantivo" por "nome" que já vimos ser motivo de crítica pela Alzira Seixo, em defesa da tradição:
“todalas linguágens tem dous reis diferentes em género e concórdes em ofiçio: a um chamam Nome e ao outro Verbo"
Interessante! Não consta que João de Barros tivesse sido defensor da gramática generativa.
(http://ciberduvidas.sapo.pt/php/portugues.php?id=130)

Um ruido ensurdecedor

No debate sobre a TLEBS, investe-se tudo o que há à mão para atirar. Vários comentadores ficam nus, pois mostram a sua ignorância ou a falha num tópico – a gramática, qualquer que ela seja – a dita tradicional, a generativa, a funcionalista, a estruturalista, pouco importa, como o José Viegas a falar dos nomes epicenos, como se fosse coisa nova. Eu também não me lembraria, assim de repente. Mas tive o cuidado de, para cada item, socorrer-me de várias gramáticas, à medida que ia lendo a Terminologia.
Mas o que mais impressiona nisto tudo, é a mistura que se faz das coisas mais díspares: é mais uma pedra para atirar à ministra de entre várias outras que se arrolam.
No meio disto tudo, há uma luta interdepartamental, entre linguistas e homens da literatura.
Um comentador acusava a TLEBS  de destruir o ensino da literatura, numa reedição da velha crítica de se sujeitar Os Lusíadas a exercícios de divisão de orações, no velho quinto ano dos liceus!
Parece querer-se arregimentar, dum lado, os linguistas, do outro, os literatos, forçando toda a gente a uma profissão de fé: "De que lado é que está?"
Eu, por exemplo, sou um defensor do cânone literário, dos livros que a história da literatura seleccionou como os melhores, os mais relevantes. Acho que a leitura desses textos deve valer por si própria e não como meios de desenvolver competências linguísticas ou discursivas em determinados modelos de texto, embora creia que a leitura de tais textos  contribuirá para o desenvolvimento dessas ditas competências. A leitura deve servir-se de informação cultural, histórica, enciclopédica, mas também de análise gramatical e retórica, na medida certa.
Outra questão é a de que conceitos gramaticais é que nos devemos servir. Actualmente, não há nenhuma unidade terminológica. A que existe legalmente não é seguida há muito tempo, nem o poderia ser. Há professores que ensinam o mesmo tópico duma maneira, outros de outra, no mesmo nível de ensino.
A unificação da terminologia linguística deve ser discutida no seu próprio campo, o da gramática, conceito a conceito. Quem quisesse, devia já ter dado a sua contribuição, substantiva, nos anos em que nos Encontros de Professores de Português o assunto esteve em discussão.
Como acha que devemos definir Sujeito de uma frase? O que é e como se determina o Predicado? Estas questões parecem ser demasiado comezinhas para os grandes e pequenos críticos da TLEBS. Só linguistas, metódicos, que amam a língua e as línguas, é que têm investido neste trabalho.
Depois, há um outro campo, que é o de como é que vamos introduzindo as noções gramaticais no Ensino Básico e Secundário. Estas são, para mim, as únicas coisas que interessam. Quanto ao resto, esqueçamos.

A TLEBS – um trabalho de rigor científico e didáctico, na voz da Alzira Seixo (3)

Tenho que tirar o adjectivo "disparatada" à voz da Alzira Seixo, não por ela ter sido minha professora e por eu a estimar muito, mas por se tratar de uma outra ordem de artigos, totalmente diversa dos anteriores, pela economia verbal e pelo nível teórico em que se situa.

