Paradise Lost and Regained

Este post resulta do comentário a http://correntes.blogs.sapo.pt/1216240.html.

Paradise Lost and Regained é o título do célebre poema de John Milton que aponta para uma concepção circular da história que foi consagrada em alguns dos textos escatológicos da Bíblia. A história começa com uma perda no pecado original que tem que ser recuperada no fim dos tempos para dar lugar a um novo começo, um novo mundo sem pecado, em beatitude e felicidade plenas.

A ideia de que tem de haver um fim “do mundo”, ou “do sistema de coisas” como dizem alguns grupos religiosos milenaristas está funda na nossa mentalidade e passou para sistemas ideológicos que aparentemente tinham pressupostos muito diferentes.

No Manifesto Comunista de Marx e Engels, por exemplo, sugere-se que, tendo por base a dialéctica da luta de classes, a história da humanidade seguia etapas precisas designadas por “modos de produção” – comunismo primitivo, esclavagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo, de novo. Temos de novo um ciclo que vai do comunismo primitivo ao comunismo avançado, em que o pecado inicial é representado pela “exploração do homem pelo homem”.

Marx era herdeiro da conceção hegeliana segundo a qual a história tem uma direção e um fim. A ideia de que a história acaba num novo sistema que deve ser a sua suprema razão está impregnada na nossa cultura. Em particular, existe a obcessão de que os tempos que vivemos são de decadência do nosso actual sistema quer lhe chamemos “capitalista”, quer “ocidente”. Assim, temos uma concepção triunfalista da história no Fukuyama hegeliano que elige a democracia atual como o sistema final da história do mundo (cf. O fim da história e o último homem). Isto parece ser o contrário da decadência de Spengler, na sua obra A decadência do Ocidente.

Creio que estamos armadilhados não só pela escatologia bíblica, mas por uma particular interpretação que radica em vários dos primeiros padres da igreja, entre os quais, Santo Agostinho que, vivendo, no final do império romano, profundamente impressionado pelo saque de Roma pelos germanos, via no fim do império cristão, o início da Jerusalém espiritual profetizada em Apocalipse. Portanto, ao fim do império suceder-se-ia um novo mundo espiritual. Esse fim terreno resulta dos pecados dos homens. Cai a cidade de Deus terrena – Roma, capital do império cristão – para dar lugar à cidade celestial.

O império romano é uma das fases da história do mundo conformes às leituras que se fazem das profecias de Daniel (Cf. o livro de Daniel da Bíblia) – primeiro seria o egípcio, depois o assírio, o babilónico, o persa, o grego e, finalmente, o romano, aquele que, na leitura cristã, veria chegar o novo rei de um novo reino celestial, Jesus Cristo.

Esta conceção histórica está presente sob formas diferentes em muitos dos que procuram interpretar os sinais da história e o caso do império romano aparece como a grande lição com que importa comparar o nosso tempo. Os pecados variam consoante a variante ideológica em causa. Se for um conservador, acusará o fim das virtudes morais da família tradicional romana e colocará como paralelo, o casamento homossexual, a liberalidade sexual atual e a falta de respeito pelas hierarquias etárias e sociais. Se for um radical marxista, será o fim do sistema capitalista que acabará numa crise tal como acontecera com a crise do esclavagista império romano. Se é um liberal, procurará no império, o poder do Estado a asfixiar a economia, a subsidiar plebeus improdutivos, a impedir as virtudes do mercado, a torpedear a relação sagrada entre preço, oferta e procura.

Todas estes discursos resultam numa falsificação da história do império romano, numa dificulade em referir concretamente os tempos, por exemplo, o apontar com exatidão do início da dita decadência e as mudanças, as novidades históricas que justificam essa tese.

Ao fim e cabo, desembocam sempre num anacronismo, num presentismo inevitável.

Paradise Lost and Regained

Este post resulta do comentário a http://correntes.blogs.sapo.pt/1216240.html.

Paradise Lost and Regained é o título do célebre poema de John Milton que aponta para uma concepção circular da história que foi consagrada em alguns dos textos escatológicos da Bíblia. A história começa com uma perda no pecado original que tem que ser recuperada no fim dos tempos para dar lugar a um novo começo, um novo mundo sem pecado, em beatitude e felicidade plenas.

