Rankings e chumbos – o seu a seu dono

(Antes deste, leia por favor o artigo anterior, Chumbos no Le Monde Diplomatique já aqui abaixo. Obrigado)

 

Estamos perante a edição de 2008 dos rankings. Na televisão, entrevistam-se as doutas opiniões dos dirigentes de escolas vencedoras e de escolas derrotadas. À baila, vem também a proposta do CNE de acabar com os chumbos. E nas clarividentes respostas o fim dos chumbos é conotado com facilitismo. Mas não vi ninguém mostrar em que é que o chumbo contribui para a excelência na educação.

O director do S. João de Brito crê na eficácia pedagógica do seu colégio, mas ignora a selecção social operada pelas suas propinas. É a isto que chamam ciência pedagógica? Privatizem a educação e que julgam que terão? O brilho do S. João de Brito espalhado pelo país? Eu adivinho: os alunos pagos pelo estado não terão melhor rendimento médio do que aquele que tem actualmente a generalidade das escolas públicas. Os colégios como o S. João de Brito, onde as propinas ultrapassam a capitação estatal, serão os campeões do ranking. Quem paga mais terá melhor educação pela simples exclusão dos que não podem pagar, que têm, em geral, muitos problemas. As propinas não são apenas o custo do ensino são também uma forma de reservar o direito de admissão.

Isso é o que esconde o director do S. João de Brito e o que mostra a directora da Escola Infanta D. Maria de Coimbra quando se queixa da sua desvantagem competitiva: não poder escolher os alunos. É o que exibe despudoradamente a Escola EB2,3/S do Cerco do Porto, a grande derrotada – o que fazer destes alunos?

Os rankings são um triste espectáculo porque não mostram nunca os verdadeiros vencedores: o rendimento das famílias dos alunos, as habilitações académicas dos pais, o custo unitário por aluno e, em último lugar, os professores e a gestão da escola. As outras variáveis têm um peso tão avassalador que nunca saberemos o verdadeiro peso da qualidade do corpo docente.

A escola passa a ser uma marca de excelência que o ranking não faz senão reforçar. Os mais abastados escolherão os colégios de topo para os seus filhos e esta afluência resultará inevitavelmente na reedição do sucesso. As propinas terão assim margem para subir.

Disto não falam os responsáveis. Querem garantir que o sucesso é seu. Preferem ignorar o verdadeiro carácter de classe da sua selecção escolar. Por isso, ao se compararem com a escola pública dizem disparates como o que ouvimos do director do S. João de Brito: "não há dono na escola pública".

Comparem-se então com colégios que têm donos. Ainda nesse caso, não se esqueçam de cotejar a comparação com os montantes pagos pelos alunos: talvez se verifique a regra universal do mercado: quem pagar mais terá melhor escola.

Mas estes senhores comentam também a ideia de acabar com os chumbos e, falam, pasme-se, em "auto-estima". O fim dos chumbos poderia diminuir a auto-estima dos alunos. Ora, o problema do chumbo é que ele destrói a auto-estima dos alunos mais fracos. A ideia de que um aluno está na escola para passar de ano é uma perspectiva verdadeiramente medíocre pelos seguintes motivos:

– o sistema de ensino aceita mil e uma excepções à regra e, por isso, milhares de alunos passam de ano com notas falsificadas1, isto é, votadas em conselho de turma.

– um aluno pode percorrer todo o ensino básico sem aprender nada de relevante nem de Matemática nem de Inglês pelos critérios vigentes de transição de ano (para citar uma combinação que me parece comum).

Se os desempenhos escolares fossem medidos por padrões assentes nos próprios programas das disciplinas, os alunos trabalhariam para esses níveis de desempenho em Matemática, em Ciências, em História, em Língua Materna ou em Língua Estrangeira. Certificar-se-iam competências e conhecimentos efectivos e não anos de escolaridade. Dizer que alguém hoje tem o 9º ano não significa absolutamente nada, pois pode tê-lo concluído num curso de CEF2 ou pode ter tido notas falsificadas3.

Nuno Crato fala em exigência. Acabar com os chumbos seria diminuir a exigência. Ora no post anterior mostrei como no PISA há alunos noruegueses no 10º ano com o mesmo desempenho de alunos portugueses no 7º. A única diferença é que estes chumbaram 2 ou 3 vezes e aqueles, nunca.

Trata-se de reorganizar o sistema de progressão e de avaliação. Actualmente, temos chumbos e facilitismo. Já mostrei isso. Damos de graça a passagem de ano a alunos que sabemos que já não vão beneficiar nada com a repetição do ano, alterando as classificações artificialmente. Em breve, teremos professores preocupados com o seu próprio desempenho que terão mil e um argumentos válidos para não dar negativas e os chumbos vão desaparecer por inibição.

