Paulo Prudêncio na SIC online – alguns comentários

Foi com muito prazer que vi na SIC online, o Paulo Prudêncio, uma referência da comunidade escolar a que pertenço.

Não tive a oportunidade de ver o programa em directo; vi-o através das janelas inseridas no Correntes (http://correntes.blogs.sapo.pt/788493.html).

Revi com muita atenção todas as questões colocadas e as respostas dadas. À primeira questão, o Paulo responde com um raciocínio muito complexo, mas que acabou por ser muito pouco assertivo. Vários intervenientes ficaram com a sensação de que ele era contra o fecho de escolas com menos de 20 alunos ou que não reconhecia qualquer mérito a esta medida. Eu não teria a menor dúvida em concordar com essa decisão. Sem dúvida, que por arrasto vêm outras questões, como a qualidade nas escolas para onde são remetidos esses alunos, o software, evidentemente, a gestão e a organização da aprendizagem.

Uma ideia interessante apresentada é a das variáveis do sucesso em que o professor vale apenas 10%. Isso pode ser verdade em termos diferenciais ou marginais, se quisermos. O que a minha filha aprendeu de Matemática no 9º ano é devido em 100% ao trabalho da sua professora de Matemática, porque ela estuda em função das exigências da professora e sem essas exigências e sem as suas lições, a minha filha saberia menos 100% do que aprendeu.

Ora, aquilo a que chamamos sucesso não tem a ver com o facto da aprendizagem efectiva, mas com o reconhecimento de que ela correspondeu às exigências da professora e do programa. Então, o que está em jogo aqui é o efeito do trabalho da professora no sentido de fazer com que o aluno ultrapasse as barreiras que ela própria lhe põe à frente. É aí que as capacidades cognitivas do aluno entram em jogo, assim como as expectativas dos pais o que está comprovado tem muito a ver com rendimento, classe social e grau de instrução.

Este jogo perverso não nos devia interessar muito, pois a própria definição de uma programa de aprendizagem não pode ser feita nem por baixo nem por cima, mas pela média, significando sempre necessariamente que muitos não o conseguem cumprir com o tempo e as condições de que dispõem enquanto alguns o realizarão melhor e mais depressa.

Sérgio Alves tem razão em dizer que a acção do Magalhães e a renovação do Parque Escolar são boas medidas. Eu se lá estivesse, de certeza que faria má figura, metia os pés pelas mãos, teria também um raciocínio cheio de “nuances”, mas aqui, de cabeça fria, acho que tenho que reconhecer bondade a estas políticas, sem deixar contudo de criticar duramente os problemas que elas colocam.

A ideia do Magalhães, por exemplo, não nasceu em Portugal. Foi um projecto do MIT com a liderança do famoso Negroponte que depois foi copiada pela Intel na criação do “class mate computer” que é, ao fim e ao cabo, o Magalhães. O que é que a escola deve fazer para dar rendimento pedagógico ao Magalhães é outra questão.

Não tenho opinião formada sobre as “novas oportunidades”, mas gostei de ver o Paulo a valorizar a certificação de competências por pessoas que deixaram de ir à escola. O que eu tenho ouvido dizer é que a escola põe-se a avaliar o curriculum vitae das pessoas num aspecto muito global, o que me parece que excede a competência dos certificadores. Acho que a escola devia restringir-se aos saberes que cultiva – sejam eles de ordem académica ou profissional. As pessoas devem ir à escola para esta lhes dar o que tem para oferecer e não para a escola ver o que é que as pessoas já aprenderam durante a sua vida.

Na discussão sobre os mega-agrupamentos parece-me haver uma confusão entre a dimensão da escola e o agrupamento de escolas pequenas numa única mega-unidade de gestão. A dimensão das escolas não está aqui em causa, como se sugere com a comparação com outros países que estão na onda do downsizing das escolas. Cada uma, por mais pequena que seja, terá necessariamente uma gestão própria, mas inserida numa mega-unidade. Dito isto, não estou nem a defender nem a rejeitar esta política.

