Pinheirinho

O que aconteceu na favela do Pinheirinho que fica em São José do Campo no Estado de São Paulo?

Deixo de lado a questão de se houve mortos ou não, pois não consegui resolvê-la. Alguns vídeos no YouTube dizem que sim, mas não apresentam evidências satisfatórias e a polícia diz que não.

Cerca de 10000 pessoas foram expulsas das suas casas por ordem do prefeito e, ao que parece, do próprio governador – pois se o primeiro manda na polícia municipal, o segundo manda na polícia militar estadual. O proprietário do terreno é um tal Naji Nahas através da sua empresa Selecta que, estando falida, precisa de liquidez para pagar as dívidas. Embora o conflito fundiário persista há mais de trinta anos, teve a 22 de Janeiro este triste desfecho pelas piores razões.

Embora haja uma ordem judicial, a sua aplicação implica interesses de milhares de pessoas que viviam, é certo, em terra que não lhes pertencia, mas são cerca de 10 000 corpos que têm que ter um lugar onde estar. E este é o aspeto político que, quanto a mim, sobreleva os interesses da Selecta e do seu proprietário. O prefeito Eduardo Cury e o governador Geraldo Alckmin são culpados desta violência desmedida, desta cedência a interesses mesquinhos perante o drama das pessoas pobres que por ali viviam.

Do que vi no Youtube, prefiro o relato emocionado, mas ideologicamente tranquilo de Ricardo Boechat.

 

Por que a escrita não pode ser transcrição fonética.

 

Os sons da fala são apenas realizações práticas e contextuais de unidades mais abstratas que fazem parte da língua que temos como nossa. As mesmas unidades abstratas são concretizadas de modo diverso de indivíduo para indivíduo, e no mesmo indivíduo, de um momento para outro e de um contexto verbal para outro.

Um amigo, numa intervenção que só se pode compreender como de paródia, pergunta porque é que escrevemos exato se dizemos [i’zatu]. Eu responderia, com verdade, que digo preferencialmente [e’zatu]. Deveria haver pelo menos duas maneiras de escrever exato, uma para ele e outra para mim? Acontece que, por vezes, também digo [i’zatu]. Então, deveria escrever como? Repare-se que quando escrevo não existe realização sonora. E está comprovado que a escrita não depende de uma realizaçao sonora, ainda que apenas mental.

A filologia explica porque é que exato se escreve com x. Deriva do latim exactu em que julgo que o x no periodo clássico se pronunciava [ks]. Há muitas palavras herdadas da língua do Lácio que têm este elemento latino – ex. Deveríamos em todas, mudá-las para ez ou, seguindo o meu amigo, para iz? Ora aqui enfrentamos variações contextuais:

  • em excitar, o x lê-se [∫] (símbolo que representa o som de ch)

Se nuns casos, escrevêssemos es-, noutros ez-, perder-se ia a noção da unidade ex- que herdámos numa série de palavras latinas e continua a funcionar sincronicamente na nossa língua.

Essas unidades também mudam de realização em processos flexionais e derivacionais:

  • porta diz-se [‘pΟrtα]; porteiro deriva de porta e diz-se [pur’tαjru]; dever-se-ia escrever “purteiru”? Nesse caso, perder-se-ia a identidade da palavra como derivada.

A invenção da escrita foi a primeira abordagem linguística. A escrita descobriu os sons elementares da língua, ao mesmo tempo que revelou que eles correspondem a unidades abstratas que se concretizam de modo diverso. As letras não representam os sons efetivos que os falantes utilizam mas sim essas unidades abstratas. Por isso, é que podem ser lidas de maneira diferente. O r de porta pode ser dito apicalmente ou guturalmente sem qualquer problema, mas em caro e carro essa hipótese já não existe e a escrita viu-se forçada a dar conta dessa diferença distintiva, dobrando a letra.

 

O que está em causa nos acordos ortográficos não é aproximar-nos de uma escrita fonética; é apenas o acordo entre ortografias oficiais de vários países cujas diferenças linguísticas não são suficentemente grandes para justificar diferentes ortografias. A evolução ortográfica brasileira revelou que a letra c antes de consoante já não é consoante nenhuma; é apenas um vestígio de algo que já passou. Por isso, pode ser excluída sem grande prejuízo, pois não funciona na nossa sincronia.

 

De resto, a ortografia é essencialmente conservadora.

O culpado do desastre da educação é você

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É o que nos diz Luís Cabral1, economista e professor duma universidade de Nova Iorque. O problema do fracasso escolar começa em casa. Luís Cabral aponta o dedo aos pais e encarregados de educação. Apesar de os professores e a gestão da escola também importarem, o essencial está na família.

A escola forma o capital humano que é, de acordo com o articulista, o fator mais importante da economia.

Se a cultura científica e tecnológica não é valorizada em casa, se os jovens são expostos à narrativa épica das travessuras escolares dos próprios pais num tom que desvaloriza os professores, se os jovens são enviados para a escola “porque tem que ser”, “porque é obrigatório”, se os pais querem ser populares junto dos filhos à custa da escola, piscando o olho às marotices dos pequenos, é quase certo que estes irão repetir os mesmos fracassos da geração anterior.

