Critérios sem critério nas provas de aferição

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Qual é a proporção?

(fonte: http://mob265.photobucket.com/albums/ii214/kokwaifun/IMG_2104.jpg)

 

Tal como centenas de outros professores, fui seleccionado para corrigir provas de aferição do 2º ciclo. O GAVE, o organismo que é responsável por exames e provas de aferição, coloca as orientações de correcção num documento público intitulado "critérios de classificação" (http://www.gave.min-edu.pt/np3content/?newsId=7&fileName=PA_LP_Criterios_de_Classificacao_2__Cicl.pdf).

Para além desse documento, são realizadas reuniões com os correctores nas várias unidades de aferição.

Como corrector, seria, supostamente, responsável pela classificação de um certo número de testes. Ora não é nada disso que acontece, pelos seguintes motivos:

  1. De acordo com a metodologia do GAVE, os correctores limitam-se a registar códigos que descrevem a tarefa ou resposta do aluno como totalmente certa, parcialmente certa ou errada.
  2. Os critérios de classificação publicados sofrem alterações de última hora, durante as reuniões nas unidades de aferição.
  3. O professor corrector regista os códigos numa folha de cálculo que não inclui nenhuma rotina que lhe permita saber o resultado final do teste.
  4. Essa parte é deixada para um núcleo de especialistas que a partir dos dados das grelhas de correcção decide a classificação de cada teste nas categorias A, B, C, D e E.

Esta metodologia merece-me os seguintes reparos:

  1. Os critérios publicados pelo GAVE não o são verdadeiramente, pois não explicitam as condições que permitem decidir a classificação de um dado teste.
  2. Ninguém fica a saber o peso de cada item dentro de cada domínio: leitura, escrita e conhecimento explícito da língua.
  3. Igualmente, ninguém sabe o peso que tem cada um dos grupos de questões na definição da classificação final (A, B, C, D, E).
  4. De acordo com o que sei de folhas de cálculo, parece-me que não há qualquer dificuldade técnica em disponibilizar numa folha ou num conjunto articulado de folhas de cálculo, a parte que permite chegar ao resultado final, quer sob a forma de médias ponderadas, quer sob a forma de condições.
  5. Ainda que a dificuldade técnica aconselhasse a não inclusão dessas rotinas na grelha de correcção, critérios e cotações deviam ser publicados para o grande público, já que as instruções para o professor corrector são-no.
  6. O facto de o não ser leva-me à conclusão de que esta reserva é intencional.
  7. Uma vez que não são publicados juntamente com o teste, o peso de cada questão e o peso de cada grupo no resultado final podem ser politicamente manipulados a posteriori, na busca de uma cotação que melhor sirva os interesses da tutela
  8. Quem faz um teste de aferição, interpreta o programa de língua portuguesa, onde o peso de cada domínio é explicitado. Escolhe questões ou tarefas para verificar o nível de compreensão da leitura, por exemplo. As questões não têm necessariamente o mesmo peso quer devido à informação que dão quer devido ao trabalho que exigem do estudante. Por isso, estabelecer a cotação de cada grupo de questões e a de cada questão é uma parte importante da elaboração do enunciado. É inaceitável que essa parte não venha a público ou seja deixada ao critério de outros espcialistas.

Finalmente, a título de exemplo, acrescento que nos testes nacionais ingleses, que também são provas de aferição, para o Key Stage 2 (6º ano, 11 anos), ao lado de cada questão aparece a sua cotação (mark), como informação relevante para o aluno. Estes testes têm normalmente 3 partes, e muito transparentemente, têm cotação total de 100.  Veja por exemplo a parte da compreensão da leitura do teste de 2007, que vale 50 dos 100 pontos. Clique Aqui para o teste. Para o texto, clique neste sítio).

Se a argumentação para não dar essa informação tem a ver com tecnologia, tenho que concluir que é um óptimo exemplo de como ela serve para tornar as coisas mais obscuras e para manipular o trabalho de profissionais competentes.

14 comentários em “Critérios sem critério nas provas de aferição”

  1. A proporção é a da tutela, o trabalho da mão-de-obra barata… Graças a Deus que me puseram a ver provas de 9º ano! Este ME tem tudo para cair o mais estateladinho possível.

    1. Isto é grave Luís. Vou linkar e enviar para outros blogues.

      Boa desmontagem. Pode ser que, e como há tempos, o GAVE passe por aqui e venha a correr falar contigo 🙂

      Abraço

  2. A proporção é a da tutela, o trabalho da mão-de-obra barata… Graças a Deus que me puseram a ver provas de 9º ano! Este ME tem tudo para cair o mais estateladinho possível.

