Ai! Que moodys!

 

(Imagem extraída de goldenbroker.com)

 

Os ratings das agências financeiras estão a pôr em causa o orgulho nacional dos cidadãos dos países que descem na escala que classifica a sua dívida. Como se pode ver, os EUA e o seu presidente não escapam a esta mágoa.

Dívida dos EUA: chegou a «altura de decidir» | agência financeira

Vale a pena pensar um pouco sobre o valor destas classificações. No caso em apreço, o que a Standard & Poors está a fazer é apenas a pressionar os republicanos para se entenderem com os democratas. Eles só se importam com a sáude financeira do Estado no sentido em que a dívida mantenha o mesmo grau de segurança para os investidores. Se os EUA entrarem em incumprimento, os títulos de dívida serão menos atractivos. A Standard & Poors recebe dinheiro do governo para lhe dar essa classificação, mas se ela for menos credível, os investidores olharão para as notas dadas por outras agências. Por isso, todas se adiantam com novas classificações, logo o cenário político e financeiro mude.

O que está aqui em jogo é um negócio com a credibilidade dos que se endividam, no que respeita aos países.

Deve o nosso orgulho nacional ficar magoado, humilhado, decepcionado, por causa disso?

Connosco, aconteceu tudo muito rápido. No princípio deste ano, ainda estávamos no A3, embora já longe do AAA dos países do pelotão da frente da Europa. Quando a Moodys mudou o nosso “rating” para perto de lixo, os nossos pastéis de Belém, o sol, o mar e a areia das nossas praias, as nossas empresas de alta tecnologia e a nossa magnífica culinária continuaram tão boas como antes. O que aconteceu foi apenas que a nossa capacidade de endividamento diminuiu, coisa para que, há muito, nos alerta, a nossa Cassandra de serviço que é o Professor Medina Carreira.

Ora na justificação da nota, a Moodys diz o que o Bloco de Esquerda pede: que existe o perigo de restruturação da dívida.

Paz laboral

                     Extraído de Instituto de Gestão do Crédito Público, Economic Outlook and Debt Management Strategy, Janeiro de 2011, p. 12.

 

De acordo com a publicação acima referida, Portugal é um dos países com menos dias de trabalho perdidos por causa das greves, no periodo entre 2000 e 2007. Há pois mais retórica nas lutas sindicais do que acção propriamente dita. Anunciam-se greves, sindicatos e patrões digladiam-se nas contas e o resultado é apenas este: cerca de 25 dias de faltas grevistas por cada mil trabalhadores!

Paz laboral

                     Extraído de Instituto de Gestão do Crédito Público, Economic Outlook and Debt Management Strategy, Janeiro de 2011, p. 12.

 

De acordo com a publicação acima referida, Portugal é um dos países com menos dias de trabalho perdidos por causa das greves, no periodo entre 2000 e 2007. Há pois mais retórica nas lutas sindicais do que acção propriamente dita. Anunciam-se greves, sindicatos e patrões digladiam-se nas contas e o resultado é apenas este: cerca de 25 dias de faltas grevistas por cada mil trabalhadores!

Debtocracy – é a nossa dívida “odiosa”?

Neste documentário, questiona-se a legitimidade da imposição da dívida aos cidadãos da Grécia. Os analistas, onde pontuam algumas caras célebres da esquerda internacional como é o caso do velho Samir Amin, recorrem ao conceito de “dívida odiosa” para justificar a recusa do seu pagamento. Invocam-se precedentes como o perdão da dívida iraquiana exigido pelos EUA aos seus parceiros e o Equador que reanalisou todas as dívidas, uma a uma, para renegociá-las.

Será aceitável decidir que as dívidas contraídas por governos democráticos são ilegítimas, portanto, odiosas? Se se comprovar que as nossas dívidas serviram para funções do estado como a saúde, os transportes e a defesa, que o país tem de facto vivido acima do que a sua economia comporta, creio que não temos outro remédio, senão pagá-las. Mesmo a que resulta das parcerias público-privadas para estradas e hospitais (cerca de 60 mil milhões de euros) ou de má gestão nas empresas públicas (100 mil milhões)! Contudo, paira o fantasma da suspeita: há interesses privados a aumentar o valor desses contratos ou na decisão de os realizar? Há alguma diferença entre os nossos submarinos e os da Grécia?  

 

 

Debtocracy – é a nossa dívida “odiosa”?

