Gramática generativa

Penso que o fracasso da primeira tentativa de introdução da gramática generativa se deveu a vários motivos alheios ao valor científico e pedagógico da teoria propriamente dita que se tem afirmado como um dos principais paradigmas do estudo da linguagem no nosso tempo. Acho que a gramática generativa foi apropriada por teorias psicológicas e pedagógicas que se revelaram erradas. Paradoxalmente, uma dessas teorias era rival científica do generativismo e usava um étimo similar na sua designação – psicologia genética. Mas este adjectivo, como derivado de "genes" está mais adequado a Chomski do que a Piaget, que pretendia referir a origem das estruturas cognitivas noutras, anteriores.
A psicologia genética piagetiana redundou pedagogicamente em construtivismo, o movimento que nos diz que o que interessa é a experiência de aprender e de descobrir e não tanto o objecto dessa aprendizagem.
Reli recentemente as quinhentas páginas de Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem 1 , o acalorado debate que decorreu entre Piaget e Chomski, em 1975, com partidários de um e doutro lado. Defensores de Piaget como Bärber Inhelder suavam para demonstrar que a linguagem era descoberta a partir das experiências da fase sensório-motora e encontravam o muro das lacónicas e claras posições dos adeptos das teorias generativas: há uma gramática que está em nós, uma faculdade da linguagem que nos permite descobrir a língua existente no nosso meio social, familiar. Não há lugar para a descoberta de uma qualquer génese da linguagem a partir de outra coisa qualquer (como a interacção com os objectos e com o meio).
A teoria generativa no ensino enfermou dos mesmos problemas do construtivismo pedagógico, em geral: eliminação de terminologias e definições a aprender e a decorar e centralização da aprendizagem na experimentação de frases, exactamente como em ciências da natureza se pretendia que o jovem utilizasse o método científico para descobrir o seu meio. Como isto falhava, precisamente porque as árvores de frase são um modo de representação e não um método de descoberta, os profesores, a maior parte dos quais não sabia o que era a gramática generativa, caía noutro erro: procurar no vocabulário da gramática generativa, os equivalentes dos termos da gramática dita tradicional. Assim, o sujeito, era o sintagma nominal, o predicado o sintagma verbal e, por aí adiante.
O que nos interessa é que a gramática generativa e várias outras teorias linguísticas e da filosofia da linguagem mostraram que vários conceitos gramaticais e maneiras de ensinar estão errados e que devem ser alterados.
No que respeita à sintaxe, por exemplo, como mostra Chomski em Syntatic Structures 2, o conceito de frase dominante anteriormente era o de uma cadeia, na qual se vão inserindo palavras. Chomski mostrou que tal conceito era erróneo e insuficiente para explicar como os falantes produzem frases, porque não dá conta da inserção programada de constituintes em pontos diferentes e em simultâneo na frase.
A mesma sequência de palavras pode corresponder a frases diferentes, como pode ver no seguinte exemplo. Imagine um anúncio dum programa da Antena 1: "Júlio Machado Vaz conversa sobre sexo com Alexandra Lencastre"
Como o verbo "conversar" é usado frequentemente com o sentido elíptico de "conversa com os espectadores", uma interpretação mais picante desta sequência poderia sugerir que o tema da conversa seria "sexo com Alexandra Lencastre", com a Alexandra ausente.

Uma interpretação mais austera seria uma conversa com a Alexandra como interlocutora:

A gramática que eu aprendi na escola não dá conta das diferentes integrações de um grupo de palavras na frase a concretizar diferenças de sentido.

1Lisboa, Edições 70, 1977.
2 Publicada pela primeira vez em 1957 (Paris, Mouton e The Hague)
3 O exemplo apresentado é uma adaptação de Pinker, Steven, The Language Instinct, London, Penguin, 1994, p. 103.

