O valor das teses de Éric Hanushek

Li uma entrevista do Público a Hanushek. Não li nenhum dos seus textos. Estou na situação em que preciso de saber se importa realmente gastar mais tempo com a sua leitura.

Hanushek põe toda a ênfase na qualidade do professor  e afirma a comparabilidade de resultados escolares entre escolas para atribuir toda a responsabilidade pela melhor ou pior qualidade dos resultados aos professores e aos diretores.

A sua resposta negativa e lacónica a questões que remetem para outras variáveis como as variáveis culturais e o rendimento das famílias levantam-me toda a suspeição de que a sua tese se limite a correlações entre resutlados que fecham os olhos a outras variáveis para relevar apenas as que lhe interessam. Todos sabemos que numa comparação entre resultados em que usamos correlações, mesmo que uma dada correlação seja elevada pode acontecer que haja outra causa real que acompanhe – escondida – a que estamos a testar. Por exempo, mostra-se que há países desenvolvidos da Ásia que têm turmas grandes com maior sucesso do que países em que há turmas mais pequenas. Lembrei-me de num livro de Daniel Goleman sobre inteligência emocional, este apresentar dados que mostram que os sino-americanos têm resultados médios superiores ao resto da população americana. Goleman mostrava certas características do comportamento das famílias de origem chinesa que conduziam a maior sucesso escolar. Trata-se portanto dum fato cultural que se concretiza numa certa atitude perante o trabalho escolar e em práticas quotidianas dos pais de que Goleman dá conta no seu famoso livro. A cultura é mais difícil de alterar do que outras variáveis que também têm efeitos no sucesso escolar.

Como professor, alegra-me saber que sou eu que faço a diferença, mas é o próprio Hanushek que me diz que não vale a pena tentar melhorar, caso não seja bem sucedido. Ser bom professor é relegado assim para a categoria dos talentos do género “não tente que não é capaz”.

Isto acontece apenas porque provavelmente Hanushek não sabe nada sobre educação a não ser o que diz respeito à economia da educação perante a qual o que se passa na sala de aula é uma caixa negra. Tudo o que se tem que comprovar tem que ser feito pela lei dos grandes números. Por outro lado, como é um liberal, no mau sentido, acredita que a concorrência entre professores, escolas e diretores acabará por selecionar os melhores e relegar os piores para o desemprego e para a miséria, precisamente o que não queremos que aconteça com as nossas crianças.

Ora, um dos seus títulos é precisamente No Child Left Behind: The Politics and Practice of School Accountability1Lembro-me desta palavra de ordem da Administração Bush. Sugere que as crianças soçobram na escola porque deixam para trás aprendizagens essenciais sobre as quais se constroem outras. Isso acontece no nosso sistema de ensino. O facilitismo e a indiferenciação pedagógica que resulta da inclusão de alunos com percursos, capacidades e prérrequisitos diferentes numa só turma complica em extremo a tarefa do professor. Se, através de testes, verificamos que um aluno não tem conhecimentos suficientes para acompanhar um grupo de trabalho (turma) e, por isso, falha e diminui o rendimento do grupo para onde vai, deveríamos poder agir no sentido de criar um ambiente onde esses alunos pudessem progredir ao seu ritmo. Todos os selecionadores desportivos sabem isto, assim como os professores de escolas de línguas, mas na nossa escola há uma série de princípios ideológicos (inclusão, igualdade de resultados e não só de oportunidades) que impõem práticas que ignoram a realidade.

O enfoque aqui está na gestão dos grupos de alunos, na seleção do programa para cada um dos grupos, tarefas que por vezes escapam ao professor, mas devem ser tratadas no âmbito do coletivo ou da gestão da escola.

Criticando este título, uma recensão na página da AASA2 (associação americana de administradores escolares) chama a atenção para Hanushek como um autor adverso a algumas componentes da escola pública. Muitos dos títulos ficam-se pelo que eu disse atrás – correlações, mas não causas suficientemente demonstradas.

