O problema da anáfora

Na simplificação escolar a que recorremos, a anáfora aparece como um mera repetição do já dito. Contudo, uma análise mais fina revela algumas dificuldades. Por exemplo,

  • (1) “Alguns jogadores fizeram um jogo muito violento. Eles foram expulsos pelo árbitro”

Se “eles” for substituído pela expressão que supostamente substitui surgem problemas de referência:

  • (2) “Alguns jogadores fizeram um jogo muito violento. Alguns jogadores foram expulsos pelo árbitro”

Nada nos garante que os jogadores referidos em (2) na segunda frase são os mesmos da primeira. A única coisa que podemos dizer com segurança é que em (1) “alguns jogadores” e “eles” têm a mesma referência, isto é, são expressões “correferentes”. Ver a este respeito, o velhíssimo Dicionário das ciências da linguagem de Ducrot e Todorov (Lisboa, D. Quixote, 1988, pp. 338-340).

É de facto uma questão mais importante do que parece, uma vez que referência e palavras ou expressões (signos) são coisas distintas. Quando se fala da anáfora como figura de linguagem, o que temos usualmente é a mera ideia de repetição de palavras. Neste sentido, “alguns jogadores” em (2) é uma anáfora que pode no contexto não coincidir com a referência.

Na Wikipédia, “Anáfora” aponta precisamente para esta mera repetição com efeito literário. Em InfoEscola, expressa-se a mesma ideia.

Observemos o poema de Cecília Meireles citado no artigo e assinalemos as anáforas do ponto de vista da referência e do ponto de vista do significante (palavra, expressão, signo). Assinalo a repetição dum significante a azul e outras palavras que partilham a mesma referência a verde.

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É que eu quero morar.

O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar.
É que eu quero morar.

Quando faz lua, no terraço
fica todo o luar.
É que eu quero morar.

Os passarinhos se escondem,
para ninguém os maltratar:
no último andar.

De se avista o mundo inteiro:
Tudo parece perto, no ar.
É que eu quero morar:

no último andar.”

O problema da anáfora

Na simplificação escolar a que recorremos, a anáfora aparece como um mera repetição do já dito. Contudo, uma análise mais fina revela algumas dificuldades. Por exemplo,

  • (1) “Alguns jogadores fizeram um jogo muito violento. Eles foram expulsos pelo árbitro”

Se “eles” for substituído pela expressão que supostamente substitui surgem problemas de referência:

  • (2) “Alguns jogadores fizeram um jogo muito violento. Alguns jogadores foram expulsos pelo árbitro”

Nada nos garante que os jogadores referidos em (2) na segunda frase são os mesmos da primeira. A única coisa que podemos dizer com segurança é que em (1) “alguns jogadores” e “eles” têm a mesma referência, isto é, são expressões “correferentes”. Ver a este respeito, o velhíssimo Dicionário das ciências da linguagem de Ducrot e Todorov (Lisboa, D. Quixote, 1988, pp. 338-340).

É de facto uma questão mais importante do que parece, uma vez que referência e palavras ou expressões (signos) são coisas distintas. Quando se fala da anáfora como figura de linguagem, o que temos usualmente é a mera ideia de repetição de palavras. Neste sentido, “alguns jogadores” em (2) é uma anáfora que pode no contexto não coincidir com a referência.

Na Wikipédia, “Anáfora” aponta precisamente para esta mera repetição com efeito literário. Em InfoEscola, expressa-se a mesma ideia.

Observemos o poema de Cecília Meireles citado no artigo e assinalemos as anáforas do ponto de vista da referência e do ponto de vista do significante (palavra, expressão, signo). Assinalo a repetição dum significante a azul e outras palavras que partilham a mesma referência a verde.

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É que eu quero morar.

O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar.
É que eu quero morar.

Quando faz lua, no terraço
fica todo o luar.
É que eu quero morar.

Os passarinhos se escondem,
para ninguém os maltratar:
no último andar.

De se avista o mundo inteiro:
Tudo parece perto, no ar.
É que eu quero morar:

no último andar.”

Onde estão os “moderados”?

