Should People Profit From Housing?

Políticas socialistas para a América! Qualquer um dos democratas vai nessa direção – Sanders, Biden ou Warren.

O socialismo, tal como o liberalismo, é uma política que se adota em países capitalistas e não a antítese do capitalismo como os hegelianos de esquerda pretendem.

Should People Profit From Housing? Bernie Sanders Says Yes, and No

E foi na habitação que a política de Obama foi mais fraca. Dependência do crédito? Não suficiente socialista, em todo o caso. Tenho que ler melhor a opinião do Farhad Manjoo: Barack Obama’s Biggest Mistake

As unhas grandes não impediram Cardi de fazer as perguntas certas para mostrar os pontos principais das propostas de Bernie.

Coisas comuns na Europa e no Canadá, como o ensino superior e cuidados de saúde quase gratuitos para toda a gente, constituem ainda reivindicações de esquerda, socialistas, ou “liberais”, como eles dizem.

As dificuldades de quem é pobre  no sistema educaional americano incluem, como em toda a parte, não só o problema das propinas que os colégios como todas as dificuldades herdadas de uma família, ela própria de baixa escolaridade.

I Was a Low-Income College Student. Classes Weren’t the Hard Part.

What College Admissions Offices Really Want

 

Should People Profit From Housing?

Políticas socialistas para a América! Qualquer um dos democratas vai nessa direção – Sanders, Biden ou Warren.

O socialismo, tal como o liberalismo, é uma política que se adota em países capitalistas e não a antítese do capitalismo como os hegelianos de esquerda pretendem.

Should People Profit From Housing? Bernie Sanders Says Yes, and No

E foi na habitação que a política de Obama foi mais fraca. Dependência do crédito? Não suficiente socialista, em todo o caso. Tenho que ler melhor a opinião do Farhad Manjoo: Barack Obama’s Biggest Mistake

As unhas grandes não impediram Cardi de fazer as perguntas certas para mostrar os pontos principais das propostas de Bernie.

Coisas comuns na Europa e no Canadá, como o ensino superior e cuidados de saúde quase gratuitos para toda a gente, constituem ainda reivindicações de esquerda, socialistas, ou “liberais”, como eles dizem.

As dificuldades de quem é pobre  no sistema educaional americano incluem, como em toda a parte, não só o problema das propinas que os colégios como todas as dificuldades herdadas de uma família, ela própria de baixa escolaridade.

I Was a Low-Income College Student. Classes Weren’t the Hard Part.

What College Admissions Offices Really Want

 

Um desafio à altura de Abdel Fattah el-Sisi

Ali nada parece resultar. A Primavera Árabe morreu às mãos, primeiro de Morsi, depois de Sisi. A grande frustração deve estar, sobretudo, na classe média urbana, mais informada e menos dominada pelo fundamentalismo islâmico. A cara que agora emerge parece ter força para disputar, taco a taco, a do general.

O nome não podia ser menos original: Mohamed Ali. 

Mais informação sobre os protestos no Egipto, aqui, no NYT.

Um desafio à altura de Abdel Fattah el-Sisi

Ali nada parece resultar. A Primavera Árabe morreu às mãos, primeiro de Morsi, depois de Sisi. A grande frustração deve estar, sobretudo, na classe média urbana, mais informada e menos dominada pelo fundamentalismo islâmico. A cara que agora emerge parece ter força para disputar, taco a taco, a do general.

O nome não podia ser menos original: Mohamed Ali. 

Mais informação sobre os protestos no Egipto, aqui, no NYT.

Julgamento de Oscar Wilde

O escritor é acusado de sodomia. No interrogatório,  a sua obra é passada em  revista pela acusação,  na busca de indícios da sua homossexualidade,  nomeadamente o “Retrato de Dorian Gray”. A resposta de Oscar Wilde esclarece as fronteiras entre a intenção artística – a procura do belo – e a moral. 