Neste documentário, questiona-se a legitimidade da imposição da dívida aos cidadãos da Grécia. Os analistas, onde pontuam algumas caras célebres da esquerda internacional como é o caso do velho Samir Amin, recorrem ao conceito de “dívida odiosa” para justificar a recusa do seu pagamento. Invocam-se precedentes como o perdão da dívida iraquiana exigido pelos EUA aos seus parceiros e o Equador que reanalisou todas as dívidas, uma a uma, para renegociá-las.

Será aceitável decidir que as dívidas contraídas por governos democráticos são ilegítimas, portanto, odiosas? Se se comprovar que as nossas dívidas serviram para funções do estado como a saúde, os transportes e a defesa, que o país tem de facto vivido acima do que a sua economia comporta, creio que não temos outro remédio, senão pagá-las. Mesmo a que resulta das parcerias público-privadas para estradas e hospitais (cerca de 60 mil milhões de euros) ou de má gestão nas empresas públicas (100 mil milhões)! Contudo, paira o fantasma da suspeita: há interesses privados a aumentar o valor desses contratos ou na decisão de os realizar? Há alguma diferença entre os nossos submarinos e os da Grécia?  

 

 

Quem perde ganha – um novo patamar

Não sei se viram a ISIC, ontem (22h, 16/09/2016).

Com o novo reality show, a SIC Independente, o novo canal saído do cadáver da privatizada RTP, ultrapassa mais uma fronteira neste género de programas.

“Quem perde ganha – vence um cancro!” põe à prova as novas terapias recentemente divulgadas na Fundação Champalimaud.

Luís Filipe Redes, um dos concorrentes, exibia todo sorridente a ecografia dum seu tumor no estomago. “Não tenho só este, mas pu-lo no concurso, porque é o mais redondinho. Espero diminuí-lo drasticamente e levar o prémio para casa”. Na outra mão, tinha uma pequena estatueta da Nossa Senhora de Fátima. Explicava: “Temos que apostar em tudo!”

Às objeções de vários comentadores, onocologistas de serviço no concurso declararam que nada diferencia este programa dum de emagrecimento, pois, tanto num como noutro, a perda de matéria corporal depende de factores incontroláveis e não apenas da vontade dos concorrentes.

Ora acontece o mesmo com todos os concursos perde-ganha em que Portugal se tem envolvido, como é o caso da diminuição da dívida pública, feita à custa do decrescimento económico e do abaixamento do rendimento dos cidadãos – perdas que dependem de mais factores do que a nossa vontade.

Perdedores, portanto, ganhadores.

Quem perde ganha – um novo patamar

Não sei se viram a ISIC, ontem (22h, 16/09/2016).

Com o novo reality show, a SIC Independente, o novo canal saído do cadáver da privatizada RTP, ultrapassa mais uma fronteira neste género de programas.

“Quem perde ganha – vence um cancro!” põe à prova as novas terapias recentemente divulgadas na Fundação Champalimaud.

Luís Filipe Redes, um dos concorrentes, exibia todo sorridente a ecografia dum seu tumor no estomago. “Não tenho só este, mas pu-lo no concurso, porque é o mais redondinho. Espero diminuí-lo drasticamente e levar o prémio para casa”. Na outra mão, tinha uma pequena estatueta da Nossa Senhora de Fátima. Explicava: “Temos que apostar em tudo!”

Às objeções de vários comentadores, onocologistas de serviço no concurso declararam que nada diferencia este programa dum de emagrecimento, pois, tanto num como noutro, a perda de matéria corporal depende de factores incontroláveis e não apenas da vontade dos concorrentes.

Ora acontece o mesmo com todos os concursos perde-ganha em que Portugal se tem envolvido, como é o caso da diminuição da dívida pública, feita à custa do decrescimento económico e do abaixamento do rendimento dos cidadãos – perdas que dependem de mais factores do que a nossa vontade.

Perdedores, portanto, ganhadores.

Observações à prova de aferição de Língua Portuguesa do 2º ciclo

Os testes das provas de aferição têm sido exemplares no que respeita ao engenho investido nos itens para obter desempenhos relevantes. Este último não foge a essa regra.

Contudo, experimento alguns problemas tanto no enunciado como nos critérios de correcção. Não pretendo que estes problemas fossem detectáveis a priori. O crítico é sempre beneficiário dum trabalho anterior.

Citação ou transcrição, com que regras?

Algumas tarefas do dito teste parecem apontar para meros requisitos formais que no contexto não se parecem justificar. Creio que é o que acontece na questão 2. que refere “regras de transcrição”. Senti um certo desconforto com esta tarefa por não encontrar nem no manual que utilizo, nem no programa de 91, nem tampouco no novo, nenhum conteúdo referido sob a designação “regras de transcrição”. Mas no de 91, aparece o seguinte processo de operacionalização:

Transcrever de registos magnéticos depoimentos ou entrevistas.