Nesta página da BBC de 2013 – Guide to the Syrian rebels -, faz-se um levantamento dos grupos rebeldes na Síria que parecem ser quase tantos quanto os homens em armas. Não há quase nenhum grupo militar efetivo que não tenha uma designação “islâmica” remetendo diretamente para um ideal político islâmico. Será que nestes dois anos eles mudaram de cultura política e já estão em armas por um estado de direito laico e democrático ou apenas “forçaram” a barra para obter apoio ocidental?

Neste vespeiro, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), inimigo a abater pelo ocidente, é para muitos destes rebeldes, cuja agenda política é diferente da que projetaríamos num povo que luta contra um ditador, apenas um pouco exagerado. Quanto ao essencial, o seu ideário é semelhante ao de muitos rebeldes.

Um estado islâmico representa um retrocesso civilizacional e político relativamente à ditadura de Assad por pior que esta seja. 

Quando os líderes ocidentais falam em “moderados” que lutam de armas na mão contra Assad, devem estar a falar de heróis que devemos acarinhar, mas será que justificam uma intervenção militar maciça que provavelmente beneficiará os militantes da teocracia islâmica?

Que candidatos à moderação irá o “Ocidente” impedir de se “radicalizarem”?

Não será com certeza a Frente al-Nusra, 20 000 ou mais homens em armas, um grupo já ilegalizado pelos EUA por fazer parte da Al-Qaeda que começou com o modus operandi típico com ataques suicidas e etc, mas que, parece ter-se acomodado à lógica anti-Assad junto com os outros grupos, sem contudo desistir do ideal de um estado islâmico.

Será porventura o Ahrar al-Sham que tem uma importante base em Idlib e terá sido vítima dos ataques russos? Há quem o considere ainda mais poderoso do que a al-Nusra. Apesar de já não se considerar membro da Al-Qaeda e não ser militante do jihadismo global, limitando a sua ação à Síria, a sua ideologia islâmica não mudou.

A Brigada dos Mártires da Síria, apoiada pela Arábia Saudita, parece não colocar o islamismo no seu discurso político. São cerca de 7000 homens em armas, liderados por Jamal Maarouf, que já tiveram alguns êxitos militares como o derrube de dois MIg da Força Aérea de Assad. A Brigada agora está integrada na Jabhat Thowar Suriyya, Frente Revolucionária da Síria, liderada por Maarouf, um movimento que se diz laico e democrático. Contudo, para sobreviver nesta luta tem que se aliar aos outros movimentos fundamentalistas que já referimos e que são mais poderosos. Acrescentemos a Frente Islâmica, al-Jabhah al-Islāmiyyah, movimento fundamentalista, também com apoio saudita, mais de 40 000 homens em armas. Os cerca de 15 000 homens da Frente Revolucionária Síria integram-se nos cerca de 50 000 do Exército Livre da Síria que junto com os 50 000 curdos do YPG se unem no Conselho Nacional Sírio que agrupa cerca de 114 organizações das quais referimos algumas das mais relevantes.

Perante o fato de haver 100 000 ou mais homens que lutam na Síria contra a ditadura de Assad fora do quadro fundamentalista, concluo que a posição russa de reduzir tudo ao Estado Islâmico é errada. A Rússia está a apoiar massivamente o ditador mesmo se reduzir a sua ação a atacar grupos fundamentalistas e terroristas, pois liberta o exército sírio de uma das frentes. Mas isso é inevitável também para os americanos.

A guerra civil síria transformou-se num conflito regional, com várias frentes e vários agentes com intenções diferentes. Por um lado, temos o Irão, o pilar do fundamentalismo Xiita, a competir com a Arábia Saudita sunita por influência na região. A Síria e o Yémene são dois lugares dessa disputa. O Iraque, aparentemente, já entrou na órbita iraniana. A aliança russa ao Irão tende a diminuir o peso da influência americana em Bagdad. Os curdos que seriam aliados contra o Estado Islâmico são prejudicados gravemente pela Turquia que quer impedir a todo o custo que curdos sírios e curdos iraquianos criem um novo Curdistão que desestabilizaria a zona curda da Turquia.

O Estado Islâmico tem sobrevivido graças aos interesses divergentes que se apresentam. Se convém ao Irão combater os sunitas radicais, tal desiderato não convém aos estados sunitas da região. Embora sem apoios declarados, os islamitas de Raqqa beneficiam do desinteresse da Turquia e da divisão entre Xiitas e Sunitas no Iraque.