Neste “Hörspiel”, apresenta-se o texto de Merlin Holland – neto de Wilde -,   numa tradução alemã: Oscar Wilde im Kreuzverhör

Quotas para negros e ciganos?

É o tema discutido num artigo de Fátima Bonifácio no Público que deu muita celeuma. Interessa-me mais discutir alguns dos seus argumentos do que a tese propriamente dita. Dito de outro modo: há melhores argumentos para nos opormos a quaisquer quotas. Se as mulheres têm dificuldade em ascender a postos de chefia nas empresas, na sociedade e na política, o que temos de fazer é combater os obstáculos que impedem a sua progressão em paridade com a dos seus colegas masculinos, em vez de criar direitos especiais para elas. O mesmo se aplica a pessoas negras ou ciganas.

Infelizmente, não foi esse o caminho seguido por FB. Enveredou pelo princípio da identidade cultural e histórica:

As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.

Mistura duas ideologias diferentes, o cristianismo e os direitos do homem, que foram ambas espezinhadas na Europa por diversas ditaduras fascistas e socialistas tal como aconteceu recentemente em países africanos. É também nestes que vemos agora o estado de direito, os ditos diereitos do homem e a democracia política a impor-se.

Perante um africano, não sei à partida qual é a sua crença religiosa nem tampouco a sua ideologia política. Muitos são cristãos – o cristianismo é a religião dominante em África – outros são muçulmanos, animistas ou ateus. Não tenho qualquer motivo para considerar que eu tenho mais direito a considerar-me cristão, ateu, marxista, socialista, liberal ou o que quer que seja do que um africano. Estudei num liceu onde a maior parte dos meus colegas eram negros, em que todos nos achávamos portugueses, embora com diferenças culturais que reconhecíamos (e que era parte desse discurso que nos impingiam). A partir de 1975, alguns desses meus colegas descobriram-se com outra nacionalidade e eu, branco, habituado àquele país, também considerei a possibilidade de mudar de nacionalidade. 

Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou “nacionalidades” rivais. Há pouco tempo, uma empregada negra do meu prédio indignou-se: “Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana.”

O que é engraçado nesta afirmação é que, no contexto em que é dita, serve apenas para justificar o racismo branco e não para condenar o racismo em geral. É evidente que, africanos, os há racistas contra os brancos e contra outras etnias. Quanto ao discurso da empregada negra do prédio da FB, conheço-o muito bem e pode ser lido doutra maneira: não me identifique, por favor, pela minha cor da pele, pois apesar de ter uma cor parecida, a minha identidade distingue-se das dos que vêm de África, eu sou cabo-verdiana. Já há muito tempo que os caboverdianos reivindicam uma identidade específica relativamente ao continente africano. Terá sido essa diferença que condenou o PAIGC à falência. E, precisamente, nessa reivindicação, exclui-se a cor da pele como identidade. A verdade é que a empregada quer fugir ao estereótipo de negro que a FB lhe quer impor.

Quotas para negros e ciganos?

É o tema discutido num artigo de Fátima Bonifácio no Público que deu muita celeuma. Interessa-me mais discutir alguns dos seus argumentos do que a tese propriamente dita. Dito de outro modo: há melhores argumentos para nos opormos a quaisquer quotas. Se as mulheres têm dificuldade em ascender a postos de chefia nas empresas, na sociedade e na política, o que temos de fazer é combater os obstáculos que impedem a sua progressão em paridade com a dos seus colegas masculinos, em vez de criar direitos especiais para elas. O mesmo se aplica a pessoas negras ou ciganas.

Infelizmente, não foi esse o caminho seguido por FB. Enveredou pelo princípio da identidade cultural e histórica:

As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a africanos nem a ciganos. Nem uns nem outros descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789. Uns e outros possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios.

Mistura duas ideologias diferentes, o cristianismo e os direitos do homem, que foram ambas espezinhadas na Europa por diversas ditaduras fascistas e socialistas tal como aconteceu recentemente em países africanos. É também nestes que vemos agora o estado de direito, os ditos diereitos do homem e a democracia política a impor-se.

