View image Mod Saleh era um jovem palestiniano de 21 anos que foi vítima da violência policial sionista. Esta é a informação que consta de um documento que circula na Internet e que me chegou à caixa de correio, reencaminhado por um amigo. Mod Saleh seguia pacificamente o seu caminho, quando foi mandado parar pelos agentes de autoridade israelita. Estes revistaram-no até ao ponto de o despirem, deixando-o de cuecas. Foi, então, que, sem mais, um dos seis ou sete agentes presentes atira a matar, apontando directamente ao crânio do jovem, já despido e prostrado no chão, apesar de Mod Saleh não ter o menor indício de ser um bombista suicida. Esta é a história que vem no texto, acompanhado de uma série de cinco fotografias que são apresentadas como prova documental. Tentei avaliar cuidadosamente as fotos, para ver até que ponto é que elas suportavam esta versão. Pois, mesmo assim contada, aparece em falta um elemento essencial: o motivo do crime. Por que razão havia um agente de matar um detido perante seis testemunhas, embora seus colegas? No acto do crime, observa-se o movimento nervoso de três outros agentes e um deles a dar o tiro que desfaz a cabeça do jovem. Por que motivo o haviam de matar, depois de o despirem e de observarem que ele não tinha nenhum cinto com bombas? Pura violência gratuita, puro genocídio! A polícia israelita anda a matar jovens palestinianos, um a um, depois de os despir! A fotografia fala por si!, diz na legenda da última fotografia em que aparece o corpo inteiro de Mod Saleh deitado no chão. Mas a verdade é que as imagens não falam por si. Como sugere Wim Wenders, uma imagem sem palavras não diz nada. Pelo contrário, as palavras podem fazer muito a favor do sentido das imagens. Ampliei então as fotografias o máximo que pude apesar da sua péssima qualidade e concluí: não é possível através delas concluir se Mod Saleh tem ou não um cinto com bombas à sua volta. Quando digo isto, imagino que um cinto com bombas tem a dimensão de um pequeno chumaço à volta da cintura. Mas, para dizer a verdade, não sei se um cinto de bombista pode ou não ser ainda mais pequeno do que eu o imagino. Fiz então o seguinte exercício: se aquilo fosse o clip dum filme, que imagens poderiam estar em falta? E concluí que podiam faltar muitas e que bastaria uma para mudar a história toda. À procura de fotografias de melhor qualidade, pesquisei a Internet sobre o assunto. Encontrei as mesmas fotos em muitos sítios, vários deles de publicidade explicitamente palestiniana ou de esquerda revolucionária europeia (http://www.dewaarheid.nu/wereldcrisis/saleh.htm e http://www.parker.firenze.net/orrore.htm, por exemplo). A sequência era exactamente a mesma, na maior parte dos sítios. Encontro finalmente um sítio que acrescenta uma fotografia às imagens das outras. De acordo com este documento, entre a penúltima e a última fotografia apresentada pela propaganda palestiniana, falta de facto uma imagem em que se vê um carro, um robot, a retirar um cinto com bombas do corpo inerte do jovem (http://www.elettrosmog.com/orrore/). Essa fotografia não tinha melhor qualidade do que as outras, mas dava coerência à história: os polícias mataram o jovem quando descobriram o cinto e recearam que ele o fizesse explodir, matando-os. E se fosse um erro? Se os polícias tivessem confundido alguma coisa com bombas e, um deles, demasiado nervoso, tivesse puxado o gatilho? Que leitura política poderíamos fazer desse facto, além de que há bombistas e polícias que têm como função prendê-los e que eventualmente se enganam tragicamente? Será que podemos dizer que esses polícias terão um comportamento diferente, consoante o governo seja de Ariel Sharon ou de Shimon Peres, neste aspecto específico? Trazer a este assunto a política de Sharon é uma manobra retórica bem conhecida, a amálgama, que consiste em juntar coisas diversas sob o mesmo rótulo. Quer a morte de Saleh se deva a um erro quer a uma acção policial bem-sucedida, quer Saleh tenha sido um bombista quer tenha sido uma vítima inocente, é de todo improvável que haja ordens do governo de Sharon para matar todos os jovens palestinianos que como Saleh tenham aspecto de bombistas. Ou, então, se é esse o caso, é preciso demonstrá-lo com muito mais provas. Considero a política de Sharon má e assassina, mas não por causa de factos deste género. A verdade é que um governo trabalhista não terá menos problemas com bombistas. E os radicais que agora criticam a acção policial sob Sharon, continuarão a fazê-lo, como já o fizeram, sob um governo trabalhista. Para os que procuram o conforto da distinção clara entre o lado do bem e da razão e o lado do mal e do erro, afigura-se-me difícil a decisão: quem está certo é o governo de Sharon que defende os colonatos israelitas e ataca à bruta os líderes do Hezbolah, do Hamas e dos Máritres de Al Aqsa ou a Autoridade Palestiniana que nada faz contra os bombistas suicidas e que dá total liberdade de movimentos a esses grupos? Não é fácil optar por um lado merecedor do nosso apoio a não ser que declaremos de uma vez por todas que concordamos com o objectivo político do Hamas que é destruir totalmente o Estado de Israel.

