Então, e a igualdade de oportunidades? (continuação do post anterior)

“Então, e a igualdade de oportunidades?”

“Isso é o que os liberais reivindicam. Os socialistas têm que ir mais longe”

“Todos com sucessos diferentes na vida, mas com igualdade plena perante a lei!”

“Todos com as mesmas oportunidades na vida, mas o que cada um consegue é consigo próprio, é da sua inteira responsabiblidade”

“O livre arbítrio: colhe o que semeaste!”

“Nós queremos mais do que isso. Queremos que todos tenham sucesso e achamos que é uma anomalia um aluno na escola não conseguir singrar nos estudos. Quando isso acontece, alguém está mal: a família, os serviços sociais, etc. Menos a própria criança. Ou ela tem um carimbo que a desculpa – disléxia, hiperatividade, síndrome de down, etc. – ou alguém é culpado pelo seu insucesso”

“Mas será que queremos mesmo a igualdade de oportunidades? Essa é a questão que te coloco.”

“Evidentemente, defendo com unhas e dentes todos os apoios que o estado dá no sentido de afirmar a igualdade”

“Todos devem ter igual acesso à educação, à saúde, etc. Mas achas que todas as crianças têm as mesmas oportunidades que os teu filhos? Por exemplo, um dos teus filhos pratica natação e estuda inglês e música em escolas privadas”

“Não, infelizmente não podem, pois as famílias mal têm dinheiro para as ter na escola pública.”

“E lembra-te daquela nossa amiga que tem uma criança com síndrome de down. Ela recebeu uma herança bastante grande que lhe permitiu criar já uma série de recursos para a filha. Por exemplo, a miúda vai ter um casa própria e uma bolsa mensal que lhe permitirá sobreviver quando a mãe já não a puder ajudar. Achas que esta criança tem as mesmas oportunidades do que outras crianças na mesma situação?”

“Não, tem melhores oportunidades do que outras que poderão contribuir mais para a comunidade.”

“Se queres igualdade de oportunidades, não deverias preocupar-te com o que podes fazer no sentido de que as outras crianças tenham o mesmo do que os teus filhos têm?”

“Tenho que reconhecer que sim. Mas o que é que poderíamos fazer”

“Por exemplo, poderíamos proibir o negócio das escolas privadas. Isto é, nenhuma escola poderia pedir pagamentos pelo seu ensino, pois todos têm o mesmo direito ao ensino seja da música, seja da natação. Como, por exemplo, acontece na Finlândia.”

“Não, não estou disposto a esperar que haja boas condições para todos terem acesso. Quero pagar já tudo o que os meus filhos precisarem.”

“Podíamos também proibir a herança. Quando uma pessoa morre, tudo o que tem passa para a comunidade de maneira a impedir que uns comecem a vida com melhores condições do que outros. Também se todos têm direito à saúde, à educação e ao trabalho (de acordo com as suas competências), para que precisarão daquilo que os pais lhe poderiam deixar?”

“Não, não desejo isso, quero preparar a vida dos meus filhos tão bem quanto possível e essa é um das minhas motivações para trabalhar e subir na vida.”

“Então tens que reconhecer que és contra a igualdade de oportunidades.”

“Mas eu quero que o estado apoie aqueles que têm menos recursos do que eu para dar aos meus filhos”

“Penso o mesmo que tu. Também sou contra a igualdade de oportunidades que seria uma imposição necessariamente feita por baixo. Acho que os pais têm que ter o direito de fazer o melhor possível pelos seus.”

“Mas ficamos ofendidos com a miséria, com a falta de oportunidades e, sobretudo, com o talento desperdiçado por falta de condições.”

