O último artigo do João Peres no Expresso é de uma arrogância extraordinária. Põe na discussão da TLEBS, à falta de melhor, as relações de parentesco de um dos revisores com uma das autoras. Dá-se ao atrevimento de avaliar a inteligência de uma pessoa, no caso, do João Costa, pela escala da frequência de uma das suas cadeiras. Isto é, reduz o Presidente da Associação Portuguesa de Linguística a seu ex-aluno, com a pretensão óbvia de subalternizá-lo: ele é o Mestre, o outro, um produto do seu magistério! É como se dissesse: "ele é inteligente porque eu, a excelência em pessoa, dei-lhe 19!"
Tais considerações, num debate entre pessoas que se respeitam, nos estatutos que têm, nunca deviam ser enunciadas e, muito menos, vir a público, a esse propósito.
Tendo em conta as apreciações eminentemente positivas que o João Peres teceu a propósito da TLEBS, em http://jperes.no.sapo.pt/, num ensaio em que a conclusão não joga com os argumentos, nem com as solidariedades que afirma, é estranho o apelo ao regresso à Nomenclatura de 1967.
Nenhum dos argumentos da Alzira Seixo ou do Vasco Graça Moura é validado. Muito pelo contrário, são todos ou rechaçados ou desvalorizados.
Nesse ensaio de http://jperes.no.sapo.pt/, tive a oportunidade de confirmar algumas das minhas dúvidas a respeito do ensino da sintaxe, como por exemplo, a consideração de que se devem classificar as frases subordinadas como integrantes da subordinante, nos casos em que desempenham funções sintácticas daquela. As árvores de frase que fazíamos sempre sugeriram isso! Por isso, João Peres criticou, muito justamente, a definição da subordinante como residual relativamente às subordinadas.
Mas esta crítica, que avança muito mais no plano linguístico do que a TLEBS se atrevera, encontra-se acompanhada apenas de reparos superficiais, porque no essencial, João Peres discorda dos que gritam contra a mudança de "nome" para "substantivo", ou que choram por causa do fim dos "complementos circunstanciais". Muito pelo contrário, concorda com a inclusão dos seguintes conceitos:
– a classe dos quantificadores,
– tipos de frase,
– função de modificador,
– etc. para referir alguns dos conceitos mais polémicos para outros intervenientes.
Pelas premissas e conclusões científicas daquele ensaio, seria de esperar a proposta de alterações à lista de termos da Portaria, se fosse o caso, e às definições que constam do dicionário.
É deveras caricato que um cientista que prima pela agressividade teórica e, que, pelos vistos, a completa com argumentos de ordem pessoal, venha propor o regresso ao "antigamente" e não a correcção do que, com erros, vem resolver problemas antigos.
João Peres esperava que, no pós 25 de Abril, e nos anos seguintes, os professores de Português, se cingissem a uma portaria de 1967!
Pois não o fizemos nunca e os professores universitários, que nos formaram, ensinaram-nos teorias mais acertadas cientificamente e doutrinas pedagógicas mais ousadas e mais generosas. Nem a Gramática… de Lindley Cintra e Celso Cunha se atém à Nomenclatura, apesar de ser na leitura desse texto que eu dei conta da sua existência. É verdade que a minha Gramática do 4º ano do liceu do Nunes Figueiredo assevera estar de acordo com "a nova nomenclatura gramatical portuguesa", mas isso, só agora tem sentido para mim .
O problema é que já há muito tempo que nós não respeitamos essa portaria e foi por isso que surgiu a necessidade de uma nova.
A conversa da soberania do Estado sobre a Língua é espantosa, pois em minha opinião, um Estado de Direito não deve ter nenhum documento legal a definir conceitos científicos, quer sobre a língua quer sobre qualquer outra realidade. O que está aqui em causa é apenas uma necessidade prática do Ensino Básico e Secundário de unificar a terminologia gramatical para efeitos de avaliação externa das competências dos nossos alunos e também para evitar erros no seu ensino.
Reconheço que esta medida tem implicações, uma vez que outros sectores, como a imprensa, por exemplo, acabarão por aceitar essas mudanças terminológicas e conceptuais, por causa da Escola. Portanto, elas devem ser tão justas e adequadas quanto possível.
Mas João Peres está a sugerir que eu ensine aos meus alunos que o predicado ou é o verbo no caso do predicado verbal, com verbos intransitivos, ou é o nome ou o adjectivo no caso do predicado nominal, com verbos copulativos. É o que está na minha gramática de 1972, que cumpre a Nomenclatura! Mais: sei que há professores que, como felizmente não têm formação linguística, ensinam o predicado como eu aqui referi. Se é a essa conclusão que o Professor João Peres quer chegar, por favor, proponha que, na sua universidade, seja retirado, do currículo da formação de professores de Língua Portuguesa, esse veneno que dá pelo nome de Linguística!

Olá Luís. Não li o texto do expresso, mas, francamente, não nos admiremos: muitas vezes, a informação ou a formação, como se queira, não eleva a moralidade dos indivíduos. Mas nem por isso, se deve pensar que é melhor investir na ignorância: tirando cadeiras dos currículos :). E a vida continua.
