Da coisa administrativa e da que ministra

A designação de "comissão administrativa", seja provisória, seja permanente, remete-nos para o paradigma dos nomes de quem manda na escola: reitor, director, conselho directivo, conselho executivo são, a este respeito, sinónimos.

Todas as coisas são iguais, excepção feita às diferenças. Se atendermos a estas, verificamos que o poder pode ser exercido por uma ou por várias pessoas, numa subordinação directa ao poder central ou numa maior autonomia, com orientações próprias ou apenas na aplicação duma direcção alheia. Ainda por cima, tudo isto, não como oposições binárias absolutas, mas sim como gradações diversas.

E os termos que designam estas diferenças estão longe de ter uma distinção lexical homóloga. Como se não nos bastasse reger, dirigir e executar, temos agora administrar. E, em vez dum conselho, uma comissão!

O adjectivo "administrativo" ganhou a conotação de coisa auxiliar. Assim, temos os serviços administrativos da escola que tratam do aspecto legal das coisas, de fazer chegar em devida forma a informação a quem decide, o conselho executivo. Do mesmo modo, na política, temos os ministros, eleitos e os funcionários administrativos de carreira que lá sempre estão. O programa "Sim, senhor primeiro-ministro" trata precisamente da oposição entre a função administrativa e a política, mostrando como uma corrompe a outra, como as contingências administrativas transformam em letra morta os programas eleitorais do partido no poder.

Há é claro, ocorrências em que a palavra "administração" ganha um sentido maior, como é o caso da Administração Obama, onde, além do Presidente, só há secretários. Também no Reino Unido, em termos vocabulares, temos um primeiro-ministro e mais nenhum, pois os outros membros do gabinete são secretários. Na verdade, são todos ministros, pois, de outro modo, não poderia haver um primeiro. Há apenas três "secretaries" (Justice, Foreign e Home) e um "chancellor" à volta de Gordon Brown, constituindo o "Cabinet".

Aquilo a que chamamos ministérios, são, na Inglaterra, os "departments" que constituem o "Her Majesty Civil Service". Por exemplo, a educação está integrada no "Department for Children, Schools and Families". O Secretário de Estado deste Departamento, actualmente, Ed Balls, tem sob a sua alçada outros dois "ministers", um que se encarrega das escolas e outro dos assuntos da infância e da família. Ora, Ed Balls tem que aturar um chefe não político do departamento, actualmente, David Bell, que é o seu "sim, senhor ministro".

Está aqui patente a distinção entre o "administrative management" e as tarefas ministeriais. "Minister" em inglês, ou "ministro" em português, opõe-se pois a "administrativo". Poderíamos especular sobre a diferença que o prefixo ad– faz na palavra, contudo, tal jogo, já se fazia no latim em que "minister" é qualquer pessoa que ajuda ou serve e "administer" é mais específico, significando operário, ajudante ou administrador. Os termos derivados do latim "minister" continuaram a ser usados sinonimamente em paralelo com os que derivam do "administer": ministrar, administrar, ministrador, administrador, etc., mas o uso do termo "administrativo" tem uma influência do francês "administratif" e do inglês "administrative". E já sobra de etimologia neste post.

Gostaria de realçar a nobreza do termo "ministro" e "ministrar" pela sua ligação directa com a pedagogia, com as seguintes citações bíblicas:

"Bendizei ao SENHOR, todos os seus exércitos, vós ministros seus, que executais o seu beneplácito". (Salmos 103: 21)

"Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério" (Romanos 11: 13)

"Se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicaçäo ao ensino" (Romanos, 12: 7)

Ministro, ministério e ministrar remete para a noção de serviço e de missão. Por isso, aquele que ministra aproxima-se o mais possível das pessoas.

Pelo contrário, o administrador, ou administrativo preocupa-se mais com as coisas do que com as pessoas, põe entre si e os administrados, o maior número possível de intermediações, papéis, procedimentos que afastam o contacto directo.