“É isso. Queremos políticas públicas que ofereçam condições e oportunidades a toda a gente. Mas não abdicamos do nosso compromisso – primeiro – de favorecer ao máximo os nossos filhos. Mas a igualdade de oportunidades é também ela tendencial. O estado, isto é, todos nós, deve compensar desvantagens. Sabemos que o talento vence as piores adversidades e, muitos singram com carências insuportáveis. Mas, como socialistas que nos prezamos ser, queremos mais do que uma pesca de talentos nas classes mais desfavorecidas. queremos que todos tenham direito à educação, à saúde, etc. Queremos que ninguém fique desamparado sem saber o que há-de fazer da sua vida. Mas a igualdade de oportunidades é um slogan hipócrita. Estou em crer que a maior parte dos que o defendem são na realidade contra ele”

Krugman sobre os protestos de Wall Street

Agrada-me ver Paul Krugman a fazer o contraponto entre o Tea Party e o Occupy Wall Street nas páginas do New York Times (http://www.nytimes.com/2011/10/10/opinion/panic-of-the-plutocrats.html?_r=1&WT.mc_id=NYT-E-I-NYT-E-AT-1012-L23). Mostra como as críticas endereçadas por gente da área dos republicanos aos protestos de Wall Streeet baseia-se nos interesses de uma ínfima parte da população. Trata-se de facto de “plutocratas em pânico”. Pelo contrário, os acontecimentos relacionados com o Tea Party tiveram aspectos de desordem e violência maiores do que o Occupy… onde Krugman assinala alguma sobrerreacção policial.

Que temem então os mais ricos de entre os ricos? Que algumas das reivindicações dos revoltados façam o seu caminho. Hiperreagiram, por exemplo, quando lhes foi exigido pela “Volcker rule” que os bancos que beneficiassem de garantias do estado não pudessem envolver-se em actividades especulativas de alto risco.

Krugman mostra muito clareza na distinção que faz entre os que enriquecem na actividade económica e na inovação tecnológica como Steve Jobs e os que vivem de esquemas financeiros altamente complexos que têm apenas como fim captar fluxos de capital para as suas contas sem benefícios para mais ninguém a não ser eles próprios. Ora, é esta gente de Wall Street que consegue, apesar da sua imensa riqueza, pagar menos impostos do que profissionais da classe média e que se encontra em pânico com os indignados que gritam à sua volta.

Não há dúvida que a relação entre a economia real e a actividade financeira ganhou uma grande atualidade. É bom lermos uma voz autorizada como a de Krugman a nos dizer isto mesmo para nos podermos rir dos banqueiros que querem dar lições de moral aos seus concidadãos como se as fontes da sua riqueza estivesse ao abrigo de qualquer reparo.

Krugman sobre os protestos de Wall Street

Agrada-me ver Paul Krugman a fazer o contraponto entre o Tea Party e o Occupy Wall Street nas páginas do New York Times (http://www.nytimes.com/2011/10/10/opinion/panic-of-the-plutocrats.html?_r=1&WT.mc_id=NYT-E-I-NYT-E-AT-1012-L23). Mostra como as críticas endereçadas por gente da área dos republicanos aos protestos de Wall Streeet baseia-se nos interesses de uma ínfima parte da população. Trata-se de facto de “plutocratas em pânico”. Pelo contrário, os acontecimentos relacionados com o Tea Party tiveram aspectos de desordem e violência maiores do que o Occupy… onde Krugman assinala alguma sobrerreacção policial.

Que temem então os mais ricos de entre os ricos? Que algumas das reivindicações dos revoltados façam o seu caminho. Hiperreagiram, por exemplo, quando lhes foi exigido pela “Volcker rule” que os bancos que beneficiassem de garantias do estado não pudessem envolver-se em actividades especulativas de alto risco.

Krugman mostra muito clareza na distinção que faz entre os que enriquecem na actividade económica e na inovação tecnológica como Steve Jobs e os que vivem de esquemas financeiros altamente complexos que têm apenas como fim captar fluxos de capital para as suas contas sem benefícios para mais ninguém a não ser eles próprios. Ora, é esta gente de Wall Street que consegue, apesar da sua imensa riqueza, pagar menos impostos do que profissionais da classe média e que se encontra em pânico com os indignados que gritam à sua volta.

