Viva o webOffice

As Suites de Produtividade têm os dias contados, sobretudo, as mais gordas que ocupam imenso do sempre precioso espaço dos nossos discos. Uma nova geração de programas de processamento de texto e de escritório electrónico, sediadas na web está a aparecer.

Uma das que tive notícia é o Writely, que não fui a tempo de experimentar, porque entretanto foi comprado pelo Google. Este texto está a ser escrito no gOffice numa janela do Firefox. O texto será gravado numa pasta de utilizador (minha) no próprio “site”. Entretanto tenho a possibilidade de o ver em PDF, ou em HTML, e de guardar uma cópia no meu Desktop, imprimir a partir desse viewing para uma impressora, ou enviá-lo directamente como anexo por email (sem necessitar de abrir um programa de email). Apenas não consegui gravar directamente para uma outra pasta da net em FTP, embora possa sempre fazer isso posteriormente, uma vez o tendo no meu desktop.
Afinal a Sun tinha razão: “The net is the computer” (ou qualquer coisa do género).

Porém não nos podemos esquecer das numerosas aplicações de escritório gratuitas ou quase, entre as quais destaco o OpenOffice, que ocupa muito menos espaço do que o Microsoft Office e tem algumas potencialidades que este não possui (por exemplo, exportação directa para PDF e Flash). O Office da Microsoft tem ferramentas que, praticamente não são utilizadas e que o engordam desnecessariamente.
</p>É óptimo sabermos que podemos trabalhar sem os programas instalados no nosso computador, desde que tenhamo uma ligação à Internet.

A borboleta de Popper e o insucesso escolar

Ao ler hoje o artigo de António Costa Silva, "A economia não resolve tudo", no Expresso, lembrei-me das teorias sociológicas que imputam à Escola a responsabilidade pela exclusão, isto é, pelo insucesso escolar. António Costa Silva referia-se às teorias de gestão que se restringem ao facto económico e ignoram todos os outros factores que intervém no mundo em que a empresa se encontra e que conduzem à configuração possível de cenários contrários aos esperados. A tendência para olhar o mundo a partir da teoria económica pode levar a ler os dados como confirmando as nossas concepções prévias. Costa Silva refere a este propósito o entomologista de Popper que vai à caça de borboletas já com um conceito que será confirmado pelas suas experiências. Pensei, então, nas teorias da exclusão que imputam à escola, e, indirectamente, aos professores, a responsabilidade do insucesso escolar. Neste âmbito, há várias propostas, umas que operam pela positiva, outras que optam pela negativa. As primeiras são as que propõem alterações na prática pedagógica e na organização escolar para impedir a exclusão (o grande nome destas teorias parece-me ser o de Mel Ainscow). As segundas têm um recorte mais crítico e menos pragmático e acusam o sistema escolar como um todo como gerador de desigualdade, ou como reprodutor da desigualdade social. Uns têm uma perspectiva marxista e althusseriana e continuam a ver a Escola como parte do sistema ideológico do capitalismo, outros, mais ecléticos, reportam-se a outras correntes da sociologia (Marx, Durkheim Weber) para dizer mais ou menos o mesmo (veja-se, Pierre Bourdieu). A questão é se os dados não permitem outras leituras, e se não há