Processos de transformação social

“A morte prematura de Hugo Chávez em 2013 e a queda do preço do petróleo em 2014 causou um abalo profundo nos processos de transformação social então em curso.”

Esta citação de Boaventura Sousa Santos, do artigo citado no “post” anterior, expõe os princípios a que o autor se cinge quando analisa os acontecimentos da Venezuela.

Há um processo de transformação social em curso em direção a um qualquer ideal social, perante o qual muitos factos incómodos podem ser ignorados. Os princípios éticos e políticos devem ser aplicados em subordinação a este fim mais elevado da revolução em curso.

Vamos ignorar as violações dos direitos de cidadãos, de jornalistas, de magistrados, de deputados, etc, que não se encaixam e perturbam a revolução bolivariana. Não importa a riqueza da família Chávez, o nepotismo da seleção de deputados da Constituinte, o sequestro do poder legislativo pelo executivo através da corrupção do judicial. Nada do que se opõe à revolução, ao processo de transformação social, interessa. 

Compreendo esta conceção porque já a tive inscrita no meu quadro mental. Em 1984, conclui que estava errado. Toda a minha forma de julgamento político cinge-se a princípios superiores aos factos que analiso. Pouco importa que simpatize ou não com Sócrates, Dilma ou Lula. Quando se trata dos factos de que são acusados, apenas estes estão em causa e não qualquer processo em curso. O que desejo é que se chegue à verdade e que paguem o preço dos seus erros.

“Colectivos” – o partido armado na Venezuela

Venezuela

«A agência EFE avança que outros dois activistas da oposição, Marcel Pereira e Iraldo Guitérrez, foram mortos em Mérida por elementos dos “colectivos” – grupos armados afectos ao Governo venezuelano.»

https://www.publico.pt/2017/07/30/mundo/noticia/maduro-deitou-o-primeiro-voto-pela-paz-mas-o-sistema-nao-reconheceu-o-seu-nome-1780808

Os “Colectivos” são o partido armado chavista – a inovação que Mussolini e Hitler aprenderam de Lenine e que depois, todos os outros repetiram. Enquanto participam nas eleições “burguesas”, preparam-se para a revolução socialista, proletária, peronista, agora, a bolivariana, pela força (não poderia ser de outra forma). Guardas vermelhos, camisas negras, camisas castanhas, etc e, agora, colectivos na Venezuela.

Nicolás Maduro defendido por Boaventura Sousa Santos

“Em defesa da Venezuela” é o título do artigo de BSS no Público.

A primeira manobra de retórica é mesmo essa sinédoque de chamar Venezuela ao governo de Maduro.

Não percebo o que é que leva Boaventura Sousa Santos a defender o presidente da Venezuela. Fala em “revolução bolivariana”, em petróleo, em pôr os pobres contra o governo, coisas que não vêm ao caso do que vemos todos os dias. Não nos traz qualquer nova informação a respeito do essencial que nos permita alterar o nosso juízo.

Culpa os EUA da deterioração da situação:

“A situação foi-se deteriorando até que, em dezembro de 2015, a oposição conquistou a maioria na Assembleia Nacional.”

Que a oposição tenha ganho as eleições é algo perfeitamente normal em democracia. BSS não responde à questão de onde é que está o problema, se na oposição, se no governo.

“O Tribunal Supremo suspendeu quatro deputados por alegada fraude eleitoral, a Assembleia Nacional desobedeceu, e a partir daí a confrontação institucional agravou-se e foi progressivamente alastrando para a rua, alimentada também pela grave crise económica e de abastecimentos que entretanto explodiu.”

BSS não avalia os motivos por que a Assembleia Nacional não aceitou a suspensão dos deputados pelo Tribunal Supremo. Se há motivos válidos ou não para duvidar da correção desta sentença, se podemos aceitar que há uma separação de poderes efetiva entre o legislativo e o executivo, se a decisão do tribunal não tinha a intenção de estragar a maioria obtida pela oposição.

“Entretanto, o Presidente Maduro tomou a iniciativa de convocar uma Assembleia Constituinte (AC) para o dia 30 de Julho e os EUA ameaçam com mais sanções se as eleições ocorrerem. É sabido que esta iniciativa visa ultrapassar a obstrução da Assembleia Nacional dominada pela oposição.”

É aceitável em termos políticos ultrapassar a obstrução do parlamento com uma mudança de regime? A constituinte que Maduro propõe vai contra os partidos que serão substituídos por uma distribuição dos representantes de acordo com categorias pre-fixadas por ele: tanta percentagem para trabalhadores, tanta para índios, tanta para aposentados, etc. Na democracia representativa, só existe uma categoria: cidadãos. Se há liberdade de associação e os cidadãos têm que eleger representantes, é natural que haja “partidos” e que todos os possam criar se tiverem apoios suficientes de outros cidadãos para isso, o que tem acontecido muito na Europa.