Nuno Figueira tem razão quanto à necessidade de exames e certificações externas, especialmente no final do Ensino Básico. Mas um exame deve ser visto como um certificado da qualidade da aprendizagem. A distinção entre “passar” e “chumbar” não faz grande sentido. Imagine uma série de graus – como o sistema inglês em que a distinção vai de A a G. Para um curso de formação de canalizadores, o F a Matemática poderia chegar, o que significaria que o aluno sabe, por exemplo, fazer operações de aritmética simples e medições, mas não bastaria para fazer um curso de engenharia. Pense-se no seguinte: certificar é dizer o que uma pessoa sabe e é capaz de fazer e não aquilo em que ela falhou. Um outro comentador fez muito bem a distinção entre avaliação e classificação.

São apenas alguns comentários. Peguei nos aspectos em que poderia contrapor algo.

Paulo Prudêncio na SIC online – alguns comentários

Foi com muito prazer que vi na SIC online, o Paulo Prudêncio, uma referência da comunidade escolar a que pertenço.

Não tive a oportunidade de ver o programa em directo; vi-o através das janelas inseridas no Correntes (http://correntes.blogs.sapo.pt/788493.html).

Revi com muita atenção todas as questões colocadas e as respostas dadas. À primeira questão, o Paulo responde com um raciocínio muito complexo, mas que acabou por ser muito pouco assertivo. Vários intervenientes ficaram com a sensação de que ele era contra o fecho de escolas com menos de 20 alunos ou que não reconhecia qualquer mérito a esta medida. Eu não teria a menor dúvida em concordar com essa decisão. Sem dúvida, que por arrasto vêm outras questões, como a qualidade nas escolas para onde são remetidos esses alunos, o software, evidentemente, a gestão e a organização da aprendizagem.

Uma ideia interessante apresentada é a das variáveis do sucesso em que o professor vale apenas 10%. Isso pode ser verdade em termos diferenciais ou marginais, se quisermos. O que a minha filha aprendeu de Matemática no 9º ano é devido em 100% ao trabalho da sua professora de Matemática, porque ela estuda em função das exigências da professora e sem essas exigências e sem as suas lições, a minha filha saberia menos 100% do que aprendeu.

Ora, aquilo a que chamamos sucesso não tem a ver com o facto da aprendizagem efectiva, mas com o reconhecimento de que ela correspondeu às exigências da professora e do programa. Então, o que está em jogo aqui é o efeito do trabalho da professora no sentido de fazer com que o aluno ultrapasse as barreiras que ela própria lhe põe à frente. É aí que as capacidades cognitivas do aluno entram em jogo, assim como as expectativas dos pais o que está comprovado tem muito a ver com rendimento, classe social e grau de instrução.

Este jogo perverso não nos devia interessar muito, pois a própria definição de uma programa de aprendizagem não pode ser feita nem por baixo nem por cima, mas pela média, significando sempre necessariamente que muitos não o conseguem cumprir com o tempo e as condições de que dispõem enquanto alguns o realizarão melhor e mais depressa.

Sérgio Alves tem razão em dizer que a acção do Magalhães e a renovação do Parque Escolar são boas medidas. Eu se lá estivesse, de certeza que faria má figura, metia os pés pelas mãos, teria também um raciocínio cheio de “nuances”, mas aqui, de cabeça fria, acho que tenho que reconhecer bondade a estas políticas, sem deixar contudo de criticar duramente os problemas que elas colocam.

A ideia do Magalhães, por exemplo, não nasceu em Portugal. Foi um projecto do MIT com a liderança do famoso Negroponte que depois foi copiada pela Intel na criação do “class mate computer” que é, ao fim e ao cabo, o Magalhães. O que é que a escola deve fazer para dar rendimento pedagógico ao Magalhães é outra questão.

Não tenho opinião formada sobre as “novas oportunidades”, mas gostei de ver o Paulo a valorizar a certificação de competências por pessoas que deixaram de ir à escola. O que eu tenho ouvido dizer é que a escola põe-se a avaliar o curriculum vitae das pessoas num aspecto muito global, o que me parece que excede a competência dos certificadores. Acho que a escola devia restringir-se aos saberes que cultiva – sejam eles de ordem académica ou profissional. As pessoas devem ir à escola para esta lhes dar o que tem para oferecer e não para a escola ver o que é que as pessoas já aprenderam durante a sua vida.