A obra de Hanushek é bastante diversificada e falar sobre ela implica muito mais do que o que fiz aqui em que me limitei a algumas impressões que, provavelmente, aprofundarei mais tarde.

 

1edited by Paul E. Peterson and Martin R. West, Brookings Institution Press, Washington, D.C., 2003.

2 Artigo na AASA.

Alemanha versus Japão

Enquanto o Japão cresce, a Europa estagna. O arranque consegue-se com a receita do primeiro-ministro japonês, já conhecida como “abenomics”, celebrizada com a expressão das “três setas”:

  • Maior liquidez proporcionada pelo banco central, permitindo uma inflação de 2%;
  • Aumento do défice com programas de investimento público;
  • Estímulo fiscal do investimento privado.

Diríamos que é tudo o que precisaríamos para aumentar o défice e a dívida pública mas também… o crescimento e o emprego, logo, a receita fiscal!. Num dos últimos suplementos de economia do Expresso, Joseph Stiglitz elogiava Abe Shinzo e zurzia na política económica da Europa.

O bloqueio europeu reside na política alemã, amiga da austeridade e alérgica a défices e a inflação.

 

As Japan Courts Growth, Europe Keeps Up Its Love Affair With Austerity no New York Times

The Abe/Aso Government “Three Arrows” Agenda for Economic Revival, na Forbes

Educação: o modelo de Singapura

 

Paulo Prudêncio. autor do blogue Correntes, chamou-me a atenção para um post sobre política educativa (A ESCOLA PÚBLICA. O que virá a seguir) no blogue Atenta inquietude do Zé Morgado. O artigo pareceu-me deslocado tanto em termos retóricos quanto informativos, pois, é declarado um conhecimento privilegiado das intenções governamentais para a seguir se apresentarem orientações que nenhuma corrente política conhecida defende.

Parece-me que temos de alicerçar as nossas reivindicações com base num conhecimento efetivo. Se nos basearmos no “diz que disse” político, as nossas posições serão facilmente desmentidas e postas a ridículo pelos governantes.

Creio que o debate da “escola pública” seguiu esta direção por o ministro da educação ter declarado que o modelo já não era a Alemanha, mas sim Singapura.

Vou fazer algum trabalho de pesquisa e elencar as caraterísticas do sistema educacional daquela cidade-estado que tanto atrai a atenção dos nossos decisores.

  • Mais de 80% dos jovens cumprem os 16 anos de escolaridade obrigatória.
  • O primário vai até ao 6º ano.
  • No final do primário, os alunos são sujeitos a um exame chamado “primary school leaving exmination“, em Inglês, Língua Materna, Matemática e Ciências, constituído por várias provas orais e escritas, cujos resultados decidirão o tipo de  currículo a seguir no ensino secundário.
  • No final do secundário, os alunos fazem exames que variam de acordo com o currículo que tiveram.
  • No secundário, há quatro tipos de currículos: Normal (T), isto é technicNormal (A), isto é, academic, Express e Special Express.
    • Em função do desempenho do aluno, os professores e o diretor da escola podem propor que um aluno salte do currículo “normal” para o “express”.  O “special” e o “express” parecem ser os mais exigentes.
    • No final do secundário, os alunos fazem exames que certificam a sua habilitação: 
      • GCE “O” Level para o Express eo Special Express
      • GCE “N” Academic Level para o currículo “Normal academic”
      • GCE “N” Technical Level para o currículo “Normal Technic”.
        • Há aqui uma hierarquia. Um aluno que revele um bom desempenho no currículo normal “técnico” pode aceder ao GCE Ordinary Level utilizando um quinto ano de preparação no secundário. Se não for o caso, pode ter sempre a sua habilitação “técnica”.

    • A seguir ao GCE “O” Level que culmina no que corresponde, grosso modo, ao terceiro ciclo em Portugal e é a “compulsory education” de Singapura, os alunos podem ir para uma escola que os prepara para o GCE A level que inclui uma enorme variedade de disciplinas, no que corresponde ao nosso Secundário e dá acesso aos cursos universitários.

  • Muitos conteúdos são trabalhados em inglês, uma segunda língua e não a língua materna da maioria dos jovens de Singapura. Esta informação torna mais admirável o desempenho que eles atingem em leitura, em ciência e matemática.
  • A média de alunos por turma é 35 alunos, de onde não me parece arriscado concluir que há turmas de 20 a 40 alunos.
  • A contratação de professores está centralizada no ministério da educação e não relegada para autoridades locais ou para as escolas.
  • As aulas do currículo fundamental são todas de manhã e as atividades extra-curriculares à tarde.
  • As finalidades de ordem ética e moral explicitam sentimentos, como o amor a Singapura, capacidades de interação social, mas também o raciocínio moral independente que implicam, sobretudo no secundário e no pré-universitário, uma forte formação humanística.
  • No currículo do ensino primário fala-se em “skills” e não de “competences”, isto é genericamente um saber que pode incluir teoria, prática e habilidade desenvolvida pelo estudo ou pelo treino.
    • Distinguem-se “life skills” de “knowledege skills“. As primeiras incluem educação para a saúde, física, moral e nacional, entre outras. As segundas classificam-se em três áreas: matemática e ciências; inglês e língua materna; humanidades e artes. O trabalho de projeto é incluído como uma atividade transversal às três áreas, e não como uma disciplina. Nas artes inclui-se a música e as artes e trabalhos manuais (“arts and crafts”).

 

Este trabalho foi publicado pela primeira vez em 14 de Maio às 12 e 49 e reformulado na data que se anuncia.

 

Continuarei com a sua reformulação assim que puder e achar conveniente.

 

Bibliografia:

 

Embaixada do Brasil em Singapura

 

Ministério da Educação de Singapura

 

Singapore Examinations and Assessment Board

 

Calendário de exames do ensino primário (equivalente ao nosso 6º ano)

 

Singapore-Cambridge GCE Advanced Level

 

Educação: o modelo de Singapura

 

Paulo Prudêncio. autor do blogue Correntes, chamou-me a atenção para um post sobre política educativa (A ESCOLA PÚBLICA. O que virá a seguir) no blogue Atenta inquietude do Zé Morgado. O artigo pareceu-me deslocado tanto em termos retóricos quanto informativos, pois, é declarado um conhecimento privilegiado das intenções governamentais para a seguir se apresentarem orientações que nenhuma corrente política conhecida defende.

Parece-me que temos de alicerçar as nossas reivindicações com base num conhecimento efetivo. Se nos basearmos no “diz que disse” político, as nossas posições serão facilmente desmentidas e postas a ridículo pelos governantes.

Creio que o debate da “escola pública” seguiu esta direção por o ministro da educação ter declarado que o modelo já não era a Alemanha, mas sim Singapura.

Vou fazer algum trabalho de pesquisa e elencar as caraterísticas do sistema educacional daquela cidade-estado que tanto atrai a atenção dos nossos decisores.

  • Mais de 80% dos jovens cumprem os 16 anos de escolaridade obrigatória.
  • O primário vai até ao 6º ano.
  • No final do primário, os alunos são sujeitos a um exame chamado “primary school leaving exmination“, em Inglês, Língua Materna, Matemática e Ciências, constituído por várias provas orais e escritas, cujos resultados decidirão o tipo de  currículo a seguir no ensino secundário.
  • No final do secundário, os alunos fazem exames que variam de acordo com o currículo que tiveram.
  • No secundário, há quatro tipos de currículos: Normal (T), isto é technicNormal (A), isto é, academic, Express e Special Express.
    • Em função do desempenho do aluno, os professores e o diretor da escola podem propor que um aluno salte do currículo “normal” para o “express”.  O “special” e o “express” parecem ser os mais exigentes.
    • No final do secundário, os alunos fazem exames que certificam a sua habilitação: 
      • GCE “O” Level para o Express eo Special Express
      • GCE “N” Academic Level para o currículo “Normal academic”
      • GCE “N” Technical Level para o currículo “Normal Technic”.
        • Há aqui uma hierarquia. Um aluno que revele um bom desempenho no currículo normal “técnico” pode aceder ao GCE Ordinary Level utilizando um quinto ano de preparação no secundário. Se não for o caso, pode ter sempre a sua habilitação “técnica”.

    • A seguir ao GCE “O” Level que culmina no que corresponde, grosso modo, ao terceiro ciclo em Portugal e é a “compulsory education” de Singapura, os alunos podem ir para uma escola que os prepara para o GCE A level que inclui uma enorme variedade de disciplinas, no que corresponde ao nosso Secundário e dá acesso aos cursos universitários.

  • Muitos conteúdos são trabalhados em inglês, uma segunda língua e não a língua materna da maioria dos jovens de Singapura. Esta informação torna mais admirável o desempenho que eles atingem em leitura, em ciência e matemática.
  • A média de alunos por turma é 35 alunos, de onde não me parece arriscado concluir que há turmas de 20 a 40 alunos.
  • A contratação de professores está centralizada no ministério da educação e não relegada para autoridades locais ou para as escolas.
  • As aulas do currículo fundamental são todas de manhã e as atividades extra-curriculares à tarde.
  • As finalidades de ordem ética e moral explicitam sentimentos, como o amor a Singapura, capacidades de interação social, mas também o raciocínio moral independente que implicam, sobretudo no secundário e no pré-universitário, uma forte formação humanística.
  • No currículo do ensino primário fala-se em “skills” e não de “competences”, isto é genericamente um saber que pode incluir teoria, prática e habilidade desenvolvida pelo estudo ou pelo treino.
    • Distinguem-se “life skills” de “knowledege skills“. As primeiras incluem educação para a saúde, física, moral e nacional, entre outras. As segundas classificam-se em três áreas: matemática e ciências; inglês e língua materna; humanidades e artes. O trabalho de projeto é incluído como uma atividade transversal às três áreas, e não como uma disciplina. Nas artes inclui-se a música e as artes e trabalhos manuais (“arts and crafts”).

 

Este trabalho foi publicado pela primeira vez em 14 de Maio às 12 e 49 e reformulado na data que se anuncia.

 

Continuarei com a sua reformulação assim que puder e achar conveniente.

 

Bibliografia:

 

Embaixada do Brasil em Singapura

 

Ministério da Educação de Singapura

 

Singapore Examinations and Assessment Board

 

Calendário de exames do ensino primário (equivalente ao nosso 6º ano)

 

Singapore-Cambridge GCE Advanced Level

 

Boicotem os esclavagistas!

A Mango encomendou amostras à Phantom-Tac, a empresa proprietária do edifício que ruiu no Bangladesh, matando centenas de trabalhadores. Agora desculpa-se afirmando a sua “responsabilidade social”. 

Temos que dizer que isso não chega!

Creio que é nossa obrigação e que deve estar na nossa agenda da esquerda democrática boicotar, enquanto consumidores, a Primark, a Loblaw, a Bonmarché, a Benetton e o El Corte Inglés e outras do género que eram clientes fornecidos pela Phantom-Tac.

O que está aqui em jogo é, infelizmente, mas do que um prédio que ruiu e matou centenas de pessoas:

  • São escravos que trabalham em condições miseráveis para manter preços baixos nos países ocidentais, onde milhares de pessoas sobrevivem com subsídios e pensões, 10 a 15 vezes superiores aos salários daqueles que produzem aquilo que consomem.
  • São países endividados que não conseguem manter um estado social decente.
  • São capitalistas com lucros astronómicos com um “marketing” ideológico em que falam hipocritamente da competitividade e da responsabilidade social, como marcas distintivas das suas empresas.

Não contesto a existência de salários mais baixos em países em que o nível geral tecnológico e o custo de vida são inferiores. Temos que assumir que não procuramos que os capitais deixem de afluir a esses países, mas devem ir para lá para elevar as condições salariais e melhorar as condições de trabalho e de segurança, aumentando a procura de trabalhadores. Os trabalhadores ocidentais têm que aceitar essa concorrência ao mesmo tempo que devem considerar como parte da sua luta a melhoria das condições de vida de todos os povos do mundo.

 

Justificações da Mango

O discurso da responsabilidade social da Mango num relatório

Polícia detém dono do edifício que ruiu no Bangladesh (no Expresso)

Boicotem os esclavagistas!

A Mango encomendou amostras à Phantom-Tac, a empresa proprietária do edifício que ruiu no Bangladesh, matando centenas de trabalhadores. Agora desculpa-se afirmando a sua “responsabilidade social”. 

Temos que dizer que isso não chega!

Creio que é nossa obrigação e que deve estar na nossa agenda da esquerda democrática boicotar, enquanto consumidores, a Primark, a Loblaw, a Bonmarché, a Benetton e o El Corte Inglés e outras do género que eram clientes fornecidos pela Phantom-Tac.

O que está aqui em jogo é, infelizmente, mas do que um prédio que ruiu e matou centenas de pessoas:

  • São escravos que trabalham em condições miseráveis para manter preços baixos nos países ocidentais, onde milhares de pessoas sobrevivem com subsídios e pensões, 10 a 15 vezes superiores aos salários daqueles que produzem aquilo que consomem.
  • São países endividados que não conseguem manter um estado social decente.
  • São capitalistas com lucros astronómicos com um “marketing” ideológico em que falam hipocritamente da competitividade e da responsabilidade social, como marcas distintivas das suas empresas.

Não contesto a existência de salários mais baixos em países em que o nível geral tecnológico e o custo de vida são inferiores. Temos que assumir que não procuramos que os capitais deixem de afluir a esses países, mas devem ir para lá para elevar as condições salariais e melhorar as condições de trabalho e de segurança, aumentando a procura de trabalhadores. Os trabalhadores ocidentais têm que aceitar essa concorrência ao mesmo tempo que devem considerar como parte da sua luta a melhoria das condições de vida de todos os povos do mundo.

 

Justificações da Mango

O discurso da responsabilidade social da Mango num relatório

Polícia detém dono do edifício que ruiu no Bangladesh (no Expresso)

O jogo deles

Todos o compreendem se se dispuserem a pensar um pouco. António José Seguro não pode embarcar nessa do consenso porque tem de se diferenciar de Passos Coelho nem que seja só pela cor da gravata. A demonstração que faz da alternativa é apenas a de gritar emocionalmente contra os que dizem que ela não existe. O que é que vai fazer de diferente agora que o governo também fala em crescimento?

Por exemplo, não nos explicou a diferença entre “rigor orçamental” e “austeridade”. Será que a sua irritação justifica-se por o governo estar a roubar-lhe a agenda? Verdadeiramente, ninguém quer que o PS vá nessa do consenso ou numa de bloco central, mas têm que fingir que é isso que querem. O presidente que o diga, pois roubou o poder ao PS rompendo com o bloco central em 1985. Com um bloco central politicamente desnecessário, já que há uma maioria parlamentar, as ruas ficariam a pertencer ao PCP, ao BE e a outros que ganhariam espaço para aparecer. A esquerda da rutura com o FMI e com a Europa ganharia mais força. E eles não querem isso.

O presidente tem razão: nem sempre há alternativas em democracia. O PCP e o BE não se cansam de o dizer: para eles, não há diferença entre governos do PS e do PSD. Só se escandalizam por ser o presidente a dizê-lo. Já vimos esse filme. Ou não se recordam do discurso de Passos Coelho quando estava na oposição contra o Pack 4 da austeridade do PS? Pois recordem-se, ele falava do desemprego insuportável, da falta de crescimento, da carga fiscal sobre as empresas, etc. Enfim, tudo o que Seguro diz agora. O PSD protagonizou uma mudança política desnecessária, não foi uma alternativa, mas apenas mais do mesmo. Talvez o mesmo ao quadrado.

Se interrompêssemos agora esta maioria parlamentar, o que iria Seguro fazer? Supor que teria maioria absoluta, já seria arriscado. Mesmo, nesse caso, já podemos adivinhar o “preview”: as reuniões com Hollande, com Merkel e com o Eurogrupo a confirmar a necessidade de continuar com o “rigor orçamental”. Ou assumiria uma agenda de rutura com a Troika?

É por isso que estou convencido que eles estão a distrair-nos do essencial num jogo em que ninguém diz o que quer e em que ninguém quer o que diz.

O meu voto é no PS evidentemente.

O jogo deles

Todos o compreendem se se dispuserem a pensar um pouco. António José Seguro não pode embarcar nessa do consenso porque tem de se diferenciar de Passos Coelho nem que seja só pela cor da gravata. A demonstração que faz da alternativa é apenas a de gritar emocionalmente contra os que dizem que ela não existe. O que é que vai fazer de diferente agora que o governo também fala em crescimento?

Por exemplo, não nos explicou a diferença entre “rigor orçamental” e “austeridade”. Será que a sua irritação justifica-se por o governo estar a roubar-lhe a agenda? Verdadeiramente, ninguém quer que o PS vá nessa do consenso ou numa de bloco central, mas têm que fingir que é isso que querem. O presidente que o diga, pois roubou o poder ao PS rompendo com o bloco central em 1985. Com um bloco central politicamente desnecessário, já que há uma maioria parlamentar, as ruas ficariam a pertencer ao PCP, ao BE e a outros que ganhariam espaço para aparecer. A esquerda da rutura com o FMI e com a Europa ganharia mais força. E eles não querem isso.

O presidente tem razão: nem sempre há alternativas em democracia. O PCP e o BE não se cansam de o dizer: para eles, não há diferença entre governos do PS e do PSD. Só se escandalizam por ser o presidente a dizê-lo. Já vimos esse filme. Ou não se recordam do discurso de Passos Coelho quando estava na oposição contra o Pack 4 da austeridade do PS? Pois recordem-se, ele falava do desemprego insuportável, da falta de crescimento, da carga fiscal sobre as empresas, etc. Enfim, tudo o que Seguro diz agora. O PSD protagonizou uma mudança política desnecessária, não foi uma alternativa, mas apenas mais do mesmo. Talvez o mesmo ao quadrado.

Se interrompêssemos agora esta maioria parlamentar, o que iria Seguro fazer? Supor que teria maioria absoluta, já seria arriscado. Mesmo, nesse caso, já podemos adivinhar o “preview”: as reuniões com Hollande, com Merkel e com o Eurogrupo a confirmar a necessidade de continuar com o “rigor orçamental”. Ou assumiria uma agenda de rutura com a Troika?

É por isso que estou convencido que eles estão a distrair-nos do essencial num jogo em que ninguém diz o que quer e em que ninguém quer o que diz.

O meu voto é no PS evidentemente.

Acarinhar a depressão

Paul Krugman, ainda na sequência da falência teórica da linha vermelha dos 90% do PIB em dívida, vem neste artigo criticar o excessivo receio de endividamento público nos Estados Unidos da América.

Para evitar o aumento da dívida, não há política dirigida ao desemprego de longa duração. Esta classe de desempregados vê a sua situação piorar e o seu número a aumentar.

Lembra que os governos estão a fazer é o contrário do que as regras de boa governação ditam que consiste em não cortar na despesa pública durante a depressão.

Recordo aos leitores que a dívida pública americana, segundo o FMI, está já nessa linha (perto dos 100% do PIB) – veja The Jobless Trap no New York Times e List of countries by public debt.

Acarinhar a depressão

Paul Krugman, ainda na sequência da falência teórica da linha vermelha dos 90% do PIB em dívida, vem neste artigo criticar o excessivo receio de endividamento público nos Estados Unidos da América.

Para evitar o aumento da dívida, não há política dirigida ao desemprego de longa duração. Esta classe de desempregados vê a sua situação piorar e o seu número a aumentar.

Lembra que os governos estão a fazer é o contrário do que as regras de boa governação ditam que consiste em não cortar na despesa pública durante a depressão.

Recordo aos leitores que a dívida pública americana, segundo o FMI, está já nessa linha (perto dos 100% do PIB) – veja The Jobless Trap no New York Times e List of countries by public debt.