Não há dúvida que a relação entre a economia real e a actividade financeira ganhou uma grande atualidade. É bom lermos uma voz autorizada como a de Krugman a nos dizer isto mesmo para nos podermos rir dos banqueiros que querem dar lições de moral aos seus concidadãos como se as fontes da sua riqueza estivesse ao abrigo de qualquer reparo.

Vendavais esfumados

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No romance Um jantar a mais de Ismail Kadaré (Quetzal, 2002), a propósito de um escândalo sexual, aparece a seguinte notável comparação:

“E assim como um vendaval, que deixa a rodopiar atrás de si alguns destroços, também sobre esse assunto apenas algumas palavras equívocas pairavam ainda no ar, tornando-se cada vez mais raras” (p. 66)

Na história, ao fim e ao cabo, só há vendavais. Alguns deles, contudo, demoram muito tempo a esfumar-se. Quando isso acontece, aqueles que se acham no centro do furacão sofrem uma grande deceção. Descobrem que não se encontram em nenhuma charneira da história, apenas em algo que se esfuma sem justificar nem os sacrifícios nem os riscos consentidos. Apenas um balão que se vai esvaziando, ao ponto de, muito pouco tempo depois, quase ninguém se lembrar do acontecido, nem da perspetiva que justificava a ação, o denodo e a combatividade do tempo vivido.

Formação de turmas

Uma turma é um grupo de trabalho constituído por alunos que se encontram no mesmo nível. Os professores têm como certos os pontos de partida. A simples menção do ano lectivo a que a turma corresponde bastaria para assegurar que o ano curricular anterior era assunto arrumado. Contudo, nos sistemas de ensino dos países desenvolvidos, concluiu-se que a reprovação é uma má medida pedagógica e os desníveis dentro de grupos do mesmo ano lectivo têm aumentado.

Como contornar esta situação, eis o problema.

Num folheto de divulgação da St Peters RC High School de Manchester diz-se a propósito da entrada no year 7:

“When puplis begin in year 7 they are placed in broad ability groups based on KS2 SATs levels and reports from their primary schools”

Os KS2 SAT são os testes oficiais aplicados a todos os alunos no final do “key stage 2” que corresponde ao nosso 2º ciclo. Apesar de todos terem completado o ensino primário (que vai até ao 6º ano), há que diferenciá-los de acordo com o desempenho porque isso contribui para que aprendam o que precisam e que não acumulem lacunas. Estão todos no 7º ano mas em grupos diferentes, de acordo com as reais aprendizagens já realizadas.

Parece-me uma boa estratégia da St Peters de Manchester.

Formação de turmas

Uma turma é um grupo de trabalho constituído por alunos que se encontram no mesmo nível. Os professores têm como certos os pontos de partida. A simples menção do ano lectivo a que a turma corresponde bastaria para assegurar que o ano curricular anterior era assunto arrumado. Contudo, nos sistemas de ensino dos países desenvolvidos, concluiu-se que a reprovação é uma má medida pedagógica e os desníveis dentro de grupos do mesmo ano lectivo têm aumentado.

Como contornar esta situação, eis o problema.

Num folheto de divulgação da St Peters RC High School de Manchester diz-se a propósito da entrada no year 7:

“When puplis begin in year 7 they are placed in broad ability groups based on KS2 SATs levels and reports from their primary schools”

Os KS2 SAT são os testes oficiais aplicados a todos os alunos no final do “key stage 2” que corresponde ao nosso 2º ciclo. Apesar de todos terem completado o ensino primário (que vai até ao 6º ano), há que diferenciá-los de acordo com o desempenho porque isso contribui para que aprendam o que precisam e que não acumulem lacunas. Estão todos no 7º ano mas em grupos diferentes, de acordo com as reais aprendizagens já realizadas.

Parece-me uma boa estratégia da St Peters de Manchester.

Rebeldes, revolucionários ou ladrões?

 

São simplesmente ladrões ou realmente revolucionários ou rebeldes?

Habituámo-nos a ver em protestos, por todo o lado, indivíduos de cara tapada que se diferenciam dos vulgares manifestantes pela atitude e determinação na ação que tomam.

