Ana e a árvore da vida

A árvore da vida (parte central) de Gustav Klimt

(extraído de lapislavra.wordpress.com)

Episódio 1 – Filha de Eva

Ana recordava-se do tempo em que o pai era um homem muito forte. Para ela, o mais forte do mundo. Mas agora ele estava sempre a queixar-se de dores em todo o corpo. Eram os músculos que latejavam quando pegava em alguma coisa mais pesada, coisa rara para um patriarca tão rico e poderoso, tão cheio de filhos, netos, bisnetos e bisnetos dos bisnetos em que muitos já tinham zarpado em busca de novas terras cumprindo o mandamento divino de encher a terra. Era também o fôlego que perdia quando se punha por mero prazer a ajudar nas lides do campo, as dores que surgiam nas costas e nas articulações quando se baixava.

Um dia, Ana ouvira-o confessar: "Começo a acreditar na palavra do Senhor quando me condenou, "és pó e em pó te tornarás". Muitas vezes me perguntava o que Ele queria dizer com isso. Quando o meu Abel morreu, creio ter compreendido o que era voltar a ser pó. Mas passaram-se anos e até agora ainda não vimos o que é isso. Virá um anjo ou outro homem matar-me? Agora estou a ver que não, é  simplesmente este desaparecer aos poucos, cabelos brancos, rugas, perda de força, dores… até desaparecermos".

Ana nascera muito depois da morte de Abel, uma espécie de santo que toda a gente venerava, o grande iniciador do culto de sacrificar cordeiros ao Senhor. Abel morrera havia já mais de seiscentos anos e Ana era uma jovem mulher de apenas cem anos. Caim, o irmão mais velho, o fraticida, prosperava muito longe dali, na Terra de Nod, onde fundara, com o primeiro filho, a cidade de Enoch, de que se contavam maravilhas.

Seth, com quase oitocentos anos, de aspecto tão velho como o pai, aparecia de vez em quando. Era também um grande patriarca, com as suas terras e as suas famílias. Na verdade, Adão, já tinha perdido a conta aos seus descendentes, eram dezenas ou, mesmo, centenas, de milhar. A sua comunidade era ela própria composta por alguns milhares. A de Seth, também, e já havia centenas delas espalhadas pela superfície da terra, fundadas por netos e bisnetos de Adão e dos seus filhos.

Última filha, Ana, fora sempre mimada pelos pais. Eva dizia: "Depois desta, o Senhor selou-me o ventre". Em pequena, era muito curiosa, queria saber tudo o que tinha acontecido. "Pai, como falavas com o Senhor no jardim? Via-lo?". "Não, era apenas a voz dele que nos entrava pelos ouvidos e nos dominava duma maneira que mais nada se podia pensar ou ver", respondia Adão e, quando explicava isto fazia uma cara de sofrimento e esforço, como se estivesse naquele momento a acontecer aquilo, mas logo a seguir, falava-lhe ao ouvido como se fosse Deus, mas fazendo-lhe cócegas com a barba: "Onde estás, Ana? Porque te escondes?". Ana ria-se e respondia: "Ouvi a tua voz, vi que estava nua e escondi-me". E enfiava logo a longa saia de lã, não fosse o Senhor surpreendê-la nuazinha.

"A serpente não rastejava antes de falar contigo, mãe?", perguntava a Eva. "Não sei, filha, a primeira vez que a vi estava enrolada na árvore". "Falava?", "Falou daquela vez". "Não achaste estranho?", "Tudo era estranho para mim, desde que apareci naquele sítio, feita duma costela do teu pai. Não tive a sorte de ter uma mãe que me ensinasse as coisas assim aos poucos desde pequenina, como tu". "O fruto era saboroso?", "Não me consigo lembrar do seu sabor. Só me lembro daquela voz horrenda, paralisante, a condenar-me "Com dor, darás à luz filhos"".

Havia já alguns anos que Ana se interessava por rapazes. Eva, como nunca fora rapariga, deliciava-se sempre com este momento, em que de meninas passavam a mulheres, apesar de já ter sido mãe dezenas de vezes.  "Não sei o que é conceber sem dores. Não sei o que é isso como castigo, pois não o imagino de outra maneira."

O mesmo dizia Adão a propósito do trabalho: "Sou rico. A minha família trabalha para mim e já tenho outros que vêm de longe e procuram a minha protecção. Chamam-me Pai, mas já perderam a linha que vai de mim até eles. Já há centenas de anos que não preciso de trabalhar, mas gosto de o fazer. Também não entendo esse castigo,  "maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida". Não! Bendita é esta terra que regamos com o nosso suor!". Às vezes, olhava para os campos a perder de vista e pensava: "Isto é melhor que as árvores do Éden".

Tudo era misterioso para Ana, a história do pai e da mãe eram os seus contos de fadas. Procurava compreender tudo e buscava as respostas às lacunas que lhe apareciam. O senhor Deus que falara com os pais e com os irmãos não se mostrava à toa. Era algo nebuloso para ela. Nunca o vira. Era quase como "no tempo em que os animais falavam", embora nesta história apenas a serpente o tenha feito. "Porque é que Deus já não fala com o pai?". Havia quem dissesse que Deus falava com o primo Enos, filho de Sete, que organizava grandes cerimónias religiosas com a sua família e a sua vizinhança e com Henoch, um homem de apenas trezentos anos, trisneto daquele.

Lembrava-se de quando pequena, com dez ou doze anos, ter ouvido uma conversa entre o pai e a mãe, na cama: "Como era, antes de eu aparecer?" "Sim, como fazias, sozinho?" A isto, Adão respondia com evasivas: "Não consigo recordar-me desse tempo. É como se tu tivesses estado sempre comigo, não me imagino sozinho". "Mas estiveste trinta anos sem mim, que é a diferença entre nós!", "Passaram muito depressa, pois não me lembro de quase nada".

Que fazer com este livro? (2) Zimler sobre Saramago

Fonte da imagem: clique nela

No Público, saiu um belo texto assinado pelo romancista Richard Zimler que expressa a intenção de criticar os dois lados da polémica. Saramago tem razão, mas uma razão irrelevante, dada a falta de novidade e a falta de motivo para o escândalo.

A violência e a crueldade divina nos textos bíblicos teria sido já, desde há muito tempo, objecto de reflexão aberta por pensadores judeus e cristãos. Todavia, o próprio facto da polémica demonstra que ele não tem razão. Senão, toda a gente encolheria os ombros e diria a Saramago, "Pois é! Só agora é que viu isso?".Ora, não foi esse o caso.