A ideia de que tem de haver um fim “do mundo”, ou “do sistema de coisas” como dizem alguns grupos religiosos milenaristas está funda na nossa mentalidade e passou para sistemas ideológicos que aparentemente tinham pressupostos muito diferentes.

No Manifesto Comunista de Marx e Engels, por exemplo, sugere-se que, tendo por base a dialéctica da luta de classes, a história da humanidade seguia etapas precisas designadas por “modos de produção” – comunismo primitivo, esclavagismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo, de novo. Temos de novo um ciclo que vai do comunismo primitivo ao comunismo avançado, em que o pecado inicial é representado pela “exploração do homem pelo homem”.

Marx era herdeiro da conceção hegeliana segundo a qual a história tem uma direção e um fim. A ideia de que a história acaba num novo sistema que deve ser a sua suprema razão está impregnada na nossa cultura. Em particular, existe a obcessão de que os tempos que vivemos são de decadência do nosso actual sistema quer lhe chamemos “capitalista”, quer “ocidente”. Assim, temos uma concepção triunfalista da história no Fukuyama hegeliano que elige a democracia atual como o sistema final da história do mundo (cf. O fim da história e o último homem). Isto parece ser o contrário da decadência de Spengler, na sua obra A decadência do Ocidente.

Creio que estamos armadilhados não só pela escatologia bíblica, mas por uma particular interpretação que radica em vários dos primeiros padres da igreja, entre os quais, Santo Agostinho que, vivendo, no final do império romano, profundamente impressionado pelo saque de Roma pelos germanos, via no fim do império cristão, o início da Jerusalém espiritual profetizada em Apocalipse. Portanto, ao fim do império suceder-se-ia um novo mundo espiritual. Esse fim terreno resulta dos pecados dos homens. Cai a cidade de Deus terrena – Roma, capital do império cristão – para dar lugar à cidade celestial.

O império romano é uma das fases da história do mundo conformes às leituras que se fazem das profecias de Daniel (Cf. o livro de Daniel da Bíblia) – primeiro seria o egípcio, depois o assírio, o babilónico, o persa, o grego e, finalmente, o romano, aquele que, na leitura cristã, veria chegar o novo rei de um novo reino celestial, Jesus Cristo.

Esta conceção histórica está presente sob formas diferentes em muitos dos que procuram interpretar os sinais da história e o caso do império romano aparece como a grande lição com que importa comparar o nosso tempo. Os pecados variam consoante a variante ideológica em causa. Se for um conservador, acusará o fim das virtudes morais da família tradicional romana e colocará como paralelo, o casamento homossexual, a liberalidade sexual atual e a falta de respeito pelas hierarquias etárias e sociais. Se for um radical marxista, será o fim do sistema capitalista que acabará numa crise tal como acontecera com a crise do esclavagista império romano. Se é um liberal, procurará no império, o poder do Estado a asfixiar a economia, a subsidiar plebeus improdutivos, a impedir as virtudes do mercado, a torpedear a relação sagrada entre preço, oferta e procura.

Todas estes discursos resultam numa falsificação da história do império romano, numa dificulade em referir concretamente os tempos, por exemplo, o apontar com exatidão do início da dita decadência e as mudanças, as novidades históricas que justificam essa tese.

Ao fim e cabo, desembocam sempre num anacronismo, num presentismo inevitável.

Então, e a igualdade de oportunidades? (continuação do post anterior)

“Então, e a igualdade de oportunidades?”

“Isso é o que os liberais reivindicam. Os socialistas têm que ir mais longe”

“Todos com sucessos diferentes na vida, mas com igualdade plena perante a lei!”

“Todos com as mesmas oportunidades na vida, mas o que cada um consegue é consigo próprio, é da sua inteira responsabiblidade”

“O livre arbítrio: colhe o que semeaste!”

“Nós queremos mais do que isso. Queremos que todos tenham sucesso e achamos que é uma anomalia um aluno na escola não conseguir singrar nos estudos. Quando isso acontece, alguém está mal: a família, os serviços sociais, etc. Menos a própria criança. Ou ela tem um carimbo que a desculpa – disléxia, hiperatividade, síndrome de down, etc. – ou alguém é culpado pelo seu insucesso”

“Mas será que queremos mesmo a igualdade de oportunidades? Essa é a questão que te coloco.”

