A literatura contra a leitura

Já tratei aqui do canone escolar, a propósito das metas curriculares. Resumo a minha opinião no seguinte: onde temos valores literários equivalentes, deve caber ao professor e aos seus alunos a responsabilidade da escolha. Quando o texto é uma obra de valor literário imcomparável, como é o caso de Os Lusíadas, é aceitável que o programa a imponha.

Com as metas e com o programa do secundário, viu-se em ação um outro critério que pode ser interpretado como o regresso do livro único. Registam-se não só títulos, mas também as próprias edições, de obras impostas aos alunos do básico e do secundário.

Tive curiosidade em ver como se fazia isto noutros países. Começarei pela França. Num documento governamental que trata do programa do secundário, quanto ao objeto de ensino do francês, decide-se o seguinte:

  • Para o romance e a novela do século XIX (naturalismo e realismo), propõe-se “Un roman ou un recueil de nouvelles du XIXème siècle, au choix du professeur“.
  • Para o século XVII (classicismo), “une tragédie ou une comédie classique, au choix du professeur.”
  • Para a poesia dos séculos XIX e XX, “Un recueil ou une partie substantielle d’un recueil de poèmes, en vers ou en prose, au choix du professeur.”
  • Para estudar os géneros e formas de argumentação dos seéculos XIX e XX, “un texte long ou un ensemble de textes ayant une forte unité : chapitre de roman, livre de fables, recueil de satires, conte philosophique, essai ou partie d’essai, au choix du professeur.”

A expressão mais repetida é precisamente esta: “au choix du professeur“

Neste programa, definem-se critérios para o professor seleccionar textos que contextualizam historicamente as obras que seleciona. As categorias empregues não referem generalizações histórico-literárias, sempre discutíveis, pois correm o risco de inserir os textos muito arrumadinhos numa meta-narrativa que conduzem a uma leitura meramente ilustrativa ou exemplificativa dos textos. Trata-se, pelo contrário de categorias analíticas.

Exemplifico: “Un ou deux groupements de textes permettant d’élargir et de structurer la culture littéraire des élèves, en les incitant à problématiser leur réflexion en relation avec l’objet d’étude concerné.”

No nosso programa, são considerados como conteúdos tanto os textos literários como generalizações histórico-literárias. Por exemplo, os sonetos de camões já estão “lidos” no programa sob os tópicos:

A reflexão sobre a vida pessoal.

O tema do desconcerto.

O tema da mudança.

A leitura escolar, com este programa, tenderá a ficar reduzida ao reconhecimento destes tópicos nos textos. É aqui que me parece que o programa se antecipa à leitura que os alunos poderão fazer. Os nossos jovens nem terão que procurar outras palavras. Trata-se apenas de reconhecer pr exemplo que um certo poema corresponde ao tema do desconcerto e da mudança.

Será que assim aprendemos a dar sentido, a descobrir sentidos ancorados nos textos quando o programa já fez esse trabalho? Não se tratará só de reconhecer as etiquetas?

O programa dá-nos pois os textos lidos de tal maneira que muitos alunos dispensarão a leitura.

 

Site consultado:

Programme de l’enseignement commun de français en classe de seconde générale et technologique et en classe de première des séries générales et programme de l’enseignement de littérature en classe de première littéraire

 

À NSA e CIA

 

Exmos Senhores,

 

Isto era para ser uma carta pessoal, mas como vocês lêem, seja por que meio for, aqui está o que eu tenho para vos dizer.

Não vejo mal nenhum que andem a espiolhar os meus emails, desde que não contem a mais ninguém o que leram. Há lá muitos segredos, mas que interessam sobretudo a quem está a um ou dois metros de distância de mim.

Mas o que eu acho imperdoável é que andem para aí a ler a minha prosa e não dêm nem uma palavrinha, sobre o estilo, os temas, as histórias, as ideias, etc. Vá lá, digam lá alguma coisa.

Ah, aquilo da Alcaeda, das bombas e do terrorismo, era só para ver se vocês encontravam os meus escritos. Espero que tenham lido o resto que é o que interessam.

Não levem a mal as piadas sobre o Bush. Então, já mudámlos de administração e sobre o Obama, eu não disse quase nada, nem sequer brinquei com os nomes Ossama e Obama.

 

Cumrprimentos lá em casa.

À NSA e CIA

 

Exmos Senhores,

 

Isto era para ser uma carta pessoal, mas como vocês lêem, seja por que meio for, aqui está o que eu tenho para vos dizer.

