Luta de classes ou de corporações?

Todos conhecemos a frase célebre do Manifesto Comunista: “Proletários de todo o mundo, uni-vos”

O mito de uma história feita de classes a lutarem umas com as outras numa polarização que põe dum lado os dominadores e do outro os dominados ainda prevalece no âmago da mentalidade da esquerda.

Essa concepção atingiu o máximo de risibilidade na última manifestação liderada pela CGTP com os juízes ao lado dos “outros” trabalhadores, unidos contra o governo. Com os patrões alheados da coisa, parece que o governo é que é a classe dominante. Só lá faltavam os deputados e os ministros que, salvo erro, não têm cortes salariais inferiores aos dos magistrados, mas infelizmente como protagonistas das leis não podiam dar voz pública ao desagrado que lhes ia na alma. Se lá estivessem, teríamos provavelmente o país unido numa manifestação contra… os mercados.

A verdade é que nem aqui nem em nenhum outro lado estiveram os proletários do país ou do mundo unidos contra a burguesia. Quem seria o proletariado ou quem seria a burguesia não é um problema fácil. Para Estaline, um pobre camponês ucraniano seria um burguês em potência. Por isso, tratou de eliminá-los aos milhares.

O que é de facto visível é que pessoas com interesses comuns se unem em defesa dos seus interesses. Trata-se essencialmente de profissões. E a sua luta tem, na verdade, do outro lado, os patrões, nuns casos, noutros, o governo, ou ainda, a sociedade inteira.

Álvaro Santos Pereira diz a respeito das lutas dos dentistas contra a invasão brasileira:

“Isto é, os protestos contra os imigrantes são muitas vezes impulsionados pelas nossas classes profissionais que frequentemente advogam restrições à chegada dos seus congéneres provenientes de outros países. Afinal, se estas mesmas classes profissionais tiverem um monopólio a proteger ou estiverem em situação privilegiada no mercado nacional (angariando rendimentos ou cobrando preços acima dos praticados internacionalmente), é claro que essas mesmas classes profissionais terão todo o interesse em tentar impedir a entrada de concorrentes estrangeiros que levarão a uma baixa dos preços dos seus serviços” (Os mitos da economia portuguesa, Lisboa, Guerra e Paz, 2007, p. 158)

Neste caso, os dentistas brasileiros fizeram de facto os preços descerem tornando menos interessante a profissão de dentista.

De modo similar, os advogados unem-se sob a direcção da sua ordem contra uma nova invasão não do estrangeiro, mas dos jovens licenciados. Essa invasão tornará a breve trecho a justiça mais barata. É evidente que isto não interessa a quem a vende. Interpuseram um exame à entrada na profissão que foi considerado inconstitucional, agora vão exigir o mestrado como habilitação mínima para exercer a advocacia. Não é possível entre lutas de interesses definir uma moral que nos permita decidir quem tem razão. O que podemos fazer é ver quem é que ganha e quem é prejudicado. Há, contudo, valores que podemos ler nas opções tomadas. Por um lado, o direito de jovens formados exercerem a profissão e concorrerem com os mais velhos. Por outro, o direito da ordem defender critérios de qualidade à entrada na profissão. Pois que tirem o mestrado e apareçam.

Quem compra a nossa dívida?

É uma conversa muito interessante no bolsa na bolsa ponto come (Veja aqui).

 

Francisco Louçã acusa os bancos portugueses de estarem a financiar-se no BCE a 1% para emprestarem ao Estado a 7%. Portanto, nós estamos a dar-lhes 6%. E isso é um grande problema para Louçã. Contudo, os bancos ao comprarem a nossa dívida estão a prestar um serviço à Nação. Eles podem comprar dívida alemã que dá menos juros, mas é mais segura, ou a grega que dá mais rendimento mas é ainda menos segura.