Entre o libelo e a atitude analítica

Há vários textos que não nos dizem verdadeiramente nada de novo. A única coisa que fazem é ruído. É o caso de várias das vozes que se opõem à Tlebs. Procuram apenas argumentos para desvalorizar esse importante documento e nesse afã, mostram, amiúde, ignorância linguística e, pior, gramatical, na acepção mais simples do termo. Confundem noções antigas com inovações, vejam-se os célebres casos: "nomes epicenos" e "conjunção coordenativa copulativa". Ignoram o que nós ensinamos actualmente: veja-se o escândalo a propósito das noções de "determinante" e de "nome". Ora a Tlebs é um reportório científico mas com finalidade didáctica. Como é que pessoas que ignoram o pano de fundo do ensino da gramática podem validamente intervir neste assunto?
Mas outras vozes há que têm um recorte mais analítico, reflexivo, e que, por isso, devem ser objecto da nossa atenção. Primeiro que tudo o ensaio do João Peres, já aqui referido, que tem objecções duma grande validade. Mas que, infelizmente, também tem uma outra dimensão: a do libelo, com conclusões que não servem para nada.
Agora encontrei um outro trabalho que quero recomendar a todos que por aqui passam: D´Silvas Filho faz um comentário que dá para ler, publicado  no Ciberdúvidas, (http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias.php?rid=680) e que tem uma página com muito aturado trabalho que ainda vai merecer a minha atenção (http://www.dsilvasfilho.com/index.htm).

O manifesto do Vasco Graça Moura

Li no Ciberdúvidas mais um artigo do Vasco Graça Moura sobre a Tlebs, publicado no DN em 31/01/2007. Trata-se de uma verdadeiro libelo. VGM parece assumir-se como o Gandhi da desobediência civil relativamente à Tlebs. Por um lado, diz que os professores têm formação, têm validade intelectual, mas por outro, oferece-lhes uma palavra de ordem bastante simplória, e, como vou mostrar, impossível de executar.

No artigo, VGM, retira do célebre ensaio do João Peres, já aqui muitas vezes referido, e de outras intervenções deste contraditório polemista, o que lhe interessa. Não diz nunca que quase todas as críticas feitas por si próprio à Tlebs são cruelmente rejeitadas ou desvalorizadas pelo João Peres. Dá assim a ideia de uma  solidariedade entre todos os que se opõem à Tlebs que é falsa.

Vasco Graça Moura conclui assim o seu libelo:

"No vazio instaurado, a si, caro professor, o que lhe resta é ir ensinando, provisoriamente, com base na Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 e na Gramática de Celso Cunha e Lindley-Cintra. Não serão perfeitas nem inteiramente satisfatórias, mas pelo menos não bloqueiam as suas possibilidades de se assumir a sério como professor de Português.

Até a TLEBS ser objecto de uma revisão decente, só resta um caminho: se o ministério se obstina em não repor a vigência da Nomenclatura, reponhamo-la nós!"

A minha primeira objecção é formal: necessitamos nós que alguém nos diga o que devemos fazer? Reivindico o seguinte: não sou menos do que o João Peres ou o Vasco Graça Moura no que respeita ao meu trabalho.

A segunda é: rejeito liminarmente o "nós" do Vasco Graça Moura.

Muitos professores ensinam há muitos anos. Tem ideias feitas sobre o que é ensinar gramática. Sabem que há contradições de conteúdo e terminológicas que têm com os colegas, os programas, etc. que a Tlebs ambiciona resolver.

Mesmo que quisessem, não poderiam seguir a palavra de ordem do VGM, pelas seguintes razões:

  • Muitos (como eu) só conheceram a Nomenclatura Gramatical de 67, por causa da Tlebs. Apenas sabiam vagamente da sua existência por referências feitas em vários textos.
  • A Nomenclatura não é seguida há mais de 30 anos, nem pelos programas oficiais, nem pelos professores, nem pelos manuais.
  • Que eu saiba, não há nenhum manual ou gramática escolar que cumpra essa Nomenclatura.
  • Lindley Cintra e Celso Cunha não cumprem a Nomenclatura. A gramática destes autores inclui muitos conceitos gramaticais que o Vasco Graça Moura criticou na Tlebs! Nem se percebe por que razão a aconselha.