A leitura à letra, a crença nos próprios factos narrados, seja o pecado original, a história de Caim e Abel, o dilúvio, a concepção imaculada ou a ressurreição de Cristo não é e não foi no passado coisa só de crianças, como Zimler diz:

"Quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre?"

São milhões e milhões as pessoas que acreditam em factos deste género, tanto cristãos, como judeus! Mesmo entre os que distinguem a religião popular da doutrina católica oficial, a primeira com os seus santos milagreiros e as nossas senhoras que lacrimejam no canto da igreja e a segunda com os argumentos filosóficos sobre Deus,  são muitos os que colocam os factos bíblicos ao abrigo de qualquer crítica.

A resposta de Zimler à questão colocada por Saramago encontra-se no mesmo nível das de Tolentino Mendonça e de Carreira das Neves, com uma diferença essencial. Zimler afirma uma leitura alegórica dos factos narrados numa perspectiva de distanciamento cultural já que não crê num Deus pessoal, enquanto os outros dois acreditam que a alegoria é uma mensagem divina que tem como destino a humanidade, apesar de ter sido escrita por homens.

De resto, desconfio que a história desta questão no pensamento teológico, judaico e cristão, está mal contada por Zimler. Os escritores dos livros do Novo Testamento, por exemplo, quando se referem ao significado alegórico de certas passagens do Antigo Testamento, consideram os próprios factos acontecidos como o material da alegoria.

Por exemplo, no livro de Mateus, Cristo faz de Jonas uma metáfora de si próprio. Como Jonas estivera três dias na barriga da baleia, estaria ele morto três dias, no seio da terra, ao fim dos quais seria ressuscitado (Mateus, 12:39-40; Jonas, 1-2). Um acontecimento serve como ilustração de outro que há-de suceder.

Penso que este tipo de raciocínio é um dos processos fundamentais da leitura religiosa da Bíblia. Traçam-se paralelos entre narrativas em que umas funcionam como alegorias das outras, para compreender e até, para prever, factos a suceder. Assim, temos a Jerusalém terrestre face à Jerusalém celestial, o reino de Israel como figura do Reino celestial de Deus, (Apocalipse, 3:12); o sacrifício de Isaque por Abraão como significando o sacrifício do próprio filho de Deus permitido pelo Deus Pai.

É como se Deus escrevesse com a história, com os acontecimentos propriamento ditos, as alegorias do que está para vir e dos seus propósitos para a humanidade.

Parece-me que o judaísmo não difere do cristianismo neste aspecto. A filosofia, platónica ou aristotélica, limitou-se a acrescentar novos argumentos para provar as mesmas coisas e a colocar mais camadas interpretativas sobre as singelas narrativas bíblicas sem nunca contestar a sua verdade factual. Assim, por exemplo, Maimónides (1135-1204), um dos grandes sistematizadores da Mishná, afirma como princípios básicos do judaísmo a outorgação da Torah (os cinco primeiros livros da Bíblia) por Deus a Moisés e a verdade absoluta do que lá está escrito. Portanto, a criação do homem é como está lá, assim como o dilúvio, o êxodo e a conquista da Palestina.

Não é a perplexidade perante a violência que nos interessa, nem o facto de haver relatos de acções violentas. O que está em causa é a posição axiológica do narrador perante os factos narrados.

Quando Zimler escreve que o Antigo Testamento nunca teve como propósito constituir qualquer coisa de parecido com um manual de boas ou más maneiras está a arriscar-se num terreno muito escorregadio que consiste em atribuir um propósito a esse conjunto de livros, coisa que implica tanta hermenêutica que é impossível de confirmar ou contestar, a começar pela definição de uma orientação global para tantos e tão diversos textos.

Se se refere ao judaísmo, reconheço que esses livros não têm só orientação para a vida, mas têm muito mais do que isso. A relação entre Deus e o seu povo escolhido é também um tema muito genérico que inclui necessariamente as boas ou más maneiras.

Os mandamentos recebidos no tempo de Moisés, no monte Sinai, foram certamente resumidos e universalizados. Creio que os judeus chegaram ao princípio dos dois mandamentos – amar a Deus sobre todas as coisas e ao seu semelhante como a si mesmo – antes dos cristãos – ou talvez estes tenham sido apenas um ramo do judaísmo que se autonomizou. Hilel, um rabi que viveu entre 60 a.c. e 9 d.c. foi um grande defensor desta filosofia do altruísmo como o essencial do judaísmo.

As histórias bíblicas não são necessariamente para edificação moral, mas também não é esse o problema colocado por Saramago.

“Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado em Crime e Castigo ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a sua família”.

Discordo deste juízo, pois nenhum destes livros é considerado como a "palavra de Deus" e ambos são narrativas na primeira pessoa. Num, o narrador narra os seus próprios actos, no outro, maldades alheias de que é vítima.

O primeiro deixa o leitor livre para ter uma posição crítica perante um narrador  que se questiona e vive o problema da culpa. No outro, o leitor recebe uma atitude ética da parte da própria narração. Ao dizer isto, Zimler confunde uma leitura profana da Bíblia com uma leitura sagrada.

Na história de David e Bate-Seba em que David põe um homem na frente de batalha para que ele morra em combate e lhe deixe a mulher disponível, há uma condenação divina do próprio rei (II Samuel 11-12). Não é o que acontece no caso de Job, Caim ou Sodoma e Gomorra. Nestes casos, é o próprio Deus que intervém e revela a sua indiferença e crueldade.

O problema é que Deus seja assim, parcial, impulsivo e castigador, que seja um Deus para quem apenas os poderosos contam, pois a família de Job está lá para sofrer e morrer e comprovar a excelência da sua fé. Será facilmente substituída por outra quando acabarem as provações. É também o caso das crianças e das mulheres de Sodoma e Gomorra, que tinham obviamente que estar presentes na cidade no momento da destruição, mas ausentes das considerações divinas, como Saramago lembrou na televisão.

Essa narrativa, esse Deus, é humano. Nem ele, nem os patriarcas, nem os chefes dos hebreus, são piores que os deuses e os chefes de outros povos. Custa-nos que esse livro que tem princípios de moral e justiça diversos, contraditórios e antigos, que a humanidade já ultrapassou, seja considerado sagrado e a palavra de um qualquer Deus, tido por superior a todos os outros.

No fundo, Zimler e Saramago estão de acordo. Este subscreveria isto, quase de certeza:

“Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus – ou o Destino – pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento”

Referências

Em primeiro lugar o texto de Richard Zimler. Clique no título: Saramago e a insustentável leveza da ignorância

Como sempre, o blog Quem escreveu torto por linhas direitas? (veja-se aqui a interpretação do caso de Caim, a mesma que Saramago narrativiza – http://quem-escreveu-torto.blogspot.com/2007/09/caim-e-abel-o-primeiro-crime.html).