Não vejo mal nenhum que andem a espiolhar os meus emails, desde que não contem a mais ninguém o que leram. Há lá muitos segredos, mas que interessam sobretudo a quem está a um ou dois metros de distância de mim.

Mas o que eu acho imperdoável é que andem para aí a ler a minha prosa e não dêm nem uma palavrinha, sobre o estilo, os temas, as histórias, as ideias, etc. Vá lá, digam lá alguma coisa.

Ah, aquilo da Alcaeda, das bombas e do terrorismo, era só para ver se vocês encontravam os meus escritos. Espero que tenham lido o resto que é o que interessam.

Não levem a mal as piadas sobre o Bush. Então, já mudámlos de administração e sobre o Obama, eu não disse quase nada, nem sequer brinquei com os nomes Ossama e Obama.

 

Cumrprimentos lá em casa.

A descida sueca no PISA

Fernando Adão da Fonseca no Público mostra dados que aparentemente evidenciam o maior sucesso das escolas independentes relativamente às públicas no teste PISA. Aquelas teriam até melhorado os resultados em 10%. O desastre teria vindo de testes feitos por alunos de municípios onde praticamente não há escolas independentes. De onde veio então a grande descida sueca nos resultados do PISA? Se as escolas públicas pioraram com a emergência das independentes e, no cômputo geral, a qualidade nacional diminuiu, temos comprovado que a aposta política nesse tipo de escolas deu mau resultado.

Mandela e Luthuli

Albert Luthuli

 

Nelson Mandela foi sem dúvida, um grande homem, um David que se levantou contra os Golias que oprimiam o seu povo, mas não o mito que dele se fez após a sua libertação da prisão. 

Mandela não é desde o seu início um Gandhi a procurar a harmonia entre os homens e a pregar a não-violência.

Nelson Mandela foi preso por ter criado uma organização de guerrilha para combater o regime do Apartheid na África do Sul.

Quando Mandela fundou o Umkhonto we Sizwe (braço armado do ANC, “A lança da nação”), o Congresso Nacional Africano era dirigido por Albert Luthuli (1898-1967) que era contra a violência. Luthuli era influenciado por Ghandi e ganhou o Nobel da Paz pelas campanhas não violentas que organizou na sua luta contra o Apartheid.

Mas, em 1961, Mandela conseguiu impor a sua ideia de iniciar a luta armada contra a minoria branca racista. Acabou preso e só foi liberto quando o regime do Apartheid, criado em 1948, chegou ao seu fim. Não foi a guerrilha do ANC que levou este governo ao fim, mas sim as suas próprias dificuldades numa África Austral e numa cena internacional cada vez mais hostil.

 

 

  

 

 

Diálogo sobre a desigualdade social

“Vamos começar o nosso diálogo socrático sobre a desigualdade social seguindo algumas das lições do nosso longínquo mestre”.

 “Muito bem, estou de acordo, mas se me permites poupemos aos nossos leitores aquela parte em que Sócrates se encontra com o seu interlocutor e lhe pergunta de onde ele vem e para onde vai. Ora, todos sabem de onde vens e, quanto a mim, fico-me aqui por estas linhas”

 “Pois bem, sei das tuas limitações espacio-temporais. Mesmo assim, tens feito alarde das tuas posições marxistas (não ortodoxas, como gostas de assinalar) críticas da desigualdade. Não estás sozinho nisso. Aparentemente, não falta gente de direita e de esquerda a falar contra a desigualdade social“

“Começamos pelo termo, pois é muito frequente as palavras serem uma fonte de enganos, apesar de sem elas não nos podermos entender. Quem se afirma contra a desigualdade é defensor da igualdade. Não estás de acordo?”

“Bem, isso não oferece a menor dúvida”

“Também te parece que a desigualdade social implica desigualdade no rendimento”

“Claro. O essencial é mesmo a desigualdade económica. Os liberais é que parecem querer convencer-nos que os pobres são assim por inclinação ou por preguiça incurável”

“Defendes então a igualdade de rendimentos, isto é, que toda a gente deve ganhar a mesma coisa”

“Sou a favor de alguma igualdade de rendimentos, mas não de uma igualdade absoluta”

“Sejamos rigorosos, não há mais ou menos igualdade, só há igualdade. A desigualdade é que é graduável. Devo, então concluir que és defensor da desigualdade…”

“Eh lá, isso agora ofende-me”

“Mas então se recusaste a igualdade, só podes ser a favor da desigualdade.”