dados recusados que suportariam outras conclusões. Não sendo este o lugar para pormenorizar e discutir em particular teorias sociológicas – este artigo não tem pretensão científica, nem académica -, cumpre-me apenas observar que a prática pedagógica tende a revelar a acção de múltiplos factores no insucesso escolar. E, portanto, como nem o professor nem a escola, se vê na realidade como responsável, tendem a atirar as culpas para o seu exterior: carências económicas, a marginalidade, a família e a diversidade genética, entre outros factores. A responsabilização da escola e do professor continua, no entanto, a ter efeitos: para eliminar a culpabilidade no insucesso, os professores tendem a considerar as desculpas da falta de rendimento escolar acima mencionadas como argumento válido para esconder a amplitude das diferenças individuais de rendimento escolar ou para diminuir as exigências da aprendizagem a fim a poder atribuir mais sucesso a mais alunos. Essas práticas recebem depois o nome de facilitismo. Os professores começam então a ser acusados do inverso: de não seleccionarem os alunos, quando o deveriam fazer. De facto, qualquer actividade humana, faz aparecer diferenças de rendimento e de mérito, desde os caçadores do Paleolítico. Os motivos por que uns conseguem ter mais sucesso do que outros são os mais diversos. De facto, há um continuum de graus de sucesso na aprendizagem. As medidas que colocamos como nível de rendimento aceitável é que permitem criar descontinuidades, fracturas, e formas de selecção. Neste sentido, o que está em causa é a definição desses níveis de rendimento e as soluções a adoptar para os que não os conseguem realizar nos tempos e nas condições que temos para lhes oferecer. A sociologia da educação tem horror à genética, precisamente, porque elimina os factores sociais que são o seu objecto. Por exemplo, é com algum desprezo que Bourdieu fala da teoria dos dons, que põe liminarmente de parte, ao verificar que os alunos que conseguem concluir o ensino superior são maioritariamente das classes altas. Concordo com ele, no aspecto em que as capacidades intrínsecas dos jovens foram frequentemente utilizadas como único argumento justificativo do seu insucesso escolar. Mas, a verdade, é que o professor está constantemente a encontrar casos em que jovens das classes altas têm resultados pobres, por causa de dificuldades intrínsecas e de jovens oriundos de famílias com poucos recursos que obtêm elevados rendimentos escolares. Mas acredito que há e continua a haver mecanismos de selecção social a operar no sistema de ensino, mas esse facto não é de modo nenhum, hoje em dia, o factor fundamental do insucesso e da exclusão. Penso que a maioria dos factores económicos, sociais e culturais precedem a Escola. Constituem dificuldades da acção do professor de quem os poderes públicos tudo esperam: que criem élites intelectuais e, simultaneamente, integrem toda a gente, no sistema de ensino. Embora não faça aqui uma crítica fundamentada da sociologia, deixo bem claro a minha impressão de que a atitude de responsabilizar a escola e o professr pela exclusão e pelo insucesso, é um daqueles casos, como o do caçador de borboletas de Popper, que faz investigação para confirmar os seus prévios pontos de vista.