“Evidentemente, defendo com unhas e dentes todos os apoios que o estado dá no sentido de afirmar a igualdade”

“Todos devem ter igual acesso à educação, à saúde, etc. Mas achas que todas as crianças têm as mesmas oportunidades que os teu filhos? Por exemplo, um dos teus filhos pratica natação e estuda inglês e música em escolas privadas”

“Não, infelizmente não podem, pois as famílias mal têm dinheiro para as ter na escola pública.”

“E lembra-te daquela nossa amiga que tem uma criança com síndrome de down. Ela recebeu uma herança bastante grande que lhe permitiu criar já uma série de recursos para a filha. Por exemplo, a miúda vai ter um casa própria e uma bolsa mensal que lhe permitirá sobreviver quando a mãe já não a puder ajudar. Achas que esta criança tem as mesmas oportunidades do que outras crianças na mesma situação?”

“Não, tem melhores oportunidades do que outras que poderão contribuir mais para a comunidade.”

“Se queres igualdade de oportunidades, não deverias preocupar-te com o que podes fazer no sentido de que as outras crianças tenham o mesmo do que os teus filhos têm?”

“Tenho que reconhecer que sim. Mas o que é que poderíamos fazer”

“Por exemplo, poderíamos proibir o negócio das escolas privadas. Isto é, nenhuma escola poderia pedir pagamentos pelo seu ensino, pois todos têm o mesmo direito ao ensino seja da música, seja da natação. Como, por exemplo, acontece na Finlândia.”

“Não, não estou disposto a esperar que haja boas condições para todos terem acesso. Quero pagar já tudo o que os meus filhos precisarem.”

“Podíamos também proibir a herança. Quando uma pessoa morre, tudo o que tem passa para a comunidade de maneira a impedir que uns comecem a vida com melhores condições do que outros. Também se todos têm direito à saúde, à educação e ao trabalho (de acordo com as suas competências), para que precisarão daquilo que os pais lhe poderiam deixar?”

“Não, não desejo isso, quero preparar a vida dos meus filhos tão bem quanto possível e essa é um das minhas motivações para trabalhar e subir na vida.”

“Então tens que reconhecer que és contra a igualdade de oportunidades.”

“Mas eu quero que o estado apoie aqueles que têm menos recursos do que eu para dar aos meus filhos”

“Penso o mesmo que tu. Também sou contra a igualdade de oportunidades que seria uma imposição necessariamente feita por baixo. Acho que os pais têm que ter o direito de fazer o melhor possível pelos seus.”

“Mas ficamos ofendidos com a miséria, com a falta de oportunidades e, sobretudo, com o talento desperdiçado por falta de condições.”

“É isso. Queremos políticas públicas que ofereçam condições e oportunidades a toda a gente. Mas não abdicamos do nosso compromisso – primeiro – de favorecer ao máximo os nossos filhos. Mas a igualdade de oportunidades é também ela tendencial. O estado, isto é, todos nós, deve compensar desvantagens. Sabemos que o talento vence as piores adversidades e, muitos singram com carências insuportáveis. Mas, como socialistas que nos prezamos ser, queremos mais do que uma pesca de talentos nas classes mais desfavorecidas. queremos que todos tenham direito à educação, à saúde, etc. Queremos que ninguém fique desamparado sem saber o que há-de fazer da sua vida. Mas a igualdade de oportunidades é um slogan hipócrita. Estou em crer que a maior parte dos que o defendem são na realidade contra ele”

A última tribo

Têm sido muitas as últimas tribos, desde a célebre fraude dos anos 70 sobre os Tasaday da ilha do Mindanao nas Filipinas. Agora, é o caso de mais uma tribo amazónica ainda não contactada pela “civilização” que parece verdadeiro, embora a imagem não seja suficiente esclarecedora. Tudo isto tresanda ao bom selvagem de Rousseau. Interessa-me apenas que estas pessoas sejam bem tratadas e que consigam sobreviver no novo mundo que irão descobrir.

 

 

Por Zarzis

zarzis02.jpg

 

Em 2006, publiquei este post sobre a liberdade de expressão na Tunísia:

 

Um professor e vários dos seus alunos de Zarzis, no sul da Tunísia, foram apanhados a consultar a Internet e, por isso, foram presos e, mesmo, torturados. Pouco me importa o que eles procuravam na Internet, ou que haja hecatombes maiores com que me preocupar. Neste momento, sou um cidadão de Zarzis. http://www.zarzis.org/

Desculpas públicas

Agora, de cabeça fria, considero inexacto e calunioso o post “Rui Correia, o senhor Winston da blogosfera”, na parte final em que acuso o autor do blogue referido de falsear comentários. Num post seu, Rui Correia acusara-me sem me nomear, mas referindo a lista que eu encabeçara, de ser um adesivo da direcção da minha escola e de ser uma pessoa venal, que participava na lista para pagar favores.

