A sociologia vai à escola

Confesso a minha desconficnça relativamente aos sociólogos, especialmente aos que se dizem "da educação". É uma doença que persiste em mim, apesar de todos os esforços que faço para me recompor. As declarações da senhora ministra da educação puseram-me em nova recaída. É que os sociólogos analisam a educação. Demonstram como os factores sociais intervém. Mostraram que a escola está ao serviço da desigualdade social. Agora como já não está na moda acusar a burguesia, o capitalismo, o aparelho de estado a serviço destas forças tenebrosas, o assunto é a escola e os professores. São os professores que seleccionam: escolhem os melhores alunos para a manhã e os piores para a tarde. É evidente que os da parte da manhã virão a ser no futuro profissionais liberais, doutores, professores, advogados, médicos. Quanto aos da tarde, irão alimentar as fileiras da exclusão social. A uns são dados os melhores professores, aos outros os piores. Os professores perpetuam-se como classe dominante, escolhendo para os seus filhos os melhores horários e os melhores colegas! A generalização é posta assim, claramente. Como se faz tal coisa e em que medida é que isso acontece? Pelo que os "media" disseram não sei se houve alguma quantificação. Eu, por exemplo, sou professor de vários filhos de colegas e de funcionários. Mas, nas turmas em causa, tenho alunos de meios com muito menor cultura literária, de recursos económicos baixos e um ou outro que se encontra perto da pura marginalidade social, com anos de repetência e uma irreverente indiferença pelos trabalhos escolares. À senhora ministra não ocorreu a possibilidade de essa selecção, que reconheço ser de ordem social, resultar de jogos que nem os próprios professores que gerem as escolas conseguem controlar, como é o caso dos transportes escolares, e a localidade de origem dos alunos. Que ganharíamos em pôr os filhos dos professores com os piores? A senhora ministra acha mesmo que o factor professor é o decisivo? Pois, eu digo-lhe abertamente que não é. Não há qualquer diferença entre a qualidade dos professores das melhores escolas e a dos das outras. O factor essencial é esse mesmo que a senhora ministra parece querer esconder, aquele mesmo factor que a geração agora no poder, há 20 atrás, denunciava, e que lhe devia ser muito caro: o factor social. Há famílias mais estáveis, encarregados de educação mais preocupados, com mais recursos culturais, em certos grupos sociais, do que noutros. Por acaso, isso tende a coincidir com níveis de rendimento mais elevados. Claro que quero o meu filho junto dos amigos, que por acaso tendem a ser, na sua maioria, do mesmo nível cultural ou de rendimento que o dele. Não preciso de fazer nenhuma falcatrua para obter isso. Eles entraram juntos para a escola do nosso bairro, onde acontece não haver uma grande diversidade de níveis de qualidade habitacional. Isso continuará a ser assim, enquanto a sra ministra não começar a fazer engenharia social no meu bairro e ordenar por exemplo que as barracas do Casal Ventoso venham para aqui, para "igualizar" a sociedade. Já agora prosseguia por esse caminho e fazia umas experiências de proletarização à chinesa. Quando o meu filho foi para o ciclo, a maior parte dos colegas do primário ficaram na mesma turma. Acha que devíamos separá-los? Pois o factor "para onde vai o colega" é decisivo para estas crianças, na hora da mudança de escola. Agora, senhora ministra, quer ser psicóloga ou socióloga? No primeiro caso, achará que essas crianças devem continuar juntas, no segundo, achará que os "burguesinhos" devem ser dispersos pelas turmas do proletariado e mesmo do "lumpen", para combater a desigualdade social. Pois o reverso da medalha também existe: os aprendizes de "gang" também vão continuar juntos, assim como os de menores recursos, os mais rurais, os que têm maiores dificuldades de aprendizagem, etc. Pois o meu filho continuará com os seus colegas da classe média, sim, porque os da classe alta, já não têm os filhos na escola pública, a não ser que também tenham lá no seu bairro uma escola pública, quase só deles. Agora, os senhores da alta exigem aos professores que ponham os filhos nas piores turmas, para provarem a sua dedicação ao bem público, enquanto a maioria deles já optou pelo ensino privado. Quando os professores começarem a fazer isso, é sinal que já toda a classe média terá feito o mesmo e que a escola pública terá então apenas os professores que não conseguem emprego no ensino privado e os filhos das classes mais desfavorecidas. A senhora ministra parece ter desistido de aplicar o socialismo científico a toda a sociedade, mas já que não pode, aplicá-lo-á no seu jardim – as escolas. E já fez um progresso notável que foi descobrir nos professores a classe dominante nessse microcosmo. E agora desata a malhar neles! A senhora ministra não sabe o que é ter uma turma com 20 crianças ávidas de aprender e 8 que pura e simplesmente não estudam, não estão atentas, não querem saber de nada, de entre as quais, 3 são capazes, nos dias em que não faltam, de se levantar, deitar uma mesa ao chão só para ver como é que o professor reage. Perturbam o trabalho da maioria e desencaminham alguns dos outros. Perda de qualidade de ensino! Depois falam na falta de élites científicas e tecnológicas em Portugal. Ou, então, talvez esperem que a criação dessas élites se faça apenas no privado. Pois já tive turmas com essa composição, incluindo nos 20, alguns filhos de professores. Claro que a senhora ministra saberá com os seus "Bourdieu" e congéneres, a explicação para esta fatalidade. O problema dos sociólogos é pensarem que por terem uma teoria para um facto têm um remédio. Mas o meu "métier" é dar aulas não é analisar factos sociais, apesar de nas escolas superiores de educação e na formação quererem transformar os professores em quase-sociólogos. Talvez a pior coisa que tenha acontecido à educação foi a sua conquista pela sociologia. Perdoe-me a classe dos sociólogos por esta generalização, mas quem começou a falar "em geral" dos professores, foi a Sra Ministra.