O problema será sempre o mesmo: o que fazer com as pessoas que estão na escola sem progredir realmente na aprendizagem?

1Notas dadas sem critérios pedagógicos intrínsecos ao programa da disciplina que ou são votadas em conselho de turma ou são concedidas a título gracioso pelo próprio professor. É isto que é o facilitismo a que estamos condenados na escolaridade obrigatória, e não só.

2Cursos que conseguem a façanha espantosa de pôr alunos, que têm problemas de progressão no ensino básico, a concluir o 9º ano em apenas dois anos. Não vejo nenhum problema nisto desde que se especifique do que se trata: um curso profissional. O que me choca é o constante desvirtuamento dos rótulos. Que significa neste contexto "ter o 9º ano"?

3Ver acima.

 

Chumbos no Le Monde Diplomatique

 

Felizmente, há quem se preocupe com outros temas pedagógicos que não a avaliação dos professores. No Monde diplomatique, edição portuguesa, Hugo Mendes, escreve sobre  “A massificação da selectividade: desigualdades escolares em Portugal“ em que toca num tema que constitui uma obsessão minha já de há muito a esta parte – a repetição de ano. Embora a porta de entrada do articulista para o assunto seja sociológica e política e eu tenha dificuldade em aceitar os seus pressupostos, creio que conseguiu analisar muito bem o problema dos chumbos.

A grande questão é a da desigualdade social e da sua relação com a escola. Enfim, aquilo que os marxistas colocam no âmbito da escola como instituição (aparelho, diria Althusser) de reprodução social.

Escreve o autor que “na discussão sobre as desigualdades e a escola”,

“A esquerda clama pela igualdade de resultados e a integração de todos os alunos; a direita defende uma selecção capaz de produzir elites e de formar mão-de-obra para uma economia assente na especialização funcional”.

Não consigo colocar o problema nestes termos:

– Reclamar a igualdade de resultados entre todos só pode significar nivelar por baixo e impedir os indivíduos mais talentosos de se distanciarem. Penso que será ocioso, pois se a escola pública não lhes servir, instituições haverá que a substituirão na formação de talentos. Se não significa uma “engenharia social” à maneira do empreendimento do admirável mundo novo de Huxley, embora de cunho igualitário, denota uma estúpida arrogância perante a diversidade natural, que só tem paralelo com a pretensão do socialismo soviético, chinês ou cambodjano de acabar com o mercado.

– A integração de todos os indivíduos parece-me que é um fim inteiramente válido no sentido de proporcionar oportunidades de formação a todas as pessoas, especialmente àquelas de nível socioeconómico mais baixo.

– Quanto às elites, elas aparecerão com a escola ou sem ela. A questão é que serão melhor ou pior educadas. A escola não deve ter a intenção de as formar, mas não deve deixar de promover ao máximo possível os indivíduos nos planos do conhecimento, da cultura e da tecnologia. E este é o único plano em que eu situo a escola: transmissão de conhecimentos, desenvolvimento de capacidades e habilidades intelectuais e físicas, domínio de tecnologias, formação e desenvolvimento do juízo ético e estético, como elementos importantes da cidadania.

– Quanto à mão-de-obra, acho que a escola também não deve ter a intenção de a treinar directamente, mas sim apenas a de criar competências que aumentam o leque de percursos que uma pessoa pode seguir, depois de escolarizada.

Posto isto, concordo com o autor no que respeita à gravidade dos efeitos da pobreza ou das grandes diferenças de rendimento sobre o desempenho escolar e considero que não há recursos a mais no combate a estas dificuldades e na defesa da igualdade de oportunidades.

É aqui que entra a repetição de ano: muitos alunos, especialmente os dos estratos mais desfavorecidos da população, soçobram no percurso escolar. O autor diz que

“A retenção acabou por ser a forma encontrada pelo sistema para gerir o aumento da tensão, que advém do facto da selecção passar a ser feita no seu interior e não às suas portas”

Ora isto parece ser uma leitura histórica inexacta, pois o chumbo, chamem-lhe o que quiserem, sempre foi um meio de selecção escolar. E o abandono escolar teve sempre uma estreita relação com ele. Dos chumbos dos seus filhos, concluíam os pais que não davam para a escola e iam trabalhar muito cedo. Muito pelo contrário, os chumbos têm diminuído, mas continuam a apoquentar muito, precisamente porque a maior parte das suas vítimas permanece na escola. Contudo, a nossa maior preocupação continua a ser o número dos que vão embora antes de tempo.