Tínhamos um conselho executivo que conhecia pessoalmente todos os alunos e professores da escola. Cumpria a lei e as orientações, a direcção, de uma assembleia geral. Tinha o conhecimento do mester pedagógico, pois convivia diariamente com ele.

No seu dia a dia, o conselho executivo não parava no seu ministério de coordenar e apoiar os esforços de todos os profissionais da escola. As audiências eram da ordem das dezenas ou mesmo centenas por dia, numa apreciação impressionista pelo conjunto de movimentos que se viam à porta. De repente, temos uma comissão ad-ministrativa, sem ministério, apenas com procedimentos, justificações, papéis, uma porta fechada, um deserto de pessoas à porta. Onde estão os carentes de uma conversa, ou uma palmada encorajante nas costas, os alunos difíceis que iam ter uma conversa com uma pessoa do conselho executivo? No final do ano lectivo, quando os problemas ameaçam agravar-se, nada! O vazio!

 

29 comentários em “Da coisa administrativa e da que ministra”

  1. Excelente texto. Mas, há anos, por mera alusão à natureza do “ministro” remetendo para a etimologia que aqui bem se clarifica, o actual inquilino de Belém quase mereceu auto-de-fé. Cuide-se, pois, caro Luís.

    1. O problema é que as palavras que usamos arrastam, quer queiramos quer não, uma história que influencia os seus potenciais sentidos.

  2. Olá companheiro Luís… um abraço para ti.
    Deves estar surpreendido com esta minha intervenção mas o facto de estar longe… muito longe… e o de ter tempo… faz-me estar ainda mais atento ao que se passa po aí…
    cheguei ao teu blog através do “correntes”… e o que escreveste suscitou-me uma pequena… mas muito séria… brincadeira…
    Fui ao diccionário … retirei os siginficados de duas palavras… “razão” e “vazio”… que passo a transcrever…

    razão

    s. f.
    1. O conjunto das faculdades intelectuais.
    2. Fonte do raciocínio.
    3. Justiça, dever, equidade.
    4. Argumento.
    5. Causa, motivo.
    6. Prova.
    7. Firma que adopta uma casa de comércio.
    8. Mat . Quantidade que numa progressão opera sempre do mesmo modo (razão directa, relação entre duas quantidades que aumentam ou diminuem na mesma proporção; razão indirecta ou inversa, relação entre duas quantidades tais que uma aumenta na mesma proporção em que a outra diminui).
    razões

    s. f. pl.
    9. Questões, contendas, alterações, quezílias, zangas.
    s. m.
    10. Com. Livro em que são lançados os créditos e débitos.
    11. À razão de: na proporção de.
    12. Dar razão: aplaudir.
    13. Dar conta.
    14. Idade da razão: aquela em que as faculdades intelectuais atingem todo o seu desenvolvimento.
    15. Perder a razão: enlouquecer.
    16. Ser de razão: ser justo. (Ver rasão.)

    vazio

    adj.
    1. Que não encerra nada ou só ar. ≠ cheio
    2. Despovoado. = ermo ≠ povoado
    3. Despejado.
    4. Destituído.
    5. Fútil; frívolo; oco.
    6. Desprovido. ≠ cheio
    s. m.
    7. O espaço vazio, o vácuo. ≠ cheio
    8. Nome vulgar do hipocôndrio.
    9. Trás-os-M. Carneiro novo, já castrado.
    10. Parte da perna dianteira do boi junto à barriga, abaixo da pá.
    vazios

    s. m. pl.
    11. Veter. Ilhargas (de cavalgadura); flancos.
    12. Cabeça vazia: sem ideias.
    13. Com as mãos vazias: sem ter nada que dar.
    14. Coração vazio: sem afeições.