Perante um africano, não sei à partida qual é a sua crença religiosa nem tampouco a sua ideologia política. Muitos são cristãos – o cristianismo é a religião dominante em África – outros são muçulmanos, animistas ou ateus. Não tenho qualquer motivo para considerar que eu tenho mais direito a considerar-me cristão, ateu, marxista, socialista, liberal ou o que quer que seja do que um africano. Estudei num liceu onde a maior parte dos meus colegas eram negros, em que todos nos achávamos portugueses, embora com diferenças culturais que reconhecíamos (e que era parte desse discurso que nos impingiam). A partir de 1975, alguns desses meus colegas descobriram-se com outra nacionalidade e eu, branco, habituado àquele país, também considerei a possibilidade de mudar de nacionalidade. 

Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou “nacionalidades” rivais. Há pouco tempo, uma empregada negra do meu prédio indignou-se: “Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana.”

O que é engraçado nesta afirmação é que, no contexto em que é dita, serve apenas para justificar o racismo branco e não para condenar o racismo em geral. É evidente que, africanos, os há racistas contra os brancos e contra outras etnias. Quanto ao discurso da empregada negra do prédio da FB, conheço-o muito bem e pode ser lido doutra maneira: não me identifique, por favor, pela minha cor da pele, pois apesar de ter uma cor parecida, a minha identidade distingue-se das dos que vêm de África, eu sou cabo-verdiana. Já há muito tempo que os caboverdianos reivindicam uma identidade específica relativamente ao continente africano. Terá sido essa diferença que condenou o PAIGC à falência. E, precisamente, nessa reivindicação, exclui-se a cor da pele como identidade. A verdade é que a empregada quer fugir ao estereótipo de negro que a FB lhe quer impor.

Da santidade da arte em Serralves

Receio não ter entendido muito bem o que se passou em Serralves. Segundo me parece, a administração da instituição exigiu que algumas fotos de Mappelthorpe fossem classificadas como para maiores de 18 anos ou, como se diz na Internet, com o carimbo “adult material”. Por causa disso, o diretor demitiu-se invocando Mappelthorpe estar a ser vítima dum ato de censura.

Lembrando-me duma célebre obra de Mappelthorpe, pergunto-me se a fotografia do ânus e dos testículos do índio Larry é precisamente o que deve ser visto por todas as famílias que acorrem em perregrinação a Serralves no intuito de usufruírem dum momento de elevação artística, não porque considere ânus e testículos serem objetos de uma tal baixeza que impossibilitam a elevação que se atribui à arte, mas, pelo contrário, aflorando a possibilidade de a arte poder ser erótica, pornográfica e perigosa.

Do facto do acesso às artes plásticas não poder ser objeto de classificação etária como acontece com os filmes, podemos deduzir que estes não são arte ou que, pelo contrário, títulos com O império dos Sentidos, O último tango em Paris ou o O cozinheiro, o ladrão, a sua mulher e o amante dela de Peter Greenway não devem ser vítimas da censura de uma classificação etária, para edificação de todas as criancinhas.

Na reação do diretor, podemos inferir o princípio de que a arte neutraliza o erotismo e a pornografia ou dizendo por outras palavras que a pornografia se for artística deixa de o ser. Assim, podemos olhar para o ânus e os testículos do índio Larry e dizer com Magrite: Ceci n’est pas une pipe. Portanto, como estamos no campo da arte, Aqui não estão anus, nem testículos.

Penso que a arte não deve reivindicar essa inocuidade.

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Cortez, o apóstolo do cânone literário

António Carlos Cortez não podia deixar de acrescentar algumas palavrinhas da sua lavra à recente polémica sobre as leituras obrigatórias nos programas do ensino secundário. O seu artigo, “Epístola a Tiago e a João,” que saiu no Público (14-08-2018), contesta a liberdade do professor escolher outro romance do Eça em alternativa a Os Maias, colocando-se assim contra as Aprendizagens Essenciais, em consulta pública.

