Há temas poéticos?

Para muitas pessoas a simples referência a poesia aponta logo para grandes temas como a morte, a vida, o mistério da existência, o amor, o sonho. É de tal maneira que basta simplesmente enunciar estes temas para logo surgir entre estes o da poesia. E, por vezes, alinham-se algumas linhas quebradas a que se chama “versos” sobre estes grandes temas, para logo se pensar que se está a fazer poesia.

Se bem que estes temas sejam objectos privilegiados de poesia, eles podem ser trabalhados de uma forma bem prosaica, sem o mínimo lirismo, nem de nada que os transforme em poema. Nem o simples acrescentar de rima e metro, transformará a coisa em poesia.

Por outro lado, há temas que não diríamos poéticos, à partida, mas que podem ser objecto de poemas. Se se demonstrar que é esse o caso, concluiremos que a poesia não está tanto na gravidade dos temas, mas sim no trabalho de criação verbal. E então, o amor, a vida, o sonho e a morte não serão em si próprias coisas poéticas. Não serão mais poéticas que a guerra, a fome e o sofrimento. Não serão mais poéticas do que uma panela ao lume ou que uns sapatos engraxados a brilhar ao sol, ou que um cão a mijar numa esquina.

Poéticas são as palavras que escrevemos sobre o amor, a vida, a morte, a guerra, a fome, a panela ao lume, os sapatos engraxados a brilhar ao sol ou um cão a mijar numa esquina.

Se repararmos nesta estrofe do Cesário Verde:

Ó pobre estrume, como tu compões
Esses pâmpanos doces como afagos!
“Dedos de dama”: transparentes bagos!
“Tetas de cabra”: lácteas carnações!

É do estrume que se fazem os bagos de uva, tal como a poesia. Se quisesse alongar este pequeno ensaio iria buscar exemplos de todas as épocas, e, por excelência, os da época contemporânea, de Lautréamont a Herberto Hélder, entre muitos outros. Lautréamont faz do Inferno, da morte e do horror, o seu objecto poético.

Pelo contrário, como não sou um bom poeta, posso-me socorrer de temas ilustres e limpos para fazer um poema. Mas nessa não caio eu. Quando fizer um poema será com muito trabalho verbal, muito artesanato, muitas folhas rasgadas, muita procura da expressão através dos vários jogos possíveis que a palavra escrita proporciona, desde as sonoridades, rimas, aliterações aos jogos de sentido das metáforas, alegorias, imagens, personificações, sinédoques, metonímias, quiasmos, etc… E podem crer, se o fizer, pensarei vinte vezes antes de chamar a minha composição de poema. E então sujeitá-lo-ei ao fogo da vossa leitura. Mas até lá, estarei calado.

Índios encurralados em Roraima

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A criação oficial da reserva Raposa Serra do Sol, hoje assunto do New York Times, é uma reivindicação dos Índios de Roraima e uma promessa eleitoral do Presidente Lula da Silva. Na região, que se situa no norte do Brasil junto da fronteira com a Guiana e a Venezuela, há velhos índios que ainda se recordam de na sua infância não verem nenhum branco por perto.

Agora as suas terras estão a ser invadidas por brasileiros que aparecem com títulos de propriedade ou direitos de ocupação. Os militares instalam uma base, nascem armazéns, constrói-se uma pista de aviação, plantadores de arroz desviam águas de cursos de água essenciais para os índios, aparece uma escola técnica e fundam-se os princípios de uma cidade. Raposa Serra do Sol começa a ficar dividida, retalhada por todos os lados.

Acontece que o governador do estado de Roraima, um grande opositor do registo oficial da reserva, aderiu ao Partido dos Trabalhadores. Os índios sentem que em Brasília o seu problema não avança. Terá Lula traído mais esta promessa feita aos povos indígenas?

Aprisionados pela sociedade industrial, sem meios para impor os seus interesses, ameaçados por agricultores ricos, madeireiros, mineiros e por milhões de outros pobres, produto da emigração e do subdesenvolvimento económico e social, os índios encontram-se à margem, mas essa margem é a margem da nossa esperança de salvação do ecossistema mundial e, em última análise, da própria humanidade.

Se por um lado repudio a defesa do estado actual do índio, como parece razoável para muitos rousseaunianos, nostálgicos dos tempos de ouro da etnologia, por outro, reivindico a proprieade de extensos territórios tropicais para as populações que ainda lá vivem com modos de vida pré-industriais e o direito de evoluírem na direcção da modernidade de acordo com as suas possibilidades e interesses.

Neste caso, estou com os índios de Roraima.

(Imagem retirada de www.markos.it/ umanita/21.htm).