Os linguistas conhecem bem esse item essencial ao trabalho de campo. Mas nas regras de transcrição que consultei não encontrei referência à utilização das aspas. Pensei: “não quererão falar de citação?”.

Será então muito relevante se os alunos põem aspas ou não? Quando ponho palavras dos outros num texto meu tenho de o marcar de alguma maneira para não se confundir com o meu. Uma das maneiras de o fazer é com as aspas.

De facto, a tarefa refere-se a discurso oral ficionalizado. Mas se se trata de transcrição no sentido linguístico, os meninos teriam de o ouvir e não de lê-lo num texto escrito.

A exigência das aspas é aqui uma inutilidade formal porque pelo enunciado da pergunta já se percebe que o que se regista por baixo são palavras do texto ouvidas por uma personagem.

Sem texto próprio do aluno, não há necessidade de assinalar o texto citado.

“Personificação” – explicar ou classificar?

Na questão 3., pede-se ao aluno que explique porque é que um determinado trecho é uma personificação. Na correcção, exige-se apenas que o aluno indique o comportamento referido no texto como humano ou próprio de “pessoa” para justificar a etiqueta de “personificação”.

Tratava-se dum riacho que pela insignificância do seu caudal no verão era objecto da troça dos rapazes. Quando se tornava caudaloso no tempo das chuvas, era ele que troçava deles. As respostas de alguns alunos que tentam explicar o sentido da personificação – que é o rio que se enche de água e surpreende os que antes gozavam com ele – é desvalorizada.

Creio que a personificação é apreendida negativamente por muitos alunos, apenas como algo inadequado, por isso, abundam as definições pela negativa, aquilo em que a personificação é por o objecto “não ser pessoa”. Adquirimos uma maior compreensão da linguagem quando mostramos o que a personificação quer expressar, o seu sentido no texto.

Um enunciado difícil

Na questão 10., destaca-se a frase:

O rio recebia a água da chuva que lhe engrossava a corrente.

E pede-se:

Escreve uma frase em que utilizes o nome sublinhado, mas com um significado diferente.

Na elipse que se segue à conjunção, houve alunos que entenderam “uma frase”. E lá escreveram frases diferentes em que “corrente” tem o mesmo sentido.

Outros entenderam que a coordenada “mas…” relaciona-se com “o nome sublinhado”. E escreveram frases em que “corrente” tem um sentido diferente.

Outros ainda entenderam que tinham que substituir “correntes” por uma expressão sinónima.

Quando li o enunciado à procura da explicação para esta diversidade de respostas, pareceu-me que a frase era sintaticamente ambígua. Mas não é esse o caso. O problema está em os alunos não estarem familiarizados com uma coordenação adversativa interna ao grupo nominal. O que é certo é que foram muitos os que não compreenderam que tinham que criar um contexto em que “corrente” tivesse outro significado.

Se o enunciado fosse “Escreve uma frase em que a palavra corrente tem um sentido diferente do que tem na frase acima”, haveria provavelmente maior diversidade nas “correntes” apresentadas.

As ordens (ou pedidos) têm que ter vocativo?

Na questão 16. apresenta-se o seguinte relato:

Quando chovia, a avó pedia à Altina que fosse buscar bacias para a água.

E pede-se ao aluno que “imagine” a avó a dirigir-se directamente à Altina. Uns alunos põem vocativo, outros, não.

Quando chovia a avó pedia:

– Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

Ou:

Quando chovia a avó pedia:

– Vai buscar bacias para a água!

Ora, se a Altina estivesse ali ao lado e fosse a única pessoa, era provável que a avó não utilizasse o vocativo. Com que base é que se penalizam as respostas sem vocativo?

No caso de uma transformação pura do discurso indirecto em directo, o destinatário do pedido da avó deveria estar nas palavras do narrador e não nas da personagem:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

O facto de ser um pedido, poderia ser indicado de várias maneiras, com uma “partícula de realce” ou com algum tipo de indirectividade:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Vai lá buscar bacias para a água!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, podes ir buscar bacias para a água?!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, não te importas de ir buscar bacias para a água?!

Finalmente, sendo este acto discursivo da ordem do iterativo e não um facto singular que tenha acontecido num único momento, a sua passagem para o discurso directo não me parece um exercício muito adequado, pois a avó terá pedido à Altina para ir buscar as bacias de muitas maneiras diferentes, a não ser que tenha uma espécie de fórmula mágica que utilize sempre que comece a chover.

