Uma cruzada contra o novo acordo ortográfico

Vasco Graça Moura e Maria do Carmo Vieira encabeçam ao que parece um movimento de resistência contra o novo acordo ortográfico.

Num vídeo, aqui no Sapo, Maria do Carmo faz afirmações fáceis e sem qualquer fundamento.

Basicamente, temos que nos unir contra os políticos porque a língua é de todos e não só dos políticos e linguistas, pois a língua desenvolve-se muito lentamente e não por ordem política.

Tudo errado, meus caros! A verdade é que a língua portuguesa é uma realidade política desde o princípio. A variante escrita existe e impôs-se com a criação de um Estado Nacional, desde o rei D. Dinis até ao nosso tempo. A escrita que temos hoje resulta dos acordos ortográficos do século XX.

Quer o leitor voltar a escrever “mãi”? Olhe que José Saramago aprendeu a escrever assim: “mãi”. Quer saber a minha opinião? Tanto faz! Desde que nos punhamos todos de acordo sobre a maneira como escrever a nossa língua. Ora um acordo é coisa que só pode ser feita pelos políticos.

Há alguma razão para os brasileiros e os portugueses deixarem que as normas ortográficas divirjam cada vez mais? Já leu Jorge Amado, Machado de Assis ou Lins do Rego? Sentiu alguma dificuldade? Há algum brasileirismo ortográfico que o perturbou na sua leitura? A mim, não! Porque sou tolerante a essas pequenas diferenças superficiais de que estes senhores fazem um cavalo de batalha. Injustos, ainda por cima, porque os brasileiros cedem também em muita coisa para se porem de acordo connosco.

Veja o sucesso das novelas brasileiras em Portugal. Sente que a sua língua está a ser agredida, que eles falam mal, ou, antes, que falam muito bem e que nós os compreendemos sem qualquer dificuldade?

Então é porque temos a mesma língua falada! E as diferenças dialectais dentro do Brasil e dentro de Portugal são maiores do que as diferenças entre as normas oficiais portuguesa e brasileira. Ah não acredita? Então divirta-se com o seguinte: compare um falante de uma telenovela com uma gravação de um falante de uma variante açoreana. Tem aí a evidência do que eu digo: quando aparece um açoreano ou um madeirense na televisão, por vezes, a RTP põe legenda, mas não precisa de o fazer nas telenovelas.

A minha opinião sobre os resistentes é a seguinte: estão apenas a defender a sua maneira de escrever que é filha de acordos ortográficos do passado! Não estão a defender nenhuma pureza etimológica, porque por esse caminho teriam que rever muita coisa na ortografia actual.

Chamo a atenção para o facto de que este artigo não foi escrito de acordo com a nova ortografia.

Veja as declarações da Maria do Carmo Vieira:

 

7 comentários em “Uma cruzada contra o novo acordo ortográfico”

  1. Viva Luís.

    Bom post, se me permites.

    Proust escreveu mais ou menos assim: uma gramática é uma legitimação de erros em relação à anterior.

    Abraço.

    1. Se nós somos a cauda, então que nos deixemos abanar pelo cão, a não ser que percamos alguma coisa verdadeiramente importante com isso.
      O Brasil ensina muitos mais estrangeiros a falar português do que Portugal.

  2. Permita-me:
    a) o exemplo que dá é infeliz: escrever “mãi” ou “mãe” é irrelevante do ponto de vista fonético. Ora, a questão reside, precisamente, no facto (não “fato”, já agora) de a grafia alterar o fonia.
    b) a telenovela brasileira (e, já agora, também a mexicana) entende-se melhor do que a prelacção de um açoreano. Mas isso nada tem a ver com a grafia, como bem sabe.

  3. c) as alterações acordadas em nada lesam o “brasileiro”, o mesmo não acontecendo com o português.
    d)as diferenças fundamentais com o “brasileiro” nem são gráficas: são sintácticas. Por que não mexer aí, então?
    e) os sucessivos acordos a que alude em nada terão facilitado, quer uma norma comum, quer o rigor que outras línguas europeias conseguiram manter: não decidiram alinhar a norma pelos crioulos, como temos permitido que aconteça.

  4. De resto, afirmar (comentário supra) que o Brasil ensina os estrangeiros a “falar português”, talvez seja generosidade excessiva da sua parte. Ensinam o que lhes apetece – direito que lhes assiste, aliás.

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