Vontade Política

fasce.jpg Teríamos se calhar que digressar pelos textos de Nietsche e de Schopenhauer para tratar com um mínimo de justeza este tema. Acontece que não estou preparado e tenho pressa para dizer o que não pode esperar mais delongas teóricas. É que não há comentador que não fale da dita "vontade", quase sempre na positiva e, quando adomestam o exercício de alguma da dita, nunca o fazem com a referida expressão. É, pois quase sempre pela positiva que se vai à "vontade política", quer para elogiar o seu exercício, quer para acusar a falta dela. Talvez isso se deva ao actual culto da eficácia. Nos negócios imperam os executivos, isto é aqueles que conseguem fazer com que os outros façam mais do que quereriam, não fosse a imposição da vontade alheia. Aquela que o valente executivo exibe aos trabalhadores temerosos e aos accionistas gananciosos. Com efeito, Schopenhauer diria que é a vontade que mantém a vida, sobretudo a vontade de poder sobre as coisas e sobre os outros. Não fora a vontade, a lei da entropia levar-nos-ia ao marasmo da morte. Até os rios deixariam de continuar a correr para o mar e as orgulhosas montanhas desfazer-se-iam em míseras planícies. Mas a vontade política é sempre a força que se impõe dum centro monopolizador da força de vontade para a imensa periferia de minúsculas vontades individuais. O entronado líder observa do alto como a sua vontade molda o mundo e como este, feito de barro, se deixa conduzir pelo seu império. A realidade é o maior obstáculo ao exercício da vontade política. Lenine fora advertido pelos mencheviques de que a Rússia não estava preparada para a revolução socialista. Teria que primeiro passar pelo capitalismo e acabar com os vestígios de feudalismo, criar uma burguesia e um proletariado industriais. Mas Lenine, viu nos descontentes com a guerra, o seu proletariado, orientou-os, e em "dez dias que abalaram o mundo", fez a primeira revolução socialista. Depois, erigiu em inimigos da sua revolução todos os outros partidos operários que não aceitassem o poder dos bolcheviques, quer fossem mencheviques, anarquistas ou socialistas revolucionários – foram todos liquidados. A realidade impôs-se sempre a Lenine, mas este, sempre a contornou, com o exercício máximo da vontade que é o de fazer a linguagem recriar a realidade. Se há uma revolta operária, das duas uma, ou é uma cilada da burguesia, dos inimigos externos da revolução, ou um desvio esquerdista, infantil que prejudica os interesses do proletariado, que também é o chefe que define. A Nova Política Económica, que sucede à enorme violência do Comunismo de Guerra, é uma concessão à realidade. Dessa política resulta a criação de uma classe de camponeses proprietários. uns mais ricos, outros menos, os kulaques. Estaline irá depois destruir através da violência, do genocídio, da fome e dos trabalhos forçados esta pobre classe camponesa, produto da política leninista. Para isso, Estaline, dispunha do poder de criar a realidade, de definir os kulaques como inimigos da revolução socialista. Hitler e Salazar usaram e abusaram da força da vontade política. Disseram e definiram o que quiseram. Hitler definiu os judeus como os responsáveis pela tragédia alemã, quer estes fossem pequenos logistas, intelectuais, professores ou grandes capitalistas. Salazar definiu as colónias e os seus habitantes como partes integrantes do território nacional, num flagrante desdizer da legislação colonial anterior do seu próprio governo. O nosso governo actual tem a força da vontade política que nós lhe concedemos. Nós, a argamassa que lhe compete moldar, nós a realidade amorfa a que é preciso dar um sentido. Nós somos os limites, os muros, que limitam o seu exercício. Nós, os cheios de defeitos, talvez nem todos valhamos para o grande imperativo nacional. Muitos serão os excluídos que não servem nem aos ímpetos do mercado, nem aos do engrandecimento da Pátria. A democracia tem uma coisa boa, é que a vontade do líder tem sempre que se confrontar com a de numerosos oponentes e como tem um dia de ceder a outro, não admite desculpa, nem justificativa, como as de Fidel Castro: os falhanços da revolução são culpa dos seus inimigos, do bloqueio americano, dos descontentes que se concentram na Florida, dos corruptos que serão fuzilados, etc. Não admite sequer a pergunta: será que os cubanos querem mesmo seguir esse caminho, que Fidel e os seus correlegionários lhes impõem? Um dia, a vontade do líder tem que se haver com as de todos os cidadãos que o julgarão sempre sem benevolência. Mas, antes de chegar esse dia, cumpre discutir todas as decisões, todos os argumentos, sem receio, nem decoros de esquerda ou de direita. Temos que discutir os princípios, os meios e os fins, sem cerimónia. O que quer que seja: coisas pequenas e coisas grandes, a política da educação, a estratégia de Lisboa, as pensões de reforma dos políticos, o vocabulário, os vencimentos dos "boys" e os dos gestores das empresas públicas, etc. A vontade política só é boa quando é cerceada por todo o lado, pela crítica das oposições e pela manifestação da realidade ofendida: professores contra as aulas de substituição, polícias contra a perda de privilégios, bombeiros contra a militarização, funcionários contra o aumento da idade de reforma, ecologistas e bairristas contra a co-incineração, etc. Que onde seja justa e globalmente boa, apesar dos protestos sectoriais, que a vontade do líder se imponha, mas que não seja mais do que a necessária e que reconheça os seus limites.