Se eu me achasse no direito de propor uma palavra de ordem aos meus colegas, o que eu lhes diria, é o que eu faço:

  • Estudem a Tlebs.
  • Se ficarem convencidos da justeza de uma proposta que lá esteja, modifiquem o conteúdo e o modo do vosso ensino, apenas nessa medida.
  • Não caiam no engodo da polarização entre anti-tlebs e pró-tlebs. Isso é uma falsa questão que tem muita coisa escondida.
  • Sobretudo, ensinemos Gramática, com preocupação de actualização científica e adequação pedagógica e didáctica, isto inclui a Tlebs e muitas outras coisas.

TLEBS: Corrigir e voltar atrás?

Vem esta questão a propósito da TLEBS, que se diz que vai ser suspensa no próximo ano.
Acontece que, pela leitura da TLEBS, e pela polémica que ela suscitou, encontrei erros no meu ensino da gramática. Confirmei também que algumas das minhas concepções divergentes em relação a vários colegas meus, eram justas.
Vou dar exemplos de apenas três erros (há mais!) que eu não quero fazer.

Sujeito

Diz a gramática do Nunes Figueiredo e Gomes Ferreira (1) que o sujeito é o "o ser ou coisa sobre que se faz uma afirmação". É uma simplificação semântica que se pode eventualmente aceitar como conveniente, em termos didácticos, sobretudo, se depois ensinarmos correctamente como se determina o sujeito. No item seguinte, considera que podem desempenhar a função de sujeito, um substantivo, um pronome, um numeral, ou mesmo, uma frase.
Determinemos então o sujeito nas próprias frases fornecidas pelo autor da primeira gramática que estudei em profundidade (4º ano dos liceus):

1. O cão é um animal doméstico.

O sujeito é "cão".
Se substituirmos o dito substantivo por um pronome a frase fica:

2. Ele é um animal doméstico.

O sujeito passa a ser "ele". Mas repare-se que "ele" substitui o grupo nominal e não apenas o nome.
Vejamos uma frase com atributos e complementos determinativos:

3. O cão do meu amigo parece um animal selvagem.

Neste caso, o sujeito seria igualmente "cão", pois "do meu amigo" seria complemento determinativo. O predicativo do sujeito seria "animal", pois "selvagem"  seria um atributo. Quer dizer, não se considera o sujeito como um grupo de palavras à excepção do caso de uma "oração substantiva".
Esta maneira de considerar a sintaxe da frase, como uma linha sequencial em que os elementos se aglomeram sem qualquer hierarquia que não seja a distinção entre elementos fundamentais e elementos complementares da oração é a que resulta da Nomenclatura de 67 (2) que nunca cumpri no meu ensino.
A maior parte dos professores, suponho, ensina que

– em 1. o sujeito é "O cão";
– em 3.  o sujeito é "O cão do meu amigo".

Esta análise estaria de acordo com a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Lindley Cintra e Celso Cunha (3) que está informada com as aquisições da gramática generativa, no que respeita à hierarquia dos elementos da frase, e não é "tradicional" no mau sentido do termo.
Não faz qualquer sentido a utilização da expressão gramática tradicional a não ser para a diferenciar da gramática generativa que se refere à competência linguística do falante. Há uma gramática que se adquire e outra que se ensina e que se estuda e que é uma continuação, um desenvolvimento da primeira e está ligada a usos linguísticos que eu creio mais sofisticados, ligados ao exercício da escrita e da leitura, como preparação para funções sociais cada vez mais exigentes. Ora, a gramática escolar que é uma coisa que se ensina e que é analítica e normativa, nunca foi alheia às aquisições do conhecimento linguístico. Chamar-lhe tradicional pode conotá-la com atraso. A necessidade sentida de criar a Nomenclatura de 1967 e de fazer a TLEBS prova que estamos perante uma realidade dinâmica, em constante evolução.

Predicado

Ainda de acordo com Nunes Figueiredo e com a Nomenclatura de 67, o predicado ou é o verbo ou é o verbo e a qualidade que se lhe acrescenta no caso dos verbos de significação indefinida. Os complementos directo e indirecto, assim como os complementos circunstanciais, são "elementos complementares da oração", não fundamentais, que se acrescentam ao verbo.
Assim:

– em 1., o predicado seria "é animal";
– em 3., "parece animal" (pois todos os outros elementos são complementares).

Vejamos como seria em frases com os complementos acima referidos:

4.  Ele foi para Lisboa.
5. A polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.
6. O escritor dedicou o livro à sua mãe.

