O conceito de manual de Língua Portuguesa

Nos textos universitários de didáctica da leitura é
comum a crítica – ou mesmo, a denúncia – de textos
cortados, ou melhor, amputados, nos manuais escolares. Contudo, os
manuais escolares continuam a basear-se num conceito de antologia que
é predatório relativamente à coerência
tanto da história como do texto enquanto unidade estética
e mensagem.

Muitos alunos não lêem outra coisa que não os
textos dos manuais e ficam provavelmente com uma má imagem do
que é a leitura literária, ou, mesmo, do que é a
leitura de um texto com princípio, meio e fim. É, além
disso, o próprio conceito de livro que é prejudicado.

Os professores que pretendem proceder contra este estado de
coisas, enfrentam a omnipotência do manual como único
recurso que conseguem impor à generalidade dos alunos, na
presente situação. Escolher uma obra para leitura
completa na sala de aula é virtualmente impossível
porque os alunos mais carentes quer quanto aos meios sócio-económicos
quer quanto ao "habitus" escolar de que fala Bourdieu, são
os que mais precisam dessa aula de leitura e são precisamente
os que não compram o livro. De nada vale, pois que os manuais
incluam guias de leitura de "obra completa" porque não
serão realizadas pelos professores.

De facto, não há qualquer motivo para que os
conteúdos de Língua Portuguesa não sejam
trabalhados exclusivamente com textos inteiros, salvo uma ou outra
finalidade, em que se admita o corte (de facto, não me lembro
de nenhuma), a não ser o custo do manual e o problema dos
direitos editoriais.

Por isso, proponho, que o conceito de manual escolar de língua
portuguesa inclua a selecção de textos completos que o
autor do manual escolheu como objecto didáctico. Se esses
textos são uma edição escolar separada do
suporte do manual ou lá estejam incluídos é uma
questão menor, neste contexto. Assim a minha imagem do manual
de língua portuguesa para o 2º ciclo, inclui os seguintes
elementos:

– textos completos seleccionados pelo autor do manual – contos,
poemas, provérbios, etc… e novela(s) ou romance(s)
juvenil(is) –
– sequências de actividades e de fichas de auto-avaliação
destinadas ao trabalho autónomo do aluno.
– apêndice conceptual de gramática da língua, da
escrita, do texto e da comunicação, que completa os
conceitos dispersos pelas fichas de trabalho.
– guia pedagógico para o professor (que pode incluir outros
recursos, como planos de aula, propostas de actividades, através
dos quais o autor pretende influenciar e apoiar o trabalho do
professor).

À guisa de conclusão lembro que alguns dos tesouros
literários da humanidade foram "encomendas"
escolares feitas pelos governos aos autores. Cito dois exemplos: A
Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson de Selma Lagerlof e A Mensagem
de Fernando Pessoa. É uma incrível traição
que o sistema de ensino esteja a destruir estes textos nos manuais
escolares!

(publicado no Netprof:
http://www.netprof.pt/servlet/forum?TemaID=NPL0129&id=492&msg=3620)

2 comentários em “O conceito de manual de Língua Portuguesa”

  1. Luís, não posso estar mais de acordo contigo. E, se eu pudesse aumentar um dado pessoal dir-te-ia que poucas coisas me foram mais empolgantes do que fazer isso mesmo que dizes, mas, infelizmente, não em Língua Portuguesa. No liceu – sim, porque eu não fui a tempo de frequentar escolas secundárias – duas das minhas mais empolgantes experiências envolveram a leitura de obras completas. The Catcher in the Rye, do J.D. Salinger e o The Old man and the Sea, do Hemingway. Tive professores sensatos que me impuseram a leitura de dois livros inteiriços e escrever os respectivos resumos. Não eram duas coisas longas; eram duas coisas apaixonantes. E assim foram esses meus dias: obras completas. Era puto. Empolgava-me com aquilo. Não era o único. Quando pego hoje, num e noutro, sou um ganda puto e empolgo-me. E já soube, entretanto, que não sou o único.

  2. É, pois, fundamental ver os textos que os manuais contêm. Os textos são o essencial num manual de Língua Portuguesa.
    De acordo com a literatura da especialidade e as directrizes propostas pela política educativa portuguesa, o manual escolar de língua portuguesa deve incluir textos de tipologias diversas (narrativa, poesia; drama) e devem ser de bons e diversos autores portugueses e estrangeiros. A selecção textual deve ainda contemplar a diversidade de temas, géneros e tipos de texto. Poemas, crónicas, fábulas, contos, trechos de romance, narrativas de ficção científica, peças de teatro, artigos, telegramas, cartas, reportagens, anúncios, gráficos, tabelas, notícias, BDs, letras de música e outros géneros extraídos de contextos sociais devem figurar no manual.
    Por outro lado, os textos que o manual contém devem proporcionar um progressivo grau de conhecimento de vocabulário e de situações relativas ao “eu” e ao mundo, as actividades propostas devem ser variadas e os questionários devem conter perguntas que exijam operações cognitivas de progressivo grau de complexidade.
    Como há bons e maus manuais, também há bons e maus professores. Um bom professor é aquele que confere ao manual a importância que ele deve ter. Não o encara como um pequeno ditador da sala da aula, mas como um orientador do processo de ensino/aprendizagem. Compete ao professor, adequar o manual aos alunos que tem à sua frente e colmatar as suas falhas. Não podemos aceitar que um mau manual torne mau o ensino e incompetentes os alunos que por ele estudam. Não podemos exterminar os professores.
    Esperança Martins
    esperancamartins@ua.pt

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