Na discussão sobre os mega-agrupamentos parece-me haver uma confusão entre a dimensão da escola e o agrupamento de escolas pequenas numa única mega-unidade de gestão. A dimensão das escolas não está aqui em causa, como se sugere com a comparação com outros países que estão na onda do downsizing das escolas. Cada uma, por mais pequena que seja, terá necessariamente uma gestão própria, mas inserida numa mega-unidade. Dito isto, não estou nem a defender nem a rejeitar esta política.

Nuno Figueira tem razão quanto à necessidade de exames e certificações externas, especialmente no final do Ensino Básico. Mas um exame deve ser visto como um certificado da qualidade da aprendizagem. A distinção entre “passar” e “chumbar” não faz grande sentido. Imagine uma série de graus – como o sistema inglês em que a distinção vai de A a G. Para um curso de formação de canalizadores, o F a Matemática poderia chegar, o que significaria que o aluno sabe, por exemplo, fazer operações de aritmética simples e medições, mas não bastaria para fazer um curso de engenharia. Pense-se no seguinte: certificar é dizer o que uma pessoa sabe e é capaz de fazer e não aquilo em que ela falhou. Um outro comentador fez muito bem a distinção entre avaliação e classificação.

São apenas alguns comentários. Peguei nos aspectos em que poderia contrapor algo.

Ideias feitas sobre a constituição das turmas

 

(de labirintosnosotao.com)

 

Estou a começar um novo ano lectivo cheio de expectativas. Como sou um simples professor e não faço parte da élite administrativa da escola, é sempre cheio de pontos de interrogação que olho para os expositores de listas de turmas e horários.

Que turmas me vão atribuir? Como são constituídas?

A este respeito, há muitas ideias feitas. Por exemplo, os alunos com comportamentos mais perturbadores devem ser dispersos pelas turmas e as turmas devem ser equilibradas quanto ao desempenho dos alunos.

Não me parece que com estas receitas se vá longe, pois a experiência tem-me mostrado frequentes casos em que um ou dois alunos podem perturbar muito uma boa turma sem que eles próprios saiam beneficiados dessa inclusão.

Dipersar alunos de baixo desempenho escolar pelas turmas aumenta a dificuldade do professor em acomodar tantos ritmos de aprendizagem diferentes. Provavelmente, seria melhor juntá-los de acordo com os seus pontos mais fracos, sejam a leitura, o cálculo, a ortografia ou a elaboração de pequenos textos, para terem o tempo da sala de aula totalmente dedicado ao nível em que se encontram.

E os horários das turmas? Como devem ser? Nas nossas escolas, há sempre turmas que têm as disciplinas de estudo (principalmente, Língua Portuguesa, Matemática, Língua Estrangeira e Ciências) da parte da tarde e outras, da parte da manhã. Algumas ainda têm a pouca sorte de ter essas disciplinas que exigem maior concentração aos últimos tempos.

Neste aspecto, tendo em conta os estudos que têm sido feitos, não tenho dúvidas: os alunos mais fracos devem ter prioridade em ter essas disciplinas de manhã e nunca aos últimos tempos da tarde.

Houve uma vez uma denúncia da nossa antiga ministra de as escolas colocarem as turmas de melhor desempenho da parte da manhã e as mais fracas à tarde. Acho que as escolas deviam tentar sair deste retrato. Como será na minha? Podia-se fazer uma análise estatística muito simples, com classes de rendimento da família e descobrir se a probabilidade de um aluno de um rendimento mais baixo ter o seu horário de manhã é maior ou menor do que um de um rendimento mais alto.

Teacher Man de Mc Court

Teacher Man de Frank Mc Court é um delicioso registo autobiográfico que muito tem a dizer àqueles dos seus leitores que também foram ou são professores. É de um percurso problemático e não de uma história de proveito e exemplo que o livro trata.

Com a sua narrativa, Frank conduz-me à ideia de que façamos o que fizermos, quaisquer que sejam as teorias psico-pedagógicas que adoptemos, o que fica são fatias de vida únicas, de professores e alunos. Quer me parecer ser essa a principal lição dos professores que se podem classificar como pertencentes ao paradigma afectivo, caso de Mc Court e do nosso Sebastião da Gama.

Mais do que a conformidade a um programa ou a um ideário técnico-pedagógico, eles buscam uma relação significativa. Apercebem-se da realidade existencial e única do encontro pedagógico. O aluno deixa de ser um elemento sujeito a um processo padronizado, cujos resultados se podem avaliar e comparar para se tornar numa pessoa com quem o professor tem de estabelecer uma relação que é sempre de ordem afectiva.

