A polémica entre a Inês Duarte e o Vasco Graça Moura sobre os programas do secundário foi apenas a espuma de superfície duma problemática muito mais complexa em que intervieram professores da Faculdade de Letras, dum e doutro quadrante.
Os argumentos mais importantes andam à volta da tipologia de textos, conceito directriz dos novos programas.
Inês Duarte defende que é necessário que a disciplina de língua portuguesa treine os alunos na leitura e na produção de diferentes tipos de texto. A leitura literária não é suficiente para criar uma competência mais geral que poderia ser transferida eficazmente para textos de outros géneros. No momento presente, não estou em condições de ajuizar sobre esta tese.
O que repugna aos professores de literatura é a subordinação do texto literário a um tipologia específica. Ora o texto literário não se pode caracterizar linguisticamente. Esse é um dos motivos que temos para considerar insuficiente a função poética de Jacobsen. O texto literário, como nos diz Victor Aguiar e Silva é-o por pertencer a um sistema de comunicação em que é lido como tal.
Suponho que a caracterização linguística do texto enquanto "argumentativo" respeita a itens específicos e não à literariedade. É este "sermão" que tem marcas de texto argumentativo, independentemente da sua literariedade. Porque continuamos a ler Vieira? Não certamente para discutir se ele tinha ou não razão nas teses que defendia. Hoje, é lido por motivos literários. Mas que há de errado em considerá-lo "argumentativo", sem recusar a sua literariedade?
Há uma motivo poderoso que é a inserção do texto numa história, num sistema de comunicação literário, numa etapa da nossa história cultural. Isto para mim é muito importante.
Voltarei a este assunto…

Fiz um comentário a um dos posts e não deixei a minha ligação. Peço desculpa.
Talvez o problema resida numa tendência que ainda se verifica para se considerar as tipologias textuais como compartimentos mais ou menos estanques: Como bem referes, o “Sermão” é um texto de oratória, por isso, argumentativo. E como obedece às regras clássicas da retórica aristotélica que postulam que um texto argumentativo tem a dupla função de “docere” e “delectare” é também um texto literário no qual a língua é trabalhada estilisticamente segundo o cânone cultista e conceptual típicos do Barroco.
Parece-me que o cerne da questão, aqui, tem que ver mais com o modo como o estudo da literatura se fazia, pelo menos no Secundário, privilegiando a vertente histórica. O que os novos programas vieram alterar foi essa perspectiva. Ou seja, o estudo do texto literário não saíu dos programas, como se disse algures na comunicação social, mas a ordem histórica foi substituída (pelo menos até ao 10º ano) por um agrupamento dos textos literários e não literários em tipologias comuns. Se eu aceito pacificamente que o “Sermão” de Vieira seja dado como um texto argumentativo e literário, já considero discutível, por exemplo, que se dê a lírica camoniana apenas como exemplo de texto autobiográfico – até porque está errado considerarem-se os poemas de Camões como sendo autobiográficos como o são, por exemplo, um diário ou um texto memorialístico, mesmo que neles figure um sujeito com um discurso de primeira pessoa. Aqui entra, também um outro critério distintivo que é o da ficcionalidade (e também há diários ficcionais).
Quando eu disse, num outro comentário, que considerava útil que o estudo da língua se fizesse quer sobre textos literários quer sobre não literários, foi partindo do princípio que, na sua vida quotidiana, os alunos irão ser chamados a interpretar correctamente, por exemplo, um contrato de trabalho, uma notícia de jornal, um relatório, um memorando, etc., e a produzir textos do mesmo tipo. Se a literatura pode fornecer exemplos de como trabalhar a língua artisticamente, com grandes vantagens para a aquisição de uma competência estética e alargamento vocabular (para dar apenas um exemplo) por parte dos alunos, reconhecer e saber produzir textos de carácter utilitário revela-se também indispensável à sua vida presente e futura. É só por isso que eu considero importante entender o texto literário e não literário como discursos complementares numa sala de aula. Mas isso não me impede de achar que alguns “agrupamentos” tipológicos foram feitos de uma forma um tanto apressada e com um critério científico duvidoso…
Obrigado,
Parece-me evidente que esta questão é muito mais pertinente para ti do que para mim.
Uma solução possível seria os programas e os manuais se absterem de propor classificações de textos, dos literários, pelo menos, e obrigar a que os professores promovam o estudo e a produção escrita de textos literários de géneros tão diversos quanto possível. Podiam-se enunciar mesmo marcas linguísticas, textuais e para textuais, como critérios de variação, mas não de classificação. Acho que esse estudo só faz sentido numa contextualização histórica e cultural.
É preciso ser muito ingénuo para acreditar que o “eu” dos poemas camonianos representa o próprio Camões.
É que nem o texto dá dicas a um dado leitor para, por exemplo, perguntar ao seu autor, “que alma era essa que tinha partido tão cedo”… Mesmo que o poema tivesse sido inspirado por uma situação vivida, ao ser publicado, todos sabem que o “eu” é ficcionalizado por cada leitor na altura em que lê o texto.
A publicação, um dado não linguístico, transforma completamente o género do texto: uma carta de amor não é para ser difundida. Ao ser publicada, deixa de o ser. Torna-se um objecto literário. Mas textos há que não foram nunca o que aparentam ser…
É estranhíssimo classificar a lírica camoniana como texto autobiográfico. Como não sou professora não faço a mínima ideia onde encontrar essa classificação (podiam dizer-me onde?, tenho curiosidade).