Não tenho estado muito atenta aos acontecimentos em terras de Israel, mas gostei dessa preocupação em verificar as imagens. Acredito que o que nos resta é precisamente isso, pesquisar, questionar, verificar e neste caso ampliar para ver melhor. Mas mesmo isso, por vezes, parece não ser suficiente e quando não é possível descobrir a sequência dos acontecimentos, tudo resiste ou se apaga, ‘lentamente’, deixando um rasto de frustração e de dúvidas, mais ou menos esclarecidas por outras informações, acções ou factos. Agora com a fotografia final, aquela em que se vê o robot e as dimensões do cinto de bombas, talvez seja possível identificá-lo nas outras fotografias…? Onde está? Será mesmo um cinto de bombas?
Tudo o que puder ser dito a mais sobre o assunto mecessita de mais investigação. Apenas tenho como certo que houve manipulação da mais grosseira nesse documento que circula na Internet. Não sou um defensor dum cepticismo absoluto em relação à informação que nos chega, nem tampouco um defensor de uma suspeita geral contra os orgãos de informação, à maneira de Chomski.
Há é claro muita ingenuidade em relação ao valor da fotografia que nos cumpre denunciar. A imagem fotográfica não é a prova última de nada. Ela tem de ser interrogada como qualquer outro testemunho: quem a produziu, onde estava relativamente ao objecto, porque a tirou, etc…
Este caso é muito estranho porque há uma sequência de imagens e uma história escrita que a interpreta e aparece alguém que diz que falta uma fotografia. Na verdade, faltam ainda mais. Aquela fotografia é a que falta porque é conveniente para contestar aquela história.
Se quiseres, vou arriscar uma tese: a manipulação da informação será tendencialmente maior para os radicais, os que defendem soluções extremas porque têm que absolutizar o mal do sistema que criticam e ocultar ao máximo as suas próprias fragilidades. Imagina, por exemplo, uma fotografia do Bin Laden com um whisky na mão. Seria uma coisa inaceitável. Os que não ambicionam destruir tudo e criar um mundo novo de raiz estão preparados para a prisão de Bettino Craxi ou para as acusações de ligação à Mafia que pesam sobre Andreotti.
Tudo o que puder ser dito a mais sobre o assunto mecessita de mais investigação. Apenas tenho como certo que houve manipulação da mais grosseira nesse documento que circula na Internet. Não sou um defensor dum cepticismo absoluto em relação à informação que nos chega, nem tampouco um defensor de uma suspeita geral contra os orgãos de informação, à maneira de Chomski.
Há é claro muita ingenuidade em relação ao valor da fotografia que nos cumpre denunciar. A imagem fotográfica não é a prova última de nada. Ela tem de ser interrogada como qualquer outro testemunho: quem a produziu, onde estava relativamente ao objecto, porque a tirou, etc…
Este caso é muito estranho porque há uma sequência de imagens e uma história escrita que a interpreta e aparece alguém que diz que falta uma fotografia. Na verdade, faltam ainda mais. Aquela fotografia é a que falta porque é conveniente para contestar aquela história.
Se quiseres, vou arriscar uma tese: a manipulação da informação será tendencialmente maior para os radicais, os que defendem soluções extremas porque têm que absolutizar o mal do sistema que criticam e ocultar ao máximo as suas próprias fragilidades. Imagina, por exemplo, uma fotografia do Bin Laden com um whisky na mão. Seria uma coisa inaceitável. Os que não ambicionam destruir tudo e criar um mundo novo de raiz estão preparados para a prisão de Bettino Craxi ou para as acusações de ligação à Mafia que pesam sobre Andreotti.