“Bem, o que eu pretendo é que a desigualdade diminua”

“Então tu e todos os outros paladinos são de uma forma geral defensores da desigualdade e não propriamente da igualdade. Mas revoltam-se contra o grau de desigualdade e querem diminuí-la?”

“Mas diminuir muito, quero enfatizar isto”

“Só te fica bem e podes crer que os teus companheiros de luta dessa nobre causa não serão tão diferentes assim. Tanto mais que tu és um dos beneficiados com a desigualdade de rendimentos no teu país, pois ganhas três vezes o salário médio em Portugal. A questão que te quero pôr é se achas realmente que a tua praxis vai no sentido de luta contra a desigualdade.”

“Bem sei que sou um privilegiado, apesar de me estar sempre a queixar de falta de dinheiro e andar à procura de expedientes para aumentar o meu rendimento. Mas tenho lutado contra o sistema capitalista que causa tudo isto, tenho feito manitestações e greves e voto sempre nos que lutam pelo socialismo.”

“Lembro-me que, há cerca de quinze anos, o teu sindicato argumentou que os vossos salários tinham que subir porque tinha aumentado o salário mínimo e a razão entre o vosso salário e o mínimo tinha-se degradado e tu participaste na vitoriosa greve que alterou a estrutura da tua carreira e aumentou estrondosamente o teu vencimento. Achas que essa luta aumentou ou diminuiu a desigualdade de rendimento?”

“Acho que diminuiu porque nós queríamos ganhar o mesmo que pessoas com as nossas qualificações académicas já ganhavam noutros setores“

“Achas então que a luta contra a desigualdade faz-se reivindicando aumentos que nos aproximem dos que ganham mais do que nós e impedindo que diminua a distância que nos separa dos que têm menores rendimentos?”

“Bem, quer dizer, cada grupo luta por si.”

“E eu não estou contra isso. O problema é enquadrarem isso com um discurso ideológico que fala de igualdade real, contra a igualdade fomal da democracia burguesa. Por ti próprio, verificas que isso é falso. A única maneira de compreender as lutas dos trabalhadores atualmente é o que tu disseste “cada grupo por si”. Queremos ser um corpo especial, com uma carreira própria, para aumentarmos as hipóteses de sucesso na reivindicação de mais regalias. E nisso não diferimos de todos os outros grupos corporativos. Não vemos um comunista chegar ao pé de nós e dizer: vocês já ganham muito relativamente ao resto do povo, deixem-se de reivindicações, agora vamo-nos preocupar só com os jovens desempregados e com os desempregados de longa duração. A hipocrisia está aí: querer sustentar uma praxis corporativa com o palavreado duma luta por um socialismo igualitarista.

Diálogo sobre a desigualdade social

“Vamos começar o nosso diálogo socrático sobre a desigualdade social seguindo algumas das lições do nosso longínquo mestre”.

 “Muito bem, estou de acordo, mas se me permites poupemos aos nossos leitores aquela parte em que Sócrates se encontra com o seu interlocutor e lhe pergunta de onde ele vem e para onde vai. Ora, todos sabem de onde vens e, quanto a mim, fico-me aqui por estas linhas”

 “Pois bem, sei das tuas limitações espacio-temporais. Mesmo assim, tens feito alarde das tuas posições marxistas (não ortodoxas, como gostas de assinalar) críticas da desigualdade. Não estás sozinho nisso. Aparentemente, não falta gente de direita e de esquerda a falar contra a desigualdade social“

“Começamos pelo termo, pois é muito frequente as palavras serem uma fonte de enganos, apesar de sem elas não nos podermos entender. Quem se afirma contra a desigualdade é defensor da igualdade. Não estás de acordo?”

“Bem, isso não oferece a menor dúvida”

“Também te parece que a desigualdade social implica desigualdade no rendimento”

“Claro. O essencial é mesmo a desigualdade económica. Os liberais é que parecem querer convencer-nos que os pobres são assim por inclinação ou por preguiça incurável”

“Defendes então a igualdade de rendimentos, isto é, que toda a gente deve ganhar a mesma coisa”

“Sou a favor de alguma igualdade de rendimentos, mas não de uma igualdade absoluta”

“Sejamos rigorosos, não há mais ou menos igualdade, só há igualdade. A desigualdade é que é graduável. Devo, então concluir que és defensor da desigualdade…”

“Eh lá, isso agora ofende-me”

“Mas então se recusaste a igualdade, só podes ser a favor da desigualdade.”

