Quanto ganham os outros?

Professor primário em início de carreira:

 

Rank Countries Amount
# 1 Switzerland: $33,209.00
# 2 Germany: $29,697.00
# 3 Denmark: $28,140.00
# 4 Netherlands: $25,896.00
# 5 United States: $25,707.00
# 6 Australia: $25,661.00
# 7 Spain: $24,464.00
# 8 Norway: $22,194.00
# 9 Ireland: $21,940.00
# 10 Austria: $21,804.00
# 11 Iceland: $19,939.00
# 12 France: $19,761.00
# 13 Greece: $19,327.00
# 14 Italy: $19,188.00
# 15 Portugal: $18,751.00
# 16 Sweden: $18,581.00
# 17 Finland: $18,110.00
# 18 New Zealand: $16,678.00
# 19 Mexico: $10,465.00
# 20 Turkey: $9,116.00
# 21 Czech Republic: $6,806.00
# 22 Hungary: $5,763.00

 

Os montantes referem-se a salário anuais.

Informação em dólares americanos extraída de: http://www.nationmaster.com/graph/edu_pri_tea_sal_sta-education-primary-teacher-salary-starting

Teacher Man de Mc Court

Teacher Man de Frank Mc Court é um delicioso registo autobiográfico que muito tem a dizer àqueles dos seus leitores que também foram ou são professores. É de um percurso problemático e não de uma história de proveito e exemplo que o livro trata.

Com a sua narrativa, Frank conduz-me à ideia de que façamos o que fizermos, quaisquer que sejam as teorias psico-pedagógicas que adoptemos, o que fica são fatias de vida únicas, de professores e alunos. Quer me parecer ser essa a principal lição dos professores que se podem classificar como pertencentes ao paradigma afectivo, caso de Mc Court e do nosso Sebastião da Gama.

Mais do que a conformidade a um programa ou a um ideário técnico-pedagógico, eles buscam uma relação significativa. Apercebem-se da realidade existencial e única do encontro pedagógico. O aluno deixa de ser um elemento sujeito a um processo padronizado, cujos resultados se podem avaliar e comparar para se tornar numa pessoa com quem o professor tem de estabelecer uma relação que é sempre de ordem afectiva.

Se um aluno está fora da situação da aula, há sempre um problema que tem necessariamente contornos afectivos. “Dar matéria”, neste âmbito, é o que menos importa, sobretudo em disciplinas, como a leitura e a escrita em língua materna, oficial, para ser mais preciso, pois muitos a têm como castelhana, chinesa, coreana ou vietnamita e não “standard english”.

Não se trata, como já disse, duma apologia duma certa maneira de estar na profissão docente, embora muitos leitores o leiam assim. Se o fosse, o valor literário do texto perdia-se em muito. Nesta recensão, não posso também acusar, criticar ou defender a orientação pedagógica do professor Mc Court, “tout court”, pois o que aqui está em causa é precisamente uma experiência de vida, com que se pode aprender mais do que em muitos compêndios de psicopedagoia.

O professore Mc Court começa precisamente por ser, como muitos outros professores, alguém que tem que sobreviver e não alguém que escolheu ser professor por vocação. O seu objecto era desde o início o trabalho literário ou sobre a literatura.

O seu texto parece-me um inventário das situações vividas pela generalidade dos professores, pois reconheço nas suas histórias muito do que vejo acontecer na carreira de muitos professores.

Começou a dar aulas em escolas secundárias técnicas que nós hoje em Portugal resumiríamos com a sigla “CEF”, isto é, tinha que leccionar inglês a rapazes que tinham como horizonte de vida ser canalizadores. Por isso, o título do primeiro capítulo é significativo: “It´s a long road to pedagogy”. Mc Court tenta sobreviver como professor o que implica conquistar os seus alunos, o que não é feito sem vítimas e sem retrocessos, pois acontecem inúmeros incidentes, por exemplo, conflitos pessoais com alunos que o levam a não ter o seu contrato renovado no ano seguinte.

Mc Court lastima a sua necessidade dessa conquista afectiva, desse reconhecimento perante a turma. O “novo professor” é o bombo da festa a ser testado pelos jovens alunos. Quando consegue ter a turma quase toda na mão, encontra o último obstáculo, um aluno que desafia a sua autoridade. O professor está no bando e tem de conquistar a liderança contra um rival. Aqui surge a panóplia de truques – cada tem os seus – e Mc Court limita-se a narrar os factos, de como obteve o reconhecimento.

