O Acordo Ortográfico entre aspas

Vi de novo o Artur Anselmo a colocar o Acordo Ortográfico entre aspas. Sempre pensei que o dito documento é um texto legal aprovado no nosso parlamento. Por isso, não entendo onde estão as aspas: na validade legal (inconstitucionalidade?), no acordo (seria um desacordo?) ou no adjetivo “ortográfico” (seria antes um acordo disortográfico?). Enfim, cabe ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa, a instituição que nos pôs este tratado nas mãos, dizer porque põe aspas no trabalho dos seus colegas.

Mesmo que o novo presidente da academia tenha votado de vencido, não sei como foi, não me interessam as questões internas da dita organização nem a posição pessoal anterior de Artur Anselmo, o que é certo é que foi a sua instituição que produziu este objeto em 1990. Então para mim, pessoa de fora que só vê a instituição e se desinteressa dos elementos que a constituem, é a Academia de Ciências de Lisboa que se vem arrepender 26 anos depois do acordo entre aspas ter sido concluído.

A comentar a ida ao parlamento do referido desacordado presidente, vimos Francisco José Viegas a esclarecer-nos com as perguntas do jornalista. Seria correto que escrevêssemos como falamos? Claro, essa é a tendência atual desde a década de 70 (foi o que me pareceu ouvir), em muitas línguas.

A primeira dúvida é o que significa “escrever como se fala” no que à ortografia diz respeito. É que pôr a questão nestes termos parece-me diferente de perguntar qual é o lugar da etimologia na ortografia, isto é, se os elementos ortográficos que deixaram de ter qualquer função devem ou não continuar a fazer parte da grafia das palavras.

Numa primeira interpretação, a palavra “casa”, tanto poderia ser escrita com “s” como com “z”. Ora, isso nunca esteve em causa. A palavra “mesmo”, poderia ser escrita assim “mejmo”, já que o “s” nessa posição, antes de uma consoante sonora, palatiza-se e sonoriza-se. As formas do plural, entre nós, poderiam acabar em “ch”. “Vamos passear”, seria grafado assim: “vamoch passiar”, mas não em “vamos à escola”, porque neste contexto o “s” sonoriza-se mas não se palatiza. Enfim, a ortografia seria uma espécie de transcrição fonética.

Como não é isso que está em questão, acho errada a formulação “escrever como falamos”. Quanto à etimologia, José Viegas foi buscar o estafado exemplo Egito/egípcio. Como o próprio mostrou o “p” aparece magicamente numa palavra derivada. No oral, estamos perante um facto: o “p” caiu, em “Egito”, mas não caiu em “egípcio”. O que os partidários da ortografia etimológica querem é que o “p” morto na oralidade permaneça na escrita. Para manter a coerência morfológica, não deveria continuar lá? A verdade é que o étimo que é o mesmo passou na diacronia a ser representado por dois alomorfes “egipc” e “egit”, pois, na verdade, as palavras têm história independente: “Egito” deriva do latim  “aegyptus” e “egípcio” de “aegyptius”. Num contexto, “pt” passou a “t”, noutro, passou a “pc”. Portanto, não somos nós que aplicamos um sufixo para formar uma nova palavra.

O princípio da prioridade do fonológico sobre o etimológico na ortografia não é recente, como Francisco José Viegas pretendeu mostrar, mas secular. Já Gonçalves Viana e Vasconcellos Abreu na sua Ortografia Portuguesa de 1885, propunham o fim de todos os símbolos gráficos sem valor: th (por exemplo, thermómetro), ph (etnographia), ch (por exemplo, chimica, machinamechanica), y (lyrio, physica), mudanças que vieram a concretizar-se em 1911.

 

O Acordo Ortográfico entre aspas

Vi de novo o Artur Anselmo a colocar o Acordo Ortográfico entre aspas. Sempre pensei que o dito documento é um texto legal aprovado no nosso parlamento. Por isso, não entendo onde estão as aspas: na validade legal (inconstitucionalidade?), no acordo (seria um desacordo?) ou no adjetivo “ortográfico” (seria antes um acordo disortográfico?). Enfim, cabe ao presidente da Academia das Ciências de Lisboa, a instituição que nos pôs este tratado nas mãos, dizer porque põe aspas no trabalho dos seus colegas.