“Bem, o que eu pretendo é que a desigualdade diminua”

“Então tu e todos os outros paladinos são de uma forma geral defensores da desigualdade e não propriamente da igualdade. Mas revoltam-se contra o grau de desigualdade e querem diminuí-la?”

“Mas diminuir muito, quero enfatizar isto”

“Só te fica bem e podes crer que os teus companheiros de luta dessa nobre causa não serão tão diferentes assim. Tanto mais que tu és um dos beneficiados com a desigualdade de rendimentos no teu país, pois ganhas três vezes o salário médio em Portugal. A questão que te quero pôr é se achas realmente que a tua praxis vai no sentido de luta contra a desigualdade.”

“Bem sei que sou um privilegiado, apesar de me estar sempre a queixar de falta de dinheiro e andar à procura de expedientes para aumentar o meu rendimento. Mas tenho lutado contra o sistema capitalista que causa tudo isto, tenho feito manitestações e greves e voto sempre nos que lutam pelo socialismo.”

“Lembro-me que, há cerca de quinze anos, o teu sindicato argumentou que os vossos salários tinham que subir porque tinha aumentado o salário mínimo e a razão entre o vosso salário e o mínimo tinha-se degradado e tu participaste na vitoriosa greve que alterou a estrutura da tua carreira e aumentou estrondosamente o teu vencimento. Achas que essa luta aumentou ou diminuiu a desigualdade de rendimento?”

“Acho que diminuiu porque nós queríamos ganhar o mesmo que pessoas com as nossas qualificações académicas já ganhavam noutros setores“

“Achas então que a luta contra a desigualdade faz-se reivindicando aumentos que nos aproximem dos que ganham mais do que nós e impedindo que diminua a distância que nos separa dos que têm menores rendimentos?”

“Bem, quer dizer, cada grupo luta por si.”

“E eu não estou contra isso. O problema é enquadrarem isso com um discurso ideológico que fala de igualdade real, contra a igualdade fomal da democracia burguesa. Por ti próprio, verificas que isso é falso. A única maneira de compreender as lutas dos trabalhadores atualmente é o que tu disseste “cada grupo por si”. Queremos ser um corpo especial, com uma carreira própria, para aumentarmos as hipóteses de sucesso na reivindicação de mais regalias. E nisso não diferimos de todos os outros grupos corporativos. Não vemos um comunista chegar ao pé de nós e dizer: vocês já ganham muito relativamente ao resto do povo, deixem-se de reivindicações, agora vamo-nos preocupar só com os jovens desempregados e com os desempregados de longa duração. A hipocrisia está aí: querer sustentar uma praxis corporativa com o palavreado duma luta por um socialismo igualitarista.

Congresso das esquerdas – uma “fronda” da classe política

Soares a dirigir os políticos contra o governo

 Soares a dirigir a classe política contra o governo.


A minha formação marxista obriga-me a pensar objetivamente os fenómenos sociais.

Sublinho “objetivamente” para fugir a qualquer juízo de intenção. As motivações individuais variam com certeza. Só cada um, o seu padre ou o seu psicanalista pode falar sobre elas.

O que me interessa aqui é procurar as condições que explicam fenómenos de massas, ainda que estas sejam muito perfumadas. O que está aqui em causa é compreender porque é que tanta gente se une contra um governo que para muitos deveria ser o seu.

Junto com Mário Soares, estiveram muitas pessoas que estão longe de se sentirem à vontade com o punho erguido duma rosa demasiado vermelha.

O fenómeno da oposição ao governo do PSD tem indícios muito anteriores. Bem sabemos que é comum haver “enfants terribles” daqueles que, assim que saem de cena, começam a estragar o jogo dos que lá ficam – Manuel Maria Carrilho no PS, por exemplo. Mas aqui há algo mais.

Vimos Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Pacheco Pereira, António Capucho entre vários outros.

Do lado do PS, que deveria também estar comprometido com a Troika, não faltam exemplos de pessoas que tomam a iniciativa em prejuízo da direção do partido.