Global Research

Os artigos do Global Research parecem-me ter a seguinte linha de orientação: os Estados Unidos da América e os seus aliados são os culpados de todos os males da humanidade.

Em Syria: Russian Intervention Exposes Coalition Lies. “The Terrorists R US” , suporta-se a posição de Putin na Síria e acusa-se a Inglaterra por fazer a mesma coisa pela qual os russos são elogiados. Exemplifica-se com o caso de uma intervenção em que militantes do ISIL ingleses foram assassinados na Síria por forças britânicas com um drone. Quanto à decisão do líder russo, de atacar os terroristas na Síria, é aceite sem crítica alguma a justificação do próprio: ter o apoio do governo legítimo da Síria. 

Este está desacreditado, tanto perante os países ocidentais como perante os seus vizinhos. Mas o artigo aceita esta posição legalista da Rússia para contrapor à ilegalidade dos ocidentais. Não se discute a natureza deste regime, nem as suas ações. Supostamente, todos os que Assad bombardeou eram terroristas.

Cita-se Michel Chossudovsky que, precisamente reduz toda a oposição síria a “terroristas”, a mesma justificação que Assad dava no momento mais quente da guerra civil. Sabíamos que havia grupos que queriam um regime em que eles pudessem participar pacificamente. Algo a que podemos chamar democracia. Tratava-se de acabar de vez com a ditadura desta elite da etnia alauita, já responsável por inúmeros banhos de sangue.

Para Chossudovsky, a Al-Nusra que os americanos declararam terrorista, é financiada por eles próprios e faz parte do Exército Livre da Síria. Trata-se de uma evidente deturpação das difíceis condições no terreno. Os rebeldes anti-Assad estiveram num determinado momento unidos, mas tiveram de se demarcar uns dos outros. A Al Nusra já combateu contra o Exército Livre da Síria e assinou uma aliança com o ISIL.

Talvez os russos acabem com o terrorismo na Síria como fizeram na Tchetchênia e num Teatro de Moscovo: liquidando tudo o que estiver por perto.

 

Global Research

Os artigos do Global Research parecem-me ter a seguinte linha de orientação: os Estados Unidos da América e os seus aliados são os culpados de todos os males da humanidade.

Em Syria: Russian Intervention Exposes Coalition Lies. “The Terrorists R US” , suporta-se a posição de Putin na Síria e acusa-se a Inglaterra por fazer a mesma coisa pela qual os russos são elogiados. Exemplifica-se com o caso de uma intervenção em que militantes do ISIL ingleses foram assassinados na Síria por forças britânicas com um drone. Quanto à decisão do líder russo, de atacar os terroristas na Síria, é aceite sem crítica alguma a justificação do próprio: ter o apoio do governo legítimo da Síria. 

Este está desacreditado, tanto perante os países ocidentais como perante os seus vizinhos. Mas o artigo aceita esta posição legalista da Rússia para contrapor à ilegalidade dos ocidentais. Não se discute a natureza deste regime, nem as suas ações. Supostamente, todos os que Assad bombardeou eram terroristas.

Cita-se Michel Chossudovsky que, precisamente reduz toda a oposição síria a “terroristas”, a mesma justificação que Assad dava no momento mais quente da guerra civil. Sabíamos que havia grupos que queriam um regime em que eles pudessem participar pacificamente. Algo a que podemos chamar democracia. Tratava-se de acabar de vez com a ditadura desta elite da etnia alauita, já responsável por inúmeros banhos de sangue.

Para Chossudovsky, a Al-Nusra que os americanos declararam terrorista, é financiada por eles próprios e faz parte do Exército Livre da Síria. Trata-se de uma evidente deturpação das difíceis condições no terreno. Os rebeldes anti-Assad estiveram num determinado momento unidos, mas tiveram de se demarcar uns dos outros. A Al Nusra já combateu contra o Exército Livre da Síria e assinou uma aliança com o ISIL.

Talvez os russos acabem com o terrorismo na Síria como fizeram na Tchetchênia e num Teatro de Moscovo: liquidando tudo o que estiver por perto.

 

O rapaz, o lobo, a ovelha e a alface – um enigma e um algoritmo

 

 

Conhecem decerto o enigma do rapaz, do lobo, da ovelha e da alface… O rapaz tinha de levar os três de uma margem para a outra dum rio num pequeno bote onde só cabia ele e um dos elementos da carga.