Mesmo que o novo presidente da academia tenha votado de vencido, não sei como foi, não me interessam as questões internas da dita organização nem a posição pessoal anterior de Artur Anselmo, o que é certo é que foi a sua instituição que produziu este objeto em 1990. Então para mim, pessoa de fora que só vê a instituição e se desinteressa dos elementos que a constituem, é a Academia de Ciências de Lisboa que se vem arrepender 26 anos depois do acordo entre aspas ter sido concluído.

A comentar a ida ao parlamento do referido desacordado presidente, vimos Francisco José Viegas a esclarecer-nos com as perguntas do jornalista. Seria correto que escrevêssemos como falamos? Claro, essa é a tendência atual desde a década de 70 (foi o que me pareceu ouvir), em muitas línguas.

A primeira dúvida é o que significa “escrever como se fala” no que à ortografia diz respeito. É que pôr a questão nestes termos parece-me diferente de perguntar qual é o lugar da etimologia na ortografia, isto é, se os elementos ortográficos que deixaram de ter qualquer função devem ou não continuar a fazer parte da grafia das palavras.

Numa primeira interpretação, a palavra “casa”, tanto poderia ser escrita com “s” como com “z”. Ora, isso nunca esteve em causa. A palavra “mesmo”, poderia ser escrita assim “mejmo”, já que o “s” nessa posição, antes de uma consoante sonora, palatiza-se e sonoriza-se. As formas do plural, entre nós, poderiam acabar em “ch”. “Vamos passear”, seria grafado assim: “vamoch passiar”, mas não em “vamos à escola”, porque neste contexto o “s” sonoriza-se mas não se palatiza. Enfim, a ortografia seria uma espécie de transcrição fonética.

Como não é isso que está em questão, acho errada a formulação “escrever como falamos”. Quanto à etimologia, José Viegas foi buscar o estafado exemplo Egito/egípcio. Como o próprio mostrou o “p” aparece magicamente numa palavra derivada. No oral, estamos perante um facto: o “p” caiu, em “Egito”, mas não caiu em “egípcio”. O que os partidários da ortografia etimológica querem é que o “p” morto na oralidade permaneça na escrita. Para manter a coerência morfológica, não deveria continuar lá? A verdade é que o étimo que é o mesmo passou na diacronia a ser representado por dois alomorfes “egipc” e “egit”, pois, na verdade, as palavras têm história independente: “Egito” deriva do latim  “aegyptus” e “egípcio” de “aegyptius”. Num contexto, “pt” passou a “t”, noutro, passou a “pc”. Portanto, não somos nós que aplicamos um sufixo para formar uma nova palavra.

O princípio da prioridade do fonológico sobre o etimológico na ortografia não é recente, como Francisco José Viegas pretendeu mostrar, mas secular. Já Gonçalves Viana e Vasconcellos Abreu na sua Ortografia Portuguesa de 1885, propunham o fim de todos os símbolos gráficos sem valor: th (por exemplo, thermómetro), ph (etnographia), ch (por exemplo, chimica, machinamechanica), y (lyrio, physica), mudanças que vieram a concretizar-se em 1911.

 

O reino de Walter Hugo Mãe em questão

“O Nosso Reino” – a infância narrada por Walter Hugo Mãe está em questão, pelo menos, para os adolescentes do 8º ano que ou conhecem já todas asneiras da obra ou estão com um currículo oculto deficente. Seria possível uma obra ser “realista” sem essas asneiras?

De acordo com os pais dos alunos duma escola da capital, os seus educandos não podem ler textos literários realistas sobre a infância e juventude. Isto é, não podem ver por escrito o que muitos dos seus colegas ou os pais deles nessas idades viveram. Essas coisas são apenas para ser vistas no Youtube, para gerar polémica e aparecer nos telejornais nacionais. Quanto a acontecer a personagens de uma obra lida na escola, nada feito. Uma obra literária deve ser limpa, cheia de bons exemplos, com palavras que não façam corar ninguém. Parece ser essa a ideia de literatura que os pais têm.

Os professores da escola terão com certeza escolhido a obra depois de a lerem. O Plano Nacional de Leitura não tem nada a ver com o assunto. Mas estou certo que quem a escolheu para figurar nesse “plano” também leu a obra e achou que o vocabulário asneirento que os alunos dizem quando os pais não estão por perto, a linguagem grosseira com que expressam a sua virilidade ou feminilidade nascentes, já podia entrar num texto que trata mesmo desse assunto.