O que é que há de objetivo nesta onda? Primeira questão – a que classe social pertencem estas pessoas. Sim, se há luta de classes, a qual pertencem elas? O Marx do  Manifesto… acreditava que o proletariado havia de integrar a maior parte dos pequeno-burgueses que seriam proletarizados para a batalha final contra a única classe que ficaria do outro lado, a burguesia. Esta análise simplória ignora que o exercício do poder gera uma classe com interesses próprios independentes dos da classe que diz servir. Staline e os seus correligionários, Molotov, Beria, Brejnev, etc… estavam muito longe de poder ser considerados proletários. A ditadura era mais sobre do que do proletariado.

Para compreender o que une objectivamente essas pessoas temos que compreender o que eles são – a classe política – e o que os une é terem também perdido, enquanto políticos, rendimentos, quer como assalariados, quer como subsidiados (através de fundações, por exemplo), quer como reformados.

Isso é explícito em alguns testemunhos – por exemplo, de Manuela Ferreira Leite e de Bagão Félix e, mais ingenuamente, de Cavaco Silva.

Quer isto dizer que o governo está contra a classe política, a sua própria classe? O governo tenta legislar de um modo universal ignorando as categorias que permitiriam salvaguardar os políticos, mas não o consegue fazer sempre, por medo ou por interesse próprio, de classe. As exceções que faziam dos políticos um grupo à parte só há pouco começaram a ser desmanteladas. Assim o exigia a dureza das medidas impostas aos outros portugueses. A prova que temem tanto os políticos quanto os polícias está numa notícia do Expresso de ontem, “Maioria alivia cortes aos políticos”, em que o património imobiliário deixa de contar como critério para a suspensão da subvenção vitalícia. Alguns dos senhores em pé de guerra estão entre estes beneficiários da dita subvenção.

No que diz respeito a viver à custa do Estado, os políticos estão como uma boa parte dos portugueses, por isso, se não o fosse ideologicamente, seriam, pelo menos, materialmente solidários com os outros funcionários. Tal como na “fronda” francesa do século XVII, em que os nobres se revoltaram contra o rei e o seu primeiro-ministro, também aqui temos uma parte do Estado contra ele próprio, os descontentes a arrastar as massas.

Nesse sentido, é perfeitamente legítimo ler a apreensão de Soares quanto à violência, como um incitamento. Como estou aqui em baixo da pirâmide estatal, dá vontade de perguntar: “Boa, Mário Soares, por onde havemos de começar para fazer a revolução ou para a salvar? Como vamos apear aqueles que lá estão?”

Mas será que esta “fronda” nos resolve algum problema, indica algum caminho novo?

Foi com pouca admiração que vi os deputados do PS revoltarem-se contra medidas que eles próprios tinham inscrito no PEC 4. Poucas coisas se parecem tanto uma com a outra como o PSD e o PS na oposição. O primeiro fez cair um governo para fazer o mesmo, o segundo também quer que o atual caia para não fazer diferente.

Congresso das esquerdas – uma “fronda” da classe política

Soares a dirigir os políticos contra o governo

 Soares a dirigir a classe política contra o governo.


A minha formação marxista obriga-me a pensar objetivamente os fenómenos sociais.

Sublinho “objetivamente” para fugir a qualquer juízo de intenção. As motivações individuais variam com certeza. Só cada um, o seu padre ou o seu psicanalista pode falar sobre elas.

O que me interessa aqui é procurar as condições que explicam fenómenos de massas, ainda que estas sejam muito perfumadas. O que está aqui em causa é compreender porque é que tanta gente se une contra um governo que para muitos deveria ser o seu.

Junto com Mário Soares, estiveram muitas pessoas que estão longe de se sentirem à vontade com o punho erguido duma rosa demasiado vermelha.

O fenómeno da oposição ao governo do PSD tem indícios muito anteriores. Bem sabemos que é comum haver “enfants terribles” daqueles que, assim que saem de cena, começam a estragar o jogo dos que lá ficam – Manuel Maria Carrilho no PS, por exemplo. Mas aqui há algo mais.

Vimos Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Pacheco Pereira, António Capucho entre vários outros.

Do lado do PS, que deveria também estar comprometido com a Troika, não faltam exemplos de pessoas que tomam a iniciativa em prejuízo da direção do partido.

O que é que há de objetivo nesta onda? Primeira questão – a que classe social pertencem estas pessoas. Sim, se há luta de classes, a qual pertencem elas? O Marx do  Manifesto… acreditava que o proletariado havia de integrar a maior parte dos pequeno-burgueses que seriam proletarizados para a batalha final contra a única classe que ficaria do outro lado, a burguesia. Esta análise simplória ignora que o exercício do poder gera uma classe com interesses próprios independentes dos da classe que diz servir. Staline e os seus correligionários, Molotov, Beria, Brejnev, etc… estavam muito longe de poder ser considerados proletários. A ditadura era mais sobre do que do proletariado.