Será que podemos acusá-los de nos estarem a roubar? Isto é de facto um negócio dos diabos. Os governos não podem financiar-se directamente no BCE. Na verdade, eles devem financiar-se com os impostos dos seus cidadãos. Quando pedem empréstimos, é porque estão a gastar demais. Quem está mal não é quem empresta mas quem pede.

Os juros estão altos? Ora um dos factores que os fazem altos é precisamente o facto da estrutura da nossa dívida ser em 75% estrangeira. Assim, poderíamos até acusar os bancos portugueses de não investirem o suficiente no Estado, não fosse o caso de o montante da dívida nacional ser demasiado grande para os nossos bancos e de eles, como quaisquer agentes económicos, também temerem pelo risco de incumprimento.

Quanto mais se investe na dívida, maior a procura, menor o juro. Assim, porque os acusamos? Ficamos contentes por saber que o BCE nos veio comprar dívida, o que faz na intenção de ajudar os estados europeus nesta crise.

Quanto a Louçã, paciência, é vítima dum paradoxo da teoria económica marxista. Creio que nunca conseguirão abeirar-se da economia real sem preconceitos. Quando não se limitam a ter um discurso analítico e crítico e querem intervir, não sabem o que dizer e fazer.

Quem compra a nossa dívida?

É uma conversa muito interessante no bolsa na bolsa ponto come (Veja aqui).

 

Francisco Louçã acusa os bancos portugueses de estarem a financiar-se no BCE a 1% para emprestarem ao Estado a 7%. Portanto, nós estamos a dar-lhes 6%. E isso é um grande problema para Louçã. Contudo, os bancos ao comprarem a nossa dívida estão a prestar um serviço à Nação. Eles podem comprar dívida alemã que dá menos juros, mas é mais segura, ou a grega que dá mais rendimento mas é ainda menos segura.

Será que podemos acusá-los de nos estarem a roubar? Isto é de facto um negócio dos diabos. Os governos não podem financiar-se directamente no BCE. Na verdade, eles devem financiar-se com os impostos dos seus cidadãos. Quando pedem empréstimos, é porque estão a gastar demais. Quem está mal não é quem empresta mas quem pede.

Os juros estão altos? Ora um dos factores que os fazem altos é precisamente o facto da estrutura da nossa dívida ser em 75% estrangeira. Assim, poderíamos até acusar os bancos portugueses de não investirem o suficiente no Estado, não fosse o caso de o montante da dívida nacional ser demasiado grande para os nossos bancos e de eles, como quaisquer agentes económicos, também temerem pelo risco de incumprimento.

Quanto mais se investe na dívida, maior a procura, menor o juro. Assim, porque os acusamos? Ficamos contentes por saber que o BCE nos veio comprar dívida, o que faz na intenção de ajudar os estados europeus nesta crise.

Quanto a Louçã, paciência, é vítima dum paradoxo da teoria económica marxista. Creio que nunca conseguirão abeirar-se da economia real sem preconceitos. Quando não se limitam a ter um discurso analítico e crítico e querem intervir, não sabem o que dizer e fazer.

Nascer no local e no momento errados

Artigo do Educare: Nascer em Janeiro ou em Dezembro faz diferença.


Uma recente pesquisa demonstra que os franceses que nascem em Dezembro têm menos sucesso escolar do que os que nascem em Janeiro.

O estudo vai mais longe, pois demonstra que há uma correlação significativa entre estatuto social e dia de nascimento. São sobretudo as mulheres de famílias de agricultores que têm filhos no final do ano. As professoras franceses tendem a ver os seus filhos chegar ao mundo na luz da Primavera.

Uma explicação racional para este facto estará na maturidade intelectual. As crianças que entram na escola em Dezembro serão as mais novas por a lei definir o ano de entrada na escola como aquele em que as crianças cumprem seis anos de idade. Assim, a diferença na idade de entrada atinge o máximo nas crianças que fazem anos em Dezembro, pois 11 meses as separam das que nascem em Janeiro. O facto estatístico do maior insucesso escolar destas crianças deveria constituir por si só um forte aviso contra os pais que antecipam a entrada na escola dos filhos que nascem em Janeiro. A pesquisa demonstra genericamente que os mais novos a entrar na escola têm menos sucesso.