Se um aluno está fora da situação da aula, há sempre um problema que tem necessariamente contornos afectivos. “Dar matéria”, neste âmbito, é o que menos importa, sobretudo em disciplinas, como a leitura e a escrita em língua materna, oficial, para ser mais preciso, pois muitos a têm como castelhana, chinesa, coreana ou vietnamita e não “standard english”.

Não se trata, como já disse, duma apologia duma certa maneira de estar na profissão docente, embora muitos leitores o leiam assim. Se o fosse, o valor literário do texto perdia-se em muito. Nesta recensão, não posso também acusar, criticar ou defender a orientação pedagógica do professor Mc Court, “tout court”, pois o que aqui está em causa é precisamente uma experiência de vida, com que se pode aprender mais do que em muitos compêndios de psicopedagoia.

O professore Mc Court começa precisamente por ser, como muitos outros professores, alguém que tem que sobreviver e não alguém que escolheu ser professor por vocação. O seu objecto era desde o início o trabalho literário ou sobre a literatura.

O seu texto parece-me um inventário das situações vividas pela generalidade dos professores, pois reconheço nas suas histórias muito do que vejo acontecer na carreira de muitos professores.

Começou a dar aulas em escolas secundárias técnicas que nós hoje em Portugal resumiríamos com a sigla “CEF”, isto é, tinha que leccionar inglês a rapazes que tinham como horizonte de vida ser canalizadores. Por isso, o título do primeiro capítulo é significativo: “It´s a long road to pedagogy”. Mc Court tenta sobreviver como professor o que implica conquistar os seus alunos, o que não é feito sem vítimas e sem retrocessos, pois acontecem inúmeros incidentes, por exemplo, conflitos pessoais com alunos que o levam a não ter o seu contrato renovado no ano seguinte.

Mc Court lastima a sua necessidade dessa conquista afectiva, desse reconhecimento perante a turma. O “novo professor” é o bombo da festa a ser testado pelos jovens alunos. Quando consegue ter a turma quase toda na mão, encontra o último obstáculo, um aluno que desafia a sua autoridade. O professor está no bando e tem de conquistar a liderança contra um rival. Aqui surge a panóplia de truques – cada tem os seus – e Mc Court limita-se a narrar os factos, de como obteve o reconhecimento.

Para dominar a assistência, Mc Court descobriu uma receita notável: narrar histórias comoventes da sua infância em Limerick, na Irlanda. Os alunos também aprenderam a distrair o professor com perguntas sobre o seu passado na Irlanda. Depressa Mc Court compreendeu a estratégia: evitar as lições de “spelling” e os exercícios, distraindo o professor com a sua “miserable childhood”. Entre professor e narrador, Mc Court viveu uma missão difícil nestas escolas, onde, parece se ter tornado numa referência na biografia dos seus alunos.

Facto exemplar desta situação é o passeio de Mc Court com vinte e cinco raparigas negras na baixa de Nova Iorque. O professor atrevera-se a levar ao cinema as alunas de uma certa turma que mais nenhum professor da escola arriscava. A narrativa é de um humor irresistível. Um professor branco, um sobrevivente, leva 29 meninas negras ao centro de Nova Iorque. As meninas também eram sobreviventes e conhecem todos os truques, como saltar a barreira do Metro para não pagar bilhete e deixar o professor sozinho na bilheteira a pagar o cinema para ficarem com dinheiro para outras coisas, etc.

Da carreira de professor, ficamos com o retrato que os portugueses têm da coisa. Tudo se resume a uma máxima: “professor bom é demasiado bom para ensinar”. Muitos estudam de tudo o que serve para subir na carreira e dar menos aulas ou delas fugir para sempre, tornar-se “principal” ou “supervisor”, isto é cargos não docentes, melhor remunerados.

Mc Court conseguiu finalmente, o seu Eldorado, dar aulas numa escola, cujos alunos afluem a Harvard e a outras das melhores universidades.

Aqui a problemática muda: professor de “creative writing”, tem de conduzir meninos com uma vida rotineiramente satisfatória a ganhar ideias para escrever. Se nas escolas profissionais, foram as justificações de faltas e atrasos – “excuse notes” – que serviram de desencadeador da escrita, na escola da elite, foram as receitas de culinária a desempenhar esse papel.

