Rebeldes, revolucionários ou ladrões?

 

São simplesmente ladrões ou realmente revolucionários ou rebeldes?

Habituámo-nos a ver em protestos, por todo o lado, indivíduos de cara tapada que se diferenciam dos vulgares manifestantes pela atitude e determinação na ação que tomam.

Alguns são profissionais dos movimentos anti-globalização ou anti-capitalistas que se deslocam de evento em evento, para se misturarem com os manifestantes locais e partir a loiça toda.

Nos recentes acontecimentos na Inglaterra terá acontecido isso?

A verdade é que houve protestos e grandes manifestações contra a política de cortes na despesa pública do governo conservador.

Sabe-se que esses cortes atingiram gravemente a juventude da periferia. Muita da acção violenta parece constituir inquestionavelmente uma revolta de jovens que não têm qualquer solução que os integre no sistema económico e social. Não têm, contudo, nenhum movimento político que lhes dê cobertura e que os oriente numa perspectiva integrada de luta política e social. Na verdade, tudo o que fazem não serve para atrair outros para a sua causa.

Foi então uma explosão social sem controlo?

Na imprensa, nota-se uma tendência para associar estes jovens desordeiros com um genérico anarquismo.

Mas aqueles que se auto-consideram “anarquistas” rejeitam completamente esta responsabilidade. Por exemplo, a Anarchist Federation repudia qualquer opção violenta na luta contra os cortes nas despesas sociais do governo conservador. Pois apenas aceita grandes ações de massas com vista à conquista da opinião pública num movimento contra o governo e não ataques a pessoas e propriedades (cf. Freedom online), mas acusam os trotsquistas e marxistas de se fazerem passar por anarquistas e se infiltrarem nos seus movimentos. O Socialist Party, partido de esquerda de orientação trotsquista, também repudia a ação dos “rioters, looters e arsonists”, isto é os que atacam roubam e incendeiam, mas analisam sociologicamente o evento e apontam os dedos às políticas de direita, liberais e capitalistas que levaram os jovens a cometer esses crimes, ao deixá-los sem emprego, sem apoios e sem qualquer orientação social. Reconhecem a falta de consciência de pertença à classe trabalhadora que os leva a essas atitudes (cf. Con-dems to-blame for anger of youth mass trade union led workers response needed).

Contudo, há grupos anarquistas e marxistas que optam claramente pela violência como forma de ação. Muitos serão os tais que vão de cimeira em cimeira internacional manifestar-se violentamente contra a globalização. Num blogue, por exemplo, encontro uma descrição na primeira pessoa de um ataque a uma esquadra em Birmingham (Attack on Bristol police claimed by anarchists).

Portanto, há com certeza, líderes com uma orientação anarquista violenta que organizam os eventos através de telemóvel, de onde a referência a Blackberries. Atcam lojas, pessoas que consideram bem instaladas no sistema que criticam e, especialmente, organizações conotadas com o capitalismo – veja-se o ataque por 1000 activistas contra a Fortnum & Mason).

Há, pois, um discurso anti-capitalista de fundo nos motivos dos “rioters” ingleses. A essas ações junta-se o puro roubo de bens, o saque das lojas que aproveitam diretamente a quem os faz. Essa imagem domina e torna politicamente irrelevante no sentido em que não conduz a uma opção consistente de uma esquerda revolucionária.

Os comentadores de direita acusam o longo periodo trabalhista como o responsável por esta vaga de jovens dependentes da segurança social, formados numa escola inútil que não lhes deu qualquer perspectiva de futuro.

Os comentadores de esquerda acusam as políticas neo-liberais como causadoras desta revolta.

O Economist, num registo áudio na sua página conclui que, com estes acontecimentos, são as ideias mais conservadoras a propósito da segurança e dos apoios sociais que vencem (Anarchy in the UK).

A crise económica e social na Europa está a ser demasiado cara para os mais fragilizados socialmente. Há que procurar um equilíbrio entre apoios sociais e responsabilidade individual. Que a hora agora é de repressão, não há a menor dúvida. Mas depois há que equacionar tudo. Os trabalhistas ou outros no seu lugar terão que fazer a sua parte na ação política contra o governo conservador e ocupar o lugar desse discurso anti- que não leva a lado nenhum.

6 comentários em “Rebeldes, revolucionários ou ladrões?”

  1. Luis, quando afirma que estes jovens não têm uma direcção política que oriente a sua luta colocas o dedo na ferida.
    A questão a analisar é o porquê dessa ausência de direcção política e aí entra o papel ideológico dos media, sobretudo ligados à social democracia, que durante mais de meio século vêm diabolizando e distorcendo as propostas comunistas de oposição e enfrentamento do poder do capital financeiro.
    Aplaudem-se os 12M em Portugal e 15M em Espanha, mas atacam-se as centrais sindicais de classe, acusando-as de estarem ao serviço de comunistas façanhudos e perigosos. E no fim lamenta-se que os jovens roubem e destruam, por não terem orientação política.
    Abraço.

    1. Ao dizer isso, estou apenas a constatar um facto. É evidente que não podemos negar o carácter político destas acções como quer a Filomena Mónica. A verdade é que não há nenhuma organização que se ponha do lado deles (nem tem que haver). Uma acção política que consiste em desordem e violência, com muitos crimes e oportunismos pelo meio!

      1. Claro que foi. Mas porquê? Ideologia oblige…
        Dois idiotas de 21 anos espancam idoso e roubam-lhe o dinheiro da reforma – noticiado como dois “homens” de 21 anos.
        Alguns patetas de 21 anos, revelando simpatia por ideais conservadores, manifestam-se na rua, envolvendo-se em zaragata com as forças de ordem – noticiado como polícia teve de intervir para travar “neo-nazis”.
        Energúmenos de 21 anos incendeiam automóveis na cidade europeia onde se encontrava G Bush, ou saqueiam lojas após vitória do partido conservador, ou destroiem plantação de milho transgénico, ou manifestam-se desordeiramente frente à embaixada israelita de Madrid – noticiado, invariavelmente, como “jovens”.

  2. Se necessário fosse certificar o que afirmo supra, bastaria ler no “Público” de hoje a notícia o desfecho do processo judicial sobre os “jovens” que profanaram um cemitério hebraico em Lisboa.

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