Entradas de enciclopédia sobre a história do judaísmo e rabinos famosos na Brittish Enciclopedia 2006 (DVD), Encarta e Wikipedia.

O muito útil Dicionário das religiões do grande Mircea Eliade.

Três versões da Bíblia em cima da secretária.

Mais alguns textos que a preguiça me impede de referir.

Que fazer com este livro? (1)

(fonte da imagem: http://ojovemsonhador.blogspot.com/2009/03/mais-contradicoes-da-biblia.html)

Da Bíblia, pode-se dizer o que não se diz de mais nenhum outro livro no mundo cristão: que é a palavra de Deus, que foi escrita por homens, mas inspirada por Ele.

No entanto, para que a Bíblia seja a Verdade, tem de ser lida "simbolicamente" – dizem-nos os que se opõem às interpretações literais, tidas por fundamentalistas.

Quais são efectvamente os limites da interpretação simbólica? Como permanece o valor da Verdade em leituras que variam  historicamente?

Penso que os debates entre Saramago e Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça estão viciados por estes estarem a apresentar leituras condizentes com os tempos modernos para salvar a reputação da Bíblia nos factos chocantes evocados por Saramago.

O pecado original

Tomemos a narrativa do pecado original. Começa assim

"Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Näo comereis de toda a árvore do jardim?" (Génesis, 3:1)

O autor entra num registo de fábula, pois todos sabem que os animais não falam. Podermos daqui concluir que a história do pecado original é do princípio ao fim uma fábula sobre a desobediência? Ou devemos acreditar que de facto a serpente falou com Eva e seduziu-a para o pecado? Ao contrário das fábulas de Esopo que integram a sua própria interpretação, nesta história, aprendi desde pequenino que isto aconteceu mesmo, que a serpente falou com Eva, que esta comeu do fruto proibido e induziu o marido no mesmo erro. Aprendemos também que a serpente tem, na verdade Satanás, o diabo, por detrás.

Nada no texto, permite esta interpretação. Em nenhuma parte do livro de Génesis, aparece qualquer referência ao famoso anjo do mal. Se fosse o caso, porque não seria dito no próprio texto que era o diabo que falava através daquela serpente especial, como acontece em livros mais tardios, como Job?

Como acontece nos mitos das origens, o episódio acaba com a referência a factos conhecidos do mundo: a sujeição do homem ao trabalho, da mulher às dores no parto e da serpente a rastejar sobre o ventre e a ser pisada pelos homens (Gen. 13-16). É um conto fantasioso que explica certos factos da realidade. Numa interpretação literal, diríamos que a serpente (sinédoque de cobra?) só começou a rastejar após este episódio e que a mulher tem dores de parto, por causa do pecado original.

Caim e Abel

Na história de Caim e Abel, capítulo 4 de Génesis, vemos que a agricultura e a patorícia aparecem logo na segunda geração humana. Dos dois primeiros filhos de Adão, um torna-se agricultor, o outro pastor. Caim oferece frutos da terra a Deus, ao passo que Abel oferece cordeiros. Deus aceita a oferta de Abel, mas rejeita a de Caim. Este, despeitado, mata o irmão. Um crime passional, com Deus pelo meio!

Esta história ganha todo o sentido se interpretarmos o conflito como uma disputa entre povos de agricultores e de pastores nómadas, afirmando a predilecção de Deus pelos nómadas e pelos sacrifícios de animais. Como a historiografia israelita mais recente tende a confirmar, o povo judaico tem provavelmente origem em tribos de pastores nómadas que vagueavam por entre as populações agrícolas e urbanas cananeias.

Mas na narrativa bíblica nada disto nos é dito. Temos apenas dois homens que querem honrar Deus, cada um à sua maneira, com o que a sua natureza lhes permite oferecer. Perante isto, temos uma preferência divina inaceitável, mas compreensível à luz dos conflitos históricos acima referidos de uma pressuposta alegoria que passa pelo cordeiro como símbolo do sacrifício de Cristo.

O dilúvio

No capítulo 6 de Génesis, Deus decide matar toda a humanidade à excepção de Noé e da sua família. A culpa é dos filhos de Deus que se apaixonaram pelas mulheres dos homens e delas geraram seres poderosos e monstruosos. Por isso, a humanidade vivia na maldade.

É um mito antigo com muitas semelhanças e evidente genealogia comum com a história suméria de Gilgamés. Mas para um crente na Bíblia, é na história de Noé que está a originalidade. A possibilidade de inserir casais de todas as espécies de seres vivos numa espécie de barco construído por Noé é impensável a não ser para alguns fundamentalistas da leitura literal da Bíblia.

É, sem dúvida, uma bela história, mas dificilmente passa numa simples análise ética. Primeiro, a estranheza por apenas um homem com a sua família merecer a salvação. Depois, a culpa atribuída por Deus aos homens quando o próprio texto a atribui, antes, aos filhos de Deus. Finalmente, a irrascibilidade divina:

"Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito." (Gén. 6:7)

Entretanto, Deus condói-se, aprecia Noé e muda de ideias. Avisa-o e depois dá-lhe as instruções para a construção da arca:

"O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra." – declara Deus a Noé (Gén. 6:13)

À violência humana, contrapõe Deus a sua violência final.

Na instrução para os animais a levar para oa arca, há uma distinção que aqui parece ancrónica: dos animais limpos levam-se sete elementos; dos não-limpos, só um casal para conservação. Trata-se de convenções alimentares judaicas de que ainda não tinha havido referência (Deuteronómio, 14).

Ao fim e ao cabo, trata-se da mesma projecção do presente narrativo sobre o passado narrado que encontramos em Caim e Abel. Como se Caim tivesse que se ater a recomendações rituais que aparecem muito depois: o sacrifício de animais a Deus em Levítico:

"Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha." (Lev. 1:2)

Sodoma e Gomorra

Em Génesis, 19, aparece a história de Sodoma e Gomorra que são destruídas por Deus por causa do mau comportamento dos seus habitantes. Trata-se de práticas homossexuais, pois os sodomitas querem apoderar-se dos anjos que vêm avisar Lot e não aceitam as filhas deste em troca. No cenário de Sodoma e Gomorra em chamas, vemos Lot e a família em fuga. A mulher transforma-se em estátua de sal por infringir a interdição de olhar para trás. Lot fica sozinho com as filhas. Estas, desejando dar descendência ao pai, emebedam-no, deitam-se com ele e dão origem a dois povos diferentes. É extraordinário que após a grave punição de Sodoma e Gomorra, tenha lugar este incesto, sem que nada o impeça, e sem qualquer consequência nefasta para as filhas pecadoras.