Se tanto uns como outros estão preparados para defenderem as suas opções, porque dão o braço a torcer invocando erros ou uma autoridade superior?

Como não acredito que os professores da dita escola não estejam preparados para as ditas “asneiras”, não compreendo também a fuga para o PNL. Nem entendo por que se tem que pronunciar o presidente da república sobre este incidente. “A escolha é subjectiva, discutível e criticável” – disse ele. Mas estão lá os professores que leram a obra para discutir e para responder às críticas. Onde estão as escolhas literárias objectivas, indiscutíveis e ao abrigo de qualquer crítica?

O reino de Walter Hugo Mãe em questão

“O Nosso Reino” – a infância narrada por Walter Hugo Mãe está em questão, pelo menos, para os adolescentes do 8º ano que ou conhecem já todas asneiras da obra ou estão com um currículo oculto deficente. Seria possível uma obra ser “realista” sem essas asneiras?

De acordo com os pais dos alunos duma escola da capital, os seus educandos não podem ler textos literários realistas sobre a infância e juventude. Isto é, não podem ver por escrito o que muitos dos seus colegas ou os pais deles nessas idades viveram. Essas coisas são apenas para ser vistas no Youtube, para gerar polémica e aparecer nos telejornais nacionais. Quanto a acontecer a personagens de uma obra lida na escola, nada feito. Uma obra literária deve ser limpa, cheia de bons exemplos, com palavras que não façam corar ninguém. Parece ser essa a ideia de literatura que os pais têm.

Os professores da escola terão com certeza escolhido a obra depois de a lerem. O Plano Nacional de Leitura não tem nada a ver com o assunto. Mas estou certo que quem a escolheu para figurar nesse “plano” também leu a obra e achou que o vocabulário asneirento que os alunos dizem quando os pais não estão por perto, a linguagem grosseira com que expressam a sua virilidade ou feminilidade nascentes, já podia entrar num texto que trata mesmo desse assunto.

Se tanto uns como outros estão preparados para defenderem as suas opções, porque dão o braço a torcer invocando erros ou uma autoridade superior?

Como não acredito que os professores da dita escola não estejam preparados para as ditas “asneiras”, não compreendo também a fuga para o PNL. Nem entendo por que se tem que pronunciar o presidente da república sobre este incidente. “A escolha é subjectiva, discutível e criticável” – disse ele. Mas estão lá os professores que leram a obra para discutir e para responder às críticas. Onde estão as escolhas literárias objectivas, indiscutíveis e ao abrigo de qualquer crítica?

Defesa da escola pública nos EUA

A Tablet Magazine, uma publicação jadaico-americana de elevada qualidade, condena a escolha de Betsy DeVos para secretária de estado da educação da administração Trump. A revista critica a opção de  favorecimento das escolas privadas sob a égide da “free choice” e defende os professores sindicalizados das escolas públicas contra o abaixamento do rendimento e das condições de trabalho dos professores nas escolas privadas, religiosas e “charter”. Veja “Protecting Public Schools

Bilinguismo e ortografia

Em O Português na hora di bai?, Nuno Pacheco dá-se conta, aparentemente surpreendido, da dualidade linguística fundamental das crianças africanas, como o serão também, as timorenses, divididas entre a língua materna e a da escola. Os países africanos são multilingues e os seus cidadãos, bilingues.

Que as crianças caboverdianas tenham de aprender o português como uma segunda língua e não como se fosse a primeira é um avanço que vai permitir a expansão do Português. Até onde vai esta lusofonia é uma incógnita, mas tome-se nota de que em Angola o português já está a matar as línguas africanas e a dualidade linguística a desaparecer.

O que interessa a respeito do acordo ortográfico é se há ou não uma ortografia comum aos dois países que têm o português como língua materna e como língua oficial (os tais milhões) extensível aos outros que têm a vontade política de manter o português como língua oficial e de cultura.