Pouco me importa que a TLEBS seja ou não dominada pela perspectiva Teórica da Inês Duarte que conheço da Gramática da Maria Helena Mira Mateus, de inúmeros artigos e conferências, da polémica com o VGM, em que não tenho a menor dúvida em estar do lado dela e, enfim, considerar que o VGM polemiza quase porque tem de polemizar, generaliza  juízos que não têm razão de ser, e isto leva-nos, muitas vezes, a perdas de tempo.
Ora a TLEBS reivindica neutralidade teórica e quer-me parecer que a acusação da Alzira Seixo fica-se pelas palavras dela. Isto é, não nos diz como deveria ser.
Enquanto os linguistas estudam a língua como um objecto vivo, os literatos remetem para a tradição dos textos. Muitos dicionários, justificam as suas entradas, com passagens do cânone literário e o mesmo fazem muitas gramáticas.
Contudo, da mesma maneira que a gramática foi influenciada nos seus primeiros tempos pela tradição latina, forçando muitos conceitos a se adequarem às bárbaras línguas novilatinas, também hoje a linguística influiu em tudo, foi o paradigma do estruturalismo literário e, claro, veio também, alterar o nosso conceito de gramática.
Tudo se resume ao seguinte: havia incongruências, contradições, definições insatisfatórias na gramática tradicional que a linguística nos veio ajudar a resolver, alterando-os com a sobriedade científica que a norteia.
As disciplinas citadas pela Alzira Seixo estão implicadas neste trabalho: a semântica frásica, a teoria da enunciação, os actos de fala de Searle e Austin, a teoria dos argumentos ou dos casos de Filmore estão implicados no trabalho da Gramática da Maria Helena Mira Mateus.
Pouco importa que os estudiosos da literatura também os utilizem. A Semântica e a Filosofia da Linguagem não são de ninguém – são imprescindíveis para todos os estudos literários ou linguísticos ou gramaticais. Não sei se não se está a colocar aqui uma questão interdepartamental que a nós professores pouco interessa.
A crítica aos conceitos da TLEBS socorre-se de expedientes indevidos e fica-se pela generalidade. Por exemplo, Alzira Seixo critica-a por a Semântica estar ausente, mas não dá um só exemplo dessa falta.
Em certo momento, socorre-se de um termo extenso, "o advérbio de modo «supostamente», classificado como «advérbio disjunto restritivo da verdade da asserção»; imaginem uma criança a decorar isto!". Ninguém diz na TLEBS que esse termo, ou qualquer outro com essa complexidade, é para ensinar às crianças. Além disso, nunca vi "supostamente" como advérbio de modo! A terminologia vai de encontro à classificação desses advérbios como tendo a ver com a verdade da afirmação, portanto, como um advérbio de negação ou dúvida porque, quando digo "supostamente" estou a pôr em questão o valor da verdade do que digo a seguir. Não é novidade da TLEBS!
Quanto à preferência por nome ou substantivo, não sei o que dizer. Mesmo que a TLEBS optasse por substantivo, a verdade é que nós professores, já há mais de 20 anos que usamos "nome". "Substantivo", sim, seria uma grande mudança!
Em termos filsóficos, não concordo com Alzira Seixo. Não há uma substância específica das palavras que faça delas substantivos. Se eu digo "liberdade", "amor", "vaidade", "pertinência", qual é a sua substância, em termos aristotélicos, ou de qualquer outra índole? A substância de "amor" é diferente da de "amar", ou de "amado" ou de "amorosamente"? Precisamente o que distingue estas palavras é a sua função, o acto de nomear é diverso do de adjectivar, do de modificar o sentido de um verbo, de uma frase ou de um adjectivo.
Parece-me haver uma confusão entre a designação do tempo e modo verbal e o seu valor temporal e aspectual. O presente do indicativo serve para referir futuro próximo "vai chover", a intenção, "Vou ao cinema", o habitual, o repetitivo "estudo física", mas nunca o momento presente da enunciação.
Para isso, é necessário recorrer a perifrásticas do tipo "estou a estudar". Não se entende aqui a referência à estilística de Rodrigues Lapa, pois estes usos são do domínio comum, da língua viva e não do texto literário, mas também são deste, na medida em que neles transparece a língua viva, ou seriam textos mortos, sem interesse.
Não deixa de ser estranho que Alzira Seixo considere a TLEBS como radicalmente inovadora e não apresenta um só único exemplo de tal radicalidade: supostamente "supostamente" seria um advérbio de modo, mas consultei várias gramáticas tradicionais que o negam.
Acho que Alzira Seixo dá-se melhor com a teoria dos géneros literários do que com a gramática, seja tradicional, seja "radicalmente inovadora"!
(Não me tomem demasiado a sério, este foi um texto rápido da professora que admiro e prezo! Mas é pena que muitas pessoas de grande valor se desgastem nestes exercícios críticos cheios de fissuras.)
Para ler o texto da Professora Alzira Seixo, por favor veja na ciberdúvidas: http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_6.html