Em abono da sua tese, apresenta os dados de pesquisas americanas que mostram que os alunos mais bem sucedidos na escola são os filhos de famílias judaicas e sino-americanos que valorizam a escola e exigem constantes prestações de contas aos filhos do seu trabalho escolar.

1 Num artigo publicado no suplemento de economia da edição do Expresso de 28 de Janeiro.

Cruzada contra o acordo

A recente intervenção de Graça Moura como diretor do CCB levou-me a republicar este artigo.

 

Basicamente, acho que a mudança da ortorafia não tem nenhuma das consequências ditas gravosas para a língua portuguesa que Graça Moura anuncia. Em segundo lugar, a ortografia não é um sistema fechado, feito de regras universais. Não há nenhum princípio universal violado no novo acordo. A ortografia sempre foi uma manta de retalhos. Este acordo não a melhora nem a piora. Apenas a unifica um pouco mais. Esta é a opinião da maioria dos dos estudiosos da língua portuguesa que conheço, entre os quais, Malaca Casteleiro.

 

Vasco Graça Moura e Maria do Carmo Vieira encabeçam ao que parece um movimento de resistência contra o novo acordo ortográfico.

Num vídeo, aqui no Sapo, Maria do Carmo faz afirmações fáceis e sem qualquer fundamento.

Basicamente, temos que nos unir contra os políticos porque a língua é de todos e não só dos políticos e linguistas, pois a língua desenvolve-se muito lentamente e não por ordem política.

Tudo errado, meus caros! A verdade é que a língua portuguesa é uma realidade política desde o princípio. A variante escrita existe e impôs-se com a criação de um estado nacional, desde o rei D. Dinis até ao nosso tempo. A escrita que temos hoje resulta dos acordos ortográficos do século XX.

Quer o leitor voltar a escrever “mãi”? Olhe que José Saramago aprendeu a escrever assim: “mãi”. Quer saber a minha opinião? Tanto faz! Desde que nos punhamos todos de acordo sobre a maneira como escrever a nossa língua. Ora um acordo é coisa que só pode ser feita pelos políticos.

Há alguma razão para os brasileiros e os portugueses deixarem que as normas ortográficas divirjam cada vez mais? Já leu Jorge Amado, Machado de Assis ou Lins do Rego? Sentiu alguma dificuldade? Há algum brasileirismo ortográfico que o perturbou na sua leitura? A mim, não! Porque sou tolerante a essas pequenas diferenças superficiais de que estes senhores fazem um cavalo de batalha. Injustos, ainda por cima, porque os brasileiros cedem também em muita coisa para se porem de acordo connosco.

Veja o sucesso das novelas brasileiras em Portugal. Sente que a sua língua está a ser agredida, que eles falam mal, ou, antes, que falam muito bem e que nós os compreendemos sem qualquer dificuldade?

Então é porque temos a mesma língua falada! E as diferenças dialectais dentro do Brasil e dentro de Portugal são maiores do que as diferenças entre as normas oficiais portuguesa e brasileira. Ah não acredita? Então divirta-se com o seguinte: compare um falante de uma telenovela com uma gravação de um falante de uma variante açoreana. Tem aí a evidência do que eu digo: quando aparece um açoreano ou um madeirense na televisão, por vezes, a RTP põe legenda, mas não precisa de o fazer nas telenovelas.

A minha opinião sobre os resistentes é a seguinte: estão apenas a defender a sua maneira de escrever que é filha de acordos ortográficos do passado! Não estão a defender nenhuma pureza etimológica, porque por esse caminho teriam que rever muita coisa na ortografia actual.

Chamo a atenção para o facto de que este artigo não ter sido escrito de acordo com a nova ortografia.

Veja as declarações da Maria do Carmo Vieira:

 

O humano e o divino

Fez Deus o homem para que ele lhe descobrisse os limites. Deus sentia-se só na sua omnipotência. Tanta era que Ele ignorava o seu fim e o seu princípio.
O homem veio e mostrou-lhe os erros da criação.
E Deus viu que era bom. E por onde errava o homem já Deus errara primeiro.
Por isso, escreve Holderlin que só compreende o divino quem tem um pouco dele.

Devem os nazis ter os mesmos direitos que os outros partidos?

Esta é a questão que está em cima da mesa no debate entre a CDU e o SPD, a propósito da ilegalização do NPD, o partido que está relacionado com os neonazis implicados na violência racista dos primeiros anos do milénio.

A situação é similar a alguém que quer entrar num jogo com a intenção de acabar com ele. Foi exactamente isso que aconteceu em 1933. O partido de Hitler ganhou as eleições, mas numca teve maioria parlamentar para mudar o regime. Foi um governo minoritário que pôs fim ao jogo democrático e às liberdades e direitos civicos.