Isto coincide com a evidência dada pelos testes Pisa em que se verifica que vários dos países com melhor desempenho são de sistemas em que a entrada na escola é feita aos 7 anos. Ora, essas crianças que entram mais tarde na escola, provam aos 15 anos, idade dos testes, terem mais sucesso do que as que entraram mais cedo e vão fazer os testes com, eventualmente, mais um ano escolar.

Pode ser que se dê o caso dos professores com crianças mais novas estarem a remar contra a maré, a forçar crianças a aprender coisas da mesma maneira do que crianças quase um ano mais velhas. Um ano, em tenras idades, é todo um mundo de experiência de vida, de crescimento e de estruturação neuronal.

Esta diferença torna-se especialmente grave em programas de ensino rígidos, centrados nas matérias e não nos aprendentes. Sendo eu um defensor da existência de um currículo universal, parece-me que a progressão deve ser adaptada ao aluno. A sua integração em grupos de estudo, a que vulgarmente se chama turmas, deve ter em consideração o que ele já aprendeu antes.

Ora, a escola francesa é muito rígida a este respeito. Cada ano de escolaridade tem um programa que o aluno tem de cumprir. Quem não o consegue, fica inevitavelmente atrasado, quem o cumpre mediana ou mediocremente, tende a ficar medíocre para a vida toda. Essa rigidez está expressa nas próprias designações dos anos de escolaridade:

    • 1º ano CP (Cours preparatoire)
    • 2º ano C.E.1 (Cours Elémentaire 1ère année)
    • 3º ano C.E.2 (Cours Elémentaire 2ème année)
    • 4º ano C.M.1 (Cours Moyen 1ère année)
    • 5º ano C.M.2 (Cours Moyen 2ème année)

Estas designações definem uma lógica conteudística na aprendizagem que marcam negativamente aqueles que não conseguem acompanhar este caminho pré-concebido.

A ideia de que se fracassa num certo ano de escolaridade pressupõe que há um desenvolvimento a que todos têm que se adaptar – nem mais nem menos. Impõe a mediania tanto aos mais fracos e aos que chegam demasiado cedo como aos melhores e que chegam na hora certa.

A numeração invertida dos anos em que o 1º é o 11ème e o 5º o 7ème, torna mais flagrante o fracasso de quem não consegue chegar à “premiére”. Recordo-me da nossa confusão com o célebre texto de Marcel Pagnol que estudávamos precisamente no nosso 2º ano do ciclo preparatório em que a personagem entrava no seu “sixième” que era, para ele, o primeiro do liceu, mas que correspondia ao nosso 2º preparatório, agora 6º, porque o nosso primário tinha só 4 anos. Era pois o único ano em que a nossa contagem ascendente coincidia com a descendente deles.

Creio que a nossa situação não é melhor do que a francesa. Nas turmas das nossas escolas, temos a mesma lógica de progressão, com os correspondentes chumbos, a mesma selecção pela negativa que conflui nos CEFs, cursos de baixa exigência, tanto técnica como científica e humanística. Nâo será uma parte significativa dos alunos que fazem os CEF constituída por alunos que, num dado momento, por verificarem que não conseguem acompanhar o ritmo do “curso” previsto, desistiram de estudar? Reparem que não estou preocupado com a qualidade dos alunos que frequentam os CEF. Isto é, não acho que deveriam ser outros. O que me preocupa é a qualidade da escolaridade destes alunos, a sua preparação para a vida. Neste contexto, os CEF são um avanço, pois anteriormente, muitos destes alunos abandonavam a escola.