Quer se queira quer não, a verdade é que o chumbo é uma receita pedagógica. Não se chumba naturalmente, mas porque se definem níveis de desempenho médios que já se sabe que muitos não conseguirão atingir no tempo que lhes é concedido. Se se definissem níveis mais baixos, talvez todos os conseguissem realizar. O problema é que, nesse caso, a maioria sentiria que não estava a fazer nada na escola. Inversamente, era possível definir metas que só 25% dos alunos realizaria e todos os outros seriam chumbados. Mas isso descontentaria a maioria. Por aqui se vê quão artificial é o chumbo e quão arbitrários são os critérios que o definem.

A análise do PISA, apresentada por Hugo Mendes, mostra com toda a clareza, em que difere Portugal dos países do pelotão da frente, neste âmbito. Os alunos são seleccionados para o PISA de acordo com o critério da idade. No teste dedicado aos alunos de 15 anos, Portugal é o segundo país da OCDE com maior diferença de graus de escolaridade na população sujeita a exame, pois apenas cerca de 50% se encontra no nível correspondente à idade: 10º ano.

A análise do desempenho nos testes revela outro facto muitíssimo relevante: a maior parte dos alunos com baixo desempenho nos testes encontra-se no ano correspondente a um percurso sem repetições, ao passo que uma grande parte dos portugueses na mesma situação se encontram em anos anteriores. Assim, os alunos portugueses com 329 no teste de Ciências – uma pontuação baixa, pois os melhores tinham mais de 600  diferem dos noruegueses no facto de a maioria destes se encontrar no 10º ano, enquanto os nossos estavam no 7º ou no 8º.

A conclusão a tirar daqui é que a retenção não é utilizada como recurso pedagógico na Noruega, nem na extensão, nem nas mesmas situações que em Portugal. Como verificamos que os noruegueses têm melhores resultados que nós nos testes, podemos concluir que a retenção não ajudou em nada os alunos a terem um melhor desempenho.

Acho que serão raros os casos em que um aluno melhora com a repetição de ano. O abalo motivacional por ser assim seleccionado negativamente é evidente. Muitos alunos vêm para a escola aprender que não são capazes, que não aprendem, que a escola não é para eles, que serve só para brincar e se divertirem. Há pais que ajudam dizendo expressamente aos filhos que vão para a escola porque são obrigados, senão iriam trabalhar. A probabilidade de actos de indisciplina aumenta extraordinariamente entre os alunos com histórias de repetição sucessiva.

A integração de alunos mais velhos já desmotivados em turmas de alunos com dois ou mesmo três anos a menos é uma provável fonte de problemas. Muitos são professores de mau comportamento e de desvalorização dos saberes e das actividades da escola. É evidente que um aluno que fracassa tem processos de afirmação pessoal que resultam da desvalorização das situações em que não é bem classificado. A sua superioridade física, com dois anos de idade a mais, constitui um recurso para se valorizarem no âmbito do estatuto sexual e da identificação. Por vezes, vejo alunos de bom desempenho escolar a mimarem, por vezes, desajeitadamente, certas atitudes dos mais velhos. É evidente: ninguém quer passar por betinho.

Contudo, mesmo os alunos que têm um historial de repetições e de classificações baixas, aprenderam muito na escola: quase todos sabem ler e escrever, embora não cumpram as regras de correcção ortográfica e os seus desempenhos na leitura sejam medíocres. Mas tudo isso é passível de desenvolvimento durante os anos de crescimento que ainda têm pela frente.

Dadas as desvantagens evidentes, não se entende por que continuamos a reter alunos.

Acho que o fazemos principalmente por haver, senão leis, pelo menos portarias do Ministério da Educação que definem regras de transição de ano e de condições de retenção. Na maior parte das escolas do ensino básico, se um aluno tem nível 2 a Língua Portuguesa e a Matemática ou a 3 quaisquer outras disciplinas, fica retido, isto é, repete o ano.

É absurdo que a Sra. Ministra acuse os professores de chumbar os alunos em demasia, como se houvesse aqui uma medida exacta que não devesse ser ultrapassada. Se há condições de retenção, há chumbos. É também abusivo considerar uma eventual descida no número de reprovações como um melhoramento do aproveitamento resultante da política educativa. Na verdade, o governo está a desincentivar as reprovações e as negativas, apresentando-as como sintoma de mau trabalho docente. O resultado é o melhoramento dos números sem contrapartida evidente nas aprendizagens. Isto é: está a pôr de lado a reprovação sem mudar abertamente os procedimentos, atirando para os ombros dos professores responsabilidades que não são deles, mas sim do governo.

Verificando-se a inadequação da dita “retenção” o que há a fazer é mudar a lei e criar outros critérios de excelência e medidas de progresso nas aprendizagens para valorizar o mérito e permitir a organização do processo e dos percursos de ensino e aprendizagem. Nesse caso, importa transferir as perspectivas da população da “passagem de ano”, para outros indicadores do desempenho dos alunos.