Na história da revolução russa – determinismo e acaso

O discurso histórico marxista apresenta a revolução bolchevique de 1917 como um evento necessário, que teria de ocorrer como resultado do desenvolvimento do capitalismo. De acordo com a dialéctica do materialismo histórico, o capitalismo continha em si a força que o destruiria – o proletariado. A revolução socialista estava como que antecipadamente inscrita na ordem das coisas, no devir histórico.

De acordo com esta perspectiva, quando o acontecimento se dá na Rússia, é como se este país tivesse sido eleito pela história para dar início a um novo ciclo. No período que antecedeu a revolução, os intelectuais do Partido Operário Social Democrata (POSDR) discutiam a questão do estádio histórico em que o país se encontrava para determinar que tipo de revolução se faria, se a democrática burguesa, se a socialista, proletária. A Rússia estaria ainda dominada por relações de produção feudais e, segundo alguns, ela precisaria de uma revolução democrática burguesa que acabasse com a velha aristocracia caduca e desenvolvesse plenamente as forças produtivas capitalistas.

É verdade que a Rússia tinha tido um desenvolvimento notável com feitos como a construção do trans-siberiano e Moscovo, S. Petersburgo e Odessa eram áreas industriais onde se acotovelava um proletariado significativo. Mas na maior parte do país, predominavam o campesinato e as relações senhoriais tipicamente feudais, na acepção marxista destas expressões, evidentemente. Lenine, impaciente para fazer a revolução, defendia que a classe operária, apesar de minoritária, deveria fazer a revolução socialista. À tese marxista clássica que implicava o pleno desenvolvimento do capitalismo como pré-condição da revolução, defendida pela ala menchevique do POSDR, Lenine impunha a sua, que via o sistema capitalista como um todo internacional, a 1ª Guerra Mundial como uma guerra imperialista, inevitável no estádio mais avançado do capitalismo. Assim, a revolução não teria que esperar pelo desenvolvimento das condições sócio-económicas da Rússia, pois ela enquadrava-se na situação mundial. A revolução ocorreria no elo mais fraco do sistema, que era a Rússia, que se integrava no sistema imperialista com muitas debilidades.

Apesar deste desvio criativo de Lenine, continuamos a ter um esquema determinista: a guerra imperialista é um resultado necessário do desenvolvimento do capitalismo a nível mundial; a revolução socialista é algo que tem que acontecer, a questão é apenas onde, quando e como; a guerra empurra a Rússia para as condições óptimas da revolução. A acção política voluntariosa dos bolcheviques apenas apressa e dá à Rússia a glória de iniciar um processo que a dialéctica histórica inscrevia na história do mundo.

À teoria do elo mais fraco, vou agora trazer uma outra que vi recentemente num programa de televisão sobre a história da hemofilia. A rainha Vitória da Inglaterra teve uma enorme quantidade de filhos, netos e bisnetos. Esses príncipes, princesas e princesinhos casaram-se pela Europa fora, dado o enorme prestígio da Imperatriz e do seu vasto Império onde o Sol nunca se punha. Ao casarem-se espalharam a sua herança genética pela nobreza europeia, com benefícios e prejuízos evidentes, como acontece com todos nós, quando damos e recebemos genes. Na conta dos prejuízos, estava o gene da hemofilia. O Czar Nicolau II casara com a princesa Alexandra Ferodovna, um neta da Rainha Vitória. Alexandra apesar de não sofrer de hemofilia era portadora da doença. Alexis, filho de Alexandra Ferodovna, nascido em 1904, foi sempre uma criancinha doente, com frequentes hemorragias, decorrentes da doença. Foi por causa dos problemas de saúde de Alexis que a czarina Alexandra trouxe para a corte o monge e místico Rasputine que tinha a fama de fazer milagres.

Antes da guerra de 1914, parece que o Czar tinha a situação política e social sob controle. Mesmo na célebre derrota de 1905, frente ao Japão, e nas acções políticas e reivindicativas operárias subsequentes, a popularidade do Czar manteve-se, apesar da violência da repressão e do seu poder autocrático. 1913 fora mesmo um ano de grande sucesso económico, com metas de produção agrícola e industrial que só seriam ultrapassadas na década 30.

Contudo, a guerra de 1914-18 levara o Czar para a frente da guerra contra a Alemanha. A czarina ficara só com o governo nas suas mãos e sob o domínio quase absoluto do iletrado milagreiro Rasputine que substituiu muitos dos responsáveis governamentais por homens da sua confiança. Há quem diga que as medidas governamentais tomadas durante a ausência do Czar foram um verdadeiro desastre e conduziram a uma revolta quase geral contra os Romanov, tanto por parte da nobreza, como da burguesia e das massas populares. O principal alvo destes descontentamentos era Rasputine que acabou assassinado em 1916.