Se Portugal fizer marcha atrás no acordo, não sei que consequência terá isso para o Brasil onde milhões de crianças já foram alfabetizadas com as alterações acordadas. Não estou a dramatizar. Estou apenas a dizer que não sei. O que fica é uma irresponsabilidade e uma falta de solidariedade institucional e política que envolve na sua ação milhões de pessoas. As variações ortográficas em tão pouco tempo exibirão sobretudo essa flutuação da mediocridade governativa, já que, em si mesmas, importam muito pouco, pois não foi possível unificar ortografias que têm muito pouco de diverso.

O Ipiranga de Artur Anselmo

Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, vai propor alterações ao Acordo Ortográfico. Um dos exemplos dados é a distinção ortográfica entre “para” e “pára” que se perdeu com o Acordo. Antes de avançar para as declarações do presidente da Academia, vou comentar este caso.

Em termos ortográficos, não é muito grave a homografia de duas palavras de classes diferentes – uma preposição e uma forma verbal – que muito dificilmente entrarão em contextos geradores de ambiguidade. Maiores dificuldades oferecem as numerosas palavras homógrafas e homónimas da nossa língua, especialmente quando se trata de nomes como por exemplo: “o canto era muito belo” (o da sala ou o da soprano?) “a sede naquele lugar era insuportável” (a falta de água ou o centro de um clube?). Contudo, embora possamos relativizar a gravidade desta mudança, não podemos negar que há uma perda de distintividade.  A minha posição é que haveria uma perda mínima, nesta como noutras alterações ortográficas, em função de um objetivo maior – o da unificação ortográfica, se esse objetivo político fosse prosseguido.

Mas o caso toma um aspeto bizarro quando nos damos conta de que os brasileiros também tiveram de mudar o seu par para/pára, pois também eles punham o acento na forma verbal. Se a distinção valia dos dois lados do Atlântico porque foi anulada? Também lá apoiantes e oponentes se esforçaram por racionalizar, isto é, inventar razões linguísticas para justificar mudanças ou para se opor a elas.

Neste caso, veja como o Gramatigalhas justifica para os brasileiros a perda do acento na forma verbal “pára”: “Para e pára“. Oiça bem como o professor José Maria da Costa pronuncia a preposição “para”. Para si, tem ou não acento tónico na primeira sílaba? “Para” difere da sua forma reduzida, “pra”. Esta é claramente átona. É frequente a preposição “para” ser pronunciada totalmente com acento tónico na primeira sílaba, especialmente em frases em que se dá uma ênfase ilocutória muito particular, embora também seja frequente a sua redução a átona.

Voltamos à pergunta “Porque foi alterada uma coisa comum às duas ortografias? Porque se quis reservar o acento gráfico para distinguir a sílaba tónica e não para distinguir diferentes fonemas representados pela mesma letra: /ɐ/ de “para” e /a/ de “pára”. Por este princípio, só os casos em que o acento assegura a identificação da sílaba tónica é que as palavras graves (paroxítonas) o mantêm (Base IX). Então, “para” e “pára” foram vítimas duma tentativa de diminuir as exceções a uma regra geral.

Quanto ao presidente da Academia, ele não se limitou a propor algumas mudanças. Ele afirmou que o acordo tinha falhado, pois não se tinha chegado a uma ortografia comum, que o Brasil tinha sido colonialista a impor a sua a Portugal, que a orografia não era uma questão política e que agora era necessário tratarmos das ortografias nacionais. Enfim, um grito de Ipiranga ao contrário.

Como é que ele se sente perante a instituição que dirige e que, durante 26 anos, andou a negociar este acordo? Com o discurso que apresenta, ele deveria propor o regresso a 1945 e não “pequenas correções”.

Não há coisa mais política do que a ortografia portuguesa. Desde o rei D. Dinis até às reformas de 1911, 1945 e 1990 foi sempre o poder político a regulamentar. Seria irónico que a democracia perdesse esse poder. A quem o entregaria? Quem é que teria legitimidade para decretar uma ortografia para a Escola, o Governo e os Media? Seria o Artur Anselmo?

Eu considero aquilo em que o acordo ortográfico mexeu uma insignificância em termos linguísticos. Espero que os especialistas façam um bom trabalho em fixar o que é comum e o que é diferente entre os vários países lusófonos, que se ponham de acordo a respeito duma ortografia para as organizações internacionais – desde logo, aquela em que se redigem as atas da CPLP – e que acabem os disparates nos jornais e na televisão.