Julgo que os alunos noruegueses que chegam ao 10º ano sabem se têm condições para prosseguir estudos superiores ou se é melhor seguir uma via profissional, mesmo aqueles que têm desempenhos equivalentes aos seus colegas portugueses do 7º ano de escolaridade.

O terreno inquinado do populismo pedagógico a respeito do facilitismo está instalado tanto a nível ministerial como ao nível das escolas. A ministra não respondeu claramente aos críticos dizendo que sabia que os números não equivaliam a mais aprendizagens, mas que a diminuição do número de reprovações era uma coisa boa porque as reprovações não adiantam nada. Pelo contrário, respondeu nos mesmos termos, contestando a crítica, advogando a milagrosa eficácia imediata das medidas que tomou.

Nas escolas, o discurso da autonomia pedagógica resulta nisto: continua o mesmo jogo de manipulação dos níveis atribuídos pelos professores. Milhares de notas são votadas, para que os alunos passem de ano, apenas com argumentos extrínsecos. É verdadeiramente maquiavélico que às crianças seja dado o objectivo de “passar de ano”, que sejam difundidas regras de passagem de ano e que, no final do ano, sejam modificadas notas para que alunos que não conseguiram transitar, sejam passados.

Os conselhos executivos exigem a votação de notas apenas para que um dado aluno possa ir para um curso CEF ou para que um dado aluno não caia na marginalidade ou por se crer a reprovação repetida, inútil para um dado aluno. Ora, se estes são argumentos suficientes para justificar a passagem de ano porque não são explicitados e se mantém os níveis atribuídos pelos professores. Se nos pusermos do lado dos alunos e pensarmos nas notas como uma mensagem, pensem no que eles poderão julgar ao ver a pauta com as notas dos seus colegas alteradas, eles que sabem muito bem o que esses felizardos fizeram durante o ano. Um aluno, que viu quatro dos seus colegas com as notas modificadas a transitar de ano, está ressentido com um certo professor por ter chumbado. Tem toda a razão. Com a facilidade com que os níveis são modificados, é evidente que um dos seus também poderia ter tido a mesma sorte.

A filosofia actual a respeito da avaliação dos alunos redunda, em muitas escolas, no seguinte: se um aluno tem menos de quinze anos, deixá-lo reprovar, mas no devido tempo, transitá-lo para ir para o CEF. Primeiro, desperdício, desmotivação e chumbos, depois… CEF.

História da educação

Pedagogia por objectivos, construtivismo, aprendizagem cooperativa, etc., – será que desta lista de coisas poderemos um dia dizer o que Nietsche certa vez escreveu a propósito da crítica literária? Ora veja:

"Os homens falam um pouco de uma nova coisa, e depois de outra coisa nova e entretanto continuam a fazer o que sempre fizeram". (Nietzsche, Acerca das vanatagens e das desvantagens da história para a vida).

Pode crer que é uma pergunta verdadeira, sincera, sem pingo de retórica. Se tem uma novidade recente que o encanta, deixe-a para a conversa do café e, quanto à aula, tudo bem, como dantes!

Orientação sexual e casamento

Assembleia da República, Segunda-feira, 2 de Setembro de 2030.

Documento distribuído aos senhores deputados:

 

Registo de casamento:

Instruções:

Leia o impresso com a máxima atenção.

Para seleccionar o tipo de casamento, basta seleccionar as opções adequadas na ordem certa:

1. Seleccione se o casamento é:

– homossexual

– heterossexual

– misto (bissexual só para um, para dois ou mais parceiros, ou, terceira opção, para todos)

2. Seleccione o tipo de agrupamento predefinido ou faça a sua própria caracterização:

– monogâmico

– bigâmico

– poligâmico

– poliândrico

– grupos (para qualquer dúvida consulte a Sociedade Antiga de Morgan ou a Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado de Engels).

 

Deputado Dimitri da Silva, da Acção Libertária:

– Pois, senhores deputados, como podem ver no impresso distribuído, o nosso Registo Civil, exige a todo o cidadão uma ignominiosa e inconstitucional declaração de orientação sexual no acto de casamento proporcionando todo o tipo de abusos, agressões homofóbicas ou de menorização cultural de cidadãos adeptos da poligamia.

 

Deputado Abdul Barreto, Irmãos na Causa:

– Esse problema resolver-se-ia com uma declaração secreta depositada numa base notarial pelos nubentes em como se comprometiam a não casar com mais ninguém, independente do sexo. Assim, todos os casamentos seriam poligâmicos por defeito e não seria necessário declará-lo. Só o contrário se afixaria na referida declaração privada. Se fosse homossexual, sê-lo-ia pela natureza dos parceiros que assim se comprometem no acto. Assim se protegeria a minha comunidade contra as vergonhosas declarações que teriam que fazer só para declarar que as rejeitam. Se fosse por grupos, quer de levirato, quer de sororato ou de outras variantes, idem. Tenho dito.