Alguns são profissionais dos movimentos anti-globalização ou anti-capitalistas que se deslocam de evento em evento, para se misturarem com os manifestantes locais e partir a loiça toda.

Nos recentes acontecimentos na Inglaterra terá acontecido isso?

A verdade é que houve protestos e grandes manifestações contra a política de cortes na despesa pública do governo conservador.

Sabe-se que esses cortes atingiram gravemente a juventude da periferia. Muita da acção violenta parece constituir inquestionavelmente uma revolta de jovens que não têm qualquer solução que os integre no sistema económico e social. Não têm, contudo, nenhum movimento político que lhes dê cobertura e que os oriente numa perspectiva integrada de luta política e social. Na verdade, tudo o que fazem não serve para atrair outros para a sua causa.

Foi então uma explosão social sem controlo?

Na imprensa, nota-se uma tendência para associar estes jovens desordeiros com um genérico anarquismo.

Mas aqueles que se auto-consideram “anarquistas” rejeitam completamente esta responsabilidade. Por exemplo, a Anarchist Federation repudia qualquer opção violenta na luta contra os cortes nas despesas sociais do governo conservador. Pois apenas aceita grandes ações de massas com vista à conquista da opinião pública num movimento contra o governo e não ataques a pessoas e propriedades (cf. Freedom online), mas acusam os trotsquistas e marxistas de se fazerem passar por anarquistas e se infiltrarem nos seus movimentos. O Socialist Party, partido de esquerda de orientação trotsquista, também repudia a ação dos “rioters, looters e arsonists”, isto é os que atacam roubam e incendeiam, mas analisam sociologicamente o evento e apontam os dedos às políticas de direita, liberais e capitalistas que levaram os jovens a cometer esses crimes, ao deixá-los sem emprego, sem apoios e sem qualquer orientação social. Reconhecem a falta de consciência de pertença à classe trabalhadora que os leva a essas atitudes (cf. Con-dems to-blame for anger of youth mass trade union led workers response needed).

Contudo, há grupos anarquistas e marxistas que optam claramente pela violência como forma de ação. Muitos serão os tais que vão de cimeira em cimeira internacional manifestar-se violentamente contra a globalização. Num blogue, por exemplo, encontro uma descrição na primeira pessoa de um ataque a uma esquadra em Birmingham (Attack on Bristol police claimed by anarchists).

Portanto, há com certeza, líderes com uma orientação anarquista violenta que organizam os eventos através de telemóvel, de onde a referência a Blackberries. Atcam lojas, pessoas que consideram bem instaladas no sistema que criticam e, especialmente, organizações conotadas com o capitalismo – veja-se o ataque por 1000 activistas contra a Fortnum & Mason).

Há, pois, um discurso anti-capitalista de fundo nos motivos dos “rioters” ingleses. A essas ações junta-se o puro roubo de bens, o saque das lojas que aproveitam diretamente a quem os faz. Essa imagem domina e torna politicamente irrelevante no sentido em que não conduz a uma opção consistente de uma esquerda revolucionária.

Os comentadores de direita acusam o longo periodo trabalhista como o responsável por esta vaga de jovens dependentes da segurança social, formados numa escola inútil que não lhes deu qualquer perspectiva de futuro.

Os comentadores de esquerda acusam as políticas neo-liberais como causadoras desta revolta.

O Economist, num registo áudio na sua página conclui que, com estes acontecimentos, são as ideias mais conservadoras a propósito da segurança e dos apoios sociais que vencem (Anarchy in the UK).

A crise económica e social na Europa está a ser demasiado cara para os mais fragilizados socialmente. Há que procurar um equilíbrio entre apoios sociais e responsabilidade individual. Que a hora agora é de repressão, não há a menor dúvida. Mas depois há que equacionar tudo. Os trabalhistas ou outros no seu lugar terão que fazer a sua parte na ação política contra o governo conservador e ocupar o lugar desse discurso anti- que não leva a lado nenhum.

Rebeldes, revolucionários ou ladrões?

 

São simplesmente ladrões ou realmente revolucionários ou rebeldes?