Tudo se resume ao seguinte: criar um sistema de gestão das aprendizagens baseado numa avaliação verdadeira, descritiva e não hierarquizadora, permitindo valorizar sempre a progressão de cada um, sem chumbos, nem recriminações.

Nascer no local e no momento errados

Artigo do Educare: Nascer em Janeiro ou em Dezembro faz diferença.


Uma recente pesquisa demonstra que os franceses que nascem em Dezembro têm menos sucesso escolar do que os que nascem em Janeiro.

O estudo vai mais longe, pois demonstra que há uma correlação significativa entre estatuto social e dia de nascimento. São sobretudo as mulheres de famílias de agricultores que têm filhos no final do ano. As professoras franceses tendem a ver os seus filhos chegar ao mundo na luz da Primavera.

Uma explicação racional para este facto estará na maturidade intelectual. As crianças que entram na escola em Dezembro serão as mais novas por a lei definir o ano de entrada na escola como aquele em que as crianças cumprem seis anos de idade. Assim, a diferença na idade de entrada atinge o máximo nas crianças que fazem anos em Dezembro, pois 11 meses as separam das que nascem em Janeiro. O facto estatístico do maior insucesso escolar destas crianças deveria constituir por si só um forte aviso contra os pais que antecipam a entrada na escola dos filhos que nascem em Janeiro. A pesquisa demonstra genericamente que os mais novos a entrar na escola têm menos sucesso.

Isto coincide com a evidência dada pelos testes Pisa em que se verifica que vários dos países com melhor desempenho são de sistemas em que a entrada na escola é feita aos 7 anos. Ora, essas crianças que entram mais tarde na escola, provam aos 15 anos, idade dos testes, terem mais sucesso do que as que entraram mais cedo e vão fazer os testes com, eventualmente, mais um ano escolar.

Pode ser que se dê o caso dos professores com crianças mais novas estarem a remar contra a maré, a forçar crianças a aprender coisas da mesma maneira do que crianças quase um ano mais velhas. Um ano, em tenras idades, é todo um mundo de experiência de vida, de crescimento e de estruturação neuronal.

Esta diferença torna-se especialmente grave em programas de ensino rígidos, centrados nas matérias e não nos aprendentes. Sendo eu um defensor da existência de um currículo universal, parece-me que a progressão deve ser adaptada ao aluno. A sua integração em grupos de estudo, a que vulgarmente se chama turmas, deve ter em consideração o que ele já aprendeu antes.

Ora, a escola francesa é muito rígida a este respeito. Cada ano de escolaridade tem um programa que o aluno tem de cumprir. Quem não o consegue, fica inevitavelmente atrasado, quem o cumpre mediana ou mediocremente, tende a ficar medíocre para a vida toda. Essa rigidez está expressa nas próprias designações dos anos de escolaridade:

    • 1º ano CP (Cours preparatoire)
    • 2º ano C.E.1 (Cours Elémentaire 1ère année)
    • 3º ano C.E.2 (Cours Elémentaire 2ème année)
    • 4º ano C.M.1 (Cours Moyen 1ère année)
    • 5º ano C.M.2 (Cours Moyen 2ème année)

Estas designações definem uma lógica conteudística na aprendizagem que marcam negativamente aqueles que não conseguem acompanhar este caminho pré-concebido.

A ideia de que se fracassa num certo ano de escolaridade pressupõe que há um desenvolvimento a que todos têm que se adaptar – nem mais nem menos. Impõe a mediania tanto aos mais fracos e aos que chegam demasiado cedo como aos melhores e que chegam na hora certa.

A numeração invertida dos anos em que o 1º é o 11ème e o 5º o 7ème, torna mais flagrante o fracasso de quem não consegue chegar à “premiére”. Recordo-me da nossa confusão com o célebre texto de Marcel Pagnol que estudávamos precisamente no nosso 2º ano do ciclo preparatório em que a personagem entrava no seu “sixième” que era, para ele, o primeiro do liceu, mas que correspondia ao nosso 2º preparatório, agora 6º, porque o nosso primário tinha só 4 anos. Era pois o único ano em que a nossa contagem ascendente coincidia com a descendente deles.