Teríamos:

– em 4. "foi" como predicado e "para Lisboa" como complemento circunstancial de lugar;
– em 5., "interrogou" como predicado e "o presidente do FCP" como complemento directo;
– em 6., "dedicou" como predicado e "o livro" e "à sua mãe", como complementos directo e indirecto, respectivamente.

A maior parte de nós ensina que o predicado é:

– em 4., "foi para Lisboa";
– em 5. "interrogou o presidente do FCP";
– em 6., "dedicou o livro à sua mãe".

Note-se que há uma contradição na gramática de Nunes Figueiredo quando reduz o sujeito ao substantivo e, mais à frente, na "transformação passiva" considera como sujeito o grupo nominal inteiro. Creio que foi forçado a isso pela própria lógica da passiva (4). É de acrescentar que esta redução do sujeito ao nome e do predicado ao verbo contradiz a própria definição semântica que dá das duas funções (5).
Conheço colegas que ensinam as duas funções tal e qual como Nunes Figueiredo, com o argumento de que "a gramática generativa acabou".
Para a TLEBS, fazem parte do predicado, os complementos e os modificadores do verbo e do grupo verbal. Antes de ter lido a TLEBS, predicado e grupo verbal eram a mesma coisa para mim, embora sob uma perspectiva diferente. Resumindo: só incluía no predicado os elementos obrigatórios, exigidos pelo verbo.
Alteremos 5. para exemplificar:

7. Ontem, a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.

Neste caso, eu não incluiria "ontem" no predicado. Com efeito, "ontem"  modifica o grupo verbal, mas não faz parte dele, pois não é exigido por "interrogou" que apenas exige um complemento directo. Depois de analisar a árvore da frase, cheguei à conclusão que a TLEBS estava certa. Em termos didácticos, também é mais simples dizer que é tudo o predicado. Além do mais a TLEBS coincide com Cintra e Cunha (6)

Subordinante e subordinadas

Outra mudança que eu acho que se impõe foi colocada pelo João Peres como uma crítica à TLEBS. Eu considero-a inteiramente justificada. Tudo se resume ao seguinte: as orações que desempenham funções sintácticas fundamentais da subordinante, integram-na.
Vejamos:

8. O Público diz que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP.

Neste caso, não podemos considerar "O público diz" como subordinante porque esta expressão não é uma frase, pois falta-lhe o complemento directo que é "que ontem a polícia judiciária do Porto interrogou o presidente do FCP".
Penso que, em geral, a lógica está do lado da didáctica. Quanto mais lógico, mais simples. Se distingo frase (ou oração, se quiserem) de não-frase, não vou depois infringir a regra dizendo que uma expressão sem sujeito ou sem complemento directo é uma "oração" ou frase "subordinante". Duma forma geral, a falta de lógica apela ao decorar daquilo que o professor enuncia.
Agora pergunto: que autoridade tem o direito de me obrigar a ensinar coisas erradas que nem didacticamente se justificam? Mais: quem pode exigir aos professores formados pela TLEBS, que voltem a ensinar erradamente?


NOTAS

(1) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto, Porto Editora, 1975, p. 53.
(2) Nomenclatura Gramatical Portuguesa, Portaria nº 22664, Diário da República, I Série, 28 de Abril de 1967.
(3) Cintra, Lindley e Cunha, Celso, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Sá da Costa,1992,  p. 122.
(4) Nunes Figueiredo, J. M., e Gomes Ferreira, A., p. 62
(5) Idem, p. 55.
(6) Veja (3)
Para a análise do João Peres referida acima, por favor, veja  http://jperes.no.sapo.pt/

