No debate sobre a TLEBS, investe-se tudo o que há à mão para atirar. Vários comentadores ficam nus, pois mostram a sua ignorância ou a falha num tópico – a gramática, qualquer que ela seja – a dita tradicional, a generativa, a funcionalista, a estruturalista, pouco importa, como o José Viegas a falar dos nomes epicenos, como se fosse coisa nova. Eu também não me lembraria, assim de repente. Mas tive o cuidado de, para cada item, socorrer-me de várias gramáticas, à medida que ia lendo a Terminologia.
Mas o que mais impressiona nisto tudo, é a mistura que se faz das coisas mais díspares: é mais uma pedra para atirar à ministra de entre várias outras que se arrolam.
No meio disto tudo, há uma luta interdepartamental, entre linguistas e homens da literatura.
Um comentador acusava a TLEBS de destruir o ensino da literatura, numa reedição da velha crítica de se sujeitar Os Lusíadas a exercícios de divisão de orações, no velho quinto ano dos liceus!
Parece querer-se arregimentar, dum lado, os linguistas, do outro, os literatos, forçando toda a gente a uma profissão de fé: "De que lado é que está?"
Eu, por exemplo, sou um defensor do cânone literário, dos livros que a história da literatura seleccionou como os melhores, os mais relevantes. Acho que a leitura desses textos deve valer por si própria e não como meios de desenvolver competências linguísticas ou discursivas em determinados modelos de texto, embora creia que a leitura de tais textos contribuirá para o desenvolvimento dessas ditas competências. A leitura deve servir-se de informação cultural, histórica, enciclopédica, mas também de análise gramatical e retórica, na medida certa.
Outra questão é a de que conceitos gramaticais é que nos devemos servir. Actualmente, não há nenhuma unidade terminológica. A que existe legalmente não é seguida há muito tempo, nem o poderia ser. Há professores que ensinam o mesmo tópico duma maneira, outros de outra, no mesmo nível de ensino.
A unificação da terminologia linguística deve ser discutida no seu próprio campo, o da gramática, conceito a conceito. Quem quisesse, devia já ter dado a sua contribuição, substantiva, nos anos em que nos Encontros de Professores de Português o assunto esteve em discussão.
Como acha que devemos definir Sujeito de uma frase? O que é e como se determina o Predicado? Estas questões parecem ser demasiado comezinhas para os grandes e pequenos críticos da TLEBS. Só linguistas, metódicos, que amam a língua e as línguas, é que têm investido neste trabalho.
Depois, há um outro campo, que é o de como é que vamos introduzindo as noções gramaticais no Ensino Básico e Secundário. Estas são, para mim, as únicas coisas que interessam. Quanto ao resto, esqueçamos.

A sensação com que fico não é a de uma luta *entre* linguistas e literatos, é a de guerra aberta contra os linguistas.
Um dos argumentos já esgrimido várias vezes é que os linguistas odeiam a literatura (argumento bizarro considerando que a esmagadora maioria dos linguistas se licenciaram em cursos de literatura). Só existem cursos de linguística há cerca de 16 anos.
A mim parece-me o contrário: os professores de literatura odeiam gramática, aprenderam o que foram obrigados e nunca mais quiseram saber. Para a maioria dos meus colegas de LLM, o Latim (onde um bom conhecimento de gramática tradicional era indispensável) e a Sintaxe e Semântica eram a grande estucha, as duas cadeiras que se faziam no fim do curso, depois de sucessivos chumbos). Para quem estuda literatura, o principal são as questões que se prendem com a fruição estética da língua, não o seu funcionamento – para mim, tudo bem!
Continua viva uma mentalidade de fim de século (mas XIX, atenção!), em que o conhecimento dos bons autores e da boa língua é indispensável a quem almeje a algum prestígio intelectual. É esta elite livresca (e um pouco papagueante…) que se toma a si própria como referência quando fala de qualquer facto social, língua incluída – ignorando olimpicamente que haja disciplinas do conhecimento que desenvolveram métodos e teorias para explicar o que observam. Quando a linguística reclama a língua – toda a língua – como seu objecto de estudo, o feudo da língua é atacado e os velhos senhores reagem com as suas sempiternas bandeiras – os valores da tradição, dos bons autores, da boa língua, da boa e velha gramática tradicional – contra valores que destronam a sua autoridade.
Os nossos intelectuais vivem num mundo de pensamento sincrético (são autoridades numa data de áreas de que não têm conhecimento específico), alheado do pensamento científico (em que a observação é o ponto de partida para a construção de modelos explicativos e não o contrário) e altamente autoritário (pertencem a uma elite iluminada e portanto os seus pontos de vista não necessitam de legitimação alguma – se eles acham que é assim… é assim).
Talvez esteja a exagerar, mas tanta arrogância e ignorância misturadas fazem-me lembrar velhas senhoras decadentes a tentar manter a sua autoridade num mundo que já não se rege pelos seus valores.
De facto, impressiona como eles opinam sobre tudo e tudo transformam em questão política.
Claro, a decisão de avançar com a terminologia é uma decisão política, mas há todo um trabalho anterior que deve ser respeitado.
Sobretudo, não conhecem a situação real: que conceitos de gramática nós utilizamos hoje em dia. Nem se deram ao trabalho de ver os programas e os manuais escolares. Exemplo disso: a conversa da Alzira Seixo sobre a designação de “substantivo”.
Pensam erradamente, que a terminologia, é uma mudança radical.
Os professores do 2º ciclo sabem que há apenas uma ou duas mudanças significativas, mas têm medo de errar e ficam manietados – isso é verdade.