 

A assembleia agita-se. Generaliza-se a conversa. O presidente ordena silêncio e ordem.

Exames

No seu blog, Correntes (http://correntes.blogs.sapo.pt), o meu colega Paulo Prudêncio insurge-se contra os exames. Veja aqui o artigo: "exames (arquivo de ideias simples)".

Fiz o exercício de apreciar cada um dos pontos dessa discussão.

 

"Se confiamos no professor para leccionar as aulas durante o ano inteiro, porque é que no fim havemos de duvidar da classificação que atribui aos alunos?"

– Muitos professores são críticos em relação às notas que os seus próprios colegas dão! Os próprios alunos distinguem os professores mais exigentes dos que o são menos. Os exames avaliam o trabalho de professores e alunos, através de um teste comum.

– Além do mais, no nosso sistema, as classificações dos professores são manipuladas nos conselhos de turma, com base em critérios extrínsecos.

"Os resultados dos exames nunca diferem muito da nota do professor"

– Esta afirmação é falsa.

"Para aferir conhecimentos?"

– Sim, os exames são, também, provas de aferição.

"Para os alunos estudarem mais?"

– Sim, em geral, estudamos mais se sabemos que vamos ser examinados.

"Para estudos internacionais?"

– Os estudos internacionais servem-se privilegiadamente de provas como o PISA. Não é preciso ir tão longe: as autoridades nacionais beneficiam da informação dos exames, para avaliar programas e escolas.

"Para hierarquizar as escolas?"

– Faz-se em alguns países, oficialmente. Como os resultados dependem de alunos, professores, encarregados de educação, serviços sociais e etc., uma escola com piores resultados pode ser melhor do que outra com melhores resultados.

"Para hierarquizar os alunos na entrada para a universidade?"

– Sim, os exames podem servir para isso. Não necessariamente à portuguesa, com decisões feitas em função de décimas! Na Inglaterra, há um sistema de exames independente do governo. As escolas aderem a entidades independentes que têm a tarefa de preparar exames e que definem os procedimentos para os fazerem. Há um programa nacional, oficial, e, o aluno, para obter certificação tem de realizar os exames finais. Não é só à entrada nas universidades, mas também no primeiro emprego, que exigem certificações específicas. Por exemplo, ter pelo menos um C a Matemática e um B a Inglês pode ser a condição de pré-selecção de candidatos a um emprego. Além do mais, na maior parte das vezes, os exames não se limitam a uma prova, num único dia. Podem incluir a apresentação de um trabalho realizado durante um certo período, com determinadas condições de tempo, materiais e lugar.

"Serão, portanto, os exames tão necessários assim?"

– Podem ser úteis. Não são, de certeza, um mal. Sobretudo, podem ser feitos de maneiras muito diferentes. Penso que o assunto mais sério é este: como se devem realizar exames nacionais e que consequência devem ter na avaliação de alunos, professores e escolas. Não concordo com a posição do CDS que vê nos exames e na consequente selecção de alunos a solução para o sistema educativo. Mas, no actual estado de coisas, exames nacionais podem ajudar a melhorar o processo de ensino-aprendizagem e, sobretudo, a dar mais credibilidade às certificações oferecidas pela escola.

O eduquês no seu melhor

O eduquês não é bem um dialecto, porque atravessa várias línguas e, além do mais, tem uma série de proposições predefinidas. É, pois, mais uma espécie de discurso, do que uma gíria. É um pano de fundo, ao qual nenhum profissional da educação escapa. Mas aparece sob uma forma de linguagem técnica, por vezes inextricável para os comuns mortais que têm a infelicidade de ler textos dela oriundos.

No final dum artigo sobre os exames do 12º ano1, o Professor Carlos Fiolhais pede para descodificar o seguinte enigma:

"Os exames nacionais são instrumentos de avaliação sumativa externa no Ensino Secundário. Enquadram-se num processo que contribui para a certificação das aprendizagens e competências adquiridas pelos alunos e, paralelamente, revelam-se instrumentos de enorme valia para a regulação das práticas educativas, no sentido da garantia de uma melhoria sustentada das aprendizagens."

Resolvi, com a maior inocência, levar a sério o repto e enviei-lhe um email com a significação, tal qual Daniel perante o rei Nabucodonosor, a revelar-lhe os seus sonhos:

Penso que o enigma referido no seu artigo sobre o GAVE ("Errar muito é desumano") tem a seguinte solução:

  • "instrumento de avaliação sumativa externa" – Os exames servem para medir as aprendizagens realizadas". "Sumativo" distingue-se de "formativo"; este respeita à avaliação durante um dado período de aprendizagem, aquele aos resultados, após o término do dito período, neste caso, "ensino secundário". É "externa" porque não é da responsabilidade do próprio professor.
  • "enquadram-se num processo que contribui para a certificação das aprendizagens e (…)" – certifica as disciplinas em conjunto com as classificações dadas pelo professor.
  •   "instrumento" para a "regulação das práticas educativas" – informa os professores e os responsáveis pedagógicos aos mais diversos níveis sobre o desenvolvimento dos programas.