    1. Isto é grave Luís. Vou linkar e enviar para outros blogues.

      Boa desmontagem. Pode ser que, e como há tempos, o GAVE passe por aqui e venha a correr falar contigo 🙂

      Abraço

  3. É chegado um momento… Espécie de “ponto de não retorno”… Já não é necessário ter as “coisas” obscuras… Agora, já tudo pode ser feito às claras… Já se perverteram todos os pressupostos fundamentais de uma qualquer sociedade humana que se queira manter como tal… Refiro-me a regras que, naquele prssuposto, devem ser claras e do conhecimento de todos – para que todo e qualquer um “saiba sempre com que linhas se terá de coser”… Havia (em tempos passados…) uma dita hierarquia das Leis (dispenso-me de a expor, por demais que é conhecida) – já não há… Havia (em tempos idos…) “pilares” inalienáveis como o Rigor (possível), a Verdade, a Seriedade (decorrente e interligada com a anterior), o respeito pelo Outro (pelo seu trabalho, pela sua dignidade, por…) – já não há… Tempos houve em que havia o que se chamava “noção de estado” (missão de um para o grande grupo que era o país) ora substituída por algo que, similarmente se poderá chamar de “noção de mim” (à falta de melhor) – portanto, aquela já não há… Então obscuro para quê?… E porquê?… Não há necessidade!… A única imagem que me vem, aproxima-se terrivelmente daquela célebre “L’ ÉTAT C’EST MOI”… É isso… Os novos “iluminados” estão aí, numa presença do que pode muito bem vir a chamar-se um “neo-iluminismo”… Os outros?… Quem?… Nós?… Pobres “bestas incultas”, seremos os quqlquer coisa-zecos… Professorzecos, por exemplo…

    1. Tocaste na ferida.
      Confesso que me sinto revoltado pelo meio-trabalho que me dão, para depois outros fazerem o que quiserem dele, mantendo-me numa total ignorância.

  4. É chegado um momento… Espécie de “ponto de não retorno”… Já não é necessário ter as “coisas” obscuras… Agora, já tudo pode ser feito às claras… Já se perverteram todos os pressupostos fundamentais de uma qualquer sociedade humana que se queira manter como tal… Refiro-me a regras que, naquele prssuposto, devem ser claras e do conhecimento de todos – para que todo e qualquer um “saiba sempre com que linhas se terá de coser”… Havia (em tempos passados…) uma dita hierarquia das Leis (dispenso-me de a expor, por demais que é conhecida) – já não há… Havia (em tempos idos…) “pilares” inalienáveis como o Rigor (possível), a Verdade, a Seriedade (decorrente e interligada com a anterior), o respeito pelo Outro (pelo seu trabalho, pela sua dignidade, por…) – já não há… Tempos houve em que havia o que se chamava “noção de estado” (missão de um para o grande grupo que era o país) ora substituída por algo que, similarmente se poderá chamar de “noção de mim” (à falta de melhor) – portanto, aquela já não há… Então obscuro para quê?… E porquê?… Não há necessidade!… A única imagem que me vem, aproxima-se terrivelmente daquela célebre “L’ ÉTAT C’EST MOI”… É isso… Os novos “iluminados” estão aí, numa presença do que pode muito bem vir a chamar-se um “neo-iluminismo”… Os outros?… Quem?… Nós?… Pobres “bestas incultas”, seremos os quqlquer coisa-zecos… Professorzecos, por exemplo…

    1. Tocaste na ferida.
      Confesso que me sinto revoltado pelo meio-trabalho que me dão, para depois outros fazerem o que quiserem dele, mantendo-me numa total ignorância.

  5. Como sei que escreves sempre com sentido de rigorosa responsabilidade, fico estupefacto, atónito com este verdadeiro sequestro docimológico. É espantoso. Ainda hoje lia uma entrevista no El Pais do Michael Haneke que dizia que a manipulação é algo irreprimível quando se tem o poder – no caso dele o poder de contar histórias. É irreprimível, de facto. Que vórtice, que transe, que vertigem…

  6. Como sei que escreves sempre com sentido de rigorosa responsabilidade, fico estupefacto, atónito com este verdadeiro sequestro docimológico. É espantoso. Ainda hoje lia uma entrevista no El Pais do Michael Haneke que dizia que a manipulação é algo irreprimível quando se tem o poder – no caso dele o poder de contar histórias. É irreprimível, de facto. Que vórtice, que transe, que vertigem…

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