Assim, as intervenções divinas surgem no decorrer de ataques de ira e não como a aplicação equitativa a todos dos mesmos princípios de justiça.

Conclusão

Fico-me por estas três histórias que mostram sem qualquer dúvida, um Deus tribal, violento e impulsivo, dado a ataques de ira, mas também ao perdão. Não diverge em geral  dos deuses de outras mitologias, neste aspecto particular. Este Deus ganha toda a sua credibilidade no contexto duma história partilhada por israelitas e cananeus, povos de difícil distinção, em que o primeiro, constituído essencialmente por pastores nómadas das montanhas, se opõe aos sedentários agrícolas e urbanos das terras baixas no período que precedeu a formação da monarquia israelita do século VII a.c..

Há uma recepção de histórias mais antigas que são rescritas de acordo com os interesses ideológicos do reino de Israel. Assim se projectam nas origens da humanidade particularidades rituais judaicas.

Este Deus tribal, vingativo, irado e errático nas suas decisões torna-se para nós violento por contraste com a cultura cristã que herdámos e que apareceu cerca de quase mil anos depois da geração dos livros que se atribuem tradicionalmente a Moisés.

A mudança do Deus privativo dos judeus para o Deus universal dos cristãos é uma mudança fundamental que revela a historicidade e a humanidade de ambos.

A violência que Saramago denuncia na Bíblia não é intrínseca à doutrina ou ao texto bíblico, mas generalizada a todos as mitologias, povos e civilizações.

As religiões cristã e hebraica serviram tanto como suporte ideológico para o Estado como para a dissidência e a luta contra a opressão. A história da Inquisição e das cruzadas tem a ver com a estrutura política dos estados europeus e da Igreja que também cometeu crimes hediondos. Não nos podemos esquecer que entre as suas vítimas estão também pessoas que queriam que os cristãos tivessem o direito de ler a Bíblia na sua língua.

Creio que a evangelização cristã tornou menos violenta a Europa Medieval do que o seria não cristianizada. Pense-se, por exemplo, nos Vikings que antes de cristianizados eram verdadeiramente sanguinários.

Não é só a religião que nos dá o direito de matar o nosso semelhante sem remorsos. Muitas ideologias políticas o permitem. Nacionalismo, marxismo-leninismo, nazismo,  fascismo, maoismo, fundamentalismo islâmico têm uma quota parte de horror na história humana em nada inferior à dos que se reclamam do legado bíblico. Se a Igreja oprimiu Galileu e matou Girodano Bruno, os revolucionários franceses mataram gratuitamente o maior cientista do seu tempo, Lavoisier.

Que fazer com este livro? (1)

(fonte da imagem: http://ojovemsonhador.blogspot.com/2009/03/mais-contradicoes-da-biblia.html)

Da Bíblia, pode-se dizer o que não se diz de mais nenhum outro livro no mundo cristão: que é a palavra de Deus, que foi escrita por homens, mas inspirada por Ele.

No entanto, para que a Bíblia seja a Verdade, tem de ser lida "simbolicamente" – dizem-nos os que se opõem às interpretações literais, tidas por fundamentalistas.

Quais são efectvamente os limites da interpretação simbólica? Como permanece o valor da Verdade em leituras que variam  historicamente?

Penso que os debates entre Saramago e Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça estão viciados por estes estarem a apresentar leituras condizentes com os tempos modernos para salvar a reputação da Bíblia nos factos chocantes evocados por Saramago.

O pecado original

Tomemos a narrativa do pecado original. Começa assim

"Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Näo comereis de toda a árvore do jardim?" (Génesis, 3:1)

O autor entra num registo de fábula, pois todos sabem que os animais não falam. Podermos daqui concluir que a história do pecado original é do princípio ao fim uma fábula sobre a desobediência? Ou devemos acreditar que de facto a serpente falou com Eva e seduziu-a para o pecado? Ao contrário das fábulas de Esopo que integram a sua própria interpretação, nesta história, aprendi desde pequenino que isto aconteceu mesmo, que a serpente falou com Eva, que esta comeu do fruto proibido e induziu o marido no mesmo erro. Aprendemos também que a serpente tem, na verdade Satanás, o diabo, por detrás.

Nada no texto, permite esta interpretação. Em nenhuma parte do livro de Génesis, aparece qualquer referência ao famoso anjo do mal. Se fosse o caso, porque não seria dito no próprio texto que era o diabo que falava através daquela serpente especial, como acontece em livros mais tardios, como Job?

Como acontece nos mitos das origens, o episódio acaba com a referência a factos conhecidos do mundo: a sujeição do homem ao trabalho, da mulher às dores no parto e da serpente a rastejar sobre o ventre e a ser pisada pelos homens (Gen. 13-16). É um conto fantasioso que explica certos factos da realidade. Numa interpretação literal, diríamos que a serpente (sinédoque de cobra?) só começou a rastejar após este episódio e que a mulher tem dores de parto, por causa do pecado original.

Caim e Abel

Na história de Caim e Abel, capítulo 4 de Génesis, vemos que a agricultura e a patorícia aparecem logo na segunda geração humana. Dos dois primeiros filhos de Adão, um torna-se agricultor, o outro pastor. Caim oferece frutos da terra a Deus, ao passo que Abel oferece cordeiros. Deus aceita a oferta de Abel, mas rejeita a de Caim. Este, despeitado, mata o irmão. Um crime passional, com Deus pelo meio!

Esta história ganha todo o sentido se interpretarmos o conflito como uma disputa entre povos de agricultores e de pastores nómadas, afirmando a predilecção de Deus pelos nómadas e pelos sacrifícios de animais. Como a historiografia israelita mais recente tende a confirmar, o povo judaico tem provavelmente origem em tribos de pastores nómadas que vagueavam por entre as populações agrícolas e urbanas cananeias.

Mas na narrativa bíblica nada disto nos é dito. Temos apenas dois homens que querem honrar Deus, cada um à sua maneira, com o que a sua natureza lhes permite oferecer. Perante isto, temos uma preferência divina inaceitável, mas compreensível à luz dos conflitos históricos acima referidos de uma pressuposta alegoria que passa pelo cordeiro como símbolo do sacrifício de Cristo.