No secundário tive uma daquelas superprofes que dava os autores contextualizando a obra nos movimentos de ideias, nas artes plásticas, na história nacional e europeia. Era o máximo. Fui para LLM. Mas quando cheguei à fac, o autor estava morto, o contexto não interessava, e o texto era a única coisa que valia, assumindo-se que o texto era a leitura que dele fazia cada leitor.
Quanto às leituras plurais, tudo bem, mas excluir o contexto… foi a machadada final. Entrei na crise “O que é que estou a fazer neste curso?”.
E não faço a mínima ideia de como é ensinada agora a literatura no secundário. Pelo que ouço e leio tem um ar assim muito operacional, mas já não vou em tudo o que se diz… Alguém me quer dar pistas?
Boa ironia, Helena.
Agora cansaram-se e ressuscitaram o autor. O texto passou a ser sagrado. Não podemos fazer análise gramatical porque “temos que respeitar estes autores” (Maria do Carmo Vieira na TV, de memória, mas foi isto).
Não podem fazer análise gramatical?! Extraordinário! E ressuscitaram então o autor! Lamento não poder dizer “Boa ironia”. Pois desde o desconstrutivismo que o texto voltou a ser lido, enquanto objecto linguístico e literário, à luz do seu contexto. As vanguardas irrompem, transformam e extinguem-se ou são integradas: é da sua natureza.
À Maria do Carmo Vieira parece verdadeiro sacrilégio fazer análise gramatical do texto e o que ela reivindica é o “respeito pelo autor”. É a isso que me refiro, nesta triste polémica entre literatura e linguística.
Pura e simpolesmente é mais ou menos desprezado o texto literário…entendido apenas como um texto entre outros e passível de, como texto de língua, e não texto de língua na sua máxima realização, ser objecto do mesmo tipo de anáilse mais ou menos tlésbica(dependendo do bom senso do professor- que nem se decreta nem está à venda; – sim, há gramáticas tlésbicas – a mãe de todas bem cara – e outras ainda não ou deficientemente tlésbicas à venda, feitas da pressa dos editores escolares, que eu sei terem sido incentivados a fazê-lo, -mas não o bom senso nem a correcta formação não dada aos professores em geral – e ainda menos o bom gosto).A chamada análise da literriedade está, na prática, ausente dos programas em vigor.Por ex: quando na lírica camoniana, no 10º ano, se fala de leitura de um ou dois sonetos – não serão muitos?-:)-fala-se deles como exemplos, entre outros, de discurso autobiográfico.Bastante redutor, não será? Pior ainda quando se lê um trabalho feito por colegas de Portalegre (que esforço devem ter feito,!) sobre o ensino de uma estrofe d’Os Lusíadas- reneto-a para Lusiadas_3C.ppt -documento acrobat reader – existente num site do ME ligado ao apoio à Tlebs e para um texto da eu sei que persona non grata do nosso amigo sem rede. Vasco da Graça Moura, sobre esse trabalho.Assim não se ensina o prazer de ler -nem com dezenas de PNL’s…
É estranhíssimo classificar a lírica camoniana como texto autobiográfico. Como não sou professora não faço a mínima ideia onde encontrar essa classificação (podiam dizer-me onde?, tenho curiosidade).
No secundário tive uma daquelas superprofes que dava os autores contextualizando a obra nos movimentos de ideias, nas artes plásticas, na história nacional e europeia. Era o máximo. Fui para LLM. Mas quando cheguei à fac, o autor estava morto, o contexto não interessava, e o texto era a única coisa que valia, assumindo-se que o texto era a leitura que dele fazia cada leitor.
Quanto às leituras plurais, tudo bem, mas excluir o contexto… foi a machadada final. Entrei na crise “O que é que estou a fazer neste curso?”.
E não faço a mínima ideia de como é ensinada agora a literatura no secundário. Pelo que ouço e leio tem um ar assim muito operacional, mas já não vou em tudo o que se diz… Alguém me quer dar pistas?
No programa para o 10º ano, que entrou em vigor em Maio de 2001, pode ler-se na secção – Leitura:
. Textos de carácter autobiográfico:
– memórias
– diários
– cartas
– autobiografias
. leitura literária
. textos de carácter autobiográfico
. Camões lírico
Ou seja: a lírica camoniana está inserida no mesmo grupo textual das memórias, diários, cartas e autobiografias pelo distintivo “autobiográfico”, apenas com a ressalva de se tratar de autobiografia literária.
As alterações aos programas do 11º e 12º já não foram tão radicais, visto que para estes níveis parece que se conseguiu encontrar um equilíbrio saudável entre o ensino da língua e das tipologias textuais para o texto não literário, deixando o estudo das obras literárias mais ou menos como estava: contextualizado e sem lhes retirar o seu carácter próprio. E ainda bem, pois, caso contrário, andaríamos a fazer uma espécie de análise psicanalítica da obra de Pessoa!!
Quanto ao programa do 10º espero que venha breve uma revisão que elimine este e outros “delírios”. Até lá, vou continuar a fugir dos décimos sempre que puder.
Contextualizado?! Não me parece. A contextualização só marginalmente integra elementos histórico-culturais. O fio condutor, estruturador e contextualizador é a tipologia. Voltou-se ao “texto louco”, não o de Derrida, mas outro, não menos insano. A TLEBS precisa de ser corrigida e didactizada. Os programaas precisam de ser destruídos e substituídos por outros. São nocivos e alinhados com a tendência capitalista e neoliberal que a OCDE e a Estratégia de Lisboa consagraram. Como não se vê isto?! É apenas subir um degrau na escada desta discussão.