Exames

No seu blog, Correntes (http://correntes.blogs.sapo.pt), o meu colega Paulo Prudêncio insurge-se contra os exames. Veja aqui o artigo: "exames (arquivo de ideias simples)".

Fiz o exercício de apreciar cada um dos pontos dessa discussão.

 

"Se confiamos no professor para leccionar as aulas durante o ano inteiro, porque é que no fim havemos de duvidar da classificação que atribui aos alunos?"

– Muitos professores são críticos em relação às notas que os seus próprios colegas dão! Os próprios alunos distinguem os professores mais exigentes dos que o são menos. Os exames avaliam o trabalho de professores e alunos, através de um teste comum.

– Além do mais, no nosso sistema, as classificações dos professores são manipuladas nos conselhos de turma, com base em critérios extrínsecos.

"Os resultados dos exames nunca diferem muito da nota do professor"

– Esta afirmação é falsa.

"Para aferir conhecimentos?"

– Sim, os exames são, também, provas de aferição.

"Para os alunos estudarem mais?"

– Sim, em geral, estudamos mais se sabemos que vamos ser examinados.

"Para estudos internacionais?"

– Os estudos internacionais servem-se privilegiadamente de provas como o PISA. Não é preciso ir tão longe: as autoridades nacionais beneficiam da informação dos exames, para avaliar programas e escolas.

"Para hierarquizar as escolas?"

– Faz-se em alguns países, oficialmente. Como os resultados dependem de alunos, professores, encarregados de educação, serviços sociais e etc., uma escola com piores resultados pode ser melhor do que outra com melhores resultados.

"Para hierarquizar os alunos na entrada para a universidade?"

– Sim, os exames podem servir para isso. Não necessariamente à portuguesa, com decisões feitas em função de décimas! Na Inglaterra, há um sistema de exames independente do governo. As escolas aderem a entidades independentes que têm a tarefa de preparar exames e que definem os procedimentos para os fazerem. Há um programa nacional, oficial, e, o aluno, para obter certificação tem de realizar os exames finais. Não é só à entrada nas universidades, mas também no primeiro emprego, que exigem certificações específicas. Por exemplo, ter pelo menos um C a Matemática e um B a Inglês pode ser a condição de pré-selecção de candidatos a um emprego. Além do mais, na maior parte das vezes, os exames não se limitam a uma prova, num único dia. Podem incluir a apresentação de um trabalho realizado durante um certo período, com determinadas condições de tempo, materiais e lugar.

"Serão, portanto, os exames tão necessários assim?"

– Podem ser úteis. Não são, de certeza, um mal. Sobretudo, podem ser feitos de maneiras muito diferentes. Penso que o assunto mais sério é este: como se devem realizar exames nacionais e que consequência devem ter na avaliação de alunos, professores e escolas. Não concordo com a posição do CDS que vê nos exames e na consequente selecção de alunos a solução para o sistema educativo. Mas, no actual estado de coisas, exames nacionais podem ajudar a melhorar o processo de ensino-aprendizagem e, sobretudo, a dar mais credibilidade às certificações oferecidas pela escola.

Um comentário em “Exames”

  1. A minha intenção ao fazer este post partiu do seguinte ideia que também é partilhada por Rui Tavares na sua crónica de hoje no jornal público: “nenhuma reforma seria tão bem-vinda como a reforma das banalidades que nos regem. Banalidades sobre as reformas, banalidades sobre a crise, banalidades sobre o país. Repetimo-las tanto que elas se tornam o nosso mundo”.

    Ou seja: Luís: os exames podem servir para aferição e para tudo o resto? Claro que sim. Os exames têm sempre o seu lugar nas chamadas ciências da educação? Claro que sim. Com esse ou com outro nome: provas de aferição, testes sumativos, testes internacionais. As questões que coloco são outras. Refiro-me á centralidade dos exames na vida actual e ao seu questionável valor. Há tanto para fazer. Se estivéssemos num nível mais avançado nas condições de realização do ensino os exames seriam dispensáveis. O maior valor está naquilo que se faz no quotidiano. Por absurdo, alguém deveria advogar exames nas disciplinas todas e nos anos todos e isso teria um peso logístico ainda mais insuportável do que aquele que se vive nos países pouco desenvolvidos.

    Revejo-me no clube dos poetas mortos. Revejo-me nessa utopia de escola. Por o ser, como sabemos, é essa escola que devemos perseguir: convenço-me do seguinte: ou por aí ou morremos. Ficará a escola dos ricos, apenas.

    O Rui diz um coisa muito acertada: os alunos delegam em quem?

    Pois é. Por isso comecei o post pelos azarados alunos que têm um professor mau que, como sabes, não é muito o meu tipo de linguagem. Também sei que os professores bons nem sempre têm alunos cuja nota do exame é igual á sua. E depois? Se um aluno tem essa sorte não precisa do exame para nada. Fica muito feliz sem ele e nem tem qualquer problema em fazer os exames que forem necessários.

    Enfim. Há muita vida para além dos exames e precisamos desesperadamente de confiar nos professores todos. A sério. Em todos. Essa deve ser a base de construção. Só depois é que podemos ajustar o que vai correndo menos bem. O que hoje se passa é como num espectáculo com pouco sentido: não apontamos o foco luminoso para o ensino mas no sentido contrário.

    Mas que bela discussão. Obrigado e um abraço.

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