A guerra, as dificuldades de conjuntura económica adversa desses anos, criaram terreno fértil à acção política dos movimentos radicais, entre os quais se encontrava a ala bolchevique do POSDR. A revolução de Fevereiro pôs fim ao czarismo, mas não passou, na terminologia marxista-leninista de uma breve revolução “burguesa”, que uns meses depois cedia lugar à gloriosa revolução socialista.

Certo é que Rasputine tornou-se um tópico obrigatório na história da revolução russa. Falta saber até que ponto a doença do pequeno Alexis foi causadora da ida de Rasputine para a corte e proporcionou a acção deste no catalisar da oposição ao Czar e no eclodir da Revolução de Fevereiro que conduziria à de Outubro.

Os defensores da teoria do caos dizem-nos que o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode provocar um furacão na América. Será este caso da hemofilia, o bater de asas de uma borboleta que deu origem à Revolução Russa?

“Dar origem a” parece-me algo exagerado em termos de causalidade. Teríamos que colocar em confronto o factor Rasputine perante o factor guerra e muitos outros na génese desse fenómeno. A importância de tal bater de asas não será com certeza maior do o que a de qualquer outro efeito de conjuntura económica, social ou política que o leitor possa apresentar, mas é, pelo menos, mais um facto a questionar-nos, a nós, que chegámos a ver a Revolução de Outubro como um dos mais gloriosos momentos da história da humanidade.

Como morreu Mod Saleh (2)

A guerra das imagens continua. Agora é uma maca que se faz passar por uma metralhadora e a mochila duma criança que se faz passar por um saco de bombas.

Do Expresso (9/10/2004):

“Em Rafah (sul da faixa de Gaza), uma menina de 13 anos foi morta com vinte balas, também quando ia para a escola. A Força de Defesa Israelita alegou que os soldados julgavam que a criança tinha uma bomba na mochila. Mas eram livros”.

O caso da maca opõe a ONU a Israel que acusa as ambulâncias da organização de transportarem guerrilheiros do Hamas.
Numa altura em que o número de mortos já atinge os 90, na actual campanha (9 de Outubro de 2004), temos que nos perguntar se Israel tal como o Hamas, o Hezbolah e a Al-Qaeda, não deve ser colocado no index das organizações terroristas internacionais.
Se se verificar que a acção israelita, para além do seu objectivo de procurar guerrilheiros, visa também criar um ambiente de medo entre os palestinianos comuns de modo que estes culpem os movimentos fundamentalistas pelas represálias israelitas, não haverá diferença entre a estratégia de Israel e a dos seus opositores.
Mas o alcance do terrorismo do estado de Israel pode ser ainda mais maquiavélico: acirrar ainda mais os movimentos radicais e produzir mais atentados suicidas para desacreditar completamente a Autoridade Palestiniana que não tem nem capacidade nem vontade de acabar com o terrorismo islâmico.

Como morreu Mod Saleh?