A TLEBS – um trabalho de rigor científico e didáctico, na voz disparatada dos “intelectuais” (2)

Reporto-me agora ao artigo do Vasco Graça Moura, publicado no Diário de Notícias de 6 de Novembro de 2006.

O problema dos manuais escolares é, na verdade, algo que nós professores sentimos. Por um lado, acho que a introdução da nova terminologia deveria ser sincronizada com a introdução de novos manuais escolares. Por outro, acho que aceitar esse condicionamento tem como corolário considerar-nos incapazes de produzir materiais supletivos.

Mas, ainda há mais. A nova terminologia surgiu pela necessidade de unificar termos diferentes. Não é só de agora que os pais dizem que não compreendem a gramática que os filhos estudam. Já há mais de vinte anos que isso acontece: "no meu tempo, era sujeito, agora é sintagma nominal". Isso é uma prova do equívoco, pois não houve até hoje nenhum programa que ordenasse a substituição de sujeito por sintagma nominal. O facto é que a muitos professores, falta formação científica na área da linguística e formação técnica no ensino da gramática, para não dizer noutras áreas mais específicas e as mudanças são compreendidas de uma forma muito superficial, do género, "agora isto passa a ser aquilo".

Ora, há manuais escolares que dizem, por exemplo, que o sujeito é uma coisa, outros que dizem que é outra. Portanto, não é a Nova Terminologia que vem criar o caos.

O que Vasco Graça Moura parece querer dizer é que o ensino deve ser indiferente à ciência. Ora, por um lado, complementos circunstanciais não é sinónimo de modificadores, por outro, não vejo, porque é que aquele seria preferível ou mais fácil. Se dissermos "O João foi a Paris", "a Paris" é um complementos circunstancial de lugar na gramática que eu estudei no 4º ano do liceu, mas, actualmente é considerado um complemento obrigatório do verbo "ir", pois ir é "ir a algum lugar". Na frase, "Ontem, almocei em Paris", "em Paris", igualmente, complemento circunstancial de lugar, não é exigido pelo verbo "almoçar".

A distinção entre complementos e modificadores dá conta de um facto linguístico que a noção de complemento circunstancial de lugar ignorava. Se nós adoptarmos uma metodologia em que os alunos experimentam a relação entre verbos e os grupos que se colocam canonicamente à sua direita, os alunos vão verificar que uns acrescentam informação circunstancial, acessória, outros são exigidos pelo próprio verbo.

Isso da pedagogia, didáctica e sociologia educativa, é totalmente gratuito. O ensino da gramática está estreitamente relacionado com as concepções linguísticas actualmente dominantes. O mesmo se pode dizer da gramática da língua estrangeira ser comprometida pela mudança da portuguesa! Ora, até se podia dizer o contrário! Por exemplo, introduz-se a noção de nome contável e não-contável, que é um velhíssimo tópico no ensino do inglês, "countable and uncountable names".

Tudo o que ele diz sobre África é, desculpe-me o senhor Professor e distinto poeta, senhor turbo-escritor de nomeada, é, além de ofensivo, estúpido. Bem o vi no caso do acordo ortográfico a remar contra toda e qualquer cedência aos brasileiros, no sentido de nos acordarmos. Agora, quer condicionar a nossa gramática às condicionantes alheias. É que nem os nosso amigos da Universidade Eduardo Mondlane lhe agradecem o paternalismo!