Revelou-se também a contradição entre a expectativa das famílias centrada na ideia da nobreza do acto de escrita e o facto de à genialidade não corresponder qualquer padrão moral supostamente elevado na mesma medida. Por isso, Frank relata as objecções de encarregados de educação à presença do vagabundo, ladrão, proxeneta, traficante e escritor Herbert Huncke numa das suas aulas. Ora, Huncke era um figura central do movimento Beat, companheiro de Kerouac e de Ginsberg e uma presença constante nos cafés daquela zona de Nova York. Mas nem a biografia de Hemingway seria recomendável neste aspecto. Na escrita, risca-se e arrisca-se muito.

Teacher Man de Mc Court

Teacher Man de Frank Mc Court é um delicioso registo autobiográfico que muito tem a dizer àqueles dos seus leitores que também foram ou são professores. É de um percurso problemático e não de uma história de proveito e exemplo que o livro trata.

Com a sua narrativa, Frank conduz-me à ideia de que façamos o que fizermos, quaisquer que sejam as teorias psico-pedagógicas que adoptemos, o que fica são fatias de vida únicas, de professores e alunos. Quer me parecer ser essa a principal lição dos professores que se podem classificar como pertencentes ao paradigma afectivo, caso de Mc Court e do nosso Sebastião da Gama.

Mais do que a conformidade a um programa ou a um ideário técnico-pedagógico, eles buscam uma relação significativa. Apercebem-se da realidade existencial e única do encontro pedagógico. O aluno deixa de ser um elemento sujeito a um processo padronizado, cujos resultados se podem avaliar e comparar para se tornar numa pessoa com quem o professor tem de estabelecer uma relação que é sempre de ordem afectiva.

Se um aluno está fora da situação da aula, há sempre um problema que tem necessariamente contornos afectivos. “Dar matéria”, neste âmbito, é o que menos importa, sobretudo em disciplinas, como a leitura e a escrita em língua materna, oficial, para ser mais preciso, pois muitos a têm como castelhana, chinesa, coreana ou vietnamita e não “standard english”.

Não se trata, como já disse, duma apologia duma certa maneira de estar na profissão docente, embora muitos leitores o leiam assim. Se o fosse, o valor literário do texto perdia-se em muito. Nesta recensão, não posso também acusar, criticar ou defender a orientação pedagógica do professor Mc Court, “tout court”, pois o que aqui está em causa é precisamente uma experiência de vida, com que se pode aprender mais do que em muitos compêndios de psicopedagoia.

O professore Mc Court começa precisamente por ser, como muitos outros professores, alguém que tem que sobreviver e não alguém que escolheu ser professor por vocação. O seu objecto era desde o início o trabalho literário ou sobre a literatura.

O seu texto parece-me um inventário das situações vividas pela generalidade dos professores, pois reconheço nas suas histórias muito do que vejo acontecer na carreira de muitos professores.

Começou a dar aulas em escolas secundárias técnicas que nós hoje em Portugal resumiríamos com a sigla “CEF”, isto é, tinha que leccionar inglês a rapazes que tinham como horizonte de vida ser canalizadores. Por isso, o título do primeiro capítulo é significativo: “It´s a long road to pedagogy”. Mc Court tenta sobreviver como professor o que implica conquistar os seus alunos, o que não é feito sem vítimas e sem retrocessos, pois acontecem inúmeros incidentes, por exemplo, conflitos pessoais com alunos que o levam a não ter o seu contrato renovado no ano seguinte.

Mc Court lastima a sua necessidade dessa conquista afectiva, desse reconhecimento perante a turma. O “novo professor” é o bombo da festa a ser testado pelos jovens alunos. Quando consegue ter a turma quase toda na mão, encontra o último obstáculo, um aluno que desafia a sua autoridade. O professor está no bando e tem de conquistar a liderança contra um rival. Aqui surge a panóplia de truques – cada tem os seus – e Mc Court limita-se a narrar os factos, de como obteve o reconhecimento.