O dilúvio

No capítulo 6 de Génesis, Deus decide matar toda a humanidade à excepção de Noé e da sua família. A culpa é dos filhos de Deus que se apaixonaram pelas mulheres dos homens e delas geraram seres poderosos e monstruosos. Por isso, a humanidade vivia na maldade.

É um mito antigo com muitas semelhanças e evidente genealogia comum com a história suméria de Gilgamés. Mas para um crente na Bíblia, é na história de Noé que está a originalidade. A possibilidade de inserir casais de todas as espécies de seres vivos numa espécie de barco construído por Noé é impensável a não ser para alguns fundamentalistas da leitura literal da Bíblia.

É, sem dúvida, uma bela história, mas dificilmente passa numa simples análise ética. Primeiro, a estranheza por apenas um homem com a sua família merecer a salvação. Depois, a culpa atribuída por Deus aos homens quando o próprio texto a atribui, antes, aos filhos de Deus. Finalmente, a irrascibilidade divina:

"Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito." (Gén. 6:7)

Entretanto, Deus condói-se, aprecia Noé e muda de ideias. Avisa-o e depois dá-lhe as instruções para a construção da arca:

"O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência; e eis que os desfarei com a terra." – declara Deus a Noé (Gén. 6:13)

À violência humana, contrapõe Deus a sua violência final.

Na instrução para os animais a levar para oa arca, há uma distinção que aqui parece ancrónica: dos animais limpos levam-se sete elementos; dos não-limpos, só um casal para conservação. Trata-se de convenções alimentares judaicas de que ainda não tinha havido referência (Deuteronómio, 14).

Ao fim e ao cabo, trata-se da mesma projecção do presente narrativo sobre o passado narrado que encontramos em Caim e Abel. Como se Caim tivesse que se ater a recomendações rituais que aparecem muito depois: o sacrifício de animais a Deus em Levítico:

"Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá a sua oferta de gado, isto é, de gado vacum e de ovelha." (Lev. 1:2)

Sodoma e Gomorra

Em Génesis, 19, aparece a história de Sodoma e Gomorra que são destruídas por Deus por causa do mau comportamento dos seus habitantes. Trata-se de práticas homossexuais, pois os sodomitas querem apoderar-se dos anjos que vêm avisar Lot e não aceitam as filhas deste em troca. No cenário de Sodoma e Gomorra em chamas, vemos Lot e a família em fuga. A mulher transforma-se em estátua de sal por infringir a interdição de olhar para trás. Lot fica sozinho com as filhas. Estas, desejando dar descendência ao pai, emebedam-no, deitam-se com ele e dão origem a dois povos diferentes. É extraordinário que após a grave punição de Sodoma e Gomorra, tenha lugar este incesto, sem que nada o impeça, e sem qualquer consequência nefasta para as filhas pecadoras.

Assim, as intervenções divinas surgem no decorrer de ataques de ira e não como a aplicação equitativa a todos dos mesmos princípios de justiça.

Conclusão

Fico-me por estas três histórias que mostram sem qualquer dúvida, um Deus tribal, violento e impulsivo, dado a ataques de ira, mas também ao perdão. Não diverge em geral  dos deuses de outras mitologias, neste aspecto particular. Este Deus ganha toda a sua credibilidade no contexto duma história partilhada por israelitas e cananeus, povos de difícil distinção, em que o primeiro, constituído essencialmente por pastores nómadas das montanhas, se opõe aos sedentários agrícolas e urbanos das terras baixas no período que precedeu a formação da monarquia israelita do século VII a.c..

Há uma recepção de histórias mais antigas que são rescritas de acordo com os interesses ideológicos do reino de Israel. Assim se projectam nas origens da humanidade particularidades rituais judaicas.

Este Deus tribal, vingativo, irado e errático nas suas decisões torna-se para nós violento por contraste com a cultura cristã que herdámos e que apareceu cerca de quase mil anos depois da geração dos livros que se atribuem tradicionalmente a Moisés.

A mudança do Deus privativo dos judeus para o Deus universal dos cristãos é uma mudança fundamental que revela a historicidade e a humanidade de ambos.

A violência que Saramago denuncia na Bíblia não é intrínseca à doutrina ou ao texto bíblico, mas generalizada a todos as mitologias, povos e civilizações.

As religiões cristã e hebraica serviram tanto como suporte ideológico para o Estado como para a dissidência e a luta contra a opressão. A história da Inquisição e das cruzadas tem a ver com a estrutura política dos estados europeus e da Igreja que também cometeu crimes hediondos. Não nos podemos esquecer que entre as suas vítimas estão também pessoas que queriam que os cristãos tivessem o direito de ler a Bíblia na sua língua.

Creio que a evangelização cristã tornou menos violenta a Europa Medieval do que o seria não cristianizada. Pense-se, por exemplo, nos Vikings que antes de cristianizados eram verdadeiramente sanguinários.

Não é só a religião que nos dá o direito de matar o nosso semelhante sem remorsos. Muitas ideologias políticas o permitem. Nacionalismo, marxismo-leninismo, nazismo,  fascismo, maoismo, fundamentalismo islâmico têm uma quota parte de horror na história humana em nada inferior à dos que se reclamam do legado bíblico. Se a Igreja oprimiu Galileu e matou Girodano Bruno, os revolucionários franceses mataram gratuitamente o maior cientista do seu tempo, Lavoisier.

Maité Proença

Muito antes de ser objecto de notícia na RTP, já eu tinha recebido de um colega a notícia do famoso vídeo de Maitê Proença sobre Portugal.

Não se percebe o propósito do vídeo. Para ela, como para qualquer turistazinho labrego ou novo rico – brasileiro ou de outro país qualquer – Portugal resume-se à zona de Sintra e Belém. De Sintra, a única coisa que vemos é uma porta e de Belém, uma parte dos Jerónimos fimada no escuro, em infravermelhos, e pouco mais. A actriz faz-se acompanhar de um "camera man" como se estivesse a fazer um programa cultural. Para a qualidade do resultado, não deixa de ser caricato.

Apresenta Sintra, como "uma vilazinha perto de Lisboa". De facto, precisava de dizer, pois só por milagre um "habitué" de Sintra reconheceria as imagens que apresenta como sendo dessa terra. Tudo para mostrar um número de porta invertido como sinal de estar em Portugal. Qualquer pessoa inteligente ao ver tal facto estranho perguntar-se-ia "porque raio está aquele 3 ao contrário?". Maité Proença rapidamente o atribuiu à portuguesidade do dono da casa. Poder-se-ia concluir que os portugueses não sabem pôr direito os números de porta, especialmente o "3".