Se há uma maioria que foi eleita democraticamente com a mesma constituição que elegeu Chavez e Maduro e que não concorda com o processo da Constituinte, que tem visto os seus poderes capturados por um poder judicial que, tudo indica, é uma mera extensão do executivo, que pode fazer, senão protestar?

É esse direito que é rejeitado por BSS. A oposição teria que aceitar a “revolução bolivariana”, de acordo com BSS, e não protestar.

“Mas nada disso justifica o clima insurrecional que a oposição radicalizou nas últimas semanas e que tem por objetivo, não corrigir os erros da revolução bolivariana, mas sim pôr-lhe fim “

Para mim, o importante é ver quem está a fazer jogo sujo, quem está a abusar do seu poder e é para mim evidente que é o governo com a cumplicidade do Tribunal Supremo e não a Assembleia Nacional, dominada pela oposição.

Concluindo, é em nome dessa sua posição – a revolução chavista – e não da democracia formal (representativa) que BSS intervém.

Tudo o que ele diz sobre petróleo, EUA, neo-liberalismo, etc. não passa de tretas, as mesmas que falam do bloqueio a Cuba como causa da sua miséria e não veem a falência do modelo económico e político cubano, ou chavista.

Avaliação da Homeopatia

Um relatório do National Health and Medical Research Council (Australia) inclui 300 páginas de investigação em numerosas doenças para concluir que

There is a paucity of good-quality studies of sufficient size that examine the effectiveness of homeopathy as a treatment for any clinical condition in humans. The available evidence is not compelling and fails to demonstrate that homeopathy is an effective treatment for any of the reported clinical conditions in humans (p.288)

Portanto, não obstante a escassez de estudos de amplitude adequada, não se consegue demonstrar estatísticamente a efetividade do tratamento. Assim, quando alguém melhora com um tratamento homeopático, nunca saberá se tal se deve às virtudes dos medicamentos que toma se por causa das suas orações, da nossa senhora de Fátima ou de algum amuleto que tenha consigo.

Está aqui a ligação para o dito relatório: Effectiveness of Homeopathy for Clinical Conditions: Evaluation of the Evidence

Deve o exame condicionar a leitura orientada?

Dedico este trabalho à Vitória de Sousa,

uma grande defensora da leitura e do leitor,

uma pessoa com quem espero ainda

poder aprender algumas coisas importantes.

 

A aprendizagem da leitura literária em Portugal baseia-se no seguinte paradigma: os programas prescrevem obras que são lidas uniformemente em todas as escolas, em todos os níveis de ensino.

Ao ser questionada esta perspetiva autoritária e arbitrária do cânone e do ensino da literatura, respondem‑nos invariavelmente com o problema dos exames: todos têm que ler os mesmos textos para que todos sejam sujeitos à mesma prova.

Sinto-me desconfortável com a ideia de Portugal ser, de entre os países que pesquisei, o único cujos programas de ensino especificam escolhas que podiam ser feitas por alunos e professores, enquanto comunidades de leitores que deviam ter alguma autonomia. Para chegar a esta desagradável conclusão, li programas do ensino básico e secundário do Reino Unido, França, Alemanha, Brasil e Espanha, entre outros.

Será o exame um constrangimento válido para justificar a uniformidade da leitura no ensino secundário e a imposição dogmática dum cânone, ou mesmo, duma preferência literária?

Um país que tem um sistema importante de exames é o Reino Unido. Lá, a administração de exames é da responsabilidade de organizações independentes do governo, cujos serviços são requeridos pelas escolas. A AQA, uma dessas organizações, é responsável por cerca de metade de todos os exames de GCSE (correspondente ao 9º ano) e A-Level (10º a 12º ano) de todo o Reino Unido. No caso dos exames de A-Level, as especificações não se limitam ao exame propriamente dito, mas ao programa da disciplina.

Li agora com atenção dois cadernos de especificações o de English Literature para o GCSE e English Language and Literature para o A-Level. Nesta disciplina, restringindo-me à literatura, à escolha de textos e ao tipo de questões de exame, verifico o seguinte:

Para uma parte da narrativa ficicional (secção “imagined worlds”, isto é, “mundos imaginados”), os alunos podem escolher uma de entre as seguintes obras:

  • Mary Shelley, Frankenstein;
  • Bram Stoker, Dracula;
  • Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale;
  • Alice Sebold, The Lovely Bones;

Para uma outra temática da narrativa ficicional (“writing about society”, escrita sobre a sociedade), os alunos podem escolher uma das seguintes obras:

  • Jon Krakauer, Into the Wild;
  • Kate Summerscale, The Suspicions of Mr Whicher: or the Murder at Road Hill House;
  • F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby;
  • Khaled Hosseini, The Kite Runner;

Na parte relativa à poesia, os alunos podem escolher de uma antologia, poemas de um de quatro poetas:

  • John Donne
  • Robert Browning
  • Carol Ann Duffy
  • Seamus Heaney

Para o texto dramático, eles têm de escolher uma peça de entre as seguintes:

  • William Shakespeare, Othello;
  • Arthur Miller, All My Sons;
  • Tennessee Williams, A Streetcar Named Desire;
  • Rory Kinnear, The Herd;

A avaliação da disciplina compõe-se de 2 testes (peso de 80%), um de 3 horas e outro de 2, e de um ensaio realizado sob a orientação do professor obedecendo também a especificações (20%).