Se levasse o lobo, a ovelha poderia comer a alface; se levasse a alface, seria a ovelha a ser comida pelo lobo. Teria que levar a ovelha, é claro. Mas, depois, na segunda viagem, não poderia levar nem o lobo nem a alface… Tudo se resolve se levar o lobo e, no regresso, trazer a ovelha. Assim, na terceira viagem já pode levar a alface para ao pé do lobo e deixar a ovelha à espera, sozinha. Na quarta viagem, vai de novo tranquilamente a ovelha.

O enigma tem muitas dificuldades que podemos considerar impertinentes face ao penigma01.JPGroblema que se quer resolver. Por exemplo, como pode uma alface ocupar o mesmo espaço dum lobo ou duma ovelha? Porque transportaria o rapaz um lobo?

A estas impertinências, dedica-se Allan Allberg no livro, que tem o título do enigma. Li-o até ao capítulo II onde ele conta a versão do rapaz na qual continua a haver lobo, ovelha e alface, mas deixa de haver enigma.

Quando falei do enigma ao Pedro, um rapaz que tem catorze anos e é aluno de Matemática dum amigo meu, ele disse-me logo:

– Esse enigma é uma história muito mal contada. Como é que uma alface tão pequenina pode constituir um problema de transporte? O caso é que ela é uma rapariga da minha turma que tem a mania de se vestir muitas vezes de verde-alface. É por isso que nós lhe chamamos Alface. A Ovelha também é da minha turma. Chamamos-lhe assim porque ela está sempre a lamentar-se como se fosse uma ovelha a balir. E o Lobo? É o meu amigo António que é Lobo de apelido.

Fiquei chocado. Ainda lhe chamei a atenção:

– Ouve lá. Este enigma é muito antigo…

Mas ele nem ligou e continuou:

– Eu vou contar-lhe a história, mas promete não contar aos meus pais, ok? Bem, é que isso aconteceu numa noite em que disse à minha mãe que ia ficar a dormir na casa do Lobo para estudarmos para o teste de Matemática. Além de fazermos isso, fomos à discoteca. E aqui está a parte mais secreta. É que a discoteca fica a dez quilómetros da minha casa. Tive que utilizar a mota do meu pai que estava em repouso na garagem. Como ele andava em viagem de trabalho, nem deu por isso. Fui de mota para casa do Lobo e elas, mais tarde, vieram ter connosco. Tinha que levar um de cada vez. Ainda estava a arrancar com o Lobo, quando a Alface e a Ovelha começaram uma violenta discussão. O Lobo exclamou logo:

– É pá! Estas miúdas vão nos estragar a festa! Leva a Ovelha, primeiro, se eu fico sozinho com ela, é um desastre.

O Lobo tinha namorado com a Ovelha, mas tinha-a deixado e, agora, andava com a Alface. A Ovelha era muito ciumenta e não suportava ter sido substituída.

Levei a Ovelha, muito contrariada, a olhar para trás, para o Lobo e a Alface, agarradinhos um ao outro. Na segunda viagem, levei a Alface e vi logo que não podia deixá-la junto da Ovelha, à porta da discoteca. De maneira, que trouxe esta de volta. Deixei-a em casa do Lobo e levei este para ao pé da Alface. Depois, na quarta viagem, levei de novo a Ovelha.

– E no regresso? – perguntei eu.

– Bem, no regresso já não houve problema nenhum. A Ovelha contou-me por que razão se comportava assim com o Lobo e com a Alface. Agora compreendo-a melhor. E ela nem é nada assim de estar sempre a lamentar-se como dizem lá na turma… Pois, é que, agora, ela namora comigo! 

Um dia, contei resumidamente, esta versão do enigma ao meu amigo que é professor de Matemática, sem me referir ao Pedro. Ele interrompeu-me:

– É a história que o Pedro contou na aula a seguir ao teste que foi dedicada a enigmas. Todos se riram muito, pois há lá mesmo um lobo, uma ovelha e uma alface.

O rapaz, o lobo, a ovelha e a alface – um enigma e um algoritmo

 

 

Conhecem decerto o enigma do rapaz, do lobo, da ovelha e da alface… O rapaz tinha de levar os três de uma margem para a outra dum rio num pequeno bote onde só cabia ele e um dos elementos da carga.