Habituámo-nos a ver em protestos, por todo o lado, indivíduos de cara tapada que se diferenciam dos vulgares manifestantes pela atitude e determinação na ação que tomam.

Alguns são profissionais dos movimentos anti-globalização ou anti-capitalistas que se deslocam de evento em evento, para se misturarem com os manifestantes locais e partir a loiça toda.

Nos recentes acontecimentos na Inglaterra terá acontecido isso?

A verdade é que houve protestos e grandes manifestações contra a política de cortes na despesa pública do governo conservador.

Sabe-se que esses cortes atingiram gravemente a juventude da periferia. Muita da acção violenta parece constituir inquestionavelmente uma revolta de jovens que não têm qualquer solução que os integre no sistema económico e social. Não têm, contudo, nenhum movimento político que lhes dê cobertura e que os oriente numa perspectiva integrada de luta política e social. Na verdade, tudo o que fazem não serve para atrair outros para a sua causa.

Foi então uma explosão social sem controlo?

Na imprensa, nota-se uma tendência para associar estes jovens desordeiros com um genérico anarquismo.

Mas aqueles que se auto-consideram “anarquistas” rejeitam completamente esta responsabilidade. Por exemplo, a Anarchist Federation repudia qualquer opção violenta na luta contra os cortes nas despesas sociais do governo conservador. Pois apenas aceita grandes ações de massas com vista à conquista da opinião pública num movimento contra o governo e não ataques a pessoas e propriedades (cf. Freedom online), mas acusam os trotsquistas e marxistas de se fazerem passar por anarquistas e se infiltrarem nos seus movimentos. O Socialist Party, partido de esquerda de orientação trotsquista, também repudia a ação dos “rioters, looters e arsonists”, isto é os que atacam roubam e incendeiam, mas analisam sociologicamente o evento e apontam os dedos às políticas de direita, liberais e capitalistas que levaram os jovens a cometer esses crimes, ao deixá-los sem emprego, sem apoios e sem qualquer orientação social. Reconhecem a falta de consciência de pertença à classe trabalhadora que os leva a essas atitudes (cf. Con-dems to-blame for anger of youth mass trade union led workers response needed).

Contudo, há grupos anarquistas e marxistas que optam claramente pela violência como forma de ação. Muitos serão os tais que vão de cimeira em cimeira internacional manifestar-se violentamente contra a globalização. Num blogue, por exemplo, encontro uma descrição na primeira pessoa de um ataque a uma esquadra em Birmingham (Attack on Bristol police claimed by anarchists).

Portanto, há com certeza, líderes com uma orientação anarquista violenta que organizam os eventos através de telemóvel, de onde a referência a Blackberries. Atcam lojas, pessoas que consideram bem instaladas no sistema que criticam e, especialmente, organizações conotadas com o capitalismo – veja-se o ataque por 1000 activistas contra a Fortnum & Mason).

Há, pois, um discurso anti-capitalista de fundo nos motivos dos “rioters” ingleses. A essas ações junta-se o puro roubo de bens, o saque das lojas que aproveitam diretamente a quem os faz. Essa imagem domina e torna politicamente irrelevante no sentido em que não conduz a uma opção consistente de uma esquerda revolucionária.

Os comentadores de direita acusam o longo periodo trabalhista como o responsável por esta vaga de jovens dependentes da segurança social, formados numa escola inútil que não lhes deu qualquer perspectiva de futuro.

Os comentadores de esquerda acusam as políticas neo-liberais como causadoras desta revolta.

O Economist, num registo áudio na sua página conclui que, com estes acontecimentos, são as ideias mais conservadoras a propósito da segurança e dos apoios sociais que vencem (Anarchy in the UK).

A crise económica e social na Europa está a ser demasiado cara para os mais fragilizados socialmente. Há que procurar um equilíbrio entre apoios sociais e responsabilidade individual. Que a hora agora é de repressão, não há a menor dúvida. Mas depois há que equacionar tudo. Os trabalhistas ou outros no seu lugar terão que fazer a sua parte na ação política contra o governo conservador e ocupar o lugar desse discurso anti- que não leva a lado nenhum.