View image Mod Saleh era um jovem palestiniano de 21 anos que foi vítima da violência policial sionista. Esta é a informação que consta de um documento que circula na Internet e que me chegou à caixa de correio, reencaminhado por um amigo. Mod Saleh seguia pacificamente o seu caminho, quando foi mandado parar pelos agentes de autoridade israelita. Estes revistaram-no até ao ponto de o despirem, deixando-o de cuecas. Foi, então, que, sem mais, um dos seis ou sete agentes presentes atira a matar, apontando directamente ao crânio do jovem, já despido e prostrado no chão, apesar de Mod Saleh não ter o menor indício de ser um bombista suicida. Esta é a história que vem no texto, acompanhado de uma série de cinco fotografias que são apresentadas como prova documental. Tentei avaliar cuidadosamente as fotos, para ver até que ponto é que elas suportavam esta versão. Pois, mesmo assim contada, aparece em falta um elemento essencial: o motivo do crime. Por que razão havia um agente de matar um detido perante seis testemunhas, embora seus colegas? No acto do crime, observa-se o movimento nervoso de três outros agentes e um deles a dar o tiro que desfaz a cabeça do jovem. Por que motivo o haviam de matar, depois de o despirem e de observarem que ele não tinha nenhum cinto com bombas? Pura violência gratuita, puro genocídio! A polícia israelita anda a matar jovens palestinianos, um a um, depois de os despir! “A fotografia fala por si!”, diz na legenda da última fotografia em que aparece o corpo inteiro de Mod Saleh deitado no chão. Mas a verdade é que as imagens não falam por si. Como sugere Wim Wenders, uma imagem sem palavras não diz nada. Pelo contrário, as palavras podem fazer muito a favor do sentido das imagens. Ampliei então as fotografias o máximo que pude apesar da sua péssima qualidade e concluí: não é possível através delas concluir se Mod Saleh tem ou não um cinto com bombas à sua volta. Quando digo isto, imagino que um cinto com bombas tem a dimensão de um pequeno chumaço à volta da cintura. Mas, para dizer a verdade, não sei se um cinto de bombista pode ou não ser ainda mais pequeno do que eu o imagino. Fiz então o seguinte exercício: se aquilo fosse o clip dum filme, que imagens poderiam estar em falta? E concluí que podiam faltar muitas e que bastaria uma para mudar a história toda. À procura de fotografias de melhor qualidade, pesquisei a Internet sobre o assunto. Encontrei as mesmas fotos em muitos sítios, vários deles de publicidade explicitamente palestiniana ou de esquerda revolucionária europeia (http://www.dewaarheid.nu/wereldcrisis/saleh.htm e http://www.parker.firenze.net/orrore.htm, por exemplo). A sequência era exactamente a mesma, na maior parte dos sítios. Encontro finalmente um sítio que acrescenta uma fotografia às imagens das outras. De acordo com este documento, entre a penúltima e a última fotografia apresentada pela propaganda palestiniana, falta de facto uma imagem em que se vê um carro, um robot, a retirar um cinto com bombas do corpo inerte do jovem (http://www.elettrosmog.com/orrore/). Essa fotografia não tinha melhor qualidade do que as outras, mas dava coerência à história: os polícias mataram o jovem quando descobriram o cinto e recearam que ele o fizesse explodir, matando-os. E se fosse um erro? Se os polícias tivessem confundido alguma coisa com bombas e, um deles, demasiado nervoso, tivesse puxado o gatilho? Que leitura política poderíamos fazer desse facto, além de que há bombistas e polícias que têm como função prendê-los e que eventualmente se enganam tragicamente? Será que podemos dizer que esses polícias terão um comportamento diferente, consoante o governo seja de Ariel Sharon ou de Shimon Peres, neste aspecto específico? Trazer a este assunto a política de Sharon é uma manobra retórica bem conhecida, a amálgama, que consiste em juntar coisas diversas sob o mesmo rótulo. Quer a morte de Saleh se deva a um erro quer a uma acção policial bem-sucedida, quer Saleh tenha sido um bombista quer tenha sido uma vítima inocente, é de todo improvável que haja ordens do governo de Sharon para matar todos os jovens palestinianos que como Saleh tenham aspecto de bombistas. Ou, então, se é esse o caso, é preciso demonstrá-lo com muito mais provas. Considero a política de Sharon má e assassina, mas não por causa de factos deste género. A verdade é que um governo trabalhista não terá menos problemas com bombistas. E os radicais que agora criticam a acção policial sob Sharon, continuarão a fazê-lo, como já o fizeram, sob um governo trabalhista. Para os que procuram o conforto da distinção clara entre o lado do bem e da razão e o lado do mal e do erro, afigura-se-me difícil a decisão: quem está certo é o governo de Sharon que defende os colonatos israelitas e ataca à bruta os líderes do Hezbolah, do Hamas e dos Máritres de Al Aqsa ou a Autoridade Palestiniana que nada faz contra os bombistas suicidas e que dá total liberdade de movimentos a esses grupos? Não é fácil optar por um lado merecedor do nosso apoio a não ser que declaremos de uma vez por todas que concordamos com o objectivo político do Hamas que é destruir totalmente o Estado de Israel.

Sem rede

Escrever é sempre um risco. Ao contrário do dizer que se desevanece constantemente no fluir linear do discurso, a palavra escrita conquista a dimensão da superfície e torna para sempre, presentes, em simultâneo, o antes e o depois, o começo, o meio e o fim. Não deixará subterfúgios, nem escapatória para racionalizações, justificações ou acertos a posteriori. As premissas estarão ao lado das conclusões. As teses e posições defendidas poderão sempre ser reavaliadas, mas, uma vez escritas, tornadas públicas já não pertencerão mais ao autor. Pelo contrário, será ele que se tornará um pouco parte daquilo que escreveu, na medida em que aquele que escreve é apenas um elemento da identidade do texto. No mínimo será origem, no máximo, Escritor. Seja como for, cada risco que traça, será sempre um risco que corre em vários aspectos: o jurídico, o literário e o político, entre outros. Por tudo isso, parece-me que passarmos do oral ao escrito, é como abandonarmos o chão seguro do espaço oral, privado, para, como um trapezista sem rede, nos lançarmos no espaço vão onde a queda se adivinha a cada instante.