Conhecimentos e competências

Num dos ensaios de Perrenoud sobre as competências, inserido na antologia A escola e a aprendizagem da democracia (trad. Luís Cabral. 1a ed. Porto : Asa, 2002), há uma oposição entre uma escola de conhecimentos e uma escola de competências. Este meu pequeno texto visa discutir a efectividade desta oposição e questionar a sua relevância no objectivo confesso do autor que é o de lutar contra as desigualdades sociais. Sobre este tópico de política da educação de que a respectiva sociologia faz sua bandeira já dei a minha opinião em artigo recente aqui abaixo – A igualdade em educação.

Perrenoud critica a escola dos conhecimentos por ser própria para preparar para os estudos longos, isto é, para preparar os estudantes para a Universidade, mas não para os preparar para o emprego, para a vida. Enuncio aqui a minha primeira objecção ao que me parece ser uma contradição: se a escola preparar para uma saída rápida para o mercado de trabalho não estará a impedir à partida muitos de ambicionarem estudos de nível universitário? Pois não deixará nunca de haver escolas para preparar para a universidade, se a escola pública não o fizer! Simplesmente, esse caminho estará cada vez mais fora do programa da escola pública. Não estaremos assim a contribuir para o mal que o preocupa: que a sociedade não pretenda “uma igualdade de competências e de conhecimentos”?

Apesar de contraditório com os fins expressos, estou inteiramente de acordo com Perrenoud com a preocupação com o destino de milhares de jovens que não prosseguirão os seus estudos e que soçobram numa escola que não os prepara para a vida activa. Creio que a única resposta justa a esta questão é que a escola básica, gratuita e obrigatória, tem que preparar tanto para a vida activa como para o prosseguimento de estudos.

Será o currículo baseado em competências uma boa resposta a esta questão? De acordo com Perrenoud, as competências devem ser o crivo que permite seleccionar os conhecimentos. Estes importam apenas na medida em que são passíveis de ser mobilizados para a acção. É essa capacidade de mobilização, de investir conhecimentos, de fazer deles processos activos, que define as competências. Mas será possível ligar todos os conhecimentos relevantes a competências identificáveis? Será justo afastar do currículo todos os conhecimentos que não entrem visivelmente numa competência? Haverá algum conhecimento que não sirva para nenhuma competência?

É que se há uma relação difusa entre conhecimentos e competências, não seremos capazes de seleccionar e limitar os conhecimentos pelas competências. O resultado será um currículo tão generalizado como eram as tradicionais listas de conteúdos vigentes até há pouco tempo – e, por mim, tudo bem!

De acordo com Perrenoud, um currículo por competências desenvolve-se, não com as tradicionais sequências de aulas teóricas e exercícios de aplicação, mas com trabalho de projecto, oficina ou atelier onde a resolução de problemas conduza a conflitos cognitivos que, superados, conduzem o aluno a novos patamares de aprendizagem. É, enfim, o programa construtivista que tem aversão à memorização, ao treino sistemático, à simples recepção de exposições magistrais que se caracterizam pela quantidade de informação e pela lógica discursiva que as enformam.

O nosso Currículo Nacional foi elaborado com a preocupação definida por Perrenoud neste ensaio – definir as “competências essenciais“. A primeira competência apresentada é a seguinte:

Mobilizar saberes culturais, científicos e tecnológicos para compreender a realidade e para abordar situações e problemas do quotidiano“.

Será que há conhecimentos que não se enquadrem nesta competência geral?

Observando uma disciplina plena de conhecimentos como História, encontramos no 3º ciclo a seguinte competência:

Utiliza as noções de evolução, de multicausalidade, de multiplicidade temporal e de relatividade cultural no relacionamento da História de Portugal com a História europeia e mundial“.

A bem dizer, parece o enunciado de um programa universitário, mas que condensa muito bem a maneira como a disciplina arregimenta o conhecimento dos factos históricos. Mas que diferença apresenta relativamente a um programa clássico de objectivos e conteúdos? A tarefa é relacionar a história de Portugal com a da Europa e a do Mundo em que se aplicam as ditas noções. Ora, para o fazer tem que saber os ditos factos.

Não sei se estão a compreender bem a minha dúvida: em que medida é que um programa de competências se distingue dum de objectivos e conteúdos. Se não se trata só duma disposição diferente a dizer as mesmas coisas…

Ora, se há disciplinas onde a aplicação da noção de competência é fácil, são aquelas que sempre foram disciplinas em que o saber-fazer tem uma dimensão predominante como a língua portuguesa onde, desde sempre, o saber ler, o recitar e o escrever estiveram no centro das preocupações da aula. Além disso, a linguística contemporânea foi a primeira a utilizar produtivamente a noção de competência.