Ao enunciar a sua posição, Cortez, tal como outros intervenientes nesta polémica, discorre sobre este assunto, como se estivesse em questão não a imposição de uma obra literária, mas, sim, a presença da literatura no programa, como se houvesse uma espécie de conflito entre a literatura e a linguística, numa generalização ilegítima da questão que motiva a sua ação. Destas intervenções, parece-me que podemos inferir que, para os seus autores:

  • Os Maias valem mais do que todos os outros romances do Eça.
  • Quem não leu Os Maias não sabe nada de literatura.

Trata-se de uma polémica equivocada pelo seguinte facto:

  • Atualmente, já existe a possibilidade do professor escolher entre Os Maias e A ilustre casa de Ramires. Portanto, as Aprendizagens Essenciais limitam-se a abrir essa opção a outras obras do Eça.

Como poderemos ler os intervenientes que não tiveram essa realidade em consideração? Não estarão a defender um estado de coisas programático que, de facto, não existe?

Cortez e alguns outros intervenientes não respondem ao essencial, àquilo que deve ser discutido, em minha humilde opinião:

  • A educação literária dos nossos jovens deve ser feita com um cânone de obras obrigatórias, iguais para todos, ou com a possibilidade de os professores escolherem as suas leituras de entre um conjunto de clássicos da nossa literatura?

Nesta segunda alternativa, Eça seria obrigatório, dado o seu peso na história do romance português, podendo, neste caso, apresentar-se uma lista dos romances mais relevantes do autor para os professores e os seus alunos poderem fazer as suas escolhas.

Cortez é evidentemente um defensor da primeira possibilidade, isto é, da ideia do catecismo nacional.

Em coerência com esta opção, o título do seu texto remete para o cânone sagrado da Bíblia ao referir as epístolas de Tiago e João, numa analogia que não se entende, pois, no cânone bíblico, Tiago e João são autores e não destinatários dessas cartas. Isto é, são epístolas de  e não para Tiago e João. Sendo de Cortez para os Tiago e João identificados no texto, dói-me a arrogância exibida na pretensão de dar lições que, na realidade, não passam de generalidades, nuns casos, e de banalidades, noutros, para as quais, em nenhum momento, é apresentada qualquer análise, demonstração ou evidência.

Por exemplo:

“o interesse e a importância da análise gramatical não dispensa, antes exige, uma sensibilidade para a linguagem literária e, por essa via, uma forte consciência da História”.

Para valer a pena dizer isto, seria necessário apresentar uma situação em que a análise gramatical exige conhecimento histórico e sensibilidade literária ou será que Cortez julga que é impossível analisar gramaticalmente qualquer frase sem apelar ao conhecimento literário?

Quando, mais à frente, afirma “a prioridade do texto literário” defendida por Aguiar e Silva, com a qual todos concordamos, perguntamo-nos em que é que a dita prioridade é prejudicada pela opção por outro romance do Eça? Será qualquer outro romance do Eça menos literário do que Os Maias?

Às tantas, já não é a questão de Os Maias, mas sim a da literatura em termos genéricos:

“A presença da literatura em situações de exame ou teste de avaliação não impede a compreensão dos temas e problemas que um enunciado complexo coloca aos alunos”

Faltaria aqui dizer-nos em que exame é que a literatura não esteve presente para podermos fazer a comparação e que relação tem isto com a maior ou menor abertura do cânone literário?

Depois, temos o que eu creio que Eça não faria: uma leitura moralista do incesto de Carlos e Eduarda. Considero essa inferência moralista uma menorização deste grande romance realista.

O que vejo é uma situação problemática: jovens amantes que descobrem que são irmãos. E, dentro dessa situação complexa, vemos como eles a enfrentam com os seus códigos morais. Eduarda acaba por achar o seu pecado perdoável por causa da sua ignorância. Carlos, tal como Édipo, via-se vítima de uma fatalidade em que o incesto não se tinha nunca apresentado como uma opção a tomar, mas, antes, como algo imposto pelo acaso, e revolta-se contra a situação que não quer aceitar. Não seria a informação de que a sua mulher era sua irmã que daria imediatamente origem a uma relação fraternal.