Referências bibliográficas:

Pronúncia do português europeu” in Instituto Camões

Para ou pára” in Dúvidas de Português

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (pdf) – Porto Editora

 

O Ipiranga de Artur Anselmo

Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa, vai propor alterações ao Acordo Ortográfico. Um dos exemplos dados é a distinção ortográfica entre “para” e “pára” que se perdeu com o Acordo. Antes de avançar para as declarações do presidente da Academia, vou comentar este caso.

Em termos ortográficos, não é muito grave a homografia de duas palavras de classes diferentes – uma preposição e uma forma verbal – que muito dificilmente entrarão em contextos geradores de ambiguidade. Maiores dificuldades oferecem as numerosas palavras homógrafas e homónimas da nossa língua, especialmente quando se trata de nomes como por exemplo: “o canto era muito belo” (o da sala ou o da soprano?) “a sede naquele lugar era insuportável” (a falta de água ou o centro de um clube?). Contudo, embora possamos relativizar a gravidade desta mudança, não podemos negar que há uma perda de distintividade.  A minha posição é que haveria uma perda mínima, nesta como noutras alterações ortográficas, em função de um objetivo maior – o da unificação ortográfica, se esse objetivo político fosse prosseguido.

Mas o caso toma um aspeto bizarro quando nos damos conta de que os brasileiros também tiveram de mudar o seu par para/pára, pois também eles punham o acento na forma verbal. Se a distinção valia dos dois lados do Atlântico porque foi anulada? Também lá apoiantes e oponentes se esforçaram por racionalizar, isto é, inventar razões linguísticas para justificar mudanças ou para se opor a elas.

Neste caso, veja como o Gramatigalhas justifica para os brasileiros a perda do acento na forma verbal “pára”: “Para e pára“. Oiça bem como o professor José Maria da Costa pronuncia a preposição “para”. Para si, tem ou não acento tónico na primeira sílaba? “Para” difere da sua forma reduzida, “pra”. Esta é claramente átona. É frequente a preposição “para” ser pronunciada totalmente com acento tónico na primeira sílaba, especialmente em frases em que se dá uma ênfase ilocutória muito particular, embora também seja frequente a sua redução a átona.

Voltamos à pergunta “Porque foi alterada uma coisa comum às duas ortografias? Porque se quis reservar o acento gráfico para distinguir a sílaba tónica e não para distinguir diferentes fonemas representados pela mesma letra: /ɐ/ de “para” e /a/ de “pára”. Por este princípio, só os casos em que o acento assegura a identificação da sílaba tónica é que as palavras graves (paroxítonas) o mantêm (Base IX). Então, “para” e “pára” foram vítimas duma tentativa de diminuir as exceções a uma regra geral.

Quanto ao presidente da Academia, ele não se limitou a propor algumas mudanças. Ele afirmou que o acordo tinha falhado, pois não se tinha chegado a uma ortografia comum, que o Brasil tinha sido colonialista a impor a sua a Portugal, que a orografia não era uma questão política e que agora era necessário tratarmos das ortografias nacionais. Enfim, um grito de Ipiranga ao contrário.

Como é que ele se sente perante a instituição que dirige e que, durante 26 anos, andou a negociar este acordo? Com o discurso que apresenta, ele deveria propor o regresso a 1945 e não “pequenas correções”.

Não há coisa mais política do que a ortografia portuguesa. Desde o rei D. Dinis até às reformas de 1911, 1945 e 1990 foi sempre o poder político a regulamentar. Seria irónico que a democracia perdesse esse poder. A quem o entregaria? Quem é que teria legitimidade para decretar uma ortografia para a Escola, o Governo e os Media? Seria o Artur Anselmo?

Eu considero aquilo em que o acordo ortográfico mexeu uma insignificância em termos linguísticos. Espero que os especialistas façam um bom trabalho em fixar o que é comum e o que é diferente entre os vários países lusófonos, que se ponham de acordo a respeito duma ortografia para as organizações internacionais – desde logo, aquela em que se redigem as atas da CPLP – e que acabem os disparates nos jornais e na televisão.