O conhecimento histórico começa por ser uma narrativa, uma história que dá sentido ao nosso presente, e, mesmo, à nossa identidade, que literalmente muda com esse conhecimento. Sublinho: uma história que tem que ser sabida e que é operativa na medida em que enquadra e dá sentido a novas aquisições e assim se torna meta-narrativa, por ser um quadro de referências essencial. Não podemos prever com exactidão quando é que uma pessoa mobiliza esse conhecimento numa competência dita histórica – Quando lê o jornal? Quando vê um filme? -, pois, por vezes, acontece o contrário, é esse conhecimento que nos mobiliza, nos torna outros, nos leva a fazer perguntas a querer saber mais e a integrar mais narrativas, todas elas interagindo com a nossa essencial narrativa biográfica.

Dum modo genérico, o conhecimento todo, digo mesmo, a enciclopédia, e traduzo por uma outra palavra, a cultura, constitui um mapa do todo que é a vida. É ele mesmo uma competência.

Embora reconheça que há competências identificáveis com níveis de desempenho mensuráveis e que se afiguram importantes para a realização futura dos nossos alunos – cálculo, língua estrangeira, produção de objectos com diversos materiais para responder a determinadas finalidades, leitura, escrita, etc. – e que têm que ter prioridade no seu currículo, nem todo o conhecimento é redutível a um programa de competências sem que haja uma grande perda para a cultura e é isso que Perrenoud propõe – pôr de lado tudo o que não se integra numa competência, pôr de lado o que apenas parece “interessante”.

 

Imagem retirada de http://www.gestiopolis.com/canales5/fin/reflex6.jpg

2 comentários em “Conhecimentos e competências”

  1. Bom dia, Luís.
    Li o teu texto e entendo que na essência se querem mudanças ao nível das competências porque os nossos alunos necessitam de aprender e não memorizar os conhecimentos. O “aprender a aprender” mais não é que a mobilização de competências que se vão adquirindo, moldando, e que têm de ser trabalhadas ao longo do percurso escolar. Por isso se fala tanto em mobilização de conhecimentos, em construtivismo social e outros ismos.
    A escola tem de criar condições para que os alunos não adquiram conhecimentos que depois não conseguem mobilizar e aplicar a novos contextos. Não é nada complicado colocar tudo isto em prática, requer é um romper com o comodamente interiorizado.
    As competências estão associadas aos objectivos. Por sua vez estes também têm de ser muito bem enunciados para poderem conduzir os aprendentes à mobilização dos saberes e à aquisição e domínio de competências. Se atentarmos à definição dos objectivos que colocamos nas várias grelhas, facilmente nos damos conta que não estamos a mobilizar os conhecimentos dos alunos, já que enunciamos objectivos que se encontram nos pensamentos de baixa ordem de Bloom . Só a mobilização de saberes de alta ordem geram conhecimento. 
    Anabela

    1. Olá,
      Anabela,
      Obrigado pelo teu comentário que tem pano não só para as mangas como para o vestido quase todo.
      Bem, não vou aplicar aqui a grelha dum famoso inquérito de auto-avaliação e dizer se discordo ou concordo, parcial ou totalmente. Um comentário dum comentário é mais do que apenas con- ou dis- Os alunos têm, sem dúvida, de  “aprender e não memorizar os conhecimentos”. Mas a aquisição do conhecimento passa necessariamente por memorizar muita coisa. Mesmo aquilo que se compreende bem tem por vezes que ser memorizado.
      O “aprender a aprender” não é outra coisa senão o “aprender” propriamente dito e é duvidoso que seja objecto duma aprendizagem separada. Se se trata de procedimentos da chamada metacognição também podem ser memorizados para serem utilizados. “As regras dum resumo são as seguintes…” Há coisas que se aprendem fazendo e isso sempre assim foi.
      Não me parece que a oposição memorização / aprendizagem seja uma novidade da transformação dos programas de objectivos e conteúdos em programas de competências.
      Eu não discordo das competências em nenhum aspecto. O meu problema é o que é que elas trazem de novo. Penso que no nosso Currículo Nacional não cumprimos o que Perrenoud propõe. A meu ver, ainda bem, pois os conhecimentos estão lá todos.
      Para dominar a competência da leitura, um aluno não precisa de saber os Lusíadas. A razão porque eles estão lá é a tradição e não a competência. Os testes que eles fazem não se limitam a avaliar o ganho de competência, mas sim o conhecimento puro que foi de facto memorizado.
      Gostaria de ver melhor evidenciada na prática uma situação em que uma pessoa tem um conhecimento que não mobiliza. Será que o tem mesmo?

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