Essa, creio, é uma das diferenças entre o realismo e o romantismo ou mesmo o classicismo. Ao contrário de Édipo, Carlos não teve de cegar e Eduarda, ao contrário de Jocasta não teve de se matar, nem tiveram os amantes de se refugiar num convento como Madalena, a esposa de D.João de Portugal no Frei Luis de Sousa, e Manuel o seu segundo marido. Apenas acabam com uma relação socialmente inviável e prosseguem as suas vidas.

Do moralismo da sua leitura, Cortez toma alegoricamente o adjetivo incestuoso para o aplicar à relação entre Portugal e as suas colónias.

“A história do incesto entre Carlos e Maria Eduarda, alegoricamente lida, dá-nos a chave para reflectirmos sobre a incestuosa história entre Portugal e as colónias (Maria, filha de Maria Monforte, “a negreira”)”

Não será isto sobreinterpretação? Que tem o incesto a ver com o tráfico negreiro para que o adjetivo incestuoso possa captar alguma coisa da essência da relação entre Portugal e as terras de África? Sendo o tráfico odioso, que tem ele de incestuoso?

O incesto é um tabu civilizacional, uma interdição cultural generalizada, a escravatura uma prática social, infelizmente aceite em muitas partes do mundo. O tráfico de escravos africanos para a América, de que Portugal foi o triste iniciador, foi um elemento estruturante da relação entre os portugueses e os africanos e não um qualquer desvio incestuoso.

Até quase ao fim do século XIX, o tráfico era o negócio mais rentável. Portugal, apesar de ter proibido a escravatura, continuou a tolerar o tráfico para o Brasil e, quando quis pôr-se de acordo com a Inglaterra no que diz respeito à proibição, enfrentou dificuldades com a sua parca população branca africana que não dispensava a escravatura como forma de rentabilizar as suas atividades económicas, o que conduziu a formas disfarçadas de escravatura e de tráfico.

Que tem isto a ver com um incesto, ainda que alegórico?

É, ao tentar mostrar as vantagens didáticas do conteúdo social e histórico deste romance, que Cortez se refere ao tráfico de escravos, referência motivada pelo facto de Maria Monforte, a mãe de Carlos e de Eduarda, ser filha de um traficante de escravos.

Contudo, o interesse inegável de Os Maias não desvaloriza outras obras do Eça que tratam também do Portugal do século XIX. Por outro lado, a leitura repetida e a exaustão analítica, a que tem sido sujeita esta obra, torna difícil a sua leitura literária, pois muitos leitores não vão à procura da história e do prazer de a ler, mas apenas dos conteúdos de exame.

Devíamos hesitar com humildade antes de considerarmos que todo o cidadão português literariamente educado terá necessariamente que ter lido uma certa obra, sobretudo quando a relevância dessa escolha tem a ver com a importância desse texto na história da nossa literatura e não com o seu contributo estético e cognitivo para a compreensão de nós mesmos e da nossa realidade.

Creio que se pensarmos em termos do valor intrínseco dos textos para a formação do leitor e desistirmos de impor escolhas académicas, deixaremos de pensar em termos de um cânone e passaremos a valorizar os clássicos, isto é,  os textos que superaram a prova do tempo e continuam a valer.

Se pensarmos desta maneira, daremos a última palavra a professores e alunos na escolha de obras dentro de um reportório válido. Nessa perspetiva, tanto Os Maias como O sentimento de um ocidental de Cesário Verde continuariam a ser obras extremamente válidas.

