Parece que é impossível fazer uma reforma ortográfica sem uma grande polémica e sem muita oposição. Os que divergem da mudança não sugerem nunca mudanças em sentido contrário, apenas se opõem a mudar os seus hábitos ortográficos. Tudo se resume ao seguinte – como está é que está bem. A escrita das palavras é uma aquisição feita em tenra idade. É uma norma cultural. A forma escrita da palavra, assim como as regras que aplicamos com todas as racionalizações que explicam as exceções tornam-se coisas absolutas que não queremos ver alteradas nem tidas à conta de meros arbítrios.
Na Reforma Ortográfica dos anos 90 na Alemanha, houve um estado – Schleswig Holstein – que resolveu desobedecer e não aderir ao acordo que envolvia três países – Alemanha, Suíça e Áustria.
Desenvolveu-se por toda a Alemanha o movimento “Wir Lehrer gegen die Rechtschreibreform” – Nós professores contra a reforma ortográfica.
Contudo, a nova ortografia aí está. Eu mal sei como era a anterior, pois já me basta a difiuldade do idioma para me preocupar com a história recente da sua escrita.
Fui alertado para este facto particular pela obra Spelling and society: the culture and politics of orthography around the world.


“(…) como está é que está bem”? Não necessariamente. Melhor diria: quanto mais se mexe, pior fica.
Se reparar, as sucessivas reformas ortográficas, pretendendo acrescentar “racionalidade” e clareza à grafia, foram, afinal, abrindo brechas e criando problemas onde eles não existiam.
Em 1911, meia dúzia de republicanos – esses jacobinos autorizados pelo pensamento positivo, “iluminados” e cientes dos “horrores da tradição, mãe de todos os obscurantismos” – achou que a supressão das consoantes duplas era a via para a solução do luso analfabetismo. Qual “pharmacia”, qual “plilosophia “, qual “telephonia”!; há que simplificar em nome da clareza, da racionalidade, do progresso. Está explicado o atraso civilizacional dos ingleses e franceses…
Que vantagem trouxe, também, a supressão do “h” intersilábico? Impôs o recurso a acentuação onde ela antes não era necessária.
Que se ganhou, em 1945, com a substituição do “z” pelo “s” el “Luiz” ou “paiz” (mas não em “raiz”, por exemplo)? Nada, apenas de impôs a necessidade de acentuação onde ela se dispensava. O mesmo acontecendo com a substituição do “Victor” pelo “Vítor”. Etc.
Portanto, quem se opõe ao AO não está obrigado a sugerir o recuo à grafia originária (o ónus da prova relativa às suas vantagens é de quem, à catanada nas consoantes erradamente ditas mudas – o magno erro do AO de 1990-, impõe a nova grafia); já lhe basta que não se estrague mais o que se tem vindo sucessivamente a adulterar.
Cumprimentos.