O mesmo aconteceu em outros tempos e lugares com outros protagonistas que de “democrático” têm muito pouco. Lembremo-nos dos bolcheviques que eram de facto minoritários nos sovietes operários e ainda mais minoritários no panorama político global (na representação na Duma, parlamento russo). Foi o partido armado que tomou o poder, primeiro dentro do soviete de Petrogrado, contra a maioria de representantes que tinham outras filiações – mencheviques, socialistas-revolucionários e anarquistas. O que é certo é que a chamada revolução de 1917 foi um golpe dum partido minoritário dentro do próprio movimento operário.

De facto, a ideia do partido armado teve a sua grande aparição com os bolcheviques e foi copiada, depois pelos fascistas italianos e pelos, nazis alemães. A consulta popular pelo voto é desprezada como coisa “formal”, “burguesa”, tanto por comunistas como por nazis. O líder impõe-se primeiro aos seus seguidores e, depois, ao povo essencialmente através do medo, da coerção e do policiamento das ideias que foi o que aconteceu em todos esses regimes.

 

Um lobo no rebanho

Uma pacata aldeia, localizada a 30 km de Hannover está em estado de choque. Descobriram com estupefação que um dos seus vizinhos – um homem reservado, mas afável – era um assassino há muitos anos procurado pela polícia. Holger G. pertencera à célula terrorista neonazi de Zwickau que, entre 2000 e 2007, assassinara oito emigrantes turcos, um grego e uma agente da polícia, assaltara bancos e preparara ataques bombistas. Holger seguia os hábitos dos cidadãos «normais», passeava o cão e saudava os vizinhos.

Como é que um dos protagonistas de acontecimentos tão recentes pode viver numa aldeia sem levantar suspeitas?

Qualquer que seja a inocência destes pacatos aldeões, ficam de pé várias questões para os alemães resolverem. Uma delas é a responsabilidade que partidos da extrema-direita têm nestes crimes e na proteção aos criminosos procurados pela polícia.

Para nós, ovelhas e cordeiros, fica a advertência de que lobos se podem abrigar escondidos no rebanho, à espera de novas oportunidades para arreganharem os dentes.

Dar dinheiro aos pobres leva à decadência?

Em relação ao post referido no item anterior que critica o economista espanhol citado em http://correntes.blogs.sapo.pt/1216240.html, não contesto que alguns dos factos económicos citados tenham acontecido em várias épocas da longa história do Império. Escassez de cereais para alimentar uma cada vez maior população urbana terá acontecido em Roma e em várias outras cidades do império, em menor escala. A falta de interesse na sua produção por parte dos agricultores, também. A magistral lição do senhor Jesus sugere explicitamente que dar dinheiro aos pobres leva à decadência. Ora bem, sabemos que o crescimento económico euro-americano que durou do fim da segunda guerra até à actualidade, um dos maiores períodos de crescimento da historia, com realizações notáveis como o modelo social europeu e a também notável segurança social americana, com um orçamento que Milton Friedmann dizia superior ao próprio orçamento de estado da URSS, baseava-se no aumento da procura através precisamente do subsídio dos desempregados e das reformas. Estamos numa perspectiva keynesiana totalmente adversa ao que Jesus diz no video.

Contesto que esses fatos conjunturais da economia expliquem suficientemente a queda do Império. De resto, as invasões do séc. V são um facto excecional que não tem comparação com qualquer outra ameaça que o Império tenha enfrentado anteriormente. Essas movimentações étnicas foram de longo alcance e tiveram impactos em quase todo o mundo habitado da altura, incluindo o império chinês.

Dar dinheiro aos pobres leva à decadência?

Em relação ao post referido no item anterior que critica o economista espanhol citado em http://correntes.blogs.sapo.pt/1216240.html, não contesto que alguns dos factos económicos citados tenham acontecido em várias épocas da longa história do Império. Escassez de cereais para alimentar uma cada vez maior população urbana terá acontecido em Roma e em várias outras cidades do império, em menor escala. A falta de interesse na sua produção por parte dos agricultores, também. A magistral lição do senhor Jesus sugere explicitamente que dar dinheiro aos pobres leva à decadência. Ora bem, sabemos que o crescimento económico euro-americano que durou do fim da segunda guerra até à actualidade, um dos maiores períodos de crescimento da historia, com realizações notáveis como o modelo social europeu e a também notável segurança social americana, com um orçamento que Milton Friedmann dizia superior ao próprio orçamento de estado da URSS, baseava-se no aumento da procura através precisamente do subsídio dos desempregados e das reformas. Estamos numa perspectiva keynesiana totalmente adversa ao que Jesus diz no video.

Contesto que esses fatos conjunturais da economia expliquem suficientemente a queda do Império. De resto, as invasões do séc. V são um facto excecional que não tem comparação com qualquer outra ameaça que o Império tenha enfrentado anteriormente. Essas movimentações étnicas foram de longo alcance e tiveram impactos em quase todo o mundo habitado da altura, incluindo o império chinês.