    Posto isto… meu caro… Luís… onde a RAZÃO não existe… apenas há o VAZIO…

    Mais um abraço e desculpa a brincadeira…

    1. É de polissemia que queria falar?
      Muito bem! Quase (por prudência, ainda estou a pensar) todos os significados de “razão” que elenca estão subordinados ao primeiro: o intelectual. É por metonímia que fonte de raciocínio se diz razão (Kant, a razão como faculdade). Veja Kant, há a razão prática – que tem a ver com justiça, – a razão aplicada à estética, com a faculdade de julgar. Ajustiça vem da razão. A matemática é toda ela racional (de razão, não sei se é preciso dizer), mesmo depois de ter criado os números irracionais e os números imaginários. Se você tem um número que consegue expressar sob a forma da relação aritmética entre dois outros, ainda que essa seja a única maneira, estamos perante um número racional. Já PI e a RAIZ DE DOIS, são irracionais, porque escapam à série dos números que se podem exprimir. Que se faz então, cria-se um novo conceito, o dos números irracionais que expandem o conceito de número. Uma razão ou divisão é apenas uma forma racional de expressar um número.
      Por isso, fico sem perceber o significado da brincadeira. O que está em causa é o que já disse acima – substituir-se um conselho executivo, por uma comissão que é SÓ ADMINISTRATIVA. Ferida de morte, à partida, independentemente, da qualidade dos seus membros.

  3. Na “bricadeira” anterior… em vez de “anónimo”… deve ler-se… “Olhando do Oriente”… vê-se mesmo que sou um novato nisto…
    As minhas desculpas… 😉

    1. Caro, olhando,
      Só quis mostrar que a diversidade de significados de uma palavra não denota grande coisa. O que interessa é mostrar as relações e as diferenciações de sentido que se produzem na história e nos contextos de uso.
      Creio que foi o que fiz com “administrativo”. A opção por esta palavra é significativa. Para o mostrar, recorri à história do uso e à análise de contextos.
      De resto o oriente é um bom lugar mais para ser olhado o que para se olhar.
      Obrigado

      1. Calma amigo Luís… apenas estava meter-me contigo… e a dizer-te… que concordo plenamente com o que escreveste… e que realmente… quando se não tem razão… apenas existe o… vazio. É o que este ME tem criado… vazios… e nada mais.

        Um abraço.

        Agostinho, ex-colega de educação física… agora em Macau.

        1. Foi o que entendi.
          E percebi logo que do oriente só podia ser uma pessoa, pois lá não existe quase ninguém. Eu sabia que o oriente fica em Macau ou lá perto.
          Mesmo assim, quis responder “à letra”.

        2. Agostinho, no teu primeiro comentário fiquei convencido de que estavas a contestar o meu “post”, mas não que estivesses necessariamente do outro lado da coisa. Entendi como uma crítica amigável, como quem diz “assim não vais lá”. Defendi o meu artigo com ferocidade argumentativa porque é assim que respondo sempre.
          Parecia que estavas a tentar mostrar que, pela análise das palavras, poder-se-ia dizer o que se quisesse dada o amplo leque de significados possíveis que uma palavra pode ter. Para isso, exibias as entradas de “vazio” e razão.
          Agora vejo que faz algum sentido o que tu disseste, pois eu acabo o meu artigo com a palavra “vazio”.
          Seja o que for, a brincar ou a sério, o Sem Rede é um lugar onde pode haver esclarecimentos, mas onde as desculpas não são necessárias.
          Não, no primeiro comentário, ainda não tinha descoberto que eras tu. Talvez não saibas, mas podiam ser mais pessoas. Vivi em Moçambique e tenho relações perdidas que andam por aí. Depois, fui ao blog do Paulo e pelo teor dos comentários percebi que eras tu.
          Brinquei com “Olhando do Oriente” porque é verdade que são os ocidentais que olham para lá desejosos de exotismo. Na verdade, o oriente é um objecto que nunca olha. A não ser é claro no teu caso, que ficaste à varanda a olhar para cá. Tens que o dizer, pois o oriente é tão sedutor que nós esquecemos que alguém nos possa estar a olhar de lá.