Por Zarzis

zarzis02.jpg

 

Um professor e vários dos seus alunos de Zarzis, no sul da Tunísia, foram apanhados a consultar a Internet e, por isso, foram presos e, mesmo, torturados. Pouco me importa o que eles procuravam na Internet, ou que haja hecatombes maiores com que me preocupar. Neste momento, sou um cidadão de Zarzis. http://www.zarzis.org/

Nazismo e comunismo

Numa entrevista, concedida em 1934, Hitler declarou o seguinte, sobre a relação entre nazismo e blochevismo:
“Não é a Alemanha que vai tornar-se bolchevique, mas sim o bolchevismo que se transformará numa espécie de nacional-socialismo. E não só porque existem mais laços que nos unem ao blochevismo do que elementos que nos separam. Acima de tudo, há um verdadeiro sentimento revolucionário que está vivo em toda a Rússia, excepto onde existem judeus marxistas. Sempre distingui o são do podre e sempre insisti para que os antigos comunistas fossem admitidos no partido sem demora. O pequeno-burguês socialista e o chefe sindical nunca darão um nacional-socialista, mas o militante comunista sim”
(Entrevista concedida a Hermann Rauschning, citada por Furet, François, O passado de uma ilusão. Ensaio sobre a ideia comunista no século XX, Lisboa, Presença, 1996.)
Deveriam estas declarações irritar os militantes comunistas, quero dizer aqueles que ainda o são, e que ainda não se passaram para um nacionalismo-qualquer coisa? Talvez não!

O conceito de manual de Língua Portuguesa

Nos textos universitários de didáctica da leitura é
comum a crítica – ou mesmo, a denúncia – de textos
cortados, ou melhor, amputados, nos manuais escolares. Contudo, os
manuais escolares continuam a basear-se num conceito de antologia que
é predatório relativamente à coerência
tanto da história como do texto enquanto unidade estética
e mensagem.

Muitos alunos não lêem outra coisa que não os
textos dos manuais e ficam provavelmente com uma má imagem do
que é a leitura literária, ou, mesmo, do que é a
leitura de um texto com princípio, meio e fim. É, além
disso, o próprio conceito de livro que é prejudicado.

Os professores que pretendem proceder contra este estado de
coisas, enfrentam a omnipotência do manual como único
recurso que conseguem impor à generalidade dos alunos, na
presente situação. Escolher uma obra para leitura
completa na sala de aula é virtualmente impossível
porque os alunos mais carentes quer quanto aos meios sócio-económicos
quer quanto ao "habitus" escolar de que fala Bourdieu, são
os que mais precisam dessa aula de leitura e são precisamente
os que não compram o livro. De nada vale, pois que os manuais
incluam guias de leitura de "obra completa" porque não
serão realizadas pelos professores.

De facto, não há qualquer motivo para que os
conteúdos de Língua Portuguesa não sejam
trabalhados exclusivamente com textos inteiros, salvo uma ou outra
finalidade, em que se admita o corte (de facto, não me lembro
de nenhuma), a não ser o custo do manual e o problema dos
direitos editoriais.

Por isso, proponho, que o conceito de manual escolar de língua
portuguesa inclua a selecção de textos completos que o
autor do manual escolheu como objecto didáctico. Se esses
textos são uma edição escolar separada do
suporte do manual ou lá estejam incluídos é uma
questão menor, neste contexto. Assim a minha imagem do manual
de língua portuguesa para o 2º ciclo, inclui os seguintes
elementos:

– textos completos seleccionados pelo autor do manual – contos,
poemas, provérbios, etc… e novela(s) ou romance(s)
juvenil(is) –
– sequências de actividades e de fichas de auto-avaliação
destinadas ao trabalho autónomo do aluno.
– apêndice conceptual de gramática da língua, da
escrita, do texto e da comunicação, que completa os
conceitos dispersos pelas fichas de trabalho.
– guia pedagógico para o professor (que pode incluir outros
recursos, como planos de aula, propostas de actividades, através
dos quais o autor pretende influenciar e apoiar o trabalho do
professor).

À guisa de conclusão lembro que alguns dos tesouros
literários da humanidade foram "encomendas"
escolares feitas pelos governos aos autores. Cito dois exemplos: A
Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson de Selma Lagerlof e A Mensagem
de Fernando Pessoa. É uma incrível traição
que o sistema de ensino esteja a destruir estes textos nos manuais
escolares!

(publicado no Netprof:
http://www.netprof.pt/servlet/forum?TemaID=NPL0129&id=492&msg=3620)

Quem falta mais, Walter Lemos ou os professores?

