O "livre arbítrio" é, certamente, a mais importante das qualidades que nos fazem humanos à imagem de Deus (Génesis 1:27).
Deus tinha colocado no Jardim muitas árvores de fruto entre as quais se encontrava, mesmo no meio, "a árvore da vida" e, por perto, "a árvore da ciência do bem e do mal" (Génesis 2:9). De todas, o homem se poderia alimentar, excepto desta última: "No dia em que dela comeres, certamente morrerás (Génesis 2:9)".
Não se percebe bem se a proibição aconteceu antes ou depois do aparecimento da mulher, pois o texto relata num versículo a criação do homem, logo a seguir à dos outros animais, para depois mais à frente, contar-nos o episódio da costela de Adão. Nesse primeiro versículo, aparece já a referência a macho e fémea: "E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; macho e fémea os criou".
Após a proibição, Deus olha para o homem e vê-o só, com falta de uma companheira. Faz desfilar todos os animais do jardim para ver se ele encontra alguma que lhe sirva e, perante o fracasso, decide-se pela célebre cirurgia e empreendimento genético de onde nasceu Eva – uma escolha pela negativa de Adão.
Este episódio pode ser entendido como uma analepse para explicar em pormenor como tinha sucedido o facto já referido, mas nada o indica a não ser um subtítulo colocado a posteriori entre os versículos 17 e 18 do capítulo 2.
Seja como for, quando Eva é interpelada pela serpente, já estava ao corrente da proibição. Quando ela a informa, a serpente desmente Deus: "Certamente, não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal" (Génesis 3:4,5).
O que a serpente dizia não era inteiramente falso. Adão sabia que aquela árvore era a da ciência do bem e do mal. Portanto, se Deus o tinha criado à sua imagem, porque lhe estava vedado o conhecimento do bem e do mal? Não há muitas soluções para este paradoxo. Se o livre arbítrio fazia parte da criação original, como se pode exercê-lo com ignorância? Por outro lado, como poderia Adão saber quão errado era desobedecer se desconhecia o bem e o mal?
Quando Eva veio, toda delico-doce, com o fruto na mão, Adão, talvez se tenha decidido a esbanjar a vida eterna, não só por ela, mas também pelo livre arbítrio,. Talvez também lhe tenha ocorrido o peso da responsabilidade de ser uma personagem principal e tenha comido do fruto para tornar possível um história que ficaria por contar.
Os castigos deste lamentável incidente são conhecidos. No fim, Deus concluiu justamente que só depois da QUEDA, o homem ficou verdadeiramente à sua imagem: "Eis que o homem é como um de Nós, sabendo o bem e o mal" (Génesis 3:22).
Para evitar que o homem atinja a igualdade perfeita comendo o fruto da árvore da vida, Deus expulsa-o do Jardim.

Nem sei se era essa a tua intenção, mas tendo em conta os tempos que correm… é em cheio. Abraço.
“Para evitar que o homem atinja a igualdade perfeita comendo o fruto da árvore da vida, Deus expulsa-o do Jardim.”
Assim termina a dissertação sobre o “Livre Arbítrio”, com um comentário interpretativo bastante plausível.
Mas, posto que em texto anterior se recorre a Eça, lembremo-nos do conto “A Perfeição”: Na ilha de Ogígia , “o mais subtil dos homens” (Ulisses, pois claro) “ao sair cada manhã sem alegria do trabalhoso leito de Calipso ” pensa, e pensa em Telémaco : se obedece a um “padrasto”, se mendiga um “salário” (“padrasto”, “salário”, são lexemas de um discurso de época, novecentista certamente).
Por isso (e por muito mais), o “facundo” (Ulisses, pois claro) decide partir para os braços de Penélope, e os argumentos podem fornecer a base para outro comentário interpretativo:
1. na penúltima página: “Ó deusa imortal, eu morro com saudades da morte!”;
2. no “excipit” do conto: “Ó deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição. E […] [comenta o narrador, talvez porta-voz do Autor] fugiu […] partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas imperfeitas”.
Entenda-se: em Ogígia , no Paraíso, onde tudo é perfeito, concluso, o homem não pode ambicionar a ser sujeito, “sujeito” de trabalho criativo, trabalho que acrescente perfeição às coisas imperfeitas, pode apenas conformar-se a ser “objecto” decorativo.
Moral da história:
1. Adão, no Paraíso, já adivinhava que, no séc. XIX, a burguesia iria promover a ideologia do trabalho produtivo;
2. Adão, no Paraíso, já adivinhava que, no séc. XVIII, iria ser inventado o mito do “Progresso”.
Bibl. Eça de Queiróz (sic), “A Perfeição”, in Contos, Mem Martins, Europa-América, s.d. [1987], p. 184-198 (3ª ed.).
Muito obrigado pelo seu magnífico comentário que me lembra o texto de Scholes sobre os protocolos de leitura. Numa leitura projectam-se sempre outras. A Pietá (no exemplo de Scholes ) está presente numa fotografia de uma mãe banhando a sua filha geneticamente deformada por mercúrio.
Assim, Adão junto de Eva, antes da queda, reaparece em Ulisses junto de Calipso . Ao ler Génesis, estamos fatalmente condenados a ler o mesmo que já lemos noutros sítios e vice-versa. O tema da imperfeição humana versus perfeição divina, assim como o tema do trabalho como castigo pelo pecado original são elementos importantes da ideologia calvinista da virtude do trabalho como meio de atingir a felicidade celestial que Max Weber encontra na origem do capitalismo moderno.
A questão é a seguinte: como é que os crentes lêem Génesis hoje? O descrente Eça aceita o repto divino para dizer que o homem se realiza no trabalho e que o paraíso seria um aborrecimento. Contudo, parece-me que os crentes aceitam o castigo como tal e ambicionam o regresso ao paraíso (para alguns, celestial).