Também não ponho em causa toda a informação que me é dada. Apercebi-me que ponho, principalmente, em causa o que vem fragilizar, contestar ou destruir uma ideia, talvez um pouco romântica, que tenho do mundo em que vivemos, a profunda crença de que o Homem é, fundamentalmente, bom. No fundo, estou consciente de que é uma ideia romântica, mas não me apetece acreditar que não é assim, simplesmente, porque me ajuda a ser/estar no mundo…Hoje em dia, as imagens estão sempre muito disponíveis para contribuir para uma ideia imposta do mundo, uma ideia que apenas serve vários interesses (culturais, políticos, económicos…),coisas que no fundo se afastam do humano e do que significa ser Homem, coisas por vezes necessárias, mas periféricas e acessórias ao estar no mundo e que finalmente só confirmam uma certa ingenuidade humana.
O homem não pode ser fundamentalmente bom nem fundamentalmente mau, pois só o ser homem ou o ser para o homem pode ser bom ou mau. O mal absoluto seria algo como um conceito platónico e Aristóteles contesou muito bem essa ideia do seu mestre: o mundo dos conceitos só existe realmente nas suas concretizações e nunca de forma pura e absoluta. Por personificação do mal absoluto teríamos o Diabo, o Bin Laden, o Kim Jong Il ou, para alguns,… George Bush. Não tenho qualquer dúvida em dizer que vários destes são claramente maus ou mesmo muito maus. Quanto ao Homem fundamentalmente bom não sei o que é. O “fundamentalmente” pressupõe uma essência, a partir da qual, por alienação, ou desvio, se quiseres, encontraríamos os homens concretos, uns melhores, outros piores. Tal coisa foi muito bem contestada pelos existencialistas e, também pelos marxistas (ver p. ex. a crítica que Althusser aos defensores do Jovem Marx de 1844). De resto tu és mesmo adepta dessa ideia da alienação em relação a uma certa autenticidade humana ao falares em “ser Homem” e no “ser humano”. Acho que estes adjectivos são perfeitamente utilizáveis, com a consciência que cabe a cada um de nós no contexto da sua cultura definir o que é um comportamento “humano”. Para mim, a declaração dos direitos do homem, o mandamento cristão, “ama os outros como a ti próprio”, ou o discurso de Cristo aos que se preparavam para apedrejar a prostituta, são os elementos que me permitem definir o bem e o mal. Mas não é assim para toda a gente. E eu recuso-me a ceder aos valores dos outros, porque acredito que a civilização tem progredido na definição do humano e considero muitos outros valores culturais como errados.
O homem não pode ser fundamentalmente bom nem fundamentalmente mau, pois só o ser homem ou o ser para o homem pode ser bom ou mau. O mal absoluto seria algo como um conceito platónico e Aristóteles contesou muito bem essa ideia do seu mestre: o mundo dos conceitos só existe realmente nas suas concretizações e nunca de forma pura e absoluta. Por personificação do mal absoluto teríamos o Diabo, o Bin Laden, o Kim Jong Il ou, para alguns,… George Bush. Não tenho qualquer dúvida em dizer que vários destes são claramente maus ou mesmo muito maus. Quanto ao Homem fundamentalmente bom não sei o que é. O “fundamentalmente” pressupõe uma essência, a partir da qual, por alienação, ou desvio, se quiseres, encontraríamos os homens concretos, uns melhores, outros piores. Tal coisa foi muito bem contestada pelos existencialistas e, também pelos marxistas (ver p. ex. a crítica que Althusser aos defensores do Jovem Marx de 1844). De resto tu és mesmo adepta dessa ideia da alienação em relação a uma certa autenticidade humana ao falares em “ser Homem” e no “ser humano”. Acho que estes adjectivos são perfeitamente utilizáveis, com a consciência que cabe a cada um de nós no contexto da sua cultura definir o que é um comportamento “humano”. Para mim, a declaração dos direitos do homem, o mandamento cristão, “ama os outros como a ti próprio”, ou o discurso de Cristo aos que se preparavam para apedrejar a prostituta, são os elementos que me permitem definir o bem e o mal. Mas não é assim para toda a gente. E eu recuso-me a ceder aos valores dos outros, porque acredito que a civilização tem progredido na definição do humano e considero muitos outros valores culturais como errados.