Também voto SIM

Sou um dos fundamentalistas que gosta de discutir as coisas a fundo. Acho lógico que quem acredita na imaculada concepção diga que o homem surge nesse momento.
A maioria dos populares sempre compreendeu a necessidade dos "desmanchos" e, por isso, se instituem as profissionais para esse efeito, embora envoltas num segredo partilhado, por quase todos. De vez em quando, como agora, aparece um processo contra as mulheres por parte de alguém das elites, clérigo ou inquisidor.
Para a maior parte das pessoas, a criança está aí quando nasce.
O feto é uma vida humana que se está gerando que deve ser acarinhada e desejada.
Quando é um tormento indesejado, surge a questão de até que altura é lícito destruí-lo. Quanto tempo deve a sociedade conceder à mulher para ela decidir? O DIU já é em si mesmo um processo abortivo! Até quantos dias, semanas? Apenas o tempo de ela descobrir naturalmente que está grávida e decidir-se, se essa for uma questão que se lhe ponha!
As 10 semanas têm esse sentido. O feto é ainda um ser vivo sem sensibilidade, portanto, sem dor, sem qualquer consciência de si nem relação com o mundo.
Não é uma decisão arbitrária, é uma linha que faz todo o sentido. Sabemos que quanto mais tarde for realizada a interrupção, mais grave é o acto. Por isso se fala em despenalização e não em legalização. A lei serve para estabelecer linhas demarcadoras no contínuo da apreciação dos comportamentos humanos. Porque penalizar quem vai a 121 km e não quem vai a 120? A lei tem que categorizar comportamentos e criar decontinuidades!
Quem acha que a alma imortal entra no óvulo com o espermatozóide, deverá naturalmente abster-se de praticar essa interrupção, mas as que por motivos ponderosos da sua vida não vêm outro remédio que não seja o aborto, não serão penalizadas pela força da lei.
Comentário que fiz no blog http://correntes.blogs.sapo.pt.

É possível regressar à Nomenclatura de 67?

A proposta de João Peres de "reposição provisória da anterior Nomenclatura" iria causar-nos ainda mais problemas do que a vigência da TLEBS, que se sabe estar a ser revista.

O que significa "revogar a tlebs"? Se significa regressar aos programas oficiais tal como eram interpretados antes da TLEBS, isto é, ao estado de confusão que a TLEBS pretende corrigir, do mal o menos!

Se significa regressar à Nomenclatura de 67, temos o desastre!

Desafio que me apresentem uma só gramática escolar posterior a 1976 que cumpra a Nomenclatura 67. Aposto que não encontram nenhuma.

 