Se levasse o lobo, a ovelha poderia comer a alface; se levasse a alface, seria a ovelha a ser comida pelo lobo. Teria que levar a ovelha, é claro. Mas, depois, na segunda viagem, não poderia levar nem o lobo nem a alface… Tudo se resolve se levar o lobo e, no regresso, trazer a ovelha. Assim, na terceira viagem já pode levar a alface para ao pé do lobo e deixar a ovelha à espera, sozinha. Na quarta viagem, vai de novo tranquilamente a ovelha.

O enigma tem muitas dificuldades que podemos considerar impertinentes face ao penigma01.JPGroblema que se quer resolver. Por exemplo, como pode uma alface ocupar o mesmo espaço dum lobo ou duma ovelha? Porque transportaria o rapaz um lobo?

A estas impertinências, dedica-se Allan Allberg no livro, que tem o título do enigma. Li-o até ao capítulo II onde ele conta a versão do rapaz na qual continua a haver lobo, ovelha e alface, mas deixa de haver enigma.

Quando falei do enigma ao Pedro, um rapaz que tem catorze anos e é aluno de Matemática dum amigo meu, ele disse-me logo:

– Esse enigma é uma história muito mal contada. Como é que uma alface tão pequenina pode constituir um problema de transporte? O caso é que ela é uma rapariga da minha turma que tem a mania de se vestir muitas vezes de verde-alface. É por isso que nós lhe chamamos Alface. A Ovelha também é da minha turma. Chamamos-lhe assim porque ela está sempre a lamentar-se como se fosse uma ovelha a balir. E o Lobo? É o meu amigo António que é Lobo de apelido.

Fiquei chocado. Ainda lhe chamei a atenção:

– Ouve lá. Este enigma é muito antigo…

Mas ele nem ligou e continuou:

– Eu vou contar-lhe a história, mas promete não contar aos meus pais, ok? Bem, é que isso aconteceu numa noite em que disse à minha mãe que ia ficar a dormir na casa do Lobo para estudarmos para o teste de Matemática. Além de fazermos isso, fomos à discoteca. E aqui está a parte mais secreta. É que a discoteca fica a dez quilómetros da minha casa. Tive que utilizar a mota do meu pai que estava em repouso na garagem. Como ele andava em viagem de trabalho, nem deu por isso. Fui de mota para casa do Lobo e elas, mais tarde, vieram ter connosco. Tinha que levar um de cada vez. Ainda estava a arrancar com o Lobo, quando a Alface e a Ovelha começaram uma violenta discussão. O Lobo exclamou logo:

– É pá! Estas miúdas vão nos estragar a festa! Leva a Ovelha, primeiro, se eu fico sozinho com ela, é um desastre.

O Lobo tinha namorado com a Ovelha, mas tinha-a deixado e, agora, andava com a Alface. A Ovelha era muito ciumenta e não suportava ter sido substituída.

Levei a Ovelha, muito contrariada, a olhar para trás, para o Lobo e a Alface, agarradinhos um ao outro. Na segunda viagem, levei a Alface e vi logo que não podia deixá-la junto da Ovelha, à porta da discoteca. De maneira, que trouxe esta de volta. Deixei-a em casa do Lobo e levei este para ao pé da Alface. Depois, na quarta viagem, levei de novo a Ovelha.

– E no regresso? – perguntei eu.

– Bem, no regresso já não houve problema nenhum. A Ovelha contou-me por que razão se comportava assim com o Lobo e com a Alface. Agora compreendo-a melhor. E ela nem é nada assim de estar sempre a lamentar-se como dizem lá na turma… Pois, é que, agora, ela namora comigo! 

Um dia, contei resumidamente, esta versão do enigma ao meu amigo que é professor de Matemática, sem me referir ao Pedro. Ele interrompeu-me:

– É a história que o Pedro contou na aula a seguir ao teste que foi dedicada a enigmas. Todos se riram muito, pois há lá mesmo um lobo, uma ovelha e uma alface.

Programas de ensino e programas de legislatura

Parece que apenas o Bloco de Esquerda está preocupado com o desastre do plano curricular do atual governo. Sem uma análise crítica fundamentada e discutida, foram alterados programas de ensino do português e da matemática no ensino básico e no secundário.