Para dominar a assistência, Mc Court descobriu uma receita notável: narrar histórias comoventes da sua infância em Limerick, na Irlanda. Os alunos também aprenderam a distrair o professor com perguntas sobre o seu passado na Irlanda. Depressa Mc Court compreendeu a estratégia: evitar as lições de “spelling” e os exercícios, distraindo o professor com a sua “miserable childhood”. Entre professor e narrador, Mc Court viveu uma missão difícil nestas escolas, onde, parece se ter tornado numa referência na biografia dos seus alunos.

Facto exemplar desta situação é o passeio de Mc Court com vinte e cinco raparigas negras na baixa de Nova Iorque. O professor atrevera-se a levar ao cinema as alunas de uma certa turma que mais nenhum professor da escola arriscava. A narrativa é de um humor irresistível. Um professor branco, um sobrevivente, leva 29 meninas negras ao centro de Nova Iorque. As meninas também eram sobreviventes e conhecem todos os truques, como saltar a barreira do Metro para não pagar bilhete e deixar o professor sozinho na bilheteira a pagar o cinema para ficarem com dinheiro para outras coisas, etc.

Da carreira de professor, ficamos com o retrato que os portugueses têm da coisa. Tudo se resume a uma máxima: “professor bom é demasiado bom para ensinar”. Muitos estudam de tudo o que serve para subir na carreira e dar menos aulas ou delas fugir para sempre, tornar-se “principal” ou “supervisor”, isto é cargos não docentes, melhor remunerados.

Mc Court conseguiu finalmente, o seu Eldorado, dar aulas numa escola, cujos alunos afluem a Harvard e a outras das melhores universidades.

Aqui a problemática muda: professor de “creative writing”, tem de conduzir meninos com uma vida rotineiramente satisfatória a ganhar ideias para escrever. Se nas escolas profissionais, foram as justificações de faltas e atrasos – “excuse notes” – que serviram de desencadeador da escrita, na escola da elite, foram as receitas de culinária a desempenhar esse papel.

Revelou-se também a contradição entre a expectativa das famílias centrada na ideia da nobreza do acto de escrita e o facto de à genialidade não corresponder qualquer padrão moral supostamente elevado na mesma medida. Por isso, Frank relata as objecções de encarregados de educação à presença do vagabundo, ladrão, proxeneta, traficante e escritor Herbert Huncke numa das suas aulas. Ora, Huncke era um figura central do movimento Beat, companheiro de Kerouac e de Ginsberg e uma presença constante nos cafés daquela zona de Nova York. Mas nem a biografia de Hemingway seria recomendável neste aspecto. Na escrita, risca-se e arrisca-se muito.

Um povo encarcerado

Después de una negativa, la mayoría de los que solicitan un permiso de viaje desiste de volver a pedirlo. Pocos, muy pocos, siguen insistiendo cuando ya han escuchado más de tres veces la escueta frase “Usted no está autorizado a viajar”. Sólo un puñado de testarudos –entre los que me incluyo– regresa al Departamento de Inmigración y Extranjería para reclamar la llamada tarjeta blanca si se la han negado en cuatro ocasiones. Aunque con cada nueva petición parecería que las posibilidades se vuelven más remotas, me impulsa el dejar claro que mi reclusión en esta Isla no ha sido por no haber agotado todos los caminos legales.

 

Veja a continuação no blogue Generación Y, editado por Yoani Sánchez, em Havana

Socialismo venezuelano

(Daqui: (http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/jornal-de-brasilia/2010/05/22/chavez-confisca-100t-de-comida)

 

“Não há comida nas lojas, mas a oposição diz que há 75 mil toneladas de alimentos a apodrecer nos armazéns” – Onde é que eu já vi isto?

Foi nas lojas do povo de Moçambique. Prateleiras vazias. Contudo, conhecíamos líderes de empresas estatais e funcionários intermédios, em casa dos quais apareciam os produtos em falta e outros. Por vezes, a anedota era notícia propalada de boca em boca. Alguém tinha visto numa loja do interior rural, produtos de luxo, como perfumes, mas falta de arroz, óleo e sabão. Os produtos, em vez de irem para as prateleiras das lojas, apareciam no mercado negro a cinco ou seis vezes o preço tabelado.