Cortez, o apóstolo do cânone literário

António Carlos Cortez não podia deixar de acrescentar algumas palavrinhas da sua lavra à recente polémica sobre as leituras obrigatórias nos programas do ensino secundário. O seu artigo, “Epístola a Tiago e a João,” que saiu no Público (14-08-2018), contesta a liberdade do professor escolher outro romance do Eça em alternativa a Os Maias, colocando-se assim contra as Aprendizagens Essenciais, em consulta pública.

Ao enunciar a sua posição, Cortez, tal como outros intervenientes nesta polémica, discorre sobre este assunto, como se estivesse em questão não a imposição de uma obra literária, mas, sim, a presença da literatura no programa, como se houvesse uma espécie de conflito entre a literatura e a linguística, numa generalização ilegítima da questão que motiva a sua ação. Destas intervenções, parece-me que podemos inferir que, para os seus autores:

  • Os Maias valem mais do que todos os outros romances do Eça.
  • Quem não leu Os Maias não sabe nada de literatura.

Trata-se de uma polémica equivocada pelo seguinte facto:

  • Atualmente, já existe a possibilidade do professor escolher entre Os Maias e A ilustre casa de Ramires. Portanto, as Aprendizagens Essenciais limitam-se a abrir essa opção a outras obras do Eça.

Como poderemos ler os intervenientes que não tiveram essa realidade em consideração? Não estarão a defender um estado de coisas programático que, de facto, não existe?

Cortez e alguns outros intervenientes não respondem ao essencial, àquilo que deve ser discutido, em minha humilde opinião:

  • A educação literária dos nossos jovens deve ser feita com um cânone de obras obrigatórias, iguais para todos, ou com a possibilidade de os professores escolherem as suas leituras de entre um conjunto de clássicos da nossa literatura?

Nesta segunda alternativa, Eça seria obrigatório, dado o seu peso na história do romance português, podendo, neste caso, apresentar-se uma lista dos romances mais relevantes do autor para os professores e os seus alunos poderem fazer as suas escolhas.

Cortez é evidentemente um defensor da primeira possibilidade, isto é, da ideia do catecismo nacional.

Em coerência com esta opção, o título do seu texto remete para o cânone sagrado da Bíblia ao referir as epístolas de Tiago e João, numa analogia que não se entende, pois, no cânone bíblico, Tiago e João são autores e não destinatários dessas cartas. Isto é, são epístolas de  e não para Tiago e João. Sendo de Cortez para os Tiago e João identificados no texto, dói-me a arrogância exibida na pretensão de dar lições que, na realidade, não passam de generalidades, nuns casos, e de banalidades, noutros, para as quais, em nenhum momento, é apresentada qualquer análise, demonstração ou evidência.

Por exemplo:

“o interesse e a importância da análise gramatical não dispensa, antes exige, uma sensibilidade para a linguagem literária e, por essa via, uma forte consciência da História”.

Para valer a pena dizer isto, seria necessário apresentar uma situação em que a análise gramatical exige conhecimento histórico e sensibilidade literária ou será que Cortez julga que é impossível analisar gramaticalmente qualquer frase sem apelar ao conhecimento literário?

Quando, mais à frente, afirma “a prioridade do texto literário” defendida por Aguiar e Silva, com a qual todos concordamos, perguntamo-nos em que é que a dita prioridade é prejudicada pela opção por outro romance do Eça? Será qualquer outro romance do Eça menos literário do que Os Maias?

Às tantas, já não é a questão de Os Maias, mas sim a da literatura em termos genéricos:

“A presença da literatura em situações de exame ou teste de avaliação não impede a compreensão dos temas e problemas que um enunciado complexo coloca aos alunos”

Faltaria aqui dizer-nos em que exame é que a literatura não esteve presente para podermos fazer a comparação e que relação tem isto com a maior ou menor abertura do cânone literário?

Depois, temos o que eu creio que Eça não faria: uma leitura moralista do incesto de Carlos e Eduarda. Considero essa inferência moralista uma menorização deste grande romance realista.