Na disciplina de português, foram impostas de forma discricionária listas de obras de leitura obrigatória que têm como único fundamento as opções dos autores, excluindo, é claro, os poucos títulos que constituem referências culturais incontornáveis. Retirou-se assim aos professores um direito fundamental: o de escolher as leituras dos seus alunos, um elemento essencial do prazer de ensinar. Voltámos ao velho livro de leitura e ao caderninho de notas que o professor carrega anos a fio, a ler os mesmos textos de um cânone imposto pelo governo.

Produziram-se programas a que falta o mínimo de coerência taxonómica, destruindo anos de trabalho e debate no seio da comunidade docente das duas disciplinas consideradas. A única coisa a fazer deve ser o que o Bloco de Esquerda propõe: revogar os programas em causa e repor os anteriores, recuperando o investimento feito antes deste acidente.

O jornal

oje

reporta as opções partidárias em termos curriculares.

Noam Chomski ao Expresso

Tivemos a recente visita de Chomski. Não sei se com ele veio também o grande linguista ou só o ativista político. Solicitado a comentar o ataque ao Charlie Hebdo pelo Expresso (a), Chomski declarou que ele não era Charlie, implicando na expressão uma solidariedade estética e ideológica:

“Não, eu não sou Charlie! E não gosto desse jornal!”.

Ora, não é disso que se trata, mas apenas da defesa da liberdade de expressão. Creio que toda a gente entendeu isso. Não ser Charlie é, por exemplo, Sartre a vender na rua um jornal que era pereseguido pela polícia apesar de, nesse gesto, não pretender estar a subscrever as posições daquela redação.

É pena não termos uma justificação do desagrado de Chomski relativamente ao “Charlie Hebdo“. Talvez compreendêssemos melhor os seus pontos de vista. Mas Chomski prefere inverter a argumentação e generalizar o conceito de terrorismo aos EUA que seriam terroristas pela campanha global de assassínios que o governo de Obama está a fazer no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão.

Não sei se com este termo se referem todas as ações militares conduzidas pelos Estados Unidos nesses países ou apenas os assassinatos propriamente ditos que são um tipo de ação militar claramente assumido pela Administração. Há inimigos indentificados pelas autoridades militares americanas que se encontram numa lista para serem abatidos pelo exército. Tais ações justificam-se defensivamente por se tratar de indivíduos estrangeiros, em países hostis, que estão a preparar ataques aos EUA. Por exemplo, lembro-me de ver o Bill Clinton a falar sobre o ataque, ordenado por ele, a uma fábrica do Sudão que era de facto controlada por elementos ligados à Al-Qaeda, com o objetivo de atingir indivíduos implicados no ataque às embaixadas na África Oriental. Temos visto o que o governo sudanês tem feito ao seu próprio povo, com genocídios no Darfur e noutras regiões pelo tipo de gente solidária com os alvos do programa de assassínios americanos.

Chomski parece aceitar o que os atacantes ao Charlie Hebdo queriam: que eles representam o mundo islâmico contra o Ocidente. Dum lado, coloca o ataque ao “Charlie”, do outro, ações militares americanas. Rejeita que o ataque ao “Charlie” seja o maior ataque à liberdade de expressão na nossa memória viva, porque

esta “memória inclui o que eles nos fazem, mas não o que lhes fazemos”.

Diz isto ao comparar um ataque ao hospital de Faluja ao caso do Charlie Hebdo. Eram realmente os mesmos – a Al Qaeda do Iraque. Não estou em condições de avaliar o que aconteceu em Faluja, mas sei quem eram e sei que eles têm morto muito mais iraquianos do que americanos e que representam uma minoria sunita, mesmo, entre estes, e que afrontam a liberdade e a vida da maior parte das pessoas do seu país.

Independente dos danos, tanto no caso Charlie, como em Faluja, temos que ver os objetivos dessas ações e eu presumo que temos que dizer de que lado é que estamos. Chomski foge assim ao essencial que é pronunciar-se sobre os ideais em causa nas duas ações: dum lado, um grupo que pretende impor pela força um tipo de sociedade onde não existe qualquer liberdade, onde todos têm que comungar um certo credo religioso, onde as mulheres estão submetidas a uma tirania total. Enfim, talvez Chomski não goste desta palavra, mas dum lado está o totalitarismo, do outro, a liberdade. Digo isto desta forma simplista, pois sei que muitas gradações e cambiantes há a fazer, mas o simplismo chomskeano merece uma resposta simplista também.

