Num recanto celestial, onde Deus ouve as mais secretas confissões, soaram
os queixumes da pessoa verdadeiramente boa:
– Já não há ninguém suficientemente mau que eu possa matar sem problemas de
consciência? Os judeus, os idólatras, os homossexuais, as adúlteras, as
prostitutas, os pretos, os tutsis, os heréticos, os comunistas, os
colonialistas, os contra-revolucionários… agora, parece que são todos
bons, ou, no pior dos casos, assim-assim.
E Deus cofiou nervosamente a sua longa barba de incontáveis anos e pensou
em como a humanidade na sua breve existência tanta coisa tinha mudado: como
me podem temer se já não sabem odiar? Como podem saber o que é o mal, se
não sabem onde estão os maus?


Pois; onde a modernidade não instalou a confusão ética, aplicou a contemporaneidade a rasura moral.
Duas linhas proverbiais.
Culpa do Nietzsche, em Para além do Bem e do Mal.