De novo: outros predicativos do sujeito?

​  ​

Continuo com o tema do post anterior.

 

  1. O João chegou mais gordo .
  2. O Pedro saiu zangado .
  3. A Maria chegou triste .
  4. O António nasceu português .
  5. Ele começou o trabalho muito contente .

Parece-me que os modificadores do verbo acima assinalados comportam-se da mesma maneira que os casos típicos de predicativos do sujeito:

– predicam algo acerca do sujeito.

– ligam-se ao sujeito por um verbo.

Reconhecendo esse fato, não poderíamos admitir uma classe de verbos que permite modificadores que se reportam ao sujeito? Assim o predicativo do sujeito tanto poderia ser um complemento, no caso de verbos copulativos como um modificador no caso de outros verbos.

Acontece algo similar com grupos adverbiais e preposicionais que se comportam ora como modificadores ora como complementos. Os grupos adjetivais não aparecem no Dicionário Terminológico como modificadores do verbo, motivo pelo qual ficamos com aqueles casos em terra de ninguém.

Podemos averiguar se se trata realmente de adjectivos com função adverbial, substituindo-os por advérbios que tenham o mesmo sentido. Ao tentar fazê-lo, verificamos que não conseguimos encontrar advérbios aceitáveis (talvez só “tristemente”). É que não há de facto uma maneira gorda de chegar ou um modo português de nascer. O que me parece é que co-ocorrem na frase o estado expresso pelo adjectivo e o evento expresso pelo verbo.

O sentido das 5 frases poderia ser assim parafraseado:

  1. Quando o João chegou, estava mais gordo .
  2. Quando o Pedro saiu, estava zangado .
  3. Quando a Maria chegou, estava triste .
  4. Quando nasceu, o António era português .
  5. Quando começou o trabalho, ele estava muito contente .

Estas construções com subordinadas são de facto dispensáveis porque, aos verbos em causa, basta acrescentar os grupos adjectivais.

Predicativo do sujeito

É perturbante que o dicionário terminológico, que eu considero um bom instrumento de trabalho, não responda eficazmente a algumas dúvidas elementares colocadas pelas suas definições. O caso que tenho entre mãos é o “predicativo do sujeito” que é assim definido:

“Função sintáctica desempenhada pelo constituinte que ocorre em frases com verbos copulativos, que predica algo acerca do sujeito.”

A definição de verbos copulativos é lamentavelmente circular, isto é, leva-nos de novo à entrada de “predicativo do sujeito”, facto que foi devidamente assinalado no momento da discussão da Tlebs.

“Verbo que ocorre numa frase em que existe um constituinte com a função sintáctica de sujeito e outro com a função sintáctica de predicativo do sujeito.”

Como são interdependentes, ficamos sem saber o que é um e o que é o outro.

É neste enredado que aparecem as dúvidas. No Guião de Implementação do Programa de Conhecimento Explícito da Língua, aparecem, numa das actividades propostas para o assunto do predicativo do sujeito, as seguintes frases:

  • O Pedro saiu zangado.
  • A Maria chegou triste.
  • O António nasceu português.

São frases cujos predicados eram designados por verbo-nominais por conterem também um predicativo do sujeito. Veja um exemplo desta classificação numa entrada da Wikipedia: Predicado (gramática).

Ora, no dicionário não aparece nenhuma solução para designar correctamente a função sintática dos constituintes sublinhados nas frases acima. Como vimos, a classificação de predicativo contradiz as definições do dicionário, pois os verbos das três frases não são copulativos.

Não obtenho uma resposta assertiva e clara por parte dos autores do dicionário: qual é a função sintáctica desses adjectivos.

A minha resposta é: predicativo do sujeito! Mas fico perturbado com a contradição com o dicionário e com a consistência da actividade do GIP que foi precisamente buscar estes casos para mostrar ao aluno que estas frases não têm predicativo do sujeito, pois os grupos adjectivais podem ser excluídos sem que a frase fique agramatical.