Referências bibliográficas:

Pronúncia do português europeu” in Instituto Camões

Para ou pára” in Dúvidas de Português

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (pdf) – Porto Editora

 

Ser ou não ser Fidel

Daniel Oliveira expôs as razões dos que se acham à esquerda e se afirmam democratas acima de tudo em “Porque continuo anti-castrista” no Expresso diário de sábado, 3/12/2016. De facto, esta é uma das dificuldades de quem andou por caminhos vizinhos dos do líder cubano, mas não o sente como parte da sua herança ideológica.

Primeiro, há que dizê-lo sem medo das palavras: Fidel era um ditador e, nessa qualidade, a sua silhueta ombreia com as de todos os que pululam à sua direita ou à sua esquerda. Não há mais nada a dizer a este respeito: somos contra déspotas. Não nos venham com a especificidade cubana, o bloqueio, ou o que quer que seja.

Comentário: Não posso deixar de lamentar os que na América Latina ou nas résteas de partidos comunistas europeus de ortodoxia soviética que ainda há por aí que, ao mesmo tempo que fazem o jogo democrático nos seus países, se afirmam amigos do regime cubano e de outros do mesmo género.

Segundo, a ditadura de Castro, assim como a de Salazar, para referir uma de esquerda e outra de direita, não têm comparação possível no que respeita a barbárie e violência com a ditadura de Staline ou a de Hitler, para referir também uma da esquerda e outra da direita.

Terceiro, não podemos ignorar os sucessos sociais na educação, na saúde e na segurança social conseguidos pelo regime cubano, mas temos que os colocar no seu devido contexto: resultam de uma ideologia socialista aplicada por um regime autoritário. Temos também que mostrar os seus limites: falta de iniciativa económica individual, de inovação tecnológica, de criação artística e de estímulo para impulsionar carreiras profissionais, dificuldades que conduziram à emigração maciça de centenas de milhar de cubanos para os Estados Unidos.

Posto isto, nós de esquerda e democratas, temos que nos solidarizar com todos os cubanos, de direita e de esquerda, que se posicionam contra o regime por se sentirem oprimidos, com direitos humanos cerceados, e por não poderem participar na política cubana com as suas ideias e iniciativas próprias.

No mesmo tom, mas mais direto e com maiores razões para exprimir a sua perspetiva, está o bloguista brasileiro Bertone de Sousa que em “Notas sobre a morte de Fidel” chama a atenção para o culto castrista dos políticos do Partido dos Trabalhadores e congéneres.

Duplas grafias

Um dos argumentos contra o acordo ortográfico é a proliferação de duplas grafias. Por causa disso, tornei-me sensível a esse fenómeno nas línguas estrangeiras com que trabalho. Assim, dei com a palavra inglesa “organize” e, curioso, fui experimentar em dicionários online a versão que tinha por correta – “organise“.

Repare-se que é uma diferença que abrange uma quantidade apreciável de palavras, pois a formação dos verbos terminados em “-ize” corresponde a uma regra produtiva da língua inglesa, de certo modo, correspondente aos nossos “-izar” (como organizar). Na língua oral, os falantes criam facilmente verbos a partir de nomes (e adjetivos) e, por sua vez, outros nomes derivados dos verbos. Formam-se assim “organization” ou “organisation”, por exemplo. A dúvida que surge na escrita não tem qualquer implicação para a língua oral. Veja estas listas de palavras: ize,  ise em que encontrará muitos casos de dupla grafia. Normalmente, os dicionários apresentam as duas versões: Ver no Free Dictionary: organized e organised

Curiosamente, a versão americana, que grafa o sufixo em –ize, é a mais antiga. A versão britânica, em –ise deriva de “-yse“, “organyse” que coexistiu durante muito tempo com “organize“.

Poderíamos ir buscar a etimologia que leva do adjetivo latino “organizatus” ao verbo do latim medieval “organizato” (1ª do singular do presente do indicativo; o infinitivo seria “organizare“), ao francês “organiser” e ao inglês “organyse“. Mas, ao seguir por esta via, perdemos de vista a enorme lista de palavras que, por vias similares a esta ou por outras chegaram aos dois paradigmas ortográficos que referimos acima.

Tudo se resume ao seguinte: tradições ortográficas diferentes.

Referências

Organizo“, “Organiser” “Organise” in Wiktionary

Morewords

“Organise vs. organize” in Grammarist

The Free Dicitionary