Se alguém encontrar erro na minha tradução, agradecia um comentário.

 

1"Errar muito é desumano", Público, 20 de Junho de 2008

De novo: as notas

De novo, o mesmo de sempre: votações de notas em conselhos de turma, não por se julgarem injustas, imprecisas ou mal elaboradas, mas apenas para permitir que alguns alunos "transitem de ano", salvaguardando a regra do número de positivas determinado, para evitar a repetição da repetição de ano ou para permitir a um certo aluno seguir uma certa via (CEF, por exemplo).

Nua e cruamente: para evitar os males acima referidos, o nosso sistema obriga a mentir descaradamente, a modificar notas atribuídas. Alunos que nada sabem de História têm classificação positiva para não continuarem a pastar no mesmo ano lectivo.

Os professores transformam-se em sociólogos e assistentes sociais atribuindo coeficientes de exclusão social às notas, suas ou dos colegas. "3" a Matemática pode siginificar apenas: "criança com média de 25% nos testes, mas com graves dificuldades em casa". Há outros coeficientes em jogo, nesta roda viva de conotações. Há também o aluno "que não aprende o suficiente porque não consegue mais" e que, por isso, recebe "3", que acaba por ser o nível mais inflacionado.

O problema é o seguinte: o que significam estes números, níveis ou lá o que são?

E eu? Entro no jogo? Claro! Então não estou a ver que se o rapaz ficar mais um ano no 6º ano, desespera e não faz mesmo nada?!

Remeto para um artigo anterior: As Notas.

Cá como lá – sindicatos de professores, prémios e bloqueios

É só uma questão de traduzir e encontrar-nos-emos todos na mesma aldeia.

Também nos EUA, são os sindicatos de professores acusados de bloquear as reformas educativas, de proteger os maus professores e de se oporem-se à livre-escolha da escola

pública. A mesma ideia de premiar os bons professores (the teacher of the year), perseguir os sindicatos e pagar os professores de acordo com o mérito.

O "site" em causa pretende expor os piores professores. Queixam-se da dificuldade em despedir-los. A resposta sindical é: é porque não fazem isso com outras profissões?

http://www.uscharterschools.org/pub/uscs_docs/o/index.htm

http://www.teachersunionexposed.com/blocking.cfm

http://www.edreform.com/index.cfm?fuseAction=section&pSectionID=5&CFID=9735514&CFTOKEN=69257254

http://www.reason.com/news/show/36802.html

Como as notas poderiam ser significativas

As notas para serem significativas e motivadoras deveriam referir-se com clareza às competências e aos conhecimentos adquiridos. Tratar-se-ia de traduzir os progressos realizados pelos alunos numa escala de níveis de desempenho conhecida por todos.

As etiquetas numéricas a que chamamos "níveis" carecem de sentido precisamente por se referirem a demasiadas coisas ao mesmo tempo. Independentemente de utilizarmos ou não as escalas de 1 a 5, de 1 a 20 ou de Muito Insuficiente a Muito Bom,  deveríamos começar a prestar uma informação mais substancial de uma forma mais sistemática.

O nosso sistema de avaliação e classificação tinha muito a ganhar com as seguintes alterações:

  • A retenção, repetição ou chumbo de ano deve deixar de ser considerado o resultado inevitável do baixo desempenho escolar para se tornar num recurso pedagógico utilizável em certos casos, em que se acredita que o aluno vai melhorar o seu nível, com esse procedimento.

  • Consequentemente, a passagem de ano deve deixar de ser um objectivo a perseguir pelo aluno.

  • Se um conselho de turma se pode decidir pela repetição de ano, casos haverá em que poderá decidir o avanço de ano, em casos de elevado desempenho.

  • O objectivo de cada aluno deve ser obter uma certificação de conhecimentos adquiridos e de competências desenvolvidas. Independentemente de haver exames externos ou não, as escolas deviam certificar os resultados escolares efectivos.

  • Deve haver uma separação clara entre comportamento, atitudes e valores por um lado e conhecimentos e competências, por outro. A parte ética, moral e social – a disciplina do trabalho, o respeito por regras de convivência, a relação com os outros, etc. – deve também ser certificada com rigor, em sede própria.

Para avançar neste sentido, devia ser criado um sistema de níveis de desempenho para todas as disciplinas do Ensino Básico.