Pisca o olho ao espectador sugerindo: "vamos", "follow me". Aparentemente, iria subir Sintra até à zona do castelo ou a algum dos palácios. Não! Vemo-la já nos "pastéis de Belém" que têm a faculdade de a entupir.

Na cena seguinte, já a vemos a apontar para os Jerónimos e para o mar – é ela que diz que é o mar. "É o mar, Daniel?" O rapaz responde primeiro que sim numa evidente referência à enorme amplidão do estuário, mas que logo corrige "é o Tejo". Depois de ser esclarecida, Maité anuncia com ar professoral: "Vou apagar a borrada que ele falou. É o rio Tejo!" Fantástico! Repete o que aprendeu com o outro para o corrigir!

Salazar, ditador por mais de vinte anos… Ninguém tem a obrigação do rigor histórico, sobretudo se não estiver a fazer vídeos para a televisão e não for uma personalidade conhecida.

A "éblouissance" cultural resume-se aos túmulos dos Jerónimos. Depois dos claustros do mosteiro, numa breve referência ao manuelino atribuído a D. Manuel e ao seu gosto – coisa parola de quem não sabe nada de história, já agora o estilo Luís XV tem a ver com o gosto do rei homónimo e por aí adiante – a actriz assume um ar solene de quem vai dizer alguma coisa que os portugueses não podem ouvir.

O que é? Um incidente de hotel! O hotel de 5 estrelas não dispõe de serviço de informática e o técnico que se apresentou olhava para o rato de computador "como se fosse uma capivara" e, finalmente, chamaram o porteiro que também não lhe resolveu o problema do "email". Este episódio serviu para concluir que os portugueses são esquisitos e atrasados já que ninguém lhe resolveu no hotel o problema dos emails. Bela conclusão: se você for a Portugal, é melhor levar um técnico de informática consigo  senão não poderá enviar emails.

No final, ficamos a saber que os emails sempre chegaram. Afinal o rato virou capivara nas mãos de Maité. Como ao longo da peça, a ignorância dos outros, seja a do Daniel, seja a do português que pôs o número de porta ao contrário, seja a do hotel, radica na sua própria. A ignorância de Maité, de uma mulher que é muito bonita, que fica muito bem a cavalgar nua nas grandes extensões brasileiras, mas que, em defesa desta bela imagem, não devia fazer vídeos, mesmo que sejam só para apresentar num programa de televisão onde algumas belas matronas se divertem a falar de superficialidades.

Mas Maité expressa apenas um preconceito conhecido dos brasileiros, especialmente da élite cosmopolita, cultural e intelectual, que não parece ser o caso desta actriz, que Portugal á apenas uma "terrinha". Vir à Europa, é vir a Paris, não a Lisboa. A origem desta sensibilidade está no século XIX, quando a burguesia portuguesa queria manter o papel de intermediária entre o Brasil e a Europa. Os portugueses do Brasil, assim como os de outras nacionalidades, brasileiros logo a seguir à independência, reagiram contra isso e queriam ligar-se de modo directo aos grandes centros europeus, quer em termos comerciais, quer culturais.

Estou farto de dizer a amigos brasileiros que não têm nada que ter esse preconceito. Sobretudo que não olhem para nós como "seus antepassados". Nós temos antepassados comuns, isso sim, mas Portugal não parou no tempo, para o Brasil avançar sozinho.

Portugal é um país de tamanho médio em termos europeus. Teve um papel importante na história mundial e na do Brasil, em particular. É suficientemente grande para ter muitas portas, muita gente ignorante – tal como o Brasil, – muita gente ineligente – como o Brasil  -, muitos hotéis, uns bons, outros piores – como o Brasil, etc. Tomar uns pelos outros, o particular pelo geral, a parte pelo todo é uma pura expressão de preconceito e uma manifesta falta de inteligência.

Em termos de pura literacia e rendimento médio somos muito superiores ao Brasil, mas em termos de volume somos muito inferiores. Mas isso não passa de estatística. O povo brasileiro não é mais inteligente que o português, nem o inverso. E nenhum português, assim como nenhum brasileiro, pode ser reduzido a um conjunto de estereótipos que de facto não se encontram na realidade.

Sobre a gestão democrática das escolas

O meu colega Paulo Prudêncio escreveu no seu blog, uma defesa emocionada da "gestão democrática das escolas". De facto, já li centenas de páginas sobre gestão escolar, entre as quais obras de referência da UNESCO,  mas continuo sem uma posição a favor ou contra o chamado modelo de gestão democrática, que vigora em Portugal e que sofreu mudanças importantes nas últimas décadas. Apologista entusiástico é que não consigo ser.

Embora na maior parte dos países europeus, haja processos de decisão profissional com votação e até com voto secreto, há poucos países que tenham um modelo como o que vigorou em Portugal até à reforma de Roberto Carneiro (revista).

Evaluación del desempeño y carrera profesional docente. Um estudio comparado entre 50 países de América y Europa de F. Javier Murillo Torrecilla (org.), Unesco, 2006, considera que só há cinco países na Europa e na América em que a direcção dos estabelecimentos de ensino seja feita por "selecção democrática", um dos quais é Portugal. Mas, curiosamente, descreve assim o procedimento português:

"En Portugal, el director del centro es seleccionado por órganos de participación compuestos principalmente por profesores del Conselho de escola, tras verificar las condiciones de los candidatos seleccionados, mediante un concurso organizado por el Conselho de escola." (p. 67)

Não sei se era esta a democracia de que falava o meu colega Paulo Prudêncio. Para vermos o que os autores entendem por "seleción democratica", anote-se o case de um dos outros cinco países, a Nicarágua, em que

"desde el año 2002, cada centro elige a su director a través de asambleas públicas donde participan padres, docentes y alumnos." (p. 67)

Ao post do meu colega, pus o seguinte comentário":

Se me perguntarem se sou a favor ou contra a gestão democrática das escolas, respondo que não sei o que isso quer dizer.

O adjectivo "democrático" é muito barato. Todas as tiranias modernas o usam, por mais pobres que sejam.

Se vem ao caso trazer a democracia antiga para aqui, lembremo-nos que se tratava de uma assembleia de cidadãos de braço no ar na praça pública, quando o privilégio da cidadania era detido por 20% da população. Não creio que Platão fizesse qualquer eleição na sua Academia! A escola era dele – ponto final!

Não sei onde está a democracia nas empresas onde quem tem mais dinheiro, tem mais votos – ponto final.

No que nos diz respeito, a questão é muito complexa e não se resolve com "democracia sim" ou com "democracia não".

