Gramática generativa

Penso que o fracasso da primeira tentativa de introdução da gramática generativa se deveu a vários motivos alheios ao valor científico e pedagógico da teoria propriamente dita que se tem afirmado como um dos principais paradigmas do estudo da linguagem no nosso tempo. Acho que a gramática generativa foi apropriada por teorias psicológicas e pedagógicas que se revelaram erradas. Paradoxalmente, uma dessas teorias era rival científica do generativismo e usava um étimo similar na sua designação – psicologia genética. Mas este adjectivo, como derivado de "genes" está mais adequado a Chomski do que a Piaget, que pretendia referir a origem das estruturas cognitivas noutras, anteriores.
A psicologia genética piagetiana redundou pedagogicamente em construtivismo, o movimento que nos diz que o que interessa é a experiência de aprender e de descobrir e não tanto o objecto dessa aprendizagem.
Reli recentemente as quinhentas páginas de Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem 1 , o acalorado debate que decorreu entre Piaget e Chomski, em 1975, com partidários de um e doutro lado. Defensores de Piaget como Bärber Inhelder suavam para demonstrar que a linguagem era descoberta a partir das experiências da fase sensório-motora e encontravam o muro das lacónicas e claras posições dos adeptos das teorias generativas: há uma gramática que está em nós, uma faculdade da linguagem que nos permite descobrir a língua existente no nosso meio social, familiar. Não há lugar para a descoberta de uma qualquer génese da linguagem a partir de outra coisa qualquer (como a interacção com os objectos e com o meio).
A teoria generativa no ensino enfermou dos mesmos problemas do construtivismo pedagógico, em geral: eliminação de terminologias e definições a aprender e a decorar e centralização da aprendizagem na experimentação de frases, exactamente como em ciências da natureza se pretendia que o jovem utilizasse o método científico para descobrir o seu meio. Como isto falhava, precisamente porque as árvores de frase são um modo de representação e não um método de descoberta, os profesores, a maior parte dos quais não sabia o que era a gramática generativa, caía noutro erro: procurar no vocabulário da gramática generativa, os equivalentes dos termos da gramática dita tradicional. Assim, o sujeito, era o sintagma nominal, o predicado o sintagma verbal e, por aí adiante.
O que nos interessa é que a gramática generativa e várias outras teorias linguísticas e da filosofia da linguagem mostraram que vários conceitos gramaticais e maneiras de ensinar estão errados e que devem ser alterados.
No que respeita à sintaxe, por exemplo, como mostra Chomski em Syntatic Structures 2, o conceito de frase dominante anteriormente era o de uma cadeia, na qual se vão inserindo palavras. Chomski mostrou que tal conceito era erróneo e insuficiente para explicar como os falantes produzem frases, porque não dá conta da inserção programada de constituintes em pontos diferentes e em simultâneo na frase.
A mesma sequência de palavras pode corresponder a frases diferentes, como pode ver no seguinte exemplo. Imagine um anúncio dum programa da Antena 1: "Júlio Machado Vaz conversa sobre sexo com Alexandra Lencastre"
Como o verbo "conversar" é usado frequentemente com o sentido elíptico de "conversa com os espectadores", uma interpretação mais picante desta sequência poderia sugerir que o tema da conversa seria "sexo com Alexandra Lencastre", com a Alexandra ausente.

Uma interpretação mais austera seria uma conversa com a Alexandra como interlocutora:

A gramática que eu aprendi na escola não dá conta das diferentes integrações de um grupo de palavras na frase a concretizar diferenças de sentido.

1Lisboa, Edições 70, 1977.
2 Publicada pela primeira vez em 1957 (Paris, Mouton e The Hague)
3 O exemplo apresentado é uma adaptação de Pinker, Steven, The Language Instinct, London, Penguin, 1994, p. 103.

6 comentários em “Gramática generativa”

  1. Pois…a questão da pragmática também não era contemplada pela gramática no meu tempo.
    Olha recebi uma pequena iguaria! Não sei se já foi traduzida, mas intitula-se Echolalies . Essai sur l’oubli des langues ” de Daniel Heller-Roazen , Paris, Seuil , 2007. O original foi publicado em 2005 em Nova Iorque, com o seguinte título: Echolalias : On the Forgetting of Language , pela Zone Books em 2005.
    Ainda não acabei de ler, mas trata da evolução das línguas. Começa com a referência a um trabalho de Jakobson sobre o imenso leque de sons que um bebé pode reproduzir e que perde ao adquirir uma só língua, por atrofia das capacidades fónicas…muito interessante! As referências utilizadas para demonstrar o objectivo do autor são variadíssimas e remetem para a mitologia, a psicanálise, a teologia, a literatura e a linguística.

    1. Aqui trata-se de gramática. Há uma interpretação mais aceitável em função de convenções não-linguísticas. A pausa a meio pode ajudar a determinar qual das duas frases possíveis se trata.
      O esquecimento no bebé corresponde a uma selecção da língua a adquirir. É uma pequena confirmação do “LAD” (language aquisiction device) que está muito activo nos nossos primeiros tempos de vida.
      O esquecimento histórico das línguas tem a ver com a história política, as dominações, colonizações, invasões, adaptações e factos de evolução fonética.
      Deve ser uma obra muito interessante!

  2. Queridos amigos, vocês criticam o modelo da Gramática Ge(ne)rativa, mas vocês realmente sabem os fundamentos filosóficos e matemáticos que fizeram Chomsky elaborar sua proposta nesses moldes? Acho bom vcs pesquisarem mais. O ideal do fazer metodológico em lingüística não está, necessariamente, atrelado aos nossos modelos de representação da língua , e cada matriz lingüística é totalmente coerente dentro do modelo em que se dispõe a conceitualizar.
    p.s. amigo(a) do comentário crítico, eu considero relevante fazer observações sobre o modelo ge(ne)rativo, mas acho mais importante ainda saber escreve adequadamente o nome dos cientistas, o certo é Chomshy (sem i). E em segundo lugar o modelo ge(ne)rativo jamais foi uma proposta pedagogista, isso ocorreu bem depois que Chomsky desenvolveu o modelo dele, a proposta inicial era descrever a Aquisição de Linguagem Humana.

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