No comentário à dívida portuguesa, Chomski, coloca-a sob a etiqueta do odioso. Contudo, continuamos a criar mais dívida. A dívida está nas nossas autoestradas, está em cerca de 8% do nosso orçamento de estado anual. Serão as nossas estradas odiosas? O mais caricato disto tudo é não perceberem que nós, portugueses, espanhóis e gregos, só queremos resolver o problema da dívida para podermos continuar a endividar-nos.

As dificuldades de Chomski e desta esquerda simplória que o acompanha resultam da sobrevalorização negativa do que denominam de imperialismo americano. Nada do que está contra a América e é combatido por esta lhes exige qualquer inspeção ou avaliação. Todos os adversários socialistas das nossas democracias ocidentais estão do lado do bem contra o mal. A extrema esquerda americana também tem um eixo do mal a contrapor ao de Bush.

Por isso, Chomski preferiu esquecer ou desvalorizar o deastroso genocídio dos Kmehr Vermelhos no Cambodja, pois estes eram inimigos dos EUA (b). Ele e outros, entre os quais se encontra a equivocada Joan Baez, chegaram a elogiar os progressos de um regime político que deixou atrás de si um lastro de três milhões de mortos e, continuam hoje numa posição de negação a propósito desse e de outros holocaustos. Para apoiarem regimes como esse e o da Coreia do Norte, não precisam de muita informação nem garantias e os desvios entre aquilo que imaginavam e o que realmente lá se passava eram ignorados ou minimizados.

Chomski e todos os outros intelectuais que apoiaram o regime cambodjano de 1975 a 1979 deviam sentir-se corresponsáveis por não ter havido nenhuma ação digna de registo da comunidade internacional nesse período, pois criaram uma atmosfera favorável a esses regimes, que, na sua perspetiva, se teriam liberto do imperialismo americano em 1975. A verdade é que logo a seguir à conquista de Phnom Penh houve informações de jornalistas e refugiados que contradiziam a sua idílica e romântica versão.

(a) Ver Expresso, Revista de 16 de Maio de 2014.

(b) Cambodian genocide denial; ver também Ear, Sophal, The Khmer Rouge Canon 1975-1979: The Standard Total Academic View on Cambodia.

Mais discussões sobre as posições de Chomski sobre o que se passava no Cambodja:

Sharp, Bruce, Averaging wrog answers: Noam Chomski and the cambodja controversy

Chomsky lies

Noam Chomski ao Expresso

Tivemos a recente visita de Chomski. Não sei se com ele veio também o grande linguista ou só o ativista político. Solicitado a comentar o ataque ao Charlie Hebdo pelo Expresso (a), Chomski declarou que ele não era Charlie, implicando na expressão uma solidariedade estética e ideológica:

“Não, eu não sou Charlie! E não gosto desse jornal!”.

Ora, não é disso que se trata, mas apenas da defesa da liberdade de expressão. Creio que toda a gente entendeu isso. Não ser Charlie é, por exemplo, Sartre a vender na rua um jornal que era pereseguido pela polícia apesar de, nesse gesto, não pretender estar a subscrever as posições daquela redação.

É pena não termos uma justificação do desagrado de Chomski relativamente ao “Charlie Hebdo“. Talvez compreendêssemos melhor os seus pontos de vista. Mas Chomski prefere inverter a argumentação e generalizar o conceito de terrorismo aos EUA que seriam terroristas pela campanha global de assassínios que o governo de Obama está a fazer no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão.

Não sei se com este termo se referem todas as ações militares conduzidas pelos Estados Unidos nesses países ou apenas os assassinatos propriamente ditos que são um tipo de ação militar claramente assumido pela Administração. Há inimigos indentificados pelas autoridades militares americanas que se encontram numa lista para serem abatidos pelo exército. Tais ações justificam-se defensivamente por se tratar de indivíduos estrangeiros, em países hostis, que estão a preparar ataques aos EUA. Por exemplo, lembro-me de ver o Bill Clinton a falar sobre o ataque, ordenado por ele, a uma fábrica do Sudão que era de facto controlada por elementos ligados à Al-Qaeda, com o objetivo de atingir indivíduos implicados no ataque às embaixadas na África Oriental. Temos visto o que o governo sudanês tem feito ao seu próprio povo, com genocídios no Darfur e noutras regiões pelo tipo de gente solidária com os alvos do programa de assassínios americanos.