A questão é se o poder executivo da escola deve ser eleito pelos professores e pelos funcionários da instituição.

A resposta a esta pergunta passa por outra: a quem é que pertence a escola? Pois é o proprietário da escola que delega o seu poder em quem achar mais conveniente para a prossecução dos fins da instituição.

Se a escola for de uma cooperativa de professores, todos com os mesmos direitos de propriedade, que recebe os alunos que consegue atrair, nesse caso, não tenho a menor dúvida que a gestão deve ser controlada pelos professores.

Eu acho que a escola pertence ao Estado, ao povo, prossegue fins perfeitamente definidos nas leis da República. O governo central, eleito pelo povo, pode nomear os directores das escolas. Pode também delegar esse poder, se o achar conveniente, em assembleias de professores e funcionários que elegem o governo das suas escolas, mas não vejo nisso nenhum direito fundamental pelo qual eu possa marchar. É apenas um processo de descentralização.

O governo central pode decidir entregar as escolas às comunidades locais, à região, ou à cidade. Nesse caso, são estes poderes que se encarregam de delegar o governo das escolas a quem quiserem.

A lei que define como é que as escolas do meu país são geridas é um objecto de interesse e disputa política, que me convoca enquanto cidadão (e co-proprietário), mas não é um direito pelo qual eu possa lutar, enquanto profissional da educação.

Há muitos interesses legítimos nas escolas. Desde logo, os dos pais e os do poder autárquico. Que aos professores seja concedido poder para eleger os gestores da escola, que o exercício de cargos tenha natureza colegial, ou assentem num sistema de responsabilidade individual, ou em que grau se podem mesclar estas opções, são apenas opções, cujas vantagens e desvantagens se podem analisar.

Pode-se bem verificar (ou não) que a chamada gestão democrática da escola, com os professores a pesarem predominantemente na escolha dos dirigentes da escola resulte no predomínio dos interesses próprios dos profissionais em detrimento dos da instituição.

Como resultado do alheamento da maior parte dos profissionais, verifica-se muitas vezes que as eleições são feitas com muito poucos candidatos, frequentemente, com lista única.

 

Aproveito para acrescentar que me pareceu interessante o parecer de João Barroso (PARECER ao Projecto de Decreto-Lei 771/2007-ME – «Regime de autonomia, administração e gestão…») que tece muitas críticas ao diploma e vê como indicador de democraticidade precisamente a participação e o aumento do peso dos pais no conselho-geral. A tutela deveria passar mesmo para o município – ou há descentralização ou não há. Por outro lado, preserva o poder profissional dos professores ao criticar a presença de representantes de encarregados de educação no conselho pedagógico.

(veja o artigo do Paulo Prudêncio em: http://correntes.blogs.sapo.pt/406963.html)

Sobre a gestão democrática das escolas

O meu colega Paulo Prudêncio escreveu no seu blog, uma defesa emocionada da "gestão democrática das escolas". De facto, já li centenas de páginas sobre gestão escolar, entre as quais obras de referência da UNESCO,  mas continuo sem uma posição a favor ou contra o chamado modelo de gestão democrática, que vigora em Portugal e que sofreu mudanças importantes nas últimas décadas. Apologista entusiástico é que não consigo ser.

Embora na maior parte dos países europeus, haja processos de decisão profissional com votação e até com voto secreto, há poucos países que tenham um modelo como o que vigorou em Portugal até à reforma de Roberto Carneiro (revista).

Evaluación del desempeño y carrera profesional docente. Um estudio comparado entre 50 países de América y Europa de F. Javier Murillo Torrecilla (org.), Unesco, 2006, considera que só há cinco países na Europa e na América em que a direcção dos estabelecimentos de ensino seja feita por "selecção democrática", um dos quais é Portugal. Mas, curiosamente, descreve assim o procedimento português:

"En Portugal, el director del centro es seleccionado por órganos de participación compuestos principalmente por profesores del Conselho de escola, tras verificar las condiciones de los candidatos seleccionados, mediante un concurso organizado por el Conselho de escola." (p. 67)

Não sei se era esta a democracia de que falava o meu colega Paulo Prudêncio. Para vermos o que os autores entendem por "seleción democratica", anote-se o case de um dos outros cinco países, a Nicarágua, em que

"desde el año 2002, cada centro elige a su director a través de asambleas públicas donde participan padres, docentes y alumnos." (p. 67)

Ao post do meu colega, pus o seguinte comentário":

Se me perguntarem se sou a favor ou contra a gestão democrática das escolas, respondo que não sei o que isso quer dizer.

O adjectivo "democrático" é muito barato. Todas as tiranias modernas o usam, por mais pobres que sejam.

Se vem ao caso trazer a democracia antiga para aqui, lembremo-nos que se tratava de uma assembleia de cidadãos de braço no ar na praça pública, quando o privilégio da cidadania era detido por 20% da população. Não creio que Platão fizesse qualquer eleição na sua Academia! A escola era dele – ponto final!

Não sei onde está a democracia nas empresas onde quem tem mais dinheiro, tem mais votos – ponto final.

No que nos diz respeito, a questão é muito complexa e não se resolve com "democracia sim" ou com "democracia não".

A questão é se o poder executivo da escola deve ser eleito pelos professores e pelos funcionários da instituição.

A resposta a esta pergunta passa por outra: a quem é que pertence a escola? Pois é o proprietário da escola que delega o seu poder em quem achar mais conveniente para a prossecução dos fins da instituição.

Se a escola for de uma cooperativa de professores, todos com os mesmos direitos de propriedade, que recebe os alunos que consegue atrair, nesse caso, não tenho a menor dúvida que a gestão deve ser controlada pelos professores.

Eu acho que a escola pertence ao Estado, ao povo, prossegue fins perfeitamente definidos nas leis da República. O governo central, eleito pelo povo, pode nomear os directores das escolas. Pode também delegar esse poder, se o achar conveniente, em assembleias de professores e funcionários que elegem o governo das suas escolas, mas não vejo nisso nenhum direito fundamental pelo qual eu possa marchar. É apenas um processo de descentralização.

O governo central pode decidir entregar as escolas às comunidades locais, à região, ou à cidade. Nesse caso, são estes poderes que se encarregam de delegar o governo das escolas a quem quiserem.

A lei que define como é que as escolas do meu país são geridas é um objecto de interesse e disputa política, que me convoca enquanto cidadão (e co-proprietário), mas não é um direito pelo qual eu possa lutar, enquanto profissional da educação.

