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Ainda a TLEBS
Vasco Graça Moura
Das complexidades inadmissíveis da nova terminologia linguística para os estudantes do ensino básico e secundário (TLEBS) já se tem falado com mais ou menos pormenor. Da dificuldade de adaptação dos professores à nova terminologia, bem como ao seu manuseio, e da impossibilidade prática de os alunos a compreenderem, também já se falou, antevendo-se as piores catástrofes. Da preparação de manuais que a apliquem tem-se falado menos. Todavia, há mais de um ano que o Ministério da Educação comunicou às escolas dever a TLEBS constituir uma referência no tocante às práticas lectivas, à concepção de manuais e aos documentos produzidos em matéria de ensino e divulgação da língua portuguesa.
A estratégia irresponsável de quem, no ministério, paraninfa tão zelosamente estas bizarras inovações está à vista: se a TLEBS começar a ser consagrada nos manuais, as coisas tornam-se irreversíveis porque os editores de livros escolares não quererão, depois, ver desperdiçado o investimento que fizeram…
Entretanto – e este ponto põe mesmo em questão as próprias políticas do ministério em matéria de contenção do dispêndio das famílias com manuais escolares – os pais, esses, lá voltarão a desembolsar mais dinheiro de ano para ano, porque os manuais anteriores deixam de servir!
Ora, sendo, proclamadamente, progressiva a implantação da TLEBS nas práticas lectivas, na concepção dos manuais e nos documentos produzidos na matéria, isto quer dizer que esse fluxo derrancante das economias familiares não parará tão cedo…
Também não se tem falado de outros aspectos que se afiguram da maior relevância. O primeiro respeita, precisamente, ao papel dos responsáveis pela educação fora da escola. Numa área como a da aprendizagem da língua materna, em que a família tem um papel extremamente importante e em que muitos pais colaboram regular e validamente com os filhos ajudando-os a estudar, vai tornar-se inviável que o façam. Se, mesmo para os professores mais preparados (e, a avaliar pela generalidade dos resultados do ensino do português, eles não serão muitos…), a adaptação se vai tornar dificílima, para os pais, então, a gramática portuguesa tornar-se-á uma espécie de sânscrito ou de chinês.
O que me parece ser o grande equívoco da TLEBS é que ela confunde o plano científico (não interessa se discutível ou indiscutível) da compreensão e descrição das funções das várias categorias gramaticais com o plano prático e didáctico da designação delas. Ora a manutenção de uma terminologia mais ou menos tradicional não inviabiliza de todo a questão científica. Se se está habituado a falar em "complementos circunstanciais", por exemplo, a análise científica não impõe que se passe a chamar-lhes "modificadores", mesmo que conclua que o são. Outras ciências, como a pedagogia, a didáctica ou a sociologia educativa podem perfeitamente concluir que a inovação é nociva e desajustada, por muito científica que se proclame…· Por outro lado, no tocante à aprendizagem de línguas estrangeiras, nomeadamente do inglês logo no básico e, depois, ao longo do secundário, que é uma das bandeiras da política educativa do Governo, está à vista a confusão que acabará por se gerar, ao longo dos curricula escolares, com o recurso simultâneo a nomenclaturas gramaticais completamente diferentes… Tudo com os resultados brilhantes que também se antevêem… A menos que se espere que os jovens vão aprendendo outras línguas sem tocarem nas gramáticas respectivas.
E, depois, considere-se a cooperação com os PALOP. Em África, onde o português é uma língua veicular, as estruturas do ensino são frágeis, os professores são poucos, a preparação pedagógica é deficiente, os livros são difíceis de obter e, muitas vezes, os instrumentos imprescindíveis de trabalho nesta matéria são aproveitamentos de materiais que já não são utilizados em Portugal. E onde, conforme as áreas da latinofonia ou da anglofonia, há uma grande concorrência de outras línguas europeias com a nossa.· Já se pensou na trapalhada sem nome que a TLEBS ali vai gerar? Na confusão indescritível em que professores e alunos africanos vão ser lançados? Nos custos editoriais desnecessários em que as autoridades desses países terão de incorrer? As coisas anunciam-se de tal modo perturbantes que se acabará por desejar que, a bem da língua, a cooperação quanto ao ensino do português em África seja confiá-lo a professores brasileiros…
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Olá…só um primeiro comentário …um sintagma nominal não desempenha necessariamente a função de sujeito, logo não podemos dizer sintagma nominal= sujeito. Um sintagma nominal acaba por ser um termo genérico para um grupo mais ou menos grande de palavras cujo elemento mais importante é um nome/substantivo, logo um sintama nominal pode desempenhar várias funções numa frase complexa.
Paula, obrigado, mas isso é exactamente o que eu digo, ao referir esse equívoco. Muitos professores deram de barato que SN substituía sujeito: era SN1 para sujeito e SN2 para complemento directo. A verdade é que nunca na gramática generativa se considerou que a análise sintagmática substituía as funções sintácticas e se fez tal correspondência. O que se diz é que a função de sujeito é desempenhada por um SN ou por uma frase.
Desculpa…não devo ter bem percebido…ando um pouco atrapalhada com uma tradução (de passagem…muito interessante, pois trata-se de uma série de textos sobre arte para 20593 palavras para dia 6 /12)…ainda estou a descarregar a base de dados
beijo
mais um pequeno apontamento…o argumento que vem alimentar a “ajuda que os pais poderiam dar aos filhos” ( no artigo do VGM ) é no meu entender totalmente irrelevante. Os pais não têm que saber acerca de todas as disciplinas , dado que a única função deles é orientar e inculcar um método de trabalho, dado que o resto deve obrigatoriamente ser conseguido pelo aluno (atenção e estudo) com a ajuda do professor na sala de aula. Isto só vem ao encontro da discriminação como se apenas um aluno com pais formados teria a possibilidade de conseguir. (Não foi o meu caso em França ) tudo depende do professor e do aluno. A parte que diz respeito aos pais concerne unicamente uma estrutura e motivação. Tenho por princípio deixar as minhas filhas estudar sozinhas e saberem que tem de estudar, de facto posso, tenho alguns dados e conhecimentos para poder ajudá-las, mas na minha opinião elas não deveriam de precisar da minha ajuda se estiveram atentas nas aulas e se o professor estiver preparado e disponível para responder às suas dúvidas. É precisamente aqui que o papel dos pais, sem formação nas áreas respeitantes às disciplinas que os seus filhos têm , deve de ser importante : motivar a atenção, o estudo e o não receio de perguntar quando não sabem.
Bom…agora é mesmo o último! A discussão em torno da TLEBS está a tornar-se pouco profícua. Primeiro, porque se trata apenas de uma terminologia, segundo porque esta terminologia só pode ajudar o aluno, dado a forma tão “arrumada”, lógica e organizada como apresenta as coisas (tudo se organiza em torno do verbo, basta observar o que o verbo “precisa” e o que se encontra à sua esquerda e à sua direita). A única coisa que precisava de ser reformulada pelos nossos linguistas era uma adaptação às características da língua portuguesa.
A TLEBS é um trabalho muito profundo de revisão conceptual da gramática portuguesa e não de outra.
Se quiseres, não sei se já a tens, podes instalar no teu computador o programa da base de dados da TLEBS.
Vê em http://www.app.pt e clica em Terminologia Linguística.
Boa noite Luís,
obrigada…estas coisas da gramática são para mim iguarias muito especiais…uma delícia da língua
…demora um pouco a descarregar