Predicativo do sujeito

Eu não estava a ser exacto quando, em resposta à colega Inês Pinto, nos comentários a Carta ao Sr. José Nunes, promotor de uma petição para revogação da TLEBS, afirmei o seguinte:

"À partida, não concordo com o dicionário da Terminologia Linguística, quando admite um sintagma preposicional como predicativo do sujeito. Para mim, tem de ser um Sintagma Nominal ou um Sintagma Adjectival."

Descobri isso ao encontrar na gramática do Lindley Cintra e Celso Cunha um exemplo de predicativo do sujeito do seguinte género:

(1) O homem estava entre a vida e a morte.

A parte da frase assinalada a itálico seria para mim um predicativo do sujeito aceitável.
As minhas objecções eram na verdade de ordem semântica e não sintáctica.
Também, perante uma frase como a seguinte,

(2) O carro é do meu pai,

eu não teria dificuldade em aceitar o grupo assinalado com predicativo do sujeito, porque reconheceria aí a transformação do grupo nominal "o carro do meu pai" numa frase em que o verbo copulativo se limita a fazer uma ligação.

Concluí, então, que tinha caído no mesmo tipo de armadilhas que denuncio ao criticar os colegas que dizem aos alunos que o sujeito é "aquele que realiza a acção". Se, em vez de (1), a frase fosse

(3) O homem estava entre o Rossio e os Restauradores,

eu diria erradamente que estava perante um verbo locativo e um complemento preposicional, mas a frase tem exactamente a mesma estrutura da anterior.

A minha dificuldade compreende-se por quase não aparecerem nas gramáticas casos de grupos preposicionais como predicativo do sujeito e, ainda menos, com o significado de lugar, como era o caso em apreço. Mesmo no meu exemplar da Gramática… da Maria Helena Mira Mateus, os exemplos de predicativo do sujeito são grupos nominais ou grupos adjectivais.
Mas agora parece-me aceitável que qualquer complemento preposicional que se ligue ao sujeito através de um verbo copulativo, seja um predicativo do sujeito. O que está em causa é o tipo de ligação que o verbo realiza. Com efeito, se iniciarmos uma frase da seguinte maneira

(4) Camões esteve…,

as perguntas possíveis são as mais diversas – ONDE? COMO? O QUÊ? – e o tipo de grupos que lhes podem responder são também dos mais variados – grupos nominais, adjectivais, adverbiais e preposicionais, revelando, portanto, a significação indefinida do verbo.

Se o início da frase fosse

(5) Camões morou…,

a pergunta suscitada seria apenas ONDE? e a resposta um complemento preposicional de lugar.

 Portanto, em "Camões esteve em Macau", "em Macau" é predicativo do sujeito.

16 comentários em “Predicativo do sujeito”

  1. No GramaTICa.pt, há uma discussão interessante sobre isto. Aparece lá um argumento óptimo para dizer que todos são predicativos do sujeito, baseado na possibilidade de coordenação.

    1. Sim, já li. Uma intervenção do João Costa, salvo erro.
      Experimentemos:
      (1) Camões esteve doente, em Macau.
      (2) Camões morou doente, em Macau.
      Em (1), podemos remover ou manter qualquer um dos grupos, “doente” ou “em Macau” e a frase continuar correcta, mostrando que ambos desempenham a mesma função.
      Em (2), apesar de “doente” ser admissível, não cumpre a exigência mínima do verbo e temos que acrescentar um complemento preposicional (“em Macau”), mostrando que desempenham funções diferentes.