A nossa política doméstica entretém-se com polémicas deste tipo. O Ministério divulgou um estudo sobre as faltas dos professores que constituem um problema político que deve preocupar os responsáveis pela Educação. Os sindicatos responderam com o registo de faltas de Walter Lemos, enquanto autarca, que só é um problema político por ter sido indevidamente trazido para a discussão das aulas de substituição.
Se se reconhece que as faltas dos professores constituem um problema nas escolas, por os alunos ficarem desocupados, Walter de Lemos, quer no seu percurso, tenha faltado muito quer tenha faltado pouco, tem que combater as faltas dos professores.
Repare-se que quando se fala em faltas dos professores, não se diz que são ilegítimas, injustificadas, ou o que quer que seja, não se fala de A ou de B, apenas deste problema que é o dos alunos ficarem sem aulas. Imagino até que a maior parte das faltas estão justificadas legalmente. O problema é que as faltas existem. E persiste a questão: o que fazer quando um professor falta, numa escola. Ora no caso do autarca Walter de Lemos o problema foi resolvido com perda de mandato. No caso dos professores, como se faz?
No que respeita ao perfil do Secretário de Estado, parece-me abusivo, tirar desse facto qualquer ilacção nem sobre a pessoa – não sabemos o que o levou a essas faltas, nem se isso constitui um padrão normal na sua actividade – nem sobre a sua adequação às presentes funções.

Vencimentos de gestores, políticos, amigos e companhia

Não reagi à notícia sobre o vencimento de Victor Constâncio por achar que eles devem ganhar o mesmo que eu, que devem ganhar pouco ou que devem ganhar muito. Foi a comparação com Greenspan que me deixou atordoado. Fiquei a pensar em como se justifica um vencimento desses. Tentei justificar para salvar a minha consciência socialista. Tentei mesmo racionalizar.

Talvez eu esteja enganado ao continuar a pensar que os socialistas são aquela gente simpática que chegou à conclusão de que os homens podem ser irmãos sem revoluções sangrentas; que o socialismo pode ser filho da democracia e não da ditadura do proletariado. O que nos diferenciava dos comunistas era sobretudo o caminho e a defesa das liberdades que os outros apodavam de burguesas e não tanto o fim em si da igualdade substancial entre os trabalhadores e, não apenas formal.

Sei que hoje em dia toda a gente reconhece o mercado e a livre inciativa empresarial como parte do conjunto de liberdades individuais que a democracia deve garantir. Mas ainda assim alguma coisa há-de diferenciar os socialistas dos liberais, dos conservadores e dos democrata-cristãos. Acho que uma das diferenças é nós não considerarmos o mercado um lugar de justiça. Primeiro porque nem todos chegam em igualdade de circunstâncias ao mercado. Depois, porque o mercado em si tem muitas distorções à livre concorrência. E mesmo, num modelo ideal de mercado, de entre dois trabalhadores igualmente competentes, o empresário tem de despedir um porque deixou, em determinado momento, de haver lugar para dois, após investimentos em novas tecnologias, por exemplo, ou numa deslocalização.

Vem este arrazoado a propósito da tentativa de compreender esses altíssimos salários dos nossos administradores. Um dos argumentos apresentados é o do mercado: esse salário é estabelecido pelo mercado. É curioso gente socialista utilizar esse tipo de justificações. Onde está o serviço público, a militância, essa treta toda? Não existe… é tudo uma questão de mercado. Será que há um mercado para escolher o governador do Banco de Portugal?

Num mercado de trabalho, o empresário estabelece um salário o mais baixo possível para atrair um trabalhador com as competências requeridas. A questão é: não haverá ninguém suficientemente competente disponível para o cargo por um salário inferior? Por outras palavras: estaria a entidade empregadora interessada em pagar o mínimo possível pela máxima qualidade? Não? Então, não há mercado.

Um conceito muito interessante em teoria económica é o da diferenciação: quando um produto atinge um elevado nível de diferenciação, escapa às leis da concorrência. O trabalho da publicidade é fazer isso. Já não queremos um par de calças, mas sim umas "Levis". O objecto escapa ao mercado das calças e, mesmo, das "jeans" para se afirmar como coisa única.