Há muitos interesses legítimos nas escolas. Desde logo, os dos pais e os do poder autárquico. Que aos professores seja concedido poder para eleger os gestores da escola, que o exercício de cargos tenha natureza colegial, ou assentem num sistema de responsabilidade individual, ou em que grau se podem mesclar estas opções, são apenas opções, cujas vantagens e desvantagens se podem analisar.

Pode-se bem verificar (ou não) que a chamada gestão democrática da escola, com os professores a pesarem predominantemente na escolha dos dirigentes da escola resulte no predomínio dos interesses próprios dos profissionais em detrimento dos da instituição.

Como resultado do alheamento da maior parte dos profissionais, verifica-se muitas vezes que as eleições são feitas com muito poucos candidatos, frequentemente, com lista única.

 

Aproveito para acrescentar que me pareceu interessante o parecer de João Barroso (PARECER ao Projecto de Decreto-Lei 771/2007-ME – «Regime de autonomia, administração e gestão…») que tece muitas críticas ao diploma e vê como indicador de democraticidade precisamente a participação e o aumento do peso dos pais no conselho-geral. A tutela deveria passar mesmo para o município – ou há descentralização ou não há. Por outro lado, preserva o poder profissional dos professores ao criticar a presença de representantes de encarregados de educação no conselho pedagógico.

(veja o artigo do Paulo Prudêncio em: http://correntes.blogs.sapo.pt/406963.html)

Eleições nas Escolas de Sto Onofre

A Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas de Santo Onofre deu início à eleição dos representantes do pessoal docente para o Conselho Geral Transitório que irá rever o Regulamento Interno e abrir concurso para o Director do Agrupamento.

Esta decisão neste momento prolonga o mesmo erro que o governo cometeu ao exonerar o Conselho Executivo e ao nomear uma Comissão Administrativa estranha à escola. Como o conselho geral transitório não foi constituído até agora por falta de interesse dos professores e não por omissão do Conselho Executivo, a nomeação da CAP não é condição suficiente para a solução do problema.

Se o governo não tivesse cometido este erro, o Conselho Executivo terminaria o seu mandato e a única solução legal seria o ajuste da escola ao novo modelo de gestão ou a qualquer outro que entretanto viesse a ser promulgado, pois nestas coisas nunca se sabe se vai aparecer um simplex ou, mesmo, um simplex do simplex. A pressa deste governo resulta no atropelo constante das pessoas.

A situação actual é parecida com a que lhe deu origem. A escola está na expectativa de uma decisão judicial que poderá repor o conselho executivo cessante. Sabendo disso, é um erro a CAP dar início a este processo eleitoral porque:

  • ele pode ser posto em questão pela providência cautelar.
  • é um erro realizar um processo eleitoral neste ambiente em que a generalidade dos professores continuará a não participar. O facto de haver só uma lista é a confirmação do que disse.
  • é pouco provável que colegas com experiência de gestão escolar e participantes da história destas escolas se candidatem ao cargo de director neste quadro. O resultado será o cargo de director ir parar às mãos dum estranho que terá as mesmas dificuldades da nossa CAP.

Se a Comissão Administrativa quisesse levar a bom termo a sua difícil missão, deveria suspender de imediato este processo, esperar pela providência cautelar e então avançar, se fosse esse o caso.

Esta pressa, fazer a eleição antes que se saiba o resultado do processo judicial em curso, é, como já disse, a mimese do erro cometido pelo governo. Vai começar um jogo enquanto a maior parte dos jogadores ainda não chegou ao estádio. Não sei quem beneficiará desta acção. No melhor dos casos, serão os próprios membros da CAP que, evidentemente, querem sair o mais depressa possível da sua incómoda situação.

Os colegas que aderiram e fizeram lista, fizeram-no com boa intenção, tanto que houve mais do que uma lista em preparação. A situação actual é prejudicial para o ambiente de trabalho da escola e viram nesta eleição uma possível saída, com a regularização das coisas.

Mas agora acho que a lista deverá ser retirada e não devemos participar neste processo cheio de equívocos. Eu, por mim, não me sinto em condições de votar.

Eleições nas Escolas de Sto Onofre

A Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas de Santo Onofre deu início à eleição dos representantes do pessoal docente para o Conselho Geral Transitório que irá rever o Regulamento Interno e abrir concurso para o Director do Agrupamento.

Esta decisão neste momento prolonga o mesmo erro que o governo cometeu ao exonerar o Conselho Executivo e ao nomear uma Comissão Administrativa estranha à escola. Como o conselho geral transitório não foi constituído até agora por falta de interesse dos professores e não por omissão do Conselho Executivo, a nomeação da CAP não é condição suficiente para a solução do problema.

Se o governo não tivesse cometido este erro, o Conselho Executivo terminaria o seu mandato e a única solução legal seria o ajuste da escola ao novo modelo de gestão ou a qualquer outro que entretanto viesse a ser promulgado, pois nestas coisas nunca se sabe se vai aparecer um simplex ou, mesmo, um simplex do simplex. A pressa deste governo resulta no atropelo constante das pessoas.

A situação actual é parecida com a que lhe deu origem. A escola está na expectativa de uma decisão judicial que poderá repor o conselho executivo cessante. Sabendo disso, é um erro a CAP dar início a este processo eleitoral porque:

  • ele pode ser posto em questão pela providência cautelar.
  • é um erro realizar um processo eleitoral neste ambiente em que a generalidade dos professores continuará a não participar. O facto de haver só uma lista é a confirmação do que disse.
  • é pouco provável que colegas com experiência de gestão escolar e participantes da história destas escolas se candidatem ao cargo de director neste quadro. O resultado será o cargo de director ir parar às mãos dum estranho que terá as mesmas dificuldades da nossa CAP.

Se a Comissão Administrativa quisesse levar a bom termo a sua difícil missão, deveria suspender de imediato este processo, esperar pela providência cautelar e então avançar, se fosse esse o caso.

Esta pressa, fazer a eleição antes que se saiba o resultado do processo judicial em curso, é, como já disse, a mimese do erro cometido pelo governo. Vai começar um jogo enquanto a maior parte dos jogadores ainda não chegou ao estádio. Não sei quem beneficiará desta acção. No melhor dos casos, serão os próprios membros da CAP que, evidentemente, querem sair o mais depressa possível da sua incómoda situação.

Os colegas que aderiram e fizeram lista, fizeram-no com boa intenção, tanto que houve mais do que uma lista em preparação. A situação actual é prejudicial para o ambiente de trabalho da escola e viram nesta eleição uma possível saída, com a regularização das coisas.

Mas agora acho que a lista deverá ser retirada e não devemos participar neste processo cheio de equívocos. Eu, por mim, não me sinto em condições de votar.