Antes das nacionalizações, havia uma extensa rede de cantineiros, a maior parte de origem portuguesa e indiana. Essas pessoas compravam os produtos dos camponeses – amêndoa de cajú, milho e etc. – e vendiam-lhes o que eles precisavam. Conheciam o seu mercado e não se arriscavam de ânimo leve a colocar nas suas prateleiras coisas esquisitas que os poderiam levar a perder dinheiro. Para funcionários do sistema estatal trata-se apenas de se desembaraçar de stocks que não lhes pertencem. Têm apenas de os despachar para as lojas.

E isso está a acontecer na Venezuela. De pouco adianta acusar os funcionários de corrupção, como muitas vezes vi em Moçambique. O mercado é um sistema em que cada um prossegue os seus fins e as decisões fazem-se pelo confronto de milhares de decisões individuais. Nenhum sistema de planificação central consegue substituir a eficácia do mercado. E, depois, por mais que se diga o contrário, os gestores do sistema estatal não deixarão nunca de fazer prevalecer os seus interesses privados dentro do Estado.

Chavez está a levar a Venezuela para o empobrecimento dum socialismo centralizado. Agora quer nacionalizar a maior empresa de produção alimentar do país.

Os críticos do governo de Chávez  afirmam que a escassez de alimentos  ocorre pela opção pelo socialismo  do governo que, na opinião  deles, reduz a produção de alimentos,  que está cada vez mais nas mãos  do setor público.

O presidente afirma que o problema  está no setor privado, em  companhias como a Polar que, segundo  ele, exportam secretamente  produtos para lucrar mais, em vez de  vendê-los na Venezuela, onde os  preços são controlados. (página do Itamaraty, Negócios Estrangeiros do governo brasileiro, http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/jornal-de-brasilia/2010/05/22/chavez-confisca-100t-de-comida)

Quem será que tem razão?

Socialismo venezuelano

(Daqui: (http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/jornal-de-brasilia/2010/05/22/chavez-confisca-100t-de-comida)

 

“Não há comida nas lojas, mas a oposição diz que há 75 mil toneladas de alimentos a apodrecer nos armazéns” – Onde é que eu já vi isto?

Foi nas lojas do povo de Moçambique. Prateleiras vazias. Contudo, conhecíamos líderes de empresas estatais e funcionários intermédios, em casa dos quais apareciam os produtos em falta e outros. Por vezes, a anedota era notícia propalada de boca em boca. Alguém tinha visto numa loja do interior rural, produtos de luxo, como perfumes, mas falta de arroz, óleo e sabão. Os produtos, em vez de irem para as prateleiras das lojas, apareciam no mercado negro a cinco ou seis vezes o preço tabelado.

Antes das nacionalizações, havia uma extensa rede de cantineiros, a maior parte de origem portuguesa e indiana. Essas pessoas compravam os produtos dos camponeses – amêndoa de cajú, milho e etc. – e vendiam-lhes o que eles precisavam. Conheciam o seu mercado e não se arriscavam de ânimo leve a colocar nas suas prateleiras coisas esquisitas que os poderiam levar a perder dinheiro. Para funcionários do sistema estatal trata-se apenas de se desembaraçar de stocks que não lhes pertencem. Têm apenas de os despachar para as lojas.

E isso está a acontecer na Venezuela. De pouco adianta acusar os funcionários de corrupção, como muitas vezes vi em Moçambique. O mercado é um sistema em que cada um prossegue os seus fins e as decisões fazem-se pelo confronto de milhares de decisões individuais. Nenhum sistema de planificação central consegue substituir a eficácia do mercado. E, depois, por mais que se diga o contrário, os gestores do sistema estatal não deixarão nunca de fazer prevalecer os seus interesses privados dentro do Estado.

Chavez está a levar a Venezuela para o empobrecimento dum socialismo centralizado. Agora quer nacionalizar a maior empresa de produção alimentar do país.

Os críticos do governo de Chávez  afirmam que a escassez de alimentos  ocorre pela opção pelo socialismo  do governo que, na opinião  deles, reduz a produção de alimentos,  que está cada vez mais nas mãos  do setor público.

O presidente afirma que o problema  está no setor privado, em  companhias como a Polar que, segundo  ele, exportam secretamente  produtos para lucrar mais, em vez de  vendê-los na Venezuela, onde os  preços são controlados. (página do Itamaraty, Negócios Estrangeiros do governo brasileiro, http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/jornal-de-brasilia/2010/05/22/chavez-confisca-100t-de-comida)

Quem será que tem razão?