No caso do cargo de administrador do Banco de Portugal, a diferenciação é total, pois há quatro ou cinco pessoas na calha, que são os únicos que podem vir a assumir esse cargo. São pessoas que fizeram carreira política desde o princípio ao fim, mesmo que tenham tido empregos em empresas. Quem os selecciona são os amigos de ontem e de agora, políticos no activo. Esses senhores podem pôr o salário que quiserem. Não há patrão. Os limites estão apenas na opinião pública, portanto, no jornalismo de investigação.

Como querem ombrear com os administradores do sector privado onde as regras são outras, embora também longe do que se possa considerar "mercado", servem-se de salários principescos.

Talvez a teoria económica marxista nos ajude a compreender esses salários. Se não há um mercado para os gestores, não há compra de força de trabalho, há sim, partilha da mais-valia. Os gestores são representantes dos próprios capitalistas, são os seus capatazes no processo de exploração capitalista. Portanto, os patrões partilham os lucros com os seus gestores. Por isso se compreende que os gestores de muitos grupos económicos sejam da família dos patrões: vejam-se os Mello, os Espírito Santo, os Rostchild, etc… até os próprios recentíssimos Azevedos. Ora se os grandes acionistas põem os seus familiares na direcção das suas empresas, não se pode falar em… mercado de trabalho de administradores, pelo menos nesses níveis.

Quando o nível de decisão é político, o partido do governo dá como prémio de carreira a certos militantes, representações do accionista Estado em várias empresas. Já vimos a distribuição: Fernando Gomes & Cia. São prémios de carreira. São custos a pagar por militantes politicamente gastos ou que não se afoitam à luta política por cargos mais dignos, mas menos lucrativos. Não acredito que faça qualquer diferença em termos estratégicos para o Estado, estar lá o Fernando Gomes ou outro qualquer do PSD.

Após as eleições, chega sempre a hora de repartir o bolo. Se é assim, compreende-se perfeitamente que o vencimento de Víctor Constâncio tenha sido aumentado pecisamente no momento em que nos pedem mais sacrifícios. A retórica do Défice passou por ele. O cálculo do Défice para o novo governo foi o principal instrumento para nos convencerem a aceitar a diminuição da idade de reforma e o congelamento das carreiras. A sua capacidade em nos impor esses sacrifícios justificam plenamente esse aumento. Aliás, ele serve para pouco mais do que ajudar o patrão Estado a conter os seus trabalhadores.

Ainda o vencimento do Governador do Banco de Portugal

Da lei orgância do Banco de Portugal, Art. 40.º:
“Os membros do conselho de administração:
a) Têm direito à retribuição que for estabelecida anualmente por uma comissão de vencimentos constituída pelo Ministro das Finanças ou um seu representante, que presidirá, pelo presidente do conselho de auditoria e por um antigo governador, designado para o efeito pelo conselho consultivo;
b) Gozam das regalias de natureza social atribuídas aos trabalhadores do Banco, nomeadamente, e atentas as condições específicas das suas funções, os benefícios de reforma ou aposentação e sobrevivência, nos termos fixados pela comissão de vencimentos;”
Três ou quatro pessoas definem no maior secretismo este vencimento que sai do erário público. Repare-se que o ministro das finanças, quero dizer, o governo é politicamente responsável por este vencimento, mas não tem que o explicar a ninguémn porque ele é secreto. A dita comissão de vencimentos também decide as espantosas reformas de que estes senhores – governador e vices – beneficiam.
Em Portugal temos demais disto: pessoas que se autoavaliam e que são excelentes, todas elas. Já se viu alguém criticar acerrimamente algum detentor de um cargo de nomeação? Não, não é preciso. Eles estarão lá até os eleitos o desejarem, ou o substituirem por alguém da sua área de influência! E, quando saírem, será sempre com louvores, seja o Miguel Beleza ou o Vitctor Constâncio. Todos têm o desplante de aparecerem como politicamente neutros, como se estivessem num verdadeiro mercado de trabalho, independente do governo e do parlamento, e não numa rodízio de privilégios.