Não sei, mas parece-me que estamos fundamentalmente de
acordo. A minha única objecção é a definição de “humano” que
acho que varia muito com as culturas. Os antropólogos sonham
com a possibilidade de definir características universais. É
claro que é possível abstrair de toda a história e de toda
as culturas conhecidas características universais da
humanidade. Parece-me é que o resultado estaria longe
daquilo que os humanistas desejariam, pois esse maior
denominador comum será a biologia humana que distingue o
homem como espécie. A cultura europeia e ocidental chegou à
sacralização de uma série de valores que configuram uma no
ção de Homem que ainda não é univesalmente partilhada. Todos
os seres humanos estão constantemente confrontados com o que
é bom e o que é mau. Para o decidir apelam a valores
herdados ou formados por si próprios através da reflexão. É
certo que os valores entram em conflito uns com os outros na
altura em que decidimos agir, por isso, constituem-se como
hierarquias de valores. Proceder bem será então, proceder de
acordo com essas hierarquias. Mas como todos as têm
diferentes, haverá sempre conceitos diferentes de bem e de
mal. E é aqui que eu digo que não podemos transigir no
relativismo e considerar que o mal dos outros só o é para n
ós e não para eles, pois eles têm outros valores. A minha
posição anti-relativista consiste no seguinte: se aceito os
comportamentos deles por causa dos valores deles, devo
alterar os meus próprios valores e passar a comportar-me
como eles. Se bem que aceite a tolerância como valor
importante, tenho também que definir como limites da tolerâ
ncia, valores mais importantes na minha hierarquia, como o
direito à vida e o direito à integridade física de todos os
seres humanos. Por exemplo, na religião em que fui criado, a
transfusão de sangue é considerada um pecado. Essas pessoas
estão dispostas a morrer e a sacrificar os seus filhos ainda
que os possam salvar com um simples transfusão de sangue. Eu
acho que elas não têm o direito de impor a crianças essa op
ção, em situações em que elas se possam salvar com esse “
pecado”. Posso tentar compreender porque pensam assim, mas,
no que me diz respeito, tudo farei para que não prevaleçam
nessas decisões. Acho que as autoridades médicas podem
obrigar crianças a sujeitarem-se a uma transfusão, ainda que
haja um conflito com os pais. Isso não é o mesmo que a
simples proibição religiosa de comer carne de porco em que,
parece-me, sou obrigado a exercitar a minha tolerância.
Não sei, mas parece-me que estamos fundamentalmente de
acordo. A minha única objecção é a definição de “humano” que
acho que varia muito com as culturas. Os antropólogos sonham
com a possibilidade de definir características universais. É
claro que é possível abstrair de toda a história e de toda
as culturas conhecidas características universais da
humanidade. Parece-me é que o resultado estaria longe
daquilo que os humanistas desejariam, pois esse maior
denominador comum será a biologia humana que distingue o
homem como espécie. A cultura europeia e ocidental chegou à
sacralização de uma série de valores que configuram uma no
ção de Homem que ainda não é univesalmente partilhada. Todos
os seres humanos estão constantemente confrontados com o que
é bom e o que é mau. Para o decidir apelam a valores
herdados ou formados por si próprios através da reflexão. É
certo que os valores entram em conflito uns com os outros na
altura em que decidimos agir, por isso, constituem-se como
hierarquias de valores. Proceder bem será então, proceder de
acordo com essas hierarquias. Mas como todos as têm
diferentes, haverá sempre conceitos diferentes de bem e de
mal. E é aqui que eu digo que não podemos transigir no
relativismo e considerar que o mal dos outros só o é para n
ós e não para eles, pois eles têm outros valores. A minha
posição anti-relativista consiste no seguinte: se aceito os
comportamentos deles por causa dos valores deles, devo
alterar os meus próprios valores e passar a comportar-me
como eles. Se bem que aceite a tolerância como valor
importante, tenho também que definir como limites da tolerâ
ncia, valores mais importantes na minha hierarquia, como o
direito à vida e o direito à integridade física de todos os
seres humanos. Por exemplo, na religião em que fui criado, a
transfusão de sangue é considerada um pecado. Essas pessoas
estão dispostas a morrer e a sacrificar os seus filhos ainda
que os possam salvar com um simples transfusão de sangue. Eu
acho que elas não têm o direito de impor a crianças essa op
ção, em situações em que elas se possam salvar com esse “
pecado”. Posso tentar compreender porque pensam assim, mas,
no que me diz respeito, tudo farei para que não prevaleçam
nessas decisões. Acho que as autoridades médicas podem
obrigar crianças a sujeitarem-se a uma transfusão, ainda que
haja um conflito com os pais. Isso não é o mesmo que a
simples proibição religiosa de comer carne de porco em que,
parece-me, sou obrigado a exercitar a minha tolerância.