Para compreender o que une objectivamente essas pessoas temos que compreender o que eles são – a classe política – e o que os une é terem também perdido, enquanto políticos, rendimentos, quer como assalariados, quer como subsidiados (através de fundações, por exemplo), quer como reformados.

Isso é explícito em alguns testemunhos – por exemplo, de Manuela Ferreira Leite e de Bagão Félix e, mais ingenuamente, de Cavaco Silva.

Quer isto dizer que o governo está contra a classe política, a sua própria classe? O governo tenta legislar de um modo universal ignorando as categorias que permitiriam salvaguardar os políticos, mas não o consegue fazer sempre, por medo ou por interesse próprio, de classe. As exceções que faziam dos políticos um grupo à parte só há pouco começaram a ser desmanteladas. Assim o exigia a dureza das medidas impostas aos outros portugueses. A prova que temem tanto os políticos quanto os polícias está numa notícia do Expresso de ontem, “Maioria alivia cortes aos políticos”, em que o património imobiliário deixa de contar como critério para a suspensão da subvenção vitalícia. Alguns dos senhores em pé de guerra estão entre estes beneficiários da dita subvenção.

No que diz respeito a viver à custa do Estado, os políticos estão como uma boa parte dos portugueses, por isso, se não o fosse ideologicamente, seriam, pelo menos, materialmente solidários com os outros funcionários. Tal como na “fronda” francesa do século XVII, em que os nobres se revoltaram contra o rei e o seu primeiro-ministro, também aqui temos uma parte do Estado contra ele próprio, os descontentes a arrastar as massas.

Nesse sentido, é perfeitamente legítimo ler a apreensão de Soares quanto à violência, como um incitamento. Como estou aqui em baixo da pirâmide estatal, dá vontade de perguntar: “Boa, Mário Soares, por onde havemos de começar para fazer a revolução ou para a salvar? Como vamos apear aqueles que lá estão?”

Mas será que esta “fronda” nos resolve algum problema, indica algum caminho novo?

Foi com pouca admiração que vi os deputados do PS revoltarem-se contra medidas que eles próprios tinham inscrito no PEC 4. Poucas coisas se parecem tanto uma com a outra como o PSD e o PS na oposição. O primeiro fez cair um governo para fazer o mesmo, o segundo também quer que o atual caia para não fazer diferente.

A quem pertence a santa casa da misericórdia?

De quem é esta casa?

 

(Hiperligação da origem na imagem)

 

Santana Lopes queixa-se de que a casa que se diz santa está a substituir o estado nas suas funções. Implicitamente, leia-se, está a fazer mais do que deve. Está a ultrapassar os seus recursos, com generosidade a mais. Para ele, a casa onde mora a misericórdia não pertence ao estado. Seria uma instituição particular, privada, portanto.

Olhando para o percurso deste eminente estadista, dá vontade de perguntar se o Sporting não pertencerá também ao estado.

Se a dita santa não pertence ao estado, como é que o Santana Lopes se alcandorou ao topo da sua chefia? Ora se o provedor é nomeado pelo governo, como é que se pode dizer que a instituição não faz parte do estado? Os orgãos de gestão são feitos por representantes do governo. Portanto, a santa casa é um instrumento político do governo.

A maior parte dos seus fundos têm origem no erário público e no jogo, isto é, são contribuições feitas pelos portuguese quer como contribuintes, quer como jogadores.

Acho graça a estas instituições que pertencem ao estado, dele dependem e para ele trabalham ostentarem o título de independentes, autónomas, particulares e etc.

Diz o senhor provedor que “fazer o bem ao próximo é um privilégio nos tempos que correm nomeadamente”. Não estará com certeza a referir-se ao peso que esse esforço exerce sobre o seu próprio salário, ou está? Pois que cumpra bem a sua função, aquela para que a santa casa da misercórdia foi criada. Nem ele nem a Santa Casa estão a fazer mais do que devem, para os privilégios que têm, que lhes são dados pelos portugueses que a pagam. Honremos a rainha D. Leonor que criou a dita casa que cumpre uma função essencial do estado. Que o faça sem pieguices caritativas, mas com a consciência de um trabalho que se quer bem feito.