Não proponho tal coisa. Penso que é a conclusão a tirar da proposta de revogação da portaria que institui a TLEBS e “da reposição provisória da anterior Nomenclatura” feita pelo João Peres!
Faço um post sobre este tema que é a conclusão deste comentário.
Não tive pachorra para ler atentamente o post todo. Esta tirada deixou-me sem vontade para mais:
«Dá-se ao atrevimento de avaliar a inteligência de uma pessoa, no caso, do João Costa, pela escala da frequência de uma das suas cadeiras. Isto é, reduz o Presidente da Associação Portuguesa de Linguística a seu ex-aluno, com a pretensão óbvia de subalternizá-lo: ele é o Mestre, o outro, um produto do seu magistério! É como se dissesse: “ele é inteligente porque eu, a excelência em pessoa, dei-lhe 19!”»
1º – (e já agora): “lhe dei” – o pronome átono ocorre aqui em próclise
2º – “Com a pretensão óbvia” – a modalização apela à cumplicidade do leitor. Mas não funciona. A má-vontade – essa sim! – é que é óbvia.
Fui passando os olhos em diagonal pelo resto do texto e detectei tantas incoerências e despeito na tua argumentação, que perdi a vontade de comentar a parte técnica – refiro-me às questões de ordem linguística. E, se não entendes a gravidade do conflito de interesses, não tenho mais nada a acrescentar. Desta vez, vou daqui mesmo decepcionado 🙁
Meu caro, não conheço nem um nem outro, sou apenas um observador e o espectáculo oferecido pelo João Peres é deprimente.
A revisão da tlebs é um trabalho de ordem científica e didáctica. Se o presidente da APL não tem competência para isso, temos um problema para a comunidade dos linguistas resolver.
Infelizmente, os meus erros de estilo e de gramática são mais numerosos do que os que me tem apontado. Agradeço-lhe.
Escrever é de facto doloroso. Não há uma única leitura deste “post” que não me sugira uma nova correcção, a acrescentar às que Tempodividido tem a bondade de me apontar.
Por exemplo, na frase “Nem a Gramática… de Lindley Cintra e Celso Cunha se atém à Nomenclatura, apesar de ser na leitura desse texto que eu dei conta da sua existência.”, onde digo “apesar de ser”, deveria ter dito “apesar de ter sido”. Quanto à posição do clítico “se”, parece-me que aqui está bem.
Serve este comentário para justificar a minha boa-vontade a respeito das correcções de Tempodividido. Seria hipocrisia dizer que me agradam. Mas sei que as tenho que aceitar como úteis e bem intencionadas, ainda que o não fossem.
Sim, a má vontade é óbvia. Já repararam que só há um linguista no mundo que tem o perfil indicado para ser revisor da TLEBS e que esse linguista se chama João Andrade Peres?
Fui aluno do Prof. João Costa e acho infame a tentativa que está a ser feita de o descridibilizar. Só mesmo quem não o conhece ou, conhecendo, quer retirar crédito para atirar poeira para os olhos da opinião pública.
Já alguém reparou que a esposa dele não é, de facto, autora da TLEBS, mas apenas colaboradora? Já alguém notou que em várias entrevistas públicas ele sempre disse que a TLEBS tem aspectos a corrigir?
Mais claramente: já alguém reparou que um trabalho de revisão não é um trabalho de avaliação, pelo que a questão do conflito de interesses nem sequer se levanta?
Repito: tive a sorte de ser sua aluna numa faculdade bastante complicada em termos de questões éticas e relacionais, a FLUL, e, se na altura me revoltei por ele ter saído de lá, agora revolto-me por tentarem manchar o seu bom nome de forma tão infame e impune.
Também me sinto enojada. Como dizia alguém num outro blog, só passa pela cabeça de alguém fazer determinadas insinuações se o próprio fosse capaz de rever a TLEBS em função das suas amizades pessoais ou relações familiares. Quando lemos as críticas do João Andrade Peres e os ataques de pormenor à área feita pela Inês Duarte, percebemos talvez quem se deixaria (ou já deixa) guiar por questões pessoais.
Obrigado pela sua explicação a respeito da Ana Luísa Costa. É isso que o João Peres sugere. Um assistente é então alguém sujeito à suserania do seu catedrático, a sua opinião é para todos os efeitos a do seu Senhor. A Ana Luísa Costa, tal como qualquer outro assistente da Inês Duarte, é igualmente responsável pela TLEBS.
Mais uma correcção: onde digo “o predicado ou é o verbo no caso do predicado verbal, com verbos intransitivos […]”, queria dizer “transitivos”.
No 4º ano, ensinaram-me que o predicado é o verbo e o complemento directo é outra função. Vejo alguns professores fazerem isso, hoje em dia, com o argumento de que com o fim das “árvores de frase” regressámos à gramática tradicional.
Entendo que os programas de Língua Portuguesa do 1º e do 2º ciclo não autorizam esta conclusão.