O que vejo é uma situação problemática: jovens amantes que descobrem que são irmãos. E, dentro dessa situação complexa, vemos como eles a enfrentam com os seus códigos morais. Eduarda acaba por achar o seu pecado perdoável por causa da sua ignorância. Carlos, tal como Édipo, via-se vítima de uma fatalidade em que o incesto não se tinha nunca apresentado como uma opção a tomar, mas, antes, como algo imposto pelo acaso, e revolta-se contra a situação que não quer aceitar. Não seria a informação de que a sua mulher era sua irmã que daria imediatamente origem a uma relação fraternal.

Essa, creio, é uma das diferenças entre o realismo e o romantismo ou mesmo o classicismo. Ao contrário de Édipo, Carlos não teve de cegar e Eduarda, ao contrário de Jocasta não teve de se matar, nem tiveram os amantes de se refugiar num convento como Madalena, a esposa de D.João de Portugal no Frei Luis de Sousa, e Manuel o seu segundo marido. Apenas acabam com uma relação socialmente inviável e prosseguem as suas vidas.

Do moralismo da sua leitura, Cortez toma alegoricamente o adjetivo incestuoso para o aplicar à relação entre Portugal e as suas colónias.

“A história do incesto entre Carlos e Maria Eduarda, alegoricamente lida, dá-nos a chave para reflectirmos sobre a incestuosa história entre Portugal e as colónias (Maria, filha de Maria Monforte, “a negreira”)”

Não será isto sobreinterpretação? Que tem o incesto a ver com o tráfico negreiro para que o adjetivo incestuoso possa captar alguma coisa da essência da relação entre Portugal e as terras de África? Sendo o tráfico odioso, que tem ele de incestuoso?

O incesto é um tabu civilizacional, uma interdição cultural generalizada, a escravatura uma prática social, infelizmente aceite em muitas partes do mundo. O tráfico de escravos africanos para a América, de que Portugal foi o triste iniciador, foi um elemento estruturante da relação entre os portugueses e os africanos e não um qualquer desvio incestuoso.

Até quase ao fim do século XIX, o tráfico era o negócio mais rentável. Portugal, apesar de ter proibido a escravatura, continuou a tolerar o tráfico para o Brasil e, quando quis pôr-se de acordo com a Inglaterra no que diz respeito à proibição, enfrentou dificuldades com a sua parca população branca africana que não dispensava a escravatura como forma de rentabilizar as suas atividades económicas, o que conduziu a formas disfarçadas de escravatura e de tráfico.

Que tem isto a ver com um incesto, ainda que alegórico?

É, ao tentar mostrar as vantagens didáticas do conteúdo social e histórico deste romance, que Cortez se refere ao tráfico de escravos, referência motivada pelo facto de Maria Monforte, a mãe de Carlos e de Eduarda, ser filha de um traficante de escravos.

Contudo, o interesse inegável de Os Maias não desvaloriza outras obras do Eça que tratam também do Portugal do século XIX. Por outro lado, a leitura repetida e a exaustão analítica, a que tem sido sujeita esta obra, torna difícil a sua leitura literária, pois muitos leitores não vão à procura da história e do prazer de a ler, mas apenas dos conteúdos de exame.

Devíamos hesitar com humildade antes de considerarmos que todo o cidadão português literariamente educado terá necessariamente que ter lido uma certa obra, sobretudo quando a relevância dessa escolha tem a ver com a importância desse texto na história da nossa literatura e não com o seu contributo estético e cognitivo para a compreensão de nós mesmos e da nossa realidade.

Creio que se pensarmos em termos do valor intrínseco dos textos para a formação do leitor e desistirmos de impor escolhas académicas, deixaremos de pensar em termos de um cânone e passaremos a valorizar os clássicos, isto é,  os textos que superaram a prova do tempo e continuam a valer.

Se pensarmos desta maneira, daremos a última palavra a professores e alunos na escolha de obras dentro de um reportório válido. Nessa perspetiva, tanto Os Maias como O sentimento de um ocidental de Cesário Verde continuariam a ser obras extremamente válidas.