João Peres, de novo

O último artigo do João Peres no Expresso é de uma arrogância extraordinária. Põe na discussão da TLEBS, à falta de melhor, as relações de parentesco de um dos revisores com uma das autoras. Dá-se ao atrevimento de avaliar a inteligência de uma pessoa, no caso, do João Costa, pela escala da frequência de uma das suas cadeiras. Isto é, reduz o Presidente da Associação Portuguesa de Linguística a seu ex-aluno, com a pretensão óbvia de subalternizá-lo: ele é o Mestre, o outro, um produto do seu magistério! É como se dissesse: "ele é inteligente porque eu, a excelência em pessoa, dei-lhe 19!"
Tais considerações, num debate entre pessoas que se respeitam, nos estatutos que  têm, nunca deviam ser enunciadas e, muito menos, vir a público, a esse propósito.
Tendo em conta as apreciações eminentemente positivas que o João Peres teceu a propósito da TLEBS, em http://jperes.no.sapo.pt/, num ensaio em que a conclusão não joga com os argumentos, nem com as solidariedades que afirma, é estranho o apelo ao regresso à Nomenclatura de 1967.
Nenhum dos argumentos da Alzira Seixo ou do Vasco Graça Moura é validado. Muito pelo contrário, são todos ou rechaçados ou desvalorizados.
Nesse ensaio de http://jperes.no.sapo.pt/, tive a oportunidade de confirmar algumas das minhas dúvidas a respeito do ensino da sintaxe, como por exemplo, a consideração de que se devem classificar  as frases subordinadas como integrantes da subordinante, nos casos em que desempenham funções sintácticas daquela. As árvores de frase que fazíamos sempre sugeriram isso! Por isso, João Peres criticou, muito justamente, a definição da subordinante como residual relativamente às subordinadas.
Mas esta crítica, que avança muito mais no plano linguístico do que a TLEBS se atrevera, encontra-se acompanhada apenas de reparos superficiais, porque no essencial, João Peres discorda dos que gritam contra a mudança de "nome" para "substantivo", ou que choram por causa do fim dos "complementos circunstanciais". Muito pelo contrário, concorda com a inclusão dos seguintes conceitos:
– a classe dos quantificadores,
– tipos de frase,
– função de modificador,
– etc. para referir alguns dos conceitos mais polémicos para outros intervenientes.
Pelas premissas e conclusões científicas daquele ensaio, seria de esperar a proposta de alterações à lista de termos da Portaria, se fosse o caso, e às definições que constam do dicionário.
É deveras caricato que um cientista que prima pela agressividade teórica e, que, pelos vistos, a completa com argumentos de ordem pessoal, venha propor o regresso ao "antigamente" e não a correcção do que, com erros, vem resolver problemas antigos.
João Peres esperava que, no pós 25 de Abril, e nos anos seguintes, os professores de Português, se cingissem a uma portaria de 1967!
Pois não o fizemos nunca e os professores universitários, que nos formaram, ensinaram-nos teorias mais acertadas cientificamente e doutrinas pedagógicas mais ousadas e mais generosas. Nem a Gramática… de Lindley Cintra e Celso Cunha se atém à Nomenclatura, apesar de ser na leitura desse texto que eu dei conta da sua existência. É verdade que a minha Gramática do 4º ano do liceu do Nunes Figueiredo assevera estar de acordo com "a nova nomenclatura gramatical portuguesa", mas isso, só agora tem sentido para mim .
O problema é que já há muito tempo que nós não respeitamos essa portaria e foi por isso que surgiu a necessidade de uma nova.
A conversa da soberania do Estado sobre a Língua é espantosa, pois em minha opinião, um Estado de Direito não deve ter nenhum documento legal a definir conceitos científicos, quer sobre a língua quer sobre qualquer outra realidade. O que está aqui em causa é apenas uma necessidade prática do Ensino Básico e Secundário de unificar a terminologia gramatical para efeitos de avaliação externa das competências dos nossos alunos e também para evitar erros no seu ensino.
Reconheço que esta medida tem implicações, uma vez que outros sectores, como a imprensa, por exemplo, acabarão por aceitar essas mudanças terminológicas e conceptuais, por causa da Escola. Portanto, elas devem ser tão justas e adequadas quanto possível.
Mas João Peres está a sugerir que eu ensine aos meus alunos que o predicado ou é o verbo no caso do predicado verbal, com verbos intransitivos, ou é o nome ou o adjectivo no caso do predicado nominal, com verbos copulativos. É o que está na minha gramática de 1972, que cumpre a Nomenclatura! Mais: sei que há professores que, como felizmente não têm formação linguística, ensinam o predicado como eu aqui referi. Se é a essa conclusão que o Professor João Peres quer chegar, por favor, proponha que, na sua universidade, seja retirado, do currículo da formação de professores de Língua Portuguesa, esse veneno que dá pelo nome de Linguística!

Predicativo do sujeito

Eu não estava a ser exacto quando, em resposta à colega Inês Pinto, nos comentários a Carta ao Sr. José Nunes, promotor de uma petição para revogação da TLEBS, afirmei o seguinte:

"À partida, não concordo com o dicionário da Terminologia Linguística, quando admite um sintagma preposicional como predicativo do sujeito. Para mim, tem de ser um Sintagma Nominal ou um Sintagma Adjectival."

Descobri isso ao encontrar na gramática do Lindley Cintra e Celso Cunha um exemplo de predicativo do sujeito do seguinte género:

(1) O homem estava entre a vida e a morte.

A parte da frase assinalada a itálico seria para mim um predicativo do sujeito aceitável.
As minhas objecções eram na verdade de ordem semântica e não sintáctica.
Também, perante uma frase como a seguinte,

(2) O carro é do meu pai,

eu não teria dificuldade em aceitar o grupo assinalado com predicativo do sujeito, porque reconheceria aí a transformação do grupo nominal "o carro do meu pai" numa frase em que o verbo copulativo se limita a fazer uma ligação.

Concluí, então, que tinha caído no mesmo tipo de armadilhas que denuncio ao criticar os colegas que dizem aos alunos que o sujeito é "aquele que realiza a acção". Se, em vez de (1), a frase fosse

(3) O homem estava entre o Rossio e os Restauradores,

eu diria erradamente que estava perante um verbo locativo e um complemento preposicional, mas a frase tem exactamente a mesma estrutura da anterior.