Um exemplo inspirador é o dos "attainment targets" do National Curriculum inglês. Cada disciplina (ou domínio de competências) tem uma sequência de 9 níveis de desempenho que vai da iniciação à maturidade e às mais altas realizações. Ao atribuir um "3" ou um "5" a um aluno de 13 anos (7º ano), um professor inglês de História, está a referir-se a uma tabela de níveis de desempenho do programa da disciplina, que estabelece a correspondência entre etiquetas e descrições. Neste exemplo, o "3" está abaixo dos desempenhos esperados para a maioria dos alunos do 7º ano, ao passo que o "5", é já um bom desempenho.

Dei-me ao trabalho de traduzir para a tabela abaixo o que eu acho que seria uma lista de níveis de desempenho na leitura. Fiz este trabalho de uma forma livre, sem muito rigor, e com alguns pequenos ajustes ao conteúdo. Para orientação dos leitores, acrescento que 4 seria um bom desempenho no final do nosso 2º ciclo e 6, para o final do nosso 3º ciclo.

Níveis

Leitura (desempenhos correspondentes)

Nível 1

– Reconhece palavras familiares em textos simples.

– Usa o conhecimento das letras e das relações entre fonemas e grafemas1 para ler palavras e estabelecer significados na leitura em voz alta.

– Identifica aspectos do seu interesse em poemas, histórias e textos não ficcionais.

Nível 2

– Compreende adequadamente textos simples.

– Expressa opiniões a propósito dos acontecimentos ou ideias principais de histórias, poemas e textos não ficcionais.

– Quando se encontram perante uma nova palavra escrita, usam várias estratégias de leitura, incluindo chaves fónicas, gráficas, sintácticas e contextuais.

Nível 3

– Lê diversos textos de vários géneros, de forma autónoma, correcta e fluentemente.

– Compreende os pontos principais de um texto.

– Usa o conhecimento do alfabeto para localizar livros em bibliotecas e bibliografias e informações, em dicionários e enciclopédias.

Nível 4

– Faz inferências e deduções. Compreende ideias significativas, temas, acontecimentos e personagens reconhecidos nos textos.

– Refere-se ao texto, para explicar a sua perspectiva. Localiza e usa ideias e informações do texto.

Nível 5

– Identifica aspectos, características principais, temas e personagens; selecciona expressões, frases e informações relevantes para justificar a sua opinião.

– Obtêm informações de diferentes fontes e junta-a.

Nível 6

– Reconhece diferentes níveis de sentido num texto e discute diversos significados implícitos ou intencionados.

– Faz uma leitura pessoal de textos literários, fundamentada em aspectos da linguagem, da estrutura e dos temas.

– Sumariza informação de diferentes fontes.

Nível 7

– Compreende a forma como o sentido e a informação são comunicados nos textos que lê.

– Elabora perspectivas pessoais e críticas de poemas, peças de teatro e romances, compreendendo as suas características temáticas, estruturais e linguísticas.

– Selecciona e sintetiza séries de informações de várias fontes.

Nível 8

– Aprecia e comenta uma série de textos referindo-se aos recursos linguísticos, textuais e estruturais investidos pelo autor para obter determinados efeitos.

– Selecciona e analisa informações e ideias e comenta a forma como são apresentadas em diferentes textos.

Nível 9

– Sustenta a sua leitura e desenvolve as suas ideias referindo-se com pormenor a aspectos de linguagem, estrutura e apresentação.

– Compara textos tendo em conta audiência, intenção comunicativa e forma.

– Identifica e analisa argumentos, opiniões e interpretações alternativas, cruzando referências, quando apropriado.

A complementar esta grelha, haveria uma sequência de vários géneros de textos que evoluiria tanto em extensão como em complexidade retórica e linguística, pois a complexidade das tarefas de leitura depende também dos objectos a que se aplicam.

Finalmente, seriam feitas duas grelhas similares, uma para a escrita, outra para a comunicação oral, pois a leitura expressa-se oralmente e por escrito.

Se tivéssemos um sistema deste género, para as disciplinas do Básico, talvez não tivéssemos que ouvir, por um lado, a Sra. Ministra a queixar-se dos professores reprovarem demasiados alunos e, por outro, comentadores a acusarem-nos de facilitismo.

Quer um certo aluno passe de ano, quer não, o professor do ano seguinte saberia qual o nível em que ele se encontrava e o que deveria esperar dele.

Para uma informação sobre o currículo inglês, consulte http://www.nc.uk.net.

1Grafemas são letras ou grupos de letras que representam padrões de sons da língua (fonemas).

As notas

As notas escolares não diferem muito das notas monetárias. Em si próprias, nada valem, nem sequer papel são, como acontece com o dinheiro. Dependem totalmente do crédito que se lhes atribui socialmente. Se acontecesse ao dinheiro o mesmo que às notas escolares, estaríamos numa crise económica sem precedentes, pior do que a de 21 ou a de 29. Na economia do sistema escolar, não há qualquer hipótese de recuperar o valor perdido das notas que cada um acumulou, com uma corrida aos bancos, por exemplo, como acontecia noutros tempos: quando o papel já não tinha crédito, pedia-se a devolução do ouro que ele representava.