Observações à prova de aferição de Língua Portuguesa do 2º ciclo

Os testes das provas de aferição têm sido exemplares no que respeita ao engenho investido nos itens para obter desempenhos relevantes. Este último não foge a essa regra.

Contudo, experimento alguns problemas tanto no enunciado como nos critérios de correcção. Não pretendo que estes problemas fossem detectáveis a priori. O crítico é sempre beneficiário dum trabalho anterior.

Citação ou transcrição, com que regras?

Algumas tarefas do dito teste parecem apontar para meros requisitos formais que no contexto não se parecem justificar. Creio que é o que acontece na questão 2. que refere “regras de transcrição”. Senti um certo desconforto com esta tarefa por não encontrar nem no manual que utilizo, nem no programa de 91, nem tampouco no novo, nenhum conteúdo referido sob a designação “regras de transcrição”. Mas no de 91, aparece o seguinte processo de operacionalização:

Transcrever de registos magnéticos depoimentos ou entrevistas.

Os linguistas conhecem bem esse item essencial ao trabalho de campo. Mas nas regras de transcrição que consultei não encontrei referência à utilização das aspas. Pensei: “não quererão falar de citação?”.

Será então muito relevante se os alunos põem aspas ou não? Quando ponho palavras dos outros num texto meu tenho de o marcar de alguma maneira para não se confundir com o meu. Uma das maneiras de o fazer é com as aspas.

De facto, a tarefa refere-se a discurso oral ficionalizado. Mas se se trata de transcrição no sentido linguístico, os meninos teriam de o ouvir e não de lê-lo num texto escrito.

A exigência das aspas é aqui uma inutilidade formal porque pelo enunciado da pergunta já se percebe que o que se regista por baixo são palavras do texto ouvidas por uma personagem.

Sem texto próprio do aluno, não há necessidade de assinalar o texto citado.

“Personificação” – explicar ou classificar?

Na questão 3., pede-se ao aluno que explique porque é que um determinado trecho é uma personificação. Na correcção, exige-se apenas que o aluno indique o comportamento referido no texto como humano ou próprio de “pessoa” para justificar a etiqueta de “personificação”.

Tratava-se dum riacho que pela insignificância do seu caudal no verão era objecto da troça dos rapazes. Quando se tornava caudaloso no tempo das chuvas, era ele que troçava deles. As respostas de alguns alunos que tentam explicar o sentido da personificação – que é o rio que se enche de água e surpreende os que antes gozavam com ele – é desvalorizada.

Creio que a personificação é apreendida negativamente por muitos alunos, apenas como algo inadequado, por isso, abundam as definições pela negativa, aquilo em que a personificação é por o objecto “não ser pessoa”. Adquirimos uma maior compreensão da linguagem quando mostramos o que a personificação quer expressar, o seu sentido no texto.

Um enunciado difícil

Na questão 10., destaca-se a frase:

O rio recebia a água da chuva que lhe engrossava a corrente.

E pede-se:

Escreve uma frase em que utilizes o nome sublinhado, mas com um significado diferente.

Na elipse que se segue à conjunção, houve alunos que entenderam “uma frase”. E lá escreveram frases diferentes em que “corrente” tem o mesmo sentido.

Outros entenderam que a coordenada “mas…” relaciona-se com “o nome sublinhado”. E escreveram frases em que “corrente” tem um sentido diferente.

Outros ainda entenderam que tinham que substituir “correntes” por uma expressão sinónima.

Quando li o enunciado à procura da explicação para esta diversidade de respostas, pareceu-me que a frase era sintaticamente ambígua. Mas não é esse o caso. O problema está em os alunos não estarem familiarizados com uma coordenação adversativa interna ao grupo nominal. O que é certo é que foram muitos os que não compreenderam que tinham que criar um contexto em que “corrente” tivesse outro significado.

Se o enunciado fosse “Escreve uma frase em que a palavra corrente tem um sentido diferente do que tem na frase acima”, haveria provavelmente maior diversidade nas “correntes” apresentadas.

As ordens (ou pedidos) têm que ter vocativo?

Na questão 16. apresenta-se o seguinte relato:

Quando chovia, a avó pedia à Altina que fosse buscar bacias para a água.

E pede-se ao aluno que “imagine” a avó a dirigir-se directamente à Altina. Uns alunos põem vocativo, outros, não.

Quando chovia a avó pedia:

– Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

Ou:

Quando chovia a avó pedia:

– Vai buscar bacias para a água!

