Ramos Rosa

Estão esculpidos de pedra na nossa memória, de tal maneira, que os julgamos de sempre, eternos. Mas, de repente, salta uma notícia que nos diz que eles estão em algum lugar e não se resumem àquela imagem e às palavras que lhes associamos. Foi-se embora hoje ficando para sempre: António Ramos Rosa (1958-2013)

 

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só.

 

António Ramos RosaO Grito Claro, 1958

 

http://ardaguarda.blogs.sapo.pt/236555.html

 

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-antonio-ramos-rosa-1606787

 

http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/acasadosprodigios.pdf (grato ao João Pedro Aido)

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