Creio que a nossa situação não é melhor do que a francesa. Nas turmas das nossas escolas, temos a mesma lógica de progressão, com os correspondentes chumbos, a mesma selecção pela negativa que conflui nos CEFs, cursos de baixa exigência, tanto técnica como científica e humanística. Nâo será uma parte significativa dos alunos que fazem os CEF constituída por alunos que, num dado momento, por verificarem que não conseguem acompanhar o ritmo do “curso” previsto, desistiram de estudar? Reparem que não estou preocupado com a qualidade dos alunos que frequentam os CEF. Isto é, não acho que deveriam ser outros. O que me preocupa é a qualidade da escolaridade destes alunos, a sua preparação para a vida. Neste contexto, os CEF são um avanço, pois anteriormente, muitos destes alunos abandonavam a escola.

Tudo se resume ao seguinte: criar um sistema de gestão das aprendizagens baseado numa avaliação verdadeira, descritiva e não hierarquizadora, permitindo valorizar sempre a progressão de cada um, sem chumbos, nem recriminações.

Die Stadt ohne Juden (A cidade sem judeus)

Este filme austríaco tem o interesse de colocar em questão o antisemitismo do seu tempo (1924), antevendo ironicamente o que viria a acontecer.

O argumento do filme foi retirado do romance homónimo de Hugo Bettauer (1872-1925), um escritor austríaco de origem judaica cuja vida decorreu entre a Áustria e os Estados Unidos da América. O romance era já um êxito quando serviu de base ao filme. Bettauer veio a Viena no momento da estreia e foi assassinado por um militante nazi.

Uma das personagens principais do filme é representada curiosamente por Johannes Riemann (1888-1959), um actor que viria a render-se ao nacional-socialismo, participando da sua ideologia e da sua cultura. Sobre a fimografia de Riemann, veja: http://www.imdb.com/name/nm0726256/

São três histórias que a pena aprofundar: a de Die Stadt ohne Juden, a de Bettauer, o escritor, o publicista de ideias políticas e sociais arrojadas, num contexto histórico e pessoal difícil e a de Riemann, um homem que aos cinquenta anos, a meio da carreira, aceita fazer de figura de proa da cinematografia nazi.

Die Stadt ohne Juden (A cidade sem judeus)

Este filme austríaco tem o interesse de colocar em questão o antisemitismo do seu tempo (1924), antevendo ironicamente o que viria a acontecer.

O argumento do filme foi retirado do romance homónimo de Hugo Bettauer (1872-1925), um escritor austríaco de origem judaica cuja vida decorreu entre a Áustria e os Estados Unidos da América. O romance era já um êxito quando serviu de base ao filme. Bettauer veio a Viena no momento da estreia e foi assassinado por um militante nazi.

Uma das personagens principais do filme é representada curiosamente por Johannes Riemann (1888-1959), um actor que viria a render-se ao nacional-socialismo, participando da sua ideologia e da sua cultura. Sobre a fimografia de Riemann, veja: http://www.imdb.com/name/nm0726256/

São três histórias que a pena aprofundar: a de Die Stadt ohne Juden, a de Bettauer, o escritor, o publicista de ideias políticas e sociais arrojadas, num contexto histórico e pessoal difícil e a de Riemann, um homem que aos cinquenta anos, a meio da carreira, aceita fazer de figura de proa da cinematografia nazi.

Pessimismo, precisa-se!

Gosto deles, do Medina Carreira, a nossa Cassandra, que, infelizmente, tem sempre razão, do Silva Lopes e de outros que conseguem ver o rei nu por debaixo das suas gabarolices.

Ver a realidade pode ser, mais que difícil, verdadeiramente insuportável.