Chomski parece aceitar o que os atacantes ao Charlie Hebdo queriam: que eles representam o mundo islâmico contra o Ocidente. Dum lado, coloca o ataque ao “Charlie”, do outro, ações militares americanas. Rejeita que o ataque ao “Charlie” seja o maior ataque à liberdade de expressão na nossa memória viva, porque

esta “memória inclui o que eles nos fazem, mas não o que lhes fazemos”.

Diz isto ao comparar um ataque ao hospital de Faluja ao caso do Charlie Hebdo. Eram realmente os mesmos – a Al Qaeda do Iraque. Não estou em condições de avaliar o que aconteceu em Faluja, mas sei quem eram e sei que eles têm morto muito mais iraquianos do que americanos e que representam uma minoria sunita, mesmo, entre estes, e que afrontam a liberdade e a vida da maior parte das pessoas do seu país.

Independente dos danos, tanto no caso Charlie, como em Faluja, temos que ver os objetivos dessas ações e eu presumo que temos que dizer de que lado é que estamos. Chomski foge assim ao essencial que é pronunciar-se sobre os ideais em causa nas duas ações: dum lado, um grupo que pretende impor pela força um tipo de sociedade onde não existe qualquer liberdade, onde todos têm que comungar um certo credo religioso, onde as mulheres estão submetidas a uma tirania total. Enfim, talvez Chomski não goste desta palavra, mas dum lado está o totalitarismo, do outro, a liberdade. Digo isto desta forma simplista, pois sei que muitas gradações e cambiantes há a fazer, mas o simplismo chomskeano merece uma resposta simplista também.

No comentário à dívida portuguesa, Chomski, coloca-a sob a etiqueta do odioso. Contudo, continuamos a criar mais dívida. A dívida está nas nossas autoestradas, está em cerca de 8% do nosso orçamento de estado anual. Serão as nossas estradas odiosas? O mais caricato disto tudo é não perceberem que nós, portugueses, espanhóis e gregos, só queremos resolver o problema da dívida para podermos continuar a endividar-nos.

As dificuldades de Chomski e desta esquerda simplória que o acompanha resultam da sobrevalorização negativa do que denominam de imperialismo americano. Nada do que está contra a América e é combatido por esta lhes exige qualquer inspeção ou avaliação. Todos os adversários socialistas das nossas democracias ocidentais estão do lado do bem contra o mal. A extrema esquerda americana também tem um eixo do mal a contrapor ao de Bush.

Por isso, Chomski preferiu esquecer ou desvalorizar o deastroso genocídio dos Kmehr Vermelhos no Cambodja, pois estes eram inimigos dos EUA (b). Ele e outros, entre os quais se encontra a equivocada Joan Baez, chegaram a elogiar os progressos de um regime político que deixou atrás de si um lastro de três milhões de mortos e, continuam hoje numa posição de negação a propósito desse e de outros holocaustos. Para apoiarem regimes como esse e o da Coreia do Norte, não precisam de muita informação nem garantias e os desvios entre aquilo que imaginavam e o que realmente lá se passava eram ignorados ou minimizados.

Chomski e todos os outros intelectuais que apoiaram o regime cambodjano de 1975 a 1979 deviam sentir-se corresponsáveis por não ter havido nenhuma ação digna de registo da comunidade internacional nesse período, pois criaram uma atmosfera favorável a esses regimes, que, na sua perspetiva, se teriam liberto do imperialismo americano em 1975. A verdade é que logo a seguir à conquista de Phnom Penh houve informações de jornalistas e refugiados que contradiziam a sua idílica e romântica versão.

(a) Ver Expresso, Revista de 16 de Maio de 2014.

(b) Cambodian genocide denial; ver também Ear, Sophal, The Khmer Rouge Canon 1975-1979: The Standard Total Academic View on Cambodia.

Mais discussões sobre as posições de Chomski sobre o que se passava no Cambodja:

Sharp, Bruce, Averaging wrog answers: Noam Chomski and the cambodja controversy

Chomsky lies