Veja aqui o texto criticado

 

Ainda a TLEBS

Vasco Graça Moura

Das complexidades inadmissíveis da nova terminologia linguística para os estudantes do ensino básico e secundário (TLEBS) já se tem falado com mais ou menos pormenor. Da dificuldade de adaptação dos professores à nova terminologia, bem como ao seu manuseio, e da impossibilidade prática de os alunos a compreenderem, também já se falou, antevendo-se as piores catástrofes. Da preparação de manuais que a apliquem tem-se falado menos.
Todavia, há mais de um ano que o Ministério da Educação comunicou às escolas dever a TLEBS constituir uma referência no tocante às práticas lectivas, à concepção de manuais e aos documentos produzidos em matéria de ensino e divulgação da língua portuguesa.

A estratégia irresponsável de quem, no ministério, paraninfa tão zelosamente estas bizarras inovações está à vista: se a TLEBS começar a ser consagrada nos manuais, as coisas tornam-se irreversíveis porque os editores de livros escolares não quererão, depois, ver desperdiçado o investimento que fizeram…

Entretanto – e este ponto põe mesmo em questão as próprias políticas do ministério em matéria de contenção do dispêndio das famílias com manuais escolares – os pais, esses, lá voltarão a desembolsar mais dinheiro de ano para ano, porque os manuais anteriores deixam de servir!

Ora, sendo, proclamadamente, progressiva a implantação da TLEBS nas práticas lectivas, na concepção dos manuais e nos documentos produzidos na matéria, isto quer dizer que esse fluxo derrancante das economias familiares não parará tão cedo…

Também não se tem falado de outros aspectos que se afiguram da maior relevância. O primeiro respeita, precisamente, ao papel dos responsáveis pela educação fora da escola. Numa área como a da aprendizagem da língua materna, em que a família tem um papel extremamente importante e em que muitos pais colaboram regular e validamente com os filhos ajudando-os a estudar, vai tornar-se inviável que o façam. Se, mesmo para os professores mais preparados (e, a avaliar pela generalidade dos resultados do ensino do português, eles não serão muitos…), a adaptação se vai tornar dificílima, para os pais, então, a gramática portuguesa tornar-se-á uma espécie de sânscrito ou de chinês.

O que me parece ser o grande equívoco da TLEBS é que ela confunde o plano científico (não interessa se discutível ou indiscutível) da compreensão e descrição das funções das várias categorias gramaticais com o plano prático e didáctico da designação delas. Ora a manutenção de uma terminologia mais ou menos tradicional não inviabiliza de todo a questão científica. Se se está habituado a falar em "complementos circunstanciais", por exemplo, a análise científica não impõe que se passe a chamar-lhes "modificadores", mesmo que conclua que o são. Outras ciências, como a pedagogia, a didáctica ou a sociologia educativa podem perfeitamente concluir que a inovação é nociva e desajustada, por muito científica que se proclame…·
Por outro lado, no tocante à aprendizagem de línguas estrangeiras, nomeadamente do inglês logo no básico e, depois, ao longo do secundário, que é uma das bandeiras da política educativa do Governo, está à vista a confusão que acabará por se gerar, ao longo dos curricula escolares, com o recurso simultâneo a nomenclaturas gramaticais completamente diferentes… Tudo com os resultados brilhantes que também se antevêem… A menos que se espere que os jovens vão aprendendo outras línguas sem tocarem nas gramáticas respectivas.

E, depois, considere-se a cooperação com os PALOP. Em África, onde o português é uma língua veicular, as estruturas do ensino são frágeis, os professores são poucos, a preparação pedagógica é deficiente, os livros são difíceis de obter e, muitas vezes, os instrumentos imprescindíveis de trabalho nesta matéria são aproveitamentos de materiais que já não são utilizados em Portugal. E onde, conforme as áreas da latinofonia ou da anglofonia, há uma grande concorrência de outras línguas europeias com a nossa.·
Já se pensou na trapalhada sem nome que a TLEBS ali vai gerar? Na confusão indescritível em que professores e alunos africanos vão ser lançados? Nos custos editoriais desnecessários em que as autoridades desses países terão de incorrer? As coisas anunciam-se de tal modo perturbantes que se acabará por desejar que, a bem da língua, a cooperação quanto ao ensino do português em África seja confiá-lo a professores brasileiros…