Ora, se a Altina estivesse ali ao lado e fosse a única pessoa, era provável que a avó não utilizasse o vocativo. Com que base é que se penalizam as respostas sem vocativo?

No caso de uma transformação pura do discurso indirecto em directo, o destinatário do pedido da avó deveria estar nas palavras do narrador e não nas da personagem:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, vai buscar bacias para a água!

O facto de ser um pedido, poderia ser indicado de várias maneiras, com uma “partícula de realce” ou com algum tipo de indirectividade:

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Vai lá buscar bacias para a água!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, podes ir buscar bacias para a água?!

 

Quando chovia a avó pedia à Altina:

– Ó Altina, não te importas de ir buscar bacias para a água?!

Finalmente, sendo este acto discursivo da ordem do iterativo e não um facto singular que tenha acontecido num único momento, a sua passagem para o discurso directo não me parece um exercício muito adequado, pois a avó terá pedido à Altina para ir buscar as bacias de muitas maneiras diferentes, a não ser que tenha uma espécie de fórmula mágica que utilize sempre que comece a chover.

O Partido dos Animais e da Natureza

Paulo Borges e o seu PAN (Partido dos Animais e da Natureza) apresenta algumas propostas políticas que subscrevo inteiramente, mas discordo fundamentalmente dos pressupostos ideológicos, patentes na própria designação do partido. Não faz qualquer sentido um partido da natureza, porque a natureza é uma totalidade perfeitamente indiferente que tudo abarca e nada exclui. Não encontro nenhum elemento ético na constituição da natureza. Nao creio que nos possamos afastar ou aproximar da natureza, nem tampouco que a natureza possa inspirar qualquer espécie de ideal. A oposição homem / natureza é uma falha filosófica. Foi naturalmente que o símio se fez homem e foi a sua herança genética que lhe permitiu construir computadores, enviar foguetões à lua, fazer o holocausto e destruir a floresta amazónica.

Se se puser o problema da sobrevivência humana, a perspectiva ecológica, a perda humana que significa o desaparecimento de espécies animais, ganha todo o cabimento. Não precisamos de defender os outros animais do sofrimento, gostemos mais ou menos deles. Eles nunca reconhecerão essa solidariedade que é uma questãozinha da espécie humana. Nunca farei uma manifestação contra as touradas, embora as ache desprezíveis. Lamento que seres humanos se divirtam com o sofrimento dos touros, por causa daqueles e não por causa destes que são criados para fazerem bons bifes.

Noutros ecossistemas, os touros são bons para serem comidos pelos leões e por outros predadores, que aliás também se divertem a fazê-los sofrer, prática em que são pródigos os predadores mais jovens nos seus jogos de aprendizagem da nobre arte da caça.

Os animais nunca são coisas, porque as coisas verdadeiramente sem vida não se podem comer. Os animais são objectos da cultura humana e é esta que lhes define os papéis. Desde a domesticação das plantas e dos animais, a caça deixou de fazer grande sentido. É nas culturas mais atrasadas que o animal, besta e monstro, é apresentado como troféu do guerreiro ou do caçador. Alguns rituais como o da matança do porco parecem evocar um tempo em que a luta entre o homem e os outros animais era uma questão de sobrevivência.

Repudio completamente toda e qualquer equiparação que se faça em termos de direito entre o homem e os outros animais, pela simples razão de que só os homens têm sistemas de leis e de direito e eu pertenço à comunidade humana. Exemplo dessa equiparação é a feita por Peter Singer que acha que pode pôr lado a lado animais com comportamentos e sistemas neurológicos mais avançados e seres humanos diminuídos nas suas capacidades pela doença. Uma pessoa com Alzheimer, por exemplo, não pode ter menos direitos que qualquer outro e não se pode atribuir mais direitos a um chimpanzé por ser eventualmente mais inteligente pela simples razão de que o direito pertence à comunidade e essa pessoa com Alzheimer, que já não diz coisa com coisa e nem sequer é capaz de fazer algumas tarefas perfeitamente ao alcance de um chimpanzé, é uma pessoa que tem o mesmo ADN dos seus familiares que nunca deixarão de a ver como humana. Nenhum ser humano pode ser sujeito a um teste cognitivo para aferir da sua humanidade.

Dito isto, aceito de bom grado que seja proíbida a captura e o tratamento cruel a essas criaturas que são nossos primos na história evolutiva e nos fazem lembrar muita da nossa humanidade.

Acho que a doutrina do PAN só se torna coerente, se acreditarmos na transmigração das almas.