No calor da discussão desse post, vi desaparecer comentários que eu queria rever. Como julgava que não era possível apagar comentários sem apagar o próprio artigo, pensei que o autor do comentário anónimo era o próprio dono do blogue. Agora sei que o dono dum blogue pode fazer quase tudo, em termos de edição. Mas, naquele momento, fiquei extraordinariamente nervoso, não só pelo apagamento dos meus comentários, mas também pela suspeita e, no fim, afirmei o que não devia, o que não tenho evidências para declarar. Nem o título do artigo é, neste contexto, pertinente.

Aqui estão as minhas desculpas à pessoa que ofendi e o anúncio de que vou, pela primeira vez, apagar alguma coisa deste blogue, para que não permaneça escrito o que não é justo.

O ensino da história de acordo com o Miguel Real

Não resisto a citar o Miguel Real daquela entrevista (ver post anterior). É que com isto estou de acordo. Não há volta a dar-lhe. Ele tem toda a razão.

 

Não estou muito de acordo com a história ao vivo, aquela antiga metodologia de história em que para se perceber a Idade Média vamos fazer uma feira ali: um aluno veste-se de rei, outro de …..Eu penso que essa ideia foi um bocadinho ingénua, ingénua no sentido em que a história necessita primeiro de memorização, compreensão/memorização e depois de uma reflexão. Isso deve ser feito na sala de aula, pode ser feito com filmes, na história do século XX temos imensos filmes para isso, sobre a 2ª guerra mundial há filmes que nunca mais acabam e há filmes mesmo didácticos, sobre o Hitler, sobre a 2ª guerra mundial em geral. A história devia ser uma das disciplinas principais, mais até do que a literatura, para falar verdade; a história devia ser uma espécie de linha dorsal de um plano de culturalização do aluno, de consciencialização do seu lugar na história.

O ensino da história de acordo com o Miguel Real

Não resisto a citar o Miguel Real daquela entrevista (ver post anterior). É que com isto estou de acordo. Não há volta a dar-lhe. Ele tem toda a razão.

 

Não estou muito de acordo com a história ao vivo, aquela antiga metodologia de história em que para se perceber a Idade Média vamos fazer uma feira ali: um aluno veste-se de rei, outro de …..Eu penso que essa ideia foi um bocadinho ingénua, ingénua no sentido em que a história necessita primeiro de memorização, compreensão/memorização e depois de uma reflexão. Isso deve ser feito na sala de aula, pode ser feito com filmes, na história do século XX temos imensos filmes para isso, sobre a 2ª guerra mundial há filmes que nunca mais acabam e há filmes mesmo didácticos, sobre o Hitler, sobre a 2ª guerra mundial em geral. A história devia ser uma das disciplinas principais, mais até do que a literatura, para falar verdade; a história devia ser uma espécie de linha dorsal de um plano de culturalização do aluno, de consciencialização do seu lugar na história.

Quanto ganham os outros?

Professor primário em início de carreira:

 

Rank Countries Amount
# 1 Switzerland: $33,209.00
# 2 Germany: $29,697.00
# 3 Denmark: $28,140.00
# 4 Netherlands: $25,896.00
# 5 United States: $25,707.00
# 6 Australia: $25,661.00
# 7 Spain: $24,464.00
# 8 Norway: $22,194.00
# 9 Ireland: $21,940.00
# 10 Austria: $21,804.00
# 11 Iceland: $19,939.00
# 12 France: $19,761.00
# 13 Greece: $19,327.00
# 14 Italy: $19,188.00
# 15 Portugal: $18,751.00
# 16 Sweden: $18,581.00
# 17 Finland: $18,110.00
# 18 New Zealand: $16,678.00
# 19 Mexico: $10,465.00
# 20 Turkey: $9,116.00
# 21 Czech Republic: $6,806.00
# 22 Hungary: $5,763.00

 

Os montantes referem-se a salário anuais.

Informação em dólares americanos extraída de: http://www.nationmaster.com/graph/edu_pri_tea_sal_sta-education-primary-teacher-salary-starting