No DN de 17 de Maio, era este o título do artigo de opinião de Vasco Graça Moura. O Totobola vem a propósito do uso de testes de escolha múltipla na avaliação da leitura. Escreve Graça Moura:
"sei que não se pode aceitar que os exames de Português obedeçam ao princípio do Totobola".
Em que medida é que os testes de múltipla escolha são similares ao Totobola? Será porque se preenchem com cruzinhas e porque se podem responder ao acaso? Não há a menor dúvida que assim é, ambos se fazem com cruzinhas e ambos se podem responder ao acaso. Mas será assim tão pouco abonatória para os testes de múltipla escolha, a semelhança? Ora, nenhum apostador do Totobola deixará de investir os seus conhecimentos futebolísticos na escolha das alternativas. Para ter sucesso, todos tentam prever as probabilidades de empate, vitória ou derrota de cada uma das equipas, com base no conhecimento que têm. E são poucos os que conseguem acertar em todas as alternativas. Conclusão: todos tentam diminuir o factor do acaso com o conhecimento que têm. Se o Totobola tem três alternativas em cada item, os testes de múltipla escolha propostos têm quatro. A isto se refere Vasco Graça Moura quando escreve:
"Se não teve aproveitamento e não é capaz de produzir um texto, o teste de resposta múltipla só vai dissimular esse problema e contribuir para um resultado injusto, isto para não falar na situação escandalosa de o aluno ter 25% de hipóteses de acertar logo à partida (em quatro quadradinhos para pôr a cruzinha, um deles há-de ter a resposta certa)"
Mas o que interessa não é a resposta a uma questão, mas a resposta a um conjunto de questões, considerado como o nível de proficiência exigido. Imaginemos, por exemplo, que o teste tem duas questões. Qual é a probabilidade de acertar ao acaso em ambas? Combinando as probabilidades de ambas, temos 16 combinações possíveis, mas só uma certa, isto é, 1/16, 6,25%. Se o teste tiver 3 questões, a probabilidade de acertar em todas descerá para 1/24, menos de 2%. Num teste de 20 questões, a resposta ao acaso a todas as questões tem uma probabilidade de 1 em cerca de 1 milhão de milhões de hipóteses. Uso regularmente testes de múltipla escolha de 4 alternativas em História e Geografia de Portugal, e tenho 3 alunos que respondem quase totalmente ao acaso, e fazem o teste em 5 minutos. Em nenhum dos 3 testes, nenhum deles conseguiu acertar a mais de 2 perguntas, num total de 20, o que é negligenciável no que respeita à cotação do teste. Já vi testes de múltipla escolha de leitura compreensiva, que permitem avaliar interpretações e inferências textuais bastante complexas, mas claro, um teste desse tipo não permite avaliar interpretações de todo imprevisíveis. Todavia, uma interpretação desse tipo entra no nível que Bloom classificaria como de síntese. Pois, se são imprevisíveis para os professores que elaboram testes, também, serão uma incógnita, numa resposta redigida, quanto à aceitabilidade pelo professor que corrige e classifica a prova. Concordo inteiramente com Paulo Feytor Pinto quanto à necessidade de separar a avaliação da leitura da avaliação da escrita. As dificuldades na escrita podem impedir a expressão duma capacidade interpretativa superior. O teste de múltipla escolha elimina este obstáculo. Infelizmente, VGM, está longe dos problemas que se colocam na aprendizagem da leitura. Paulo Feytor Pinto chamou a atenção para o problema da memória de interpretações feitas na aula poder viciar a avaliação. Paulo Feytor Pinto disse:
"Avalia-se se os alunos conseguiram memorizar o que foi dito na sala de aula sobre os textos"
VGM interpretou isto como uma objecção ao papel da memória na aprendizagem.
"Então, não é também para isso que eles têm aulas?"
Quer dizer, VGM, que eles têm aulas para memorizar interpretações de textos, interpretações que estão desde já feitas e que eles apenas memorizam, sem nem sempre as compreenderem? Concordo, mais uma vez com o Paulo Feytor Pinto. Para avaliar a capacidade de leitura, importaria utilizar outros textos, que não necessariamente os que foram lidos na aula. A questão é se o aluno está a repetir no teste interpretações decoradas ou, efectivamente, a investir todos os seus conhecimentos na leitura dum texto novo. Em último caso, se está mesmo a ler, porque ler não é repetir leituras já feitas. A posição de VGM resulta duma defesa intransigente, mas cega, do cânone e da tradição literárias. Concordo que há um conjunto de textos da nossa história literária que têm que ser objecto de leitura na escola. Mas não concordo que se ignorem os avanços feitos no campo dos estudos da piscologia e das ciências da linguagem, assim como das técnicas de avaliação e da elaboração de testes.