Não sou religioso, mas foi com um fervor desse tipo que ouvi as palavras sábias deste padre.

 

 

 

Vagas em medicina: o dedo na ferida

Um dia, ao ter de pagar mais de 3000 euros por uma cirurgia a que acresciam cerca de 500 euros para o anestesista que não estaria em cena mais do que meia-hora, perguntei-me por que seriam estes montantes tão altos. Sabia que o médico, após a operação, teria um dia de trabalho normal no hospital e no seu consultório privado, isto é, com inúmeras consultas para facturar.

Constatava também que não havia mercado concorrencial na medicina privada que justificasse o meu preço como resultado de uma escolha de qualidade perante a oferta disponível.

Ao reflectir sobre isto, em nenhum momento pus em questão a pessoa do cirurgião que muito estimo, mas que tinha a sorte de estar numa profissão paga a peso de ouro.

Foi nessa altura que dei com um artigo do Expresso que mostrava um gráfico com o número de vagas de acesso anual aos cursos de medicina em Portugal. Por volta do final da década de 70 e princípio de 80, o número de vagas diminuía extraordinariamente. Eu perguntava-me: “mas Portugal ficou de repente com menor capacidade para formar médicos?”

 

De acordo com

Do Plano estratégico para a formação nas áreas de saúde II.

 

Agora, o ministro Mariano Gago vem pôr o dedo na ferida ao declarar abertamente na última Única (revista do Expresso):

“Houve uma redução horrível nos anos 80, em que se autorizaram todas as faculdades de medicina a receber menos alunos do que hoje qualquer grande faculdade recebe. Essa irresponsabilidade política, que teve origem corporativa, pagou-se cara, e foram precisos muitos anos para inverter a situação, aumentar o número de vagas e termos uma oferta minimamente razoável, que ainda tem de aumentar”

Não é o que pensam muitos responsáveis corporativos. Todos querem controlar o número de médicos, para diminuírem a oferta e manter elevados, os salários e os preços dos serviços de saúde. Declaram que as actuais cerca de 1600 vagas já são demais. A verdade é que todos temos conhecimento de casos de jovens que vão para o estrangeiro estudar medicina. Os argumentos que apresentam não colam. Um exemplo Vagas de Medicina geram críticas“.

O actual bastonário protesta, que nunca se teria metido nesses assuntos. Tanto cuidado não teve um ex-bastonário Gentil Martins que precisamente se associa à queda referida das vagas para Medicina.

 

Que corporações conseguem controlar a oferta, impedindo inúmeros jovens de seguir essas vias? Os médicos conseguiram-no, os advogados tentam fazê-lo a todo o custo, os professores, esses, pululam por todo o lado. Não há escola que não os forme… para o desemprego.

Desculpas públicas

Agora, de cabeça fria, considero inexacto e calunioso o post “Rui Correia, o senhor Winston da blogosfera”, na parte final em que acuso o autor do blogue referido de falsear comentários. Num post seu, Rui Correia acusara-me sem me nomear, mas referindo a lista que eu encabeçara, de ser um adesivo da direcção da minha escola e de ser uma pessoa venal, que participava na lista para pagar favores.

No calor da discussão desse post, vi desaparecer comentários que eu queria rever. Como julgava que não era possível apagar comentários sem apagar o próprio artigo, pensei que o autor do comentário anónimo era o próprio dono do blogue. Agora sei que o dono dum blogue pode fazer quase tudo, em termos de edição. Mas, naquele momento, fiquei extraordinariamente nervoso, não só pelo apagamento dos meus comentários, mas também pela suspeita e, no fim, afirmei o que não devia, o que não tenho evidências para declarar. Nem o título do artigo é, neste contexto, pertinente.

Aqui estão as minhas desculpas à pessoa que ofendi e o anúncio de que vou, pela primeira vez, apagar alguma coisa deste blogue, para que não permaneça escrito o que não é justo.