4 comentários em “A sociologia vai à escola”

  1. A lógica sinistra…

    Ó Luís, não achas que se poderia fazer aqui um exerciciozinho dedutivo à maneira da senhora ministra? Eu acho que já consegui apanhar mais ou menos o jeito! É assim: a senhora ministra, comparando os professores aos médicos, consegue chegar à “brilhante” conclusão de que os primeiros escolhem os melhores alunos para não terem de fazer nada, ao invés de escolherem os piores, como os médicos que querem mostrar serviço escolhendo os piores doentes.
    Ora, como a senhora ministra também parece estar ávida de mostrar serviço, toca a transformar os professores, para a opinião pública, nuns incompetentes incorrigíveis – equivalentes aos piores doentes do sistema – para depois aparecer como salvadora da pátria…
    Ou será que quer acabar de vez com os professores para também ficar sem nada para fazer? Qual destas hipóteses te parece a mais viável?

    Lena b

  2. Em termos materiais, o que ela está a fazer é mesmo acabar com a necessária confiança na classe docente. É uma estratégia cega, quer dizer, uma ausência de estratégia.
    Mesmo que seja verdade que os professores com mais experiência na escola tendem a escolher as melhores turmas e que haja uma tendência para essas turmas ficarem de manhã, não é garantido que esses mesmos professores façam um melhor trabalho com as turmas difíceis do que os que as actualmente têm.
    O meu caso – como professor -, exposto no meu artigo, é, contudo, um desmentido desse cenário: tenho numa mesma turma filhos de professores da casa em conjunto com crianças de lares desfavorecidos.
    Mas, mesmo supondo que assim é, não vejo por que razão hei-de escolher para os meus filhos os piores professores.
    Se é o caso de haver professores com dificuldade em desempenhar bem as suas funções, não será com generalizações abusivas nem com processos de intenção que melhoraremos essa situação.
    Creio que há um desvio sociológico no pensamento educacional do Ministério. Crêm que o combate à desigualdade tem de começar na educação e depositam todas as suas esperanças nisso. Daí a desilusão. Nós só temos instrumentos para ensinar, para criar condições de aprendizagem, se tivermos o apoio da Família e se a Escola trabalhar toda em equipa na procura de soluções.

  3. Em termos materiais, o que ela está a fazer é mesmo acabar com a necessária confiança na classe docente. É uma estratégia cega, quer dizer, uma ausência de estratégia.
    Mesmo que seja verdade que os professores com mais experiência na escola tendem a escolher as melhores turmas e que haja uma tendência para essas turmas ficarem de manhã, não é garantido que esses mesmos professores façam um melhor trabalho com as turmas difíceis do que os que as actualmente têm.
    O meu caso – como professor -, exposto no meu artigo, é, contudo, um desmentido desse cenário: tenho numa mesma turma filhos de professores da casa em conjunto com crianças de lares desfavorecidos.
    Mas, mesmo supondo que assim é, não vejo por que razão hei-de escolher para os meus filhos os piores professores.
    Se é o caso de haver professores com dificuldade em desempenhar bem as suas funções, não será com generalizações abusivas nem com processos de intenção que melhoraremos essa situação.
    Creio que há um desvio sociológico no pensamento educacional do Ministério. Crêm que o combate à desigualdade tem de começar na educação e depositam todas as suas esperanças nisso. Daí a desilusão. Nós só temos instrumentos para ensinar, para criar condições de aprendizagem, se tivermos o apoio da Família e se a Escola trabalhar toda em equipa na procura de soluções.

  4. Claro! É preciso que todos os agentes no processo educativo desempenhem as suas obrigações com eficiência para que as coisas mudem para melhor. Não é com ataques constantes, ao sabor do humor ou de oportunismos obscuros por parte da ministra da educação, que tal se consegue. O que a ministra está a conseguir, com isto, é legitimar certas opiniões boçais de que os professores são todos uns párias que não querem trabalhar, em vez de esclarecer a opinião pública sobre a função do sistema de ensino e dos seus agentes. Ora, se é óbvio que os professores têm de ser competentes no que fazem (e quem não for deve ser penalizado por isso), também é óbvio que os alunos, quando se matriculam, devem assumir um compromisso – que é estudar – e que os encarregados de educação, para serem dignos desse estatuto, devem preocupar-se com o que os filhos andam a fazer na escola. Por último, parece óbvio também que o M.E. deve agir como M.E. e não como instigador das animosidades da opinião pública contra os profissionais que dirige. Punir os professores que não cumprem não é o mesmo que fazer campanha contra os professores. Mas esta ministra já demonstrou à saciedade que se está nas tintas para essas distinções… Caso para perguntarmos: o que é que ela pretende, afinal?

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