Teríamos se calhar que digressar pelos textos de Nietsche e de Schopenhauer para tratar com um mínimo de justeza este tema. Acontece que não estou preparado e tenho pressa para dizer o que não pode esperar mais delongas teóricas. É que não há comentador que não fale da dita "vontade", quase sempre na positiva e, quando adomestam o exercício de alguma da dita, nunca o fazem com a referida expressão. É, pois quase sempre pela positiva que se vai à "vontade política", quer para elogiar o seu exercício, quer para acusar a falta dela. Talvez isso se deva ao actual culto da eficácia. Nos negócios imperam os executivos, isto é aqueles que conseguem fazer com que os outros façam mais do que quereriam, não fosse a imposição da vontade alheia. Aquela que o valente executivo exibe aos trabalhadores temerosos e aos accionistas gananciosos. Com efeito, Schopenhauer diria que é a vontade que mantém a vida, sobretudo a vontade de poder sobre as coisas e sobre os outros. Não fora a vontade, a lei da entropia levar-nos-ia ao marasmo da morte. Até os rios deixariam de continuar a correr para o mar e as orgulhosas montanhas desfazer-se-iam em míseras planícies. Mas a vontade política é sempre a força que se impõe dum centro monopolizador da força de vontade para a imensa periferia de minúsculas vontades individuais. O entronado líder observa do alto como a sua vontade molda o mundo e como este, feito de barro, se deixa conduzir pelo seu império. A realidade é o maior obstáculo ao exercício da vontade política. Lenine fora advertido pelos mencheviques de que a Rússia não estava preparada para a revolução socialista. Teria que primeiro passar pelo capitalismo e acabar com os vestígios de feudalismo, criar uma burguesia e um proletariado industriais. Mas Lenine, viu nos descontentes com a guerra, o seu proletariado, orientou-os, e em "dez dias que abalaram o mundo", fez a primeira revolução socialista. Depois, erigiu em inimigos da sua revolução todos os outros partidos operários que não aceitassem o poder dos bolcheviques, quer fossem mencheviques, anarquistas ou socialistas revolucionários – foram todos liquidados. A realidade impôs-se sempre a Lenine, mas este, sempre a contornou, com o exercício máximo da vontade que é o de fazer a linguagem recriar a realidade. Se há uma revolta operária, das duas uma, ou é uma cilada da burguesia, dos inimigos externos da revolução, ou um desvio esquerdista, infantil que prejudica os interesses do proletariado, que também é o chefe que define. A Nova Política Económica, que sucede à enorme violência do Comunismo de Guerra, é uma concessão à realidade. Dessa política resulta a criação de uma classe de camponeses proprietários. uns mais ricos, outros menos, os kulaques. Estaline irá depois destruir através da violência, do genocídio, da fome e dos trabalhos forçados esta pobre classe camponesa, produto da política leninista. Para isso, Estaline, dispunha do poder de criar a realidade, de definir os kulaques como inimigos da revolução socialista. Hitler e Salazar usaram e abusaram da força da vontade política. Disseram e definiram o que quiseram. Hitler definiu os judeus como os responsáveis pela tragédia alemã, quer estes fossem pequenos logistas, intelectuais, professores ou grandes capitalistas. Salazar definiu as colónias e os seus habitantes como partes integrantes do território nacional, num flagrante desdizer da legislação colonial anterior do seu próprio governo. O nosso governo actual tem a força da vontade política que nós lhe concedemos. Nós, a argamassa que lhe compete moldar, nós a realidade amorfa a que é preciso dar um sentido. Nós somos os limites, os muros, que limitam o seu exercício. Nós, os cheios de defeitos, talvez nem todos valhamos para o grande imperativo nacional. Muitos serão os excluídos que não servem nem aos ímpetos do mercado, nem aos do engrandecimento da Pátria. A democracia tem uma coisa boa, é que a vontade do líder tem sempre que se confrontar com a de numerosos oponentes e como tem um dia de ceder a outro, não admite desculpa, nem justificativa, como as de Fidel Castro: os falhanços da revolução são culpa dos seus inimigos, do bloqueio americano, dos descontentes que se concentram na Florida, dos corruptos que serão fuzilados, etc. Não admite sequer a pergunta: será que os cubanos querem mesmo seguir esse caminho, que Fidel e os seus correlegionários lhes impõem? Um dia, a vontade do líder tem que se haver com as de todos os cidadãos que o julgarão sempre sem benevolência. Mas, antes de chegar esse dia, cumpre discutir todas as decisões, todos os argumentos, sem receio, nem decoros de esquerda ou de direita. Temos que discutir os princípios, os meios e os fins, sem cerimónia. O que quer que seja: coisas pequenas e coisas grandes, a política da educação, a estratégia de Lisboa, as pensões de reforma dos políticos, o vocabulário, os vencimentos dos "boys" e os dos gestores das empresas públicas, etc. A vontade política só é boa quando é cerceada por todo o lado, pela crítica das oposições e pela manifestação da realidade ofendida: professores contra as aulas de substituição, polícias contra a perda de privilégios, bombeiros contra a militarização, funcionários contra o aumento da idade de reforma, ecologistas e bairristas contra a co-incineração, etc. Que onde seja justa e globalmente boa, apesar dos protestos sectoriais, que a vontade do líder se imponha, mas que não seja mais do que a necessária e que reconheça os seus limites.