No primeiro teste de exame, a parte ficcional (“imagined worlds”), apresenta no enunciado várias questões, referentes aos textos mencionados acima, de entre as quais o aluno tem de escolher uma (que dirá respeito ao texto que preparou). Trata-se de uma questão de desenvolvimento com um peso de 35% desse teste. O mesmo acontece com as questões relativas à narrativa (“writing about sociey”), à poesia e ao drama.

A especificação poderá, numa próxima edição – esta que apresento é a relativa a 2017 -, incluir outros autores e outros textos canónicos de maneira a evitar a transformação da leitura numa estereotipificação ou numa reprodução de interpretações feitas na aula dum texto já repetido e massacrado em inúmeros comentários.

Em English literature (GCSE, correspondente ao nosso 9º ano), a escolha ainda é maior. Há uma secção dedicada a Shakespeare na qual o aluno poderá escolher uma peça de entre várias:

“Students will answer one question on their play of choice. They will be required to write in detail about an extract from the play and then to write about the playground as a whole”.

A escolha será feita entre:

  • Macbeth
  • Romeo and Juliet
  • The Tempest
  • The Merchant of Venice
  • Much Ado About Nothing
  • Julius Caesar.

Há uma secção sobre o romance do século XIX em que os alunos terão que escolher um romance para responder a uma questão no teste, em que lhe será apresentado um extrato da obra que preparou para responder em pormenor e globalmente. 

  • Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde
  • Charles Dickens, A Christmas Carol
  • Charles Dickens, Great Expectations
  • Charlotte Brontë, Jane Eyre
  • Mary Shelley, Frankenstein
  • Jane Austen, Pride and Prejudice
  • Sir Arthur Conan Doyle, The Sign of Four

As obras que aqui se apresentam são por nós conhecidas mesmo que não tenhamos lido todas. Fazem, pois, parte dum cânone. A diferença entre este currículo e o nosso está na redução dos nossos programas a uma espécie de catecismo histórico-literário que vai ao ponto de prescrever partes de romances e de estabelecer interpretações para os textos indicados (vejam-se os temas de Camões lírico). Esta orientação constitui um convite ao desinteresse, em que o texto objeto se transforma no próprio conteúdo programático, matéria a decorar. Nenhum texto sobrevive a esta carnificina escolar.

Se o tema programático é o romantismo, pois que leiam os alunos um grande romance romântico à sua escolha. Se é o realismo, então que experimentem um grande texto realista de entre os melhores.

Isso mostra perfeitamente duas conceções diferentes sobre o ensino da literatura nos nossos dois países. Lá importa a leitura literária e o conhecimento histórico-literário requerido. Aqui importam os textos canonizados que têm de ser os mesmos para todos os alunos e todos os professores. É a lógica da antologia. Já que não é possível ler tudo, então que leiam um bocadinho de cada, como se em cada excerto estivesse toda a essência da obra e do autor.

Bibliografia consultada:

Clique no título dos documentos para os abrir.

AS and A-Level. English Language and Literature (especificações da disciplina e do exame)

A-Level. English Language and Literature – specimen material (exemplos de questões de exame)

GCSE – English Literature (especificações da disciplina e do exame)

Bloomberg desvaloriza efeito de Trump no controlo das mudanças climáticas

As centrais de carvão continuam a fechar não por causa da política federal, mas porque os americanos já não as querem e preferem pagar mais por energia mais limpa – diz Bloomberg. Nem os estados nem as cidades deixarão de condicionar o mercado energético por princípios ecológicos por Trump ter rasgado os compromissos internacionais nesta matéria.

Bloomberg, um dos 10 homens mais ricos do mundo (10 vezes mais rico do que Trump), ex “mayor” de New York (12 anos no cargo), escreve hoje na sua coluna de opinião do NYT: “Climate Progress, With or Without Trump”, NYT, 31/3/2017.

Também convém ler Krugman que nos esclarece que a indústria do carvão já não dá tantos emregos e já não importa significativamente para a economia da Virgínia Ocidental (“Coal Country Is a State of Mind”, NYT, 31/3/2017).

Tratados ortográficos internacionais

Na audição do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada no Parlamento (aqui), a 22 de fevereiro, duas semanas depois da ida da Academia de Ciências ao parlamento, foi esclarecido que as várias línguas “pluricêntricas”, como o espanhol, o francês e o alemão, têm tido acordos internacionais sobre a sua ortografia. Trata-se de uma questão de facto sobre a qual têm mentido várias personalidades como Artur Anselmo e Bagão Félix e que tem sido objeto de análise neste blogue.

Só o Inglês não tem ortografia acordada – diz um dos representantes do dito centro (CELGA).

Também já comentei o caso do inglês.

Veja: