Paradigmas pedagógicos

Na pós-modernidade pedagógica, parece que tudo o que é considerado vanguarda constitui um todo coerente.

Por exemplo, em vários países europeus, houve uma reformulação dos programas com base na ideia de “competência“. As competências vieram substituir as tabelas de objetivos e conteúdos programáticos.

A novidade é recebida pela vanguarda pedagógica como se este novo elemento fosse coerente com os outros paradigmas, ainda dominantes.

Um  deles é o chamado construtivismo, a ideia de que a aprendizagem tem como sujeito o indivíduo que na sua relação com o meio vai construindo esquemas da realidade, que, na versão piagetiana, passam por uma série de estádios de ordem lógica e epistemológica que se presume serem universais na espécie humana. Esta ideia era considerada coerente com a teoria chomskyana da linguagem, dominante também no ensino da língua materna. 

No entanto, no final da década de 70, vimos um debate rigoroso entre os partidários da teoria construtivista da aprendizagem e os inatistas, que mostou quão profundas eram as divergências entre as duas conceções. Para mim, que li atentamente a discussão havida entre Chomsky, Katz e Fodor por um lado e Piaget, Inhelder e outros, pelo outro, os primeiros arrasavam completamente o construtivismo, sem que aos segundos acudissem argumentos sólidos em sua defesa.

Não quero entrar aqui em pormenores, mas a aprendizagem da linguagem não se faz de maneira alguma através da interação sensório-motriz, nem a aprendizagem do conceito de número se faz da maneira como Piaget propõe. O que acontece é que a nossa espécie tem inscrita no seu genoma algo que nos permite desenvolver o conceito de número. O mesmo acontece com a linguagem. Existe uma faculdade da linguagem na nossa espécie que nos permite criar e adquirir línguas específicas. A interação social é essencial ao desenvolvimento linguístico, mas não menos necessária é também essa predisposição genética.

A ideia de que é a criança que descobre tudo e que não é positivo ensinar diretamente a criança e treiná-la num certo tipo de raciocínio ou algoritmo que ela tem de descobrir e aprender, primeiro, tem como efeito inibir o professor de ensinar e torna-o numa espécie de orientador dum processo que está a acontecer, que ele estimula, mas para o qual não adianta explicitamente conteúdos que espera que o jovem descubra. Isto torna a aprendizagem desnecessariamente demorada. Em vez de perguntar ao professor, o aluno pode ir diretamente a outras fontes que ensinam direta e explicitamente o que ele quer. Em todo o caso, não é ele que descobre ou “constrói”. Ele raciocina de acordo com modelos que a cultura humana desenvolveu historicamente. Pode aprender a lógica da investigação científica, mas não a pode descobrir; ou, pelo menos, não é expetável que a generalidade dos seres humanos a descubra por si.

O que é que a ideia de “competência” tem a ver com o “construtivismo”? Creio que ela é mesmo contrária ao construtivismo, pois, como aquela noção vem para o desenvolvimento curricular através de sociólogos da educação preocupados com a desigualdade dos resultados escolares e com a inutilidade da escola para quem não quer ou não pode seguir estudos, o “construtivismo” é uma abordagem que ainda atrasa mais o domínio de competências para a vida.

Se utilizarmos o critério da “competência” para definir um currículo, iremos pôr de lado os conhecimentos que não conseguimos relacionar com nenhuma competência visível. Faremos, pois, um programa mais rasteiro, menos exigente. Que é que isto tem a ver com “construtivismo”? Nada. Não será mais útil um perspetiva comportamentalista dirigida para o treino de procedimentos e a memorização de conteúdos que sabemos úteis para a vida?

Por isso, parece-me evidente que temos um cocktail de propostas teóricas contraditórias nas ideias dominantes na educação.

Paradigmas pedagógicos

Na pós-modernidade pedagógica, parece que tudo o que é considerado vanguarda constitui um todo coerente.

Por exemplo, em vários países europeus, houve uma reformulação dos programas com base na ideia de “competência“. As competências vieram substituir as tabelas de objetivos e conteúdos programáticos.

A novidade é recebida pela vanguarda pedagógica como se este novo elemento fosse coerente com os outros paradigmas, ainda dominantes.

Um  deles é o chamado construtivismo, a ideia de que a aprendizagem tem como sujeito o indivíduo que na sua relação com o meio vai construindo esquemas da realidade, que, na versão piagetiana, passam por uma série de estádios de ordem lógica e epistemológica que se presume serem universais na espécie humana. Esta ideia era considerada coerente com a teoria chomskyana da linguagem, dominante também no ensino da língua materna. 

No entanto, no final da década de 70, vimos um debate rigoroso entre os partidários da teoria construtivista da aprendizagem e os inatistas, que mostou quão profundas eram as divergências entre as duas conceções. Para mim, que li atentamente a discussão havida entre Chomsky, Katz e Fodor por um lado e Piaget, Inhelder e outros, pelo outro, os primeiros arrasavam completamente o construtivismo, sem que aos segundos acudissem argumentos sólidos em sua defesa.

Não quero entrar aqui em pormenores, mas a aprendizagem da linguagem não se faz de maneira alguma através da interação sensório-motriz, nem a aprendizagem do conceito de número se faz da maneira como Piaget propõe. O que acontece é que a nossa espécie tem inscrita no seu genoma algo que nos permite desenvolver o conceito de número. O mesmo acontece com a linguagem. Existe uma faculdade da linguagem na nossa espécie que nos permite criar e adquirir línguas específicas. A interação social é essencial ao desenvolvimento linguístico, mas não menos necessária é também essa predisposição genética.

A ideia de que é a criança que descobre tudo e que não é positivo ensinar diretamente a criança e treiná-la num certo tipo de raciocínio ou algoritmo que ela tem de descobrir e aprender, primeiro, tem como efeito inibir o professor de ensinar e torna-o numa espécie de orientador dum processo que está a acontecer, que ele estimula, mas para o qual não adianta explicitamente conteúdos que espera que o jovem descubra. Isto torna a aprendizagem desnecessariamente demorada. Em vez de perguntar ao professor, o aluno pode ir diretamente a outras fontes que ensinam direta e explicitamente o que ele quer. Em todo o caso, não é ele que descobre ou “constrói”. Ele raciocina de acordo com modelos que a cultura humana desenvolveu historicamente. Pode aprender a lógica da investigação científica, mas não a pode descobrir; ou, pelo menos, não é expetável que a generalidade dos seres humanos a descubra por si.

O que é que a ideia de “competência” tem a ver com o “construtivismo”? Creio que ela é mesmo contrária ao construtivismo, pois, como aquela noção vem para o desenvolvimento curricular através de sociólogos da educação preocupados com a desigualdade dos resultados escolares e com a inutilidade da escola para quem não quer ou não pode seguir estudos, o “construtivismo” é uma abordagem que ainda atrasa mais o domínio de competências para a vida.

Se utilizarmos o critério da “competência” para definir um currículo, iremos pôr de lado os conhecimentos que não conseguimos relacionar com nenhuma competência visível. Faremos, pois, um programa mais rasteiro, menos exigente. Que é que isto tem a ver com “construtivismo”? Nada. Não será mais útil um perspetiva comportamentalista dirigida para o treino de procedimentos e a memorização de conteúdos que sabemos úteis para a vida?

Por isso, parece-me evidente que temos um cocktail de propostas teóricas contraditórias nas ideias dominantes na educação.

Que Europa?

 

(artsonline.monash.edu.au)

 

A Europa é um estado de direito, pois é regido por leis e nenhum cidadão europeu está acima delas, mas não é um estado democrático. É, antes, uma oligarquia em que são os estados mais poderosos e mais ricos que mandam.

Ao mercado comum, foram acrescentadas competências políticas que os estados-membros se viram obrigados a ceder. Quem as exerce, no plano executivo, é, de facto, um diretório escolhido pelos estados mais poderosos, quer dizer, pelos chefes desses governos nacionais. A união monetária veio agravar ainda mais esta amputação ao poder democrático dos estados membros.

Para que a Europa seja um estado democrático, é preciso que o parlamento europeu tenha um verdadeiro poder legislativo e que a comissão dependa dele como aconece com qualquer governo nacional. O partido europeu que ganhar as eleições deve formar um executivo que não pode surgir de negociações mais ou menos secretas entre chefes de estado nacionais. Tem de haver um orçamento europeu e uma política orçamental coerente. A relação entre este orçamento e os orçamentos nacionais tem que ser esclarecida por regras claras e não ficar ao critério deste ou daquele governo nacional. Aqui entra a possibilidade dos “euro-bonds”.

A evolução neste sentido é impedida pelo fantasma da anulação da identidade nacional. Supostamente, num plano democrático, Portugal ficaria com um peso diminuto, perante os outros estados. Creio que este argumento só tem interesse para as elites políticas e financeiras nacionais, isto é, para aqueles que estão sempre bem, haja crise ou não. Algumas destas elites cheiram a “egrégios avós”, de tão caquéticas parecerem.

Num plano democrático, o voto de um cidadão europeu português vale o mesmo que o de um alemão. Prefiro uma Europa de cidadãos a uma Europa de estados. Não quero de maneira nenhuma uma Europa dos povos, como Marine Le Pen, à direita, e outros, à esquerda, proclamam. Uma vez definidos os limites do estado europeu e salvaguardadas as competências de política cultural e linguística dos estados-membros, o que temos de fazer é avançar no sentido de uma verdadeira federação ou então acabar de vez com a ilusão da união europeia.

A austeridade começou com Sócrates

Sócrates provou por A+B que não foi ele o causador da crise, o responsável pelo aumento da dívida e do défice. É verdade que a direita fala de Sócrates quase como nos livros de Harry Potter se fala de Voldemort, por perífrases, como “aquele que nós sabemos”, “aquele que nos levou a esta situação”. Sócrates parece ter-se tornado o inominável, não tanto pelo medo da sua invocação, mais talvez pela necessidade de cortesia para quem o apoiou, socialistas e milhões de eleitores. Não ficaria bem estar sempre a atirar-lhes à cara terem apoiado um líder que que teria sido tão aldrabão, tão falsificador da realidade. Sim, não ficaria bem chamar-lhes pobres de espírito. Aparentemente, os atuais líderes socialistas pareciam acompanhar este coro de críticas, por vezes gentilmente sussuradas, com um silêncio envergonhado, dando o seu acordo tácito a esta narrativa.

Pois o causador das infelicidades presentes veio justificar as suas opções de uma forma tão peremptória, que não deixa margem para dúvidas. Peguemos apenas no que a opinião pública mais refere, as PPP: eram um encargo de cerca de 23 mil milhões quando Sócrates iniciou o seu mandato, desceram para 19 mil milhões à sua saída. Concluindo, são uma doença não criada por Sócrates. Pouco importam os “porques” que tendem a reduzir este sucesso, ou menor insucesso, se quiserem. Considero as PPP um erro de política económica. Só se faz uma PPP se se comprova que, se for o Estado a realizar o empreendimento diretamente, haverá mais custos para o país, a longo prazo e não só no curto termo do défice vigiado por Bruxelas. O problema dos governos que fizeram PPPs, incluindo o de Sócrates, é que não conseguiriam fazer essas obras sem esse modelo de negócio e, provavelmente, teriam que desperdiçar fundos europeus cuja utilização implica despesa nacional e, portanto, aumento do défice. Assim, em vez de défice imediato, temos mais dívida dilatada no tempo.

Das 22 PPPs rodoviárias, apenas 8 são da responsabilidade do governo de Sócrates. Já que falamos de PPPs rodoviárias, lembremo-nos dos que se manifestavam contra as portagens, que não eram poucos. Essas pessoas e os movimentos políticos que as apoiavam deviam sentir-se responsáveis também pelo aumento da dívida. A esse respeito, diz Sócrates, com razão, que, no parlamento, as intervenções da oposição eram frequentemente no sentido de aumentar a despesa e não de a diminuir, mesmo daqueles que agora estão no poder.

A dívida pública portuguesa, em 2010, estava a 94% do PIB. Subiu, com este governo, para 123,6% do PIB. Uma subida de 30% em apenas dois anos. Isto deve-se, e Sócrates reconhece-o, à descida do PIB provocada pela austeridade, mas aumenta também em valor absoluto (204 mil milhões de euros)! Podíamo-nos perguntar se, ignorando o PIB, a taxa de crescimento da dívida relativamente a ela própria diminuiu? Pelo contrário, a média de crescimento anual da dívida pública portuguesa também aumentou de cerca de 11% para 12%. (1)

Quer dizer, tudo o que é mau aumenta, apesar da austeridade. O défice orçamental que teríamos que manter abaixo dos 3%, após 2 anos de austeridade, continua elevado e aumenta mesmo de 2011 para 1012.

O objetivo dos famigerados sacrifícios não é atingido ao que parece em nenhum aspeto.

Os críticos de Sócrates ignoraram os efeitos da situação internacional  e da debilidade estrutural da economia portuguesa nas suas apreciações. A situação que levou ao aumento dos défices de 2009 e de 2010 mudou, mas tem uma ajuda nas medidas de contenção orçamental impostas pela Troika.

O chumbo do PEC 4 foi uma decisão do PSD justificada pelo seu líder com um discurso em que falava do aumento do desemprego que então estava nos 12% e agora está nos 18%!

Se a parte económica piora estrondosamente e se a financeira também não melhora de que nos serve a austeridade?

Apesar do problema da dívida, creio que não foi por causa dela que Sócrates não conseguiu vencer Passos Coelho. Por isso mesmo, o discruso do PSD na altura parecia ser contra a austeridade. Falava de duas coisas que nunca fez: a descida do IRC com o objetivo de aumentar o investimento privado e diminuir o desemprego. Pôs-se ao lado das corporações mais desavindas com o governo, como os professores que tinham sido vítimas precisamente de esforços de contenção orçamental, tal como toda a função pública. A questão que opunha professores ao governo era a mesma do restante da função pública: o acesso aos escalões superiores das suas carreiras o que se continuasse como até então seria um descalabro nas contas públicas. Era também a questão da idade de reforma. A direita apaga da memória estas medidas de austeridade dos governos de Sócrates, para exagerarem o seu despesismo.

Cada grupo profissional reacendeu a sua esperança no chumbo do PEC 4 e nas eleições subsequentes. O governo que saiu destas eleições não demorou tempo a desfazer essas expetativas ao declarar o seu projeto de ir “além da Troika”. Trata-se evidentemente de tornar o país competitivo, isto é, com salários baixos, com a entrega das funções sociais do estado a privados – educação e saúde, principalmente. Para isso, precisam de comprimir os salários, fragilizar os vínculos à função pública, criar a sensação de insegurança de modo a lançar milhares de professores, médicos, enfermeiros e técnicos no mercado e pô-los a disputar empregos.

Os eleitores deixam-se sempre levar porque é fácil pôr uns contra os outros. O executivo de Passos Coelho cairá também por estar a defraudar a expetativa que criou, que seria a de uma solução rápida para a crise, mais rápida do que estavam a ser os PEC de Sócrates.

António José Seguro não pode solidarizar-se com o antigo primeiro-ministro porque pretende reganhar os grupos profissionais que já não se revêm em Passos Coelho, mas estará condenado a defraudar expetativas, pois continuará a ter de fazer austeridade, mas a par com medidas para o crescimento económico. Nem Hollande o salvará. O negócio agora está nas mãos da Europa toda.

Sem dúvida, votarei PS, como sempre, mas sem ilusões.


(1) Contas feitas a partir dados da Pordata: http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+Publicas+divida+bruta-823.

A austeridade começou com Sócrates

Sócrates provou por A+B que não foi ele o causador da crise, o responsável pelo aumento da dívida e do défice. É verdade que a direita fala de Sócrates quase como nos livros de Harry Potter se fala de Voldemort, por perífrases, como “aquele que nós sabemos”, “aquele que nos levou a esta situação”. Sócrates parece ter-se tornado o inominável, não tanto pelo medo da sua invocação, mais talvez pela necessidade de cortesia para quem o apoiou, socialistas e milhões de eleitores. Não ficaria bem estar sempre a atirar-lhes à cara terem apoiado um líder que que teria sido tão aldrabão, tão falsificador da realidade. Sim, não ficaria bem chamar-lhes pobres de espírito. Aparentemente, os atuais líderes socialistas pareciam acompanhar este coro de críticas, por vezes gentilmente sussuradas, com um silêncio envergonhado, dando o seu acordo tácito a esta narrativa.

Pois o causador das infelicidades presentes veio justificar as suas opções de uma forma tão peremptória, que não deixa margem para dúvidas. Peguemos apenas no que a opinião pública mais refere, as PPP: eram um encargo de cerca de 23 mil milhões quando Sócrates iniciou o seu mandato, desceram para 19 mil milhões à sua saída. Concluindo, são uma doença não criada por Sócrates. Pouco importam os “porques” que tendem a reduzir este sucesso, ou menor insucesso, se quiserem. Considero as PPP um erro de política económica. Só se faz uma PPP se se comprova que, se for o Estado a realizar o empreendimento diretamente, haverá mais custos para o país, a longo prazo e não só no curto termo do défice vigiado por Bruxelas. O problema dos governos que fizeram PPPs, incluindo o de Sócrates, é que não conseguiriam fazer essas obras sem esse modelo de negócio e, provavelmente, teriam que desperdiçar fundos europeus cuja utilização implica despesa nacional e, portanto, aumento do défice. Assim, em vez de défice imediato, temos mais dívida dilatada no tempo.

Das 22 PPPs rodoviárias, apenas 8 são da responsabilidade do governo de Sócrates. Já que falamos de PPPs rodoviárias, lembremo-nos dos que se manifestavam contra as portagens, que não eram poucos. Essas pessoas e os movimentos políticos que as apoiavam deviam sentir-se responsáveis também pelo aumento da dívida. A esse respeito, diz Sócrates, com razão, que, no parlamento, as intervenções da oposição eram frequentemente no sentido de aumentar a despesa e não de a diminuir, mesmo daqueles que agora estão no poder.

A dívida pública portuguesa, em 2010, estava a 94% do PIB. Subiu, com este governo, para 123,6% do PIB. Uma subida de 30% em apenas dois anos. Isto deve-se, e Sócrates reconhece-o, à descida do PIB provocada pela austeridade, mas aumenta também em valor absoluto (204 mil milhões de euros)! Podíamo-nos perguntar se, ignorando o PIB, a taxa de crescimento da dívida relativamente a ela própria diminuiu? Pelo contrário, a média de crescimento anual da dívida pública portuguesa também aumentou de cerca de 11% para 12%. (1)

Quer dizer, tudo o que é mau aumenta, apesar da austeridade. O défice orçamental que teríamos que manter abaixo dos 3%, após 2 anos de austeridade, continua elevado e aumenta mesmo de 2011 para 1012.

O objetivo dos famigerados sacrifícios não é atingido ao que parece em nenhum aspeto.

Os críticos de Sócrates ignoraram os efeitos da situação internacional  e da debilidade estrutural da economia portuguesa nas suas apreciações. A situação que levou ao aumento dos défices de 2009 e de 2010 mudou, mas tem uma ajuda nas medidas de contenção orçamental impostas pela Troika.

O chumbo do PEC 4 foi uma decisão do PSD justificada pelo seu líder com um discurso em que falava do aumento do desemprego que então estava nos 12% e agora está nos 18%!

Se a parte económica piora estrondosamente e se a financeira também não melhora de que nos serve a austeridade?

Apesar do problema da dívida, creio que não foi por causa dela que Sócrates não conseguiu vencer Passos Coelho. Por isso mesmo, o discruso do PSD na altura parecia ser contra a austeridade. Falava de duas coisas que nunca fez: a descida do IRC com o objetivo de aumentar o investimento privado e diminuir o desemprego. Pôs-se ao lado das corporações mais desavindas com o governo, como os professores que tinham sido vítimas precisamente de esforços de contenção orçamental, tal como toda a função pública. A questão que opunha professores ao governo era a mesma do restante da função pública: o acesso aos escalões superiores das suas carreiras o que se continuasse como até então seria um descalabro nas contas públicas. Era também a questão da idade de reforma. A direita apaga da memória estas medidas de austeridade dos governos de Sócrates, para exagerarem o seu despesismo.

Cada grupo profissional reacendeu a sua esperança no chumbo do PEC 4 e nas eleições subsequentes. O governo que saiu destas eleições não demorou tempo a desfazer essas expetativas ao declarar o seu projeto de ir “além da Troika”. Trata-se evidentemente de tornar o país competitivo, isto é, com salários baixos, com a entrega das funções sociais do estado a privados – educação e saúde, principalmente. Para isso, precisam de comprimir os salários, fragilizar os vínculos à função pública, criar a sensação de insegurança de modo a lançar milhares de professores, médicos, enfermeiros e técnicos no mercado e pô-los a disputar empregos.

Os eleitores deixam-se sempre levar porque é fácil pôr uns contra os outros. O executivo de Passos Coelho cairá também por estar a defraudar a expetativa que criou, que seria a de uma solução rápida para a crise, mais rápida do que estavam a ser os PEC de Sócrates.

António José Seguro não pode solidarizar-se com o antigo primeiro-ministro porque pretende reganhar os grupos profissionais que já não se revêm em Passos Coelho, mas estará condenado a defraudar expetativas, pois continuará a ter de fazer austeridade, mas a par com medidas para o crescimento económico. Nem Hollande o salvará. O negócio agora está nas mãos da Europa toda.

Sem dúvida, votarei PS, como sempre, mas sem ilusões.


(1) Contas feitas a partir dados da Pordata: http://www.pordata.pt/Portugal/Administracoes+Publicas+divida+bruta-823.

Paradigmas científicos

“Não estou de acordo com a teoria de Kuhn sobre as revoluções científicas. Acho que é idealista e ele leva-a demasiado longe, a ponto de dizer que os paradigmas não são comensuráveis. Eu acho que não. Na Ciência há progresso e não há ruptura de paradigmas no sentido de Kuhn” – afirma Nuno Crato numa entrevista (Cristina Baptista e Margarida Maria, revista Educação – Texto Editores, encontrada em http://nautilus.fis.uc.pt/).

Parece que a maior parte dos cientistas não se revê em muitas teorias da espistemologia e da história das ciências. Há quem chegue a equivaler uma ciência dita pós-moderna à astrologia e a outras coisas estranhas (veja-se Boaventura Sousa Santos). Há derivas nas ciências humanas que resultam de leituras da física e da matemática que são consideradas extrapolações ilegítimas (veja-se a crítica de Sokal a muitos inteletuais ditos pós-modernos).

Paradigmas científicos

“Não estou de acordo com a teoria de Kuhn sobre as revoluções científicas. Acho que é idealista e ele leva-a demasiado longe, a ponto de dizer que os paradigmas não são comensuráveis. Eu acho que não. Na Ciência há progresso e não há ruptura de paradigmas no sentido de Kuhn” – afirma Nuno Crato numa entrevista (Cristina Baptista e Margarida Maria, revista Educação – Texto Editores, encontrada em http://nautilus.fis.uc.pt/).

Parece que a maior parte dos cientistas não se revê em muitas teorias da espistemologia e da história das ciências. Há quem chegue a equivaler uma ciência dita pós-moderna à astrologia e a outras coisas estranhas (veja-se Boaventura Sousa Santos). Há derivas nas ciências humanas que resultam de leituras da física e da matemática que são consideradas extrapolações ilegítimas (veja-se a crítica de Sokal a muitos inteletuais ditos pós-modernos).

A crise portuguesa explicada a um Totó (eu)

Paul De Grauwe é quem melhor me explica as coisas na sua coluna do Expresso. Portugal, apesar de ter uma dívida elevada, apenas se tornou incapaz de pagar as suas obrigações por os juros terem subido – isto é, por ter-se tornado incapaz de colocar dívida a juros aceitáveis. Em consequência da crise financeira de 2008, os governos foram encorajados a aumentar o investimento público como medida anti-crise e os défices públicos elevados foram mais uma vez tolerados. Ouvimos várias vezes José Sócrates a justificar-se assim.

A crise grega agudizou a crise financeira que já vinha de 2008 e fez com que os mercados da dívida aumentassem os juros para Portugal e Irlanda, com as agências de notação financeira, três bruxas de mau vaticínio, a assustar os investidores com as suas notas.

O problema do mercado da dívida já se fazia sentir em Portugal em 2005, segundo explicou João César das Neves numa palestra da acção Educação, Cultura e Desenvolvimento promovida pelos centros de formação de professores de Caldas da Rainha e Bombarral. Mesmo assim, Sócrates prosseguiu com a expansão da despesa seguindo uma orientação europeia. Por isso, o défice salta de 3,7% em 2008, para 10,2% do PIB em 2009.

A política de austeridade tem diminuído o défice em termos absolutos, mas em relação ao PIB ele mantém-se alto (4,9% em 2012, na verdade, 6,6 se não incluirmos o encaixe da Ana), porque o PIB também tem descido (PIB desce 1,4 em 2010 e 1,8 em 2011).

Resumindo, temos que gastar menos, mas produzir mais ou, pelo menos, não diminuir a produção) o que não está a acontecer.

Noutros artigos, De Grauwe tem-me explicado que a solução é, de fato, europeia – a Europa não pode estar toda a fazer austeridade. Esta devia ser apenas para os países do sul, com défices elevados, não para os do norte. O problema dos juros devia ser resolvido com o BCE a comprar maciçamente dívida dos países com programas de austeridade de modo a dar confiança ao mercado.

Ao dizermos que a solução é europeia e ao verificarmos que ela não aparece, só podemos concluir que a chave está na política europeia. Se a Europa impõe orientações políticas aos governos que nós elegemos, então temos que ser nós também a eleger essa Europa. Temos de acabar com a Europa dos comissários e das negociatas dos países grandes a impor medidas de acordo com o peso da sua economia, dos efeitos do seu abrir ou fechar os cordões à bolsa e não de acordo com o peso eleitoral dos seus cidadãos.

O sistema financeiro tem de ser verdadeiramente unificado. Já que temos a mesma moeda, temos que ter também as mesmas instituições bancárias e a solidariedade na emissão de dívida, com uma relação clara entre orçamento comunitário e orçamento nacional. Não podemos ter países que pagam a sua dívida ao preço da chuva e outros que a pagam com o preço do seu sangue. Os países do sul e outros países médios e pequenos com problemas económicos similares podem ter um peso eleitoral favorável na eleição dum verdadeiro parlamento europeu e dum verdadeiro governo e presidência europeia.

A crise portuguesa explicada a um Totó (eu)

Paul De Grauwe é quem melhor me explica as coisas na sua coluna do Expresso. Portugal, apesar de ter uma dívida elevada, apenas se tornou incapaz de pagar as suas obrigações por os juros terem subido – isto é, por ter-se tornado incapaz de colocar dívida a juros aceitáveis. Em consequência da crise financeira de 2008, os governos foram encorajados a aumentar o investimento público como medida anti-crise e os défices públicos elevados foram mais uma vez tolerados. Ouvimos várias vezes José Sócrates a justificar-se assim.

A crise grega agudizou a crise financeira que já vinha de 2008 e fez com que os mercados da dívida aumentassem os juros para Portugal e Irlanda, com as agências de notação financeira, três bruxas de mau vaticínio, a assustar os investidores com as suas notas.

O problema do mercado da dívida já se fazia sentir em Portugal em 2005, segundo explicou João César das Neves numa palestra da acção Educação, Cultura e Desenvolvimento promovida pelos centros de formação de professores de Caldas da Rainha e Bombarral. Mesmo assim, Sócrates prosseguiu com a expansão da despesa seguindo uma orientação europeia. Por isso, o défice salta de 3,7% em 2008, para 10,2% do PIB em 2009.

A política de austeridade tem diminuído o défice em termos absolutos, mas em relação ao PIB ele mantém-se alto (4,9% em 2012, na verdade, 6,6 se não incluirmos o encaixe da Ana), porque o PIB também tem descido (PIB desce 1,4 em 2010 e 1,8 em 2011).

Resumindo, temos que gastar menos, mas produzir mais ou, pelo menos, não diminuir a produção) o que não está a acontecer.

Noutros artigos, De Grauwe tem-me explicado que a solução é, de fato, europeia – a Europa não pode estar toda a fazer austeridade. Esta devia ser apenas para os países do sul, com défices elevados, não para os do norte. O problema dos juros devia ser resolvido com o BCE a comprar maciçamente dívida dos países com programas de austeridade de modo a dar confiança ao mercado.

Ao dizermos que a solução é europeia e ao verificarmos que ela não aparece, só podemos concluir que a chave está na política europeia. Se a Europa impõe orientações políticas aos governos que nós elegemos, então temos que ser nós também a eleger essa Europa. Temos de acabar com a Europa dos comissários e das negociatas dos países grandes a impor medidas de acordo com o peso da sua economia, dos efeitos do seu abrir ou fechar os cordões à bolsa e não de acordo com o peso eleitoral dos seus cidadãos.

O sistema financeiro tem de ser verdadeiramente unificado. Já que temos a mesma moeda, temos que ter também as mesmas instituições bancárias e a solidariedade na emissão de dívida, com uma relação clara entre orçamento comunitário e orçamento nacional. Não podemos ter países que pagam a sua dívida ao preço da chuva e outros que a pagam com o preço do seu sangue. Os países do sul e outros países médios e pequenos com problemas económicos similares podem ter um peso eleitoral favorável na eleição dum verdadeiro parlamento europeu e dum verdadeiro governo e presidência europeia.