A minha dificuldade compreende-se por quase não aparecerem nas gramáticas casos de grupos preposicionais como predicativo do sujeito e, ainda menos, com o significado de lugar, como era o caso em apreço. Mesmo no meu exemplar da Gramática… da Maria Helena Mira Mateus, os exemplos de predicativo do sujeito são grupos nominais ou grupos adjectivais.
Mas agora parece-me aceitável que qualquer complemento preposicional que se ligue ao sujeito através de um verbo copulativo, seja um predicativo do sujeito. O que está em causa é o tipo de ligação que o verbo realiza. Com efeito, se iniciarmos uma frase da seguinte maneira

(4) Camões esteve…,

as perguntas possíveis são as mais diversas – ONDE? COMO? O QUÊ? – e o tipo de grupos que lhes podem responder são também dos mais variados – grupos nominais, adjectivais, adverbiais e preposicionais, revelando, portanto, a significação indefinida do verbo.

Se o início da frase fosse

(5) Camões morou…,

a pergunta suscitada seria apenas ONDE? e a resposta um complemento preposicional de lugar.

 Portanto, em "Camões esteve em Macau", "em Macau" é predicativo do sujeito.

Fraccionários

Na minha leitura do ensaio de João Peres sobre a TLEBS, eu especulava:
«Quanto aos fraccionários que ele considera que se deveriam incluir, também eu andei de volta deles. Concluí que não estavam considerados como subclasse por não serem palavras, mas grupos nominais. Quando dizemos "um quarto dos alunos", "quarto" parece ser um nome.»
Contra esta minha observação, interveio tempodividido, com mais um dos seus elípticos, mas produtivos, comentários:
«E em: "cada vez que" – exemplo, na TLEBS, de conjunção subordinativa temporal no domínio das classes de palavras – "vez" parece-lhe o quê?»
Fui assim levado a reconsiderar a possibilidade de os fraccionários serem uma subclasse dos quantificadores, como locuções:
«
Não há a menor dúvida que há argumentos sólidos para questionar a ausência dos fraccionários, entre os quantificadores… Seriam locuções, então…»
Tenho agora nas minhas mãos a recente Gramática de Clara Amorim e Catarina Sousa, com apoio científico de Mário Vilela e Alina Vilalva, publicada pela Areal. Na página 198, reproduzem-se argumentos similares aos meus para rejeitar a inclusão dos fraccionários e dos multiplicativos na classe dos quantificadores:
– em "um quarto de litro de vinho", "quarto" é um nome;
– em "meio frango", "meio" é um adjectivo.
– em "dei-te o dobro do tempo para fazeres o teste", "dobro" é um nome.
(Estes exemplos são meus, mas feitos de acordo com os da referida gramática)

Artigo a metro do Sr. José Júdice

Num artigo, publicado no jornal Metro, lido por milhares de pessoas no dito meio de transporte, o Sr. José Júdice resolveu também pôr a sua colherada na Tlebs. Que melhor objecto erótico-sentimental poderia ele encontrar para preencher o seu espaço de prosa dedicada a milhares de encarregados de educação que por aquele meio de transporte transitam? Depois de dissertar sobre as experiências dos nazis nos campos de concentração, que coisa mais tlebática poderia haver, foi o senhor José Júdice, com um entreolhar malicioso para o leitor, procurar um exemplo similar do que no tempo dele fazia rir a juventude, umas passagens dos Lusíadas, talvez, adivinhemos, o Canto IX. Que coisa tlebática teria esse potencial erótico? Adivinhe, caro leitor! Nada mais, nada menos que o termo "conjunção coordenativa copulativa". Quando li isto fartei-me de rir porque, imaginem, dei por mim a colocar aqui o Sr. José Júdice a cu pular com o "e" e o "também", não fosse o termo "cópula" ser desconhecido da generalidade dos leitores do Metro. Talvez não seja esse o caso e aconteça que muitos dos seus leitores se lembrem de ainda na década de 70 estarem a decorar as conjunções coordenativas copulativas para um teste de Português.