          1. Obrigado Luís, pode parecer-te estranho mas foi com uma satisfação enorme… e não sem alguma emoção que li este teu comentário. Foi realmente com a única intenção de me “meter” contigo, no bom sentido… que ousei introduzir um comentário… e peguei exactamente na palavra com que acabavas o teu texto (para mim brilhante) e que me permitia estabelecer uma relação entre o Vazio… e o não se ter Razão… porque… confesso… análises mais profundas… eu não tenho conhecimento para as fazer.
            Estou realmente à varanda a olhar para aí… e ficarei sempre… e sempre disponível para vos ser útil no que estiver ao meu alcance…
            Um grande abraço para ti… e bem hajas.

  4. Luís deste-nos uma óptima lição. Obrigada pelo teu post. Na verdade a nossa escola está estranha. Já não ouvimos os gritos da D. Teresa, a Ana já não entra na sala de professores com os seus comentários… Há um descontentamento geral.

    1. Parece que ninguém precisa do conselho executivo, uma vez que não recorrem à CAP, que se fecha com arame farpado à entrada, não é?

    2. Maria de Jesus, obrigada,muito obrigada mesmo…Nem sabes como fiquei feliz ao ler o teu comentário. Nunca pensei escrever isto!… Mas é mais um pequeno passo na minha vida… Estou finalmente a conseguir!… Confesso que estou empenhada em reduzir a minha energia, alegria , e não só, também estou a fazer um esforço para ocupar a minha “mente”, com outras actividades…É tudo uma questão de “proporções” … Mas tenho a memória repleta de bons momentos, principalmente, naquele ano em que dividimos o 1ºlugar, no fabuloso , CONCURSO DE CHAPÉUS DE PRIMAVERA…

  5. Será que as expressões usadas para designar a entidade que “manda na escola”, são sinónimos, como afirmas no 1º parágrafo?
    Por exemplo, a expressão “conselho executivo” reenvia-nos para as ideias, tout court, de colegialidade e de governo da escola. Já na palavra “Director”, não se sabe se o que dirige uma escola detém o poder executivo ou extravasa para além deste.
    Parece que, como em política, em que não tem o mesmo significado ser “Presidente do Conselho de Ministros” (designação usada por Salazar) ou ser primeiro-ministro (caso dos actuais governos), também não é o mesmo ser chamado “Director” ou “Conselho Executivo”, etç.
    Não é nunca inocente a escolha de qualquer palavra, momente nestas em que está em causa o governo de uma instituição.
    Essa escolha, que obedece a uma estratégia politica específica, é a marca ou assinatura de “quem manda na escola”, através da qual se operam os tipos de reconhecimento e se instauram as relações de poder e de obediência dos membros da comunidade.
    Julgo também que a expressão “quem manda” contêm alguma ambiguidade, porque podemos entender este mando como autoridade (e aí, tudo bem!) mas também podemos pensar que se está falar de poder.
    Ora, não há que esquecer que, numa escola, quem manda tem apenas autoridade, nunca o poder, esse reside no povo. E se a soberania reside permanentemente no povo – essa não se delega – é bom que quem detém a autoridade a exerca sempre em conformidade com os direitos dessa parte do povo onde impera. E, para isso, que melhor do que encontar um nome para quem manda que venha em consonãncia com o espírito de uma democracia deliberativa evoluída, em vez de musculada?

    1. Agradeço as análises conceptuais aqui feitas e que me parece que completam o meu texto.
      De facto, comecei por tentar restringir a sinonímia das expressões ao contexto de “quem manda na escola”, num sentido muito corriqueiro, para, depois, me dedicar à distinção entre administrativo e pedagógico que está presente em toda a legislação relevante para este assunto. Tudo para desembocar numa questão: como é que um conselho executivo pode ser substituído por uma comissão que é só administrativa?
      Tu avanças noutro sentido, muito pertinente, o das diferenças entre o poder pessoal do Director, face ao exercício colegial do conselho executivo.
      Obrigado

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