Se a desvalorização das notas resultasse de um aumento da oferta do que elas representam, isto é, de indivíduos qualificados, estaríamos bem e não teríamos nenhum motivo para querer diminuir o seu valor nominal, pela pressão do número. A inflacção de que tratamos aqui tem a ver com o valor intrínseco, absoluto e não relativo do que as notas representam. Isto é, a qualificação científica e cultural dos indivíduos não acompanhou proporcionalmente o aumento das correspondentes notas no mercado. Resultado: já ninguém acredita nelas!

Paradoxalmente, não há curso em que os alunos não desejem notas cada vez mais altas, fingindo ignorar que, quanto mais generosos forem os seus professores, menor valor tem o que oferecem. Inversamente, quanto mais exigentes forem os critérios de atribuição, maior valor têm as notas concedidas.

O facilitismo resulta na concentração dos valores numa pequena parte da área positiva da escala e, sobretudo, nos valores considerados bons – 13 a 20, que são aquilo que José Sócrates designou em entrevista "notas que não envergonham ninguém". Seria interessante ver quantos alunos têm notas passíveis de "envergonhar alguém" nas nossas universidades.

O problema é que, se as escolas forem consideradas equivalentes a priori , os finalistas das escolas mais exigentes não se distinguirão dos que são oriundos das de menor qualidade ou que são mais generosas nas notas.

No ensino básico, com a institucionalização da escala 1 a 5, o sistema semiótico das notas cedeu a pressões igualitárias e perdeu poder de distinção. Contudo, no secundário, a escala de 0 a 20 continuou a vigorar. Quando a distinção se torna necessária, por causa dos numerus clausus, a escala de 1 a 20 transforma-se num sistema alienante de 0,0 a 20,0, em que já ninguém sabe, na prática, o que significa a diferença de 0,1 que pode impedir um indivíduo talentoso de seguir uma carreira médica, por exemplo.

Quando o leitor se encontra perante uma pauta de classificações de uma escola, que lhe parece que significa cada 3, 4 ou 5 que encontra à sua frente? Sucesso escolar! – dirá, sem qualquer margem para dúvidas. Inversamente, o 2 e o virtualmente inexistente 1, significam insucesso. Tem mesmo a certeza disso?

As notas, são, primeiro, atribuídas pelo professor que tem como referência as exigências programáticas oficiais. Mas os programas têm que ser aferidos ao currículo que é concretizado na sala de aula. Assim, o 5 atribuído numa turma tumultuosa ou fraca acaba por ser menos exigente do que aquele que é atribuído numa turma de alunos de alto desempenho. No conselho de turma, a nota negativa de um aluno pode ser alterada para "3", à revelia da opinião do professor, a fim de permitir que o aluno, de acordo com a lei, "passe de ano".

Faço aqui um parêntese para perguntar porque é que a legislação nos obriga a mentir e a desautorizar um professor para passar um aluno de ano. Trata se unicamente de salvaguardar a regra de que a passagem de ano implica não ter mais de duas negativas, ou negativa a Língua Portuguesa e Matemática, em simultâneo.

Além disso, um aluno com necessidades educativas especiais, por exemplo, poderá beneficiar de um currículo adaptado e de regras de avaliação diferentes, mas as designações são as mesmas: 1 a 5.

Como se isso não bastasse, o professor considera no nível que atribui coisas como "valores e atitudes" ou "comportamento e participação". Alguns autores de livros sobre a disciplina na sala de aula, consideram que o professor pode estabelecer um contrato individual com o aluno utilizando como moeda de troca gratificações na classificação.

Assim, quando olhamos para um 4 a Matemática numa pauta do 6º ano, de acordo com a lógica do "antigamente", deveríamos pensar: "olha, este aqui é mesmo um bom aluno a Matemática; seria um de 16, no meu tempo". Mas não: pode ser um caso de "nee" que finalmente conseguiu decorar a tabuada, um aluno satisfatório que começou a comportar-se bem ou um "hooligan" que concordou em não partir as carteiras da sala de aula num contrato estabelecido com o professor.

O que é curioso é que é com um sistema classificatório desta latitude que o governo quer medir o desempenho pedagógico dos professores. Como as pessoas que propõem isto são inteligentes, só podemos concluir o seguinte: o governo quer aumentar ainda mais a latitude dos critérios das notas, com mais um parâmetro, a classificação do próprio professor. Engenhoso: ao dar notas, classifico-me a mim próprio e dou uma ajuda nas estatísticas do governo. Vamos a isso!