    1. Olá,
      Também assinei esta carta – junto com mais 10 pessoas.
      Acho que é um posição justa: queremos que a Tlebs seja revista e que não percamos uma orientação tão importante para o ensino da gramática.
      Acho que a nossa obrigação é estudá-la, aplicá-la e criticá-la.
      Não sei se muitos dos que contestam a Tlebs sabem que não há aula que não seja uma experiência pedagógica! Caem no paradoxo de só querer experimentar coisas que já foram experimentadas e que o não serão por isso mesmo.
      Ora, o professor experimenta conteúdos, recursos e procedimentos no seu trabalho normal. Quando o faz, não é um cientista, é apenas professor. Quando o professor experimenta, não são os alunos que são cobaias, são todos os intervenientes que têm uma nova EXPERIÊNCIA.
      Os resultados da experiência passam não como a confirmação ou a infirmação de uma hipótese científica, mas como um ganho pela positiva ou pela negativa que é divulgado na comunidade escolar sob a forma de ondas que se espalham e entrechocam, porque os professores não aplicam protocolos científicos de forma a tornar as experiências comparáveis. As variáveis são imensas a começar pelos próprios professores, pelo conhecimento que têm e pela sua maturidade pedagógica, pelos alunos, e pelas mais variadas condições de trabalho.
      A inovação está sempre a aparecer e vem de todas as direcções: uso de recursos online, como webquests ou a plataforma Moodle , alterações nos conteúdos de várias disciplinas pelo avanço normal da ciência, recomendações sobre leitura compreensiva e leitura em voz alta, aperfeiçoamento de texto, tipos de discurso, individualização da aprendizagem, etc.

        1. Não é uma petição! É uma carta dirigida à Sra. Ministra da Educação. Eu assinei-a com cerca de 10 pessoas. Colocámo-la na Net para dar conhecimento do que fizemos, para quem quiser proceder da mesma maneira, a possa imprimir, modificar ou não, e enviar, como manifestação de uma opinião partilhada. Repare que no “site” não há nenhum meio de assinar electronicamente o texto. Concordo consigo que era bom que as pessoas que concordam e enviam a carta dêem a cara que é o que eu estou a fazer aqui.
          Achamos que o número de pessoas, embora tenha a sua importância, não é o decisivo. Os governantes têm que decidir em função dos resultados esperados e da sua própria apreciação do valor intrínseco dos vários argumentos.
          É bom que as pessoas contra, a favor ou assim-assim, expressem a sua opinião.

          1. Digo “(…) para que quem quiser proceder da mesma maneira, a possa imprimir, modificar ou não, e enviar (…)”

  2. Voltei aqui, desta vez para colocar este comentário: tomei a liberdade de citar o seu blogue num texto acerca da TLEBS, que lancei ontem nas ‘tretas e…outras’.
    Parabéns pelos textos e pelos comentários que os mesmos têm merecido.
    Bom fim de semana!

  3. Grato pela sua visita ao ‘post’ acerca da TLEBS que publiquei no meu blogue.
    Dos seus textos publicados no blogue de que é autor pode deduzir-se que a sua formação académica e a sua actividade de professor estão intimamente relacionadas com as questões do estudo e do ensino da língua portuguesa. O que não é o meu caso, visto que, quer pela formação académica quer pela actividade profissional, estou mais à vontade nas áreas da contabilidade e da gestão. Aqui a língua é importante pelo rigor das palavras a utilizar nas definições das considerações técnicas e dos princípios contabilísticos e na elaboração das peças de informação financeira. E, por isto, sinto-me como David perante Golias no que à questão da TLEBS diz respeito.
    A minha posição foi tomada, por isso, apenas na condição de um cidadão comum. E até aceito que, na altura de considerar os prós e os contras, o coração tenha tido mais peso que a razão.
    Para terminar, quero dizer-lhe que me sinto deveras lisongeado pelo conteúdo do comentário que se dispôs a publicar no meu blogue.
    Fernando Oliveira

      1. Ah! Entendido – ainda bem que colocu a tradução-eu nºao sei akemão.Saberei de outras coisas.Pouco e ooucas, claro.Um pouco de portiguês – que ensinei sempre – textos e gramática.

      2. Ah!Agora entendi.Como não sei alemão, ainda bem que colocou a tradução.Aliás são muito mais as coisas que ignoro, do que aquelas que julgo saber.E das poucas de que julgo saber alguma coisa, estão a língua e a literatura portuguesa.

        1. Também não sei alemão por aí além. Vou sempre lendo e exercitando. Outro dia, li no blog Postal (http://postal.blogs.sapo.pt/) que Unamuno detestava ler traduções. Acontece o mesmo comigo. Não foi uma questão de purismo. Foram as falhas dos tradutores que me levaram a sentir falta de confiança e a ir buscar os originais – em francês, inglês, espanhol, italiano e alemão. Claro, faço-me à estrada sempre na companhia de dicionários.

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