Para dominar a assistência, Mc Court descobriu uma receita notável: narrar histórias comoventes da sua infância em Limerick, na Irlanda. Os alunos também aprenderam a distrair o professor com perguntas sobre o seu passado na Irlanda. Depressa Mc Court compreendeu a estratégia: evitar as lições de “spelling” e os exercícios, distraindo o professor com a sua “miserable childhood”. Entre professor e narrador, Mc Court viveu uma missão difícil nestas escolas, onde, parece se ter tornado numa referência na biografia dos seus alunos.

Facto exemplar desta situação é o passeio de Mc Court com vinte e cinco raparigas negras na baixa de Nova Iorque. O professor atrevera-se a levar ao cinema as alunas de uma certa turma que mais nenhum professor da escola arriscava. A narrativa é de um humor irresistível. Um professor branco, um sobrevivente, leva 29 meninas negras ao centro de Nova Iorque. As meninas também eram sobreviventes e conhecem todos os truques, como saltar a barreira do Metro para não pagar bilhete e deixar o professor sozinho na bilheteira a pagar o cinema para ficarem com dinheiro para outras coisas, etc.

Da carreira de professor, ficamos com o retrato que os portugueses têm da coisa. Tudo se resume a uma máxima: “professor bom é demasiado bom para ensinar”. Muitos estudam de tudo o que serve para subir na carreira e dar menos aulas ou delas fugir para sempre, tornar-se “principal” ou “supervisor”, isto é cargos não docentes, melhor remunerados.

Mc Court conseguiu finalmente, o seu Eldorado, dar aulas numa escola, cujos alunos afluem a Harvard e a outras das melhores universidades.

Aqui a problemática muda: professor de “creative writing”, tem de conduzir meninos com uma vida rotineiramente satisfatória a ganhar ideias para escrever. Se nas escolas profissionais, foram as justificações de faltas e atrasos – “excuse notes” – que serviram de desencadeador da escrita, na escola da elite, foram as receitas de culinária a desempenhar esse papel.

Revelou-se também a contradição entre a expectativa das famílias centrada na ideia da nobreza do acto de escrita e o facto de à genialidade não corresponder qualquer padrão moral supostamente elevado na mesma medida. Por isso, Frank relata as objecções de encarregados de educação à presença do vagabundo, ladrão, proxeneta, traficante e escritor Herbert Huncke numa das suas aulas. Ora, Huncke era um figura central do movimento Beat, companheiro de Kerouac e de Ginsberg e uma presença constante nos cafés daquela zona de Nova York. Mas nem a biografia de Hemingway seria recomendável neste aspecto. Na escrita, risca-se e arrisca-se muito.

Teacher Man de Mc Court

Teacher Man de Frank Mc Court é um delicioso registo autobiográfico que muito tem a dizer àqueles dos seus leitores que também foram ou são professores. É de um percurso problemático e não de uma história de proveito e exemplo que o livro trata.

Com a sua narrativa, Frank conduz-me à ideia de que façamos o que fizermos, quaisquer que sejam as teorias psico-pedagógicas que adoptemos, o que fica são fatias de vida únicas, de professores e alunos. Quer me parecer ser essa a principal lição dos professores que se podem classificar como pertencentes ao paradigma afectivo, caso de Mc Court e do nosso Sebastião da Gama.

Mais do que a conformidade a um programa ou a um ideário técnico-pedagógico, eles buscam uma relação significativa. Apercebem-se da realidade existencial e única do encontro pedagógico. O aluno deixa de ser um elemento sujeito a um processo padronizado, cujos resultados se podem avaliar e comparar para se tornar numa pessoa com quem o professor tem de estabelecer uma relação que é sempre de ordem afectiva.

Se um aluno está fora da situação da aula, há sempre um problema que tem necessariamente contornos afectivos. “Dar matéria”, neste âmbito, é o que menos importa, sobretudo em disciplinas, como a leitura e a escrita em língua materna, oficial, para ser mais preciso, pois muitos a têm como castelhana, chinesa, coreana ou vietnamita e não “standard english”.

Não se trata, como já disse, duma apologia duma certa maneira de estar na profissão docente, embora muitos leitores o leiam assim. Se o fosse, o valor literário do texto perdia-se em muito. Nesta recensão, não posso também acusar, criticar ou defender a orientação pedagógica do professor Mc Court, “tout court”, pois o que aqui está em causa é precisamente uma experiência de vida, com que se pode aprender mais do que em muitos compêndios de psicopedagoia.

O professore Mc Court começa precisamente por ser, como muitos outros professores, alguém que tem que sobreviver e não alguém que escolheu ser professor por vocação. O seu objecto era desde o início o trabalho literário ou sobre a literatura.

O seu texto parece-me um inventário das situações vividas pela generalidade dos professores, pois reconheço nas suas histórias muito do que vejo acontecer na carreira de muitos professores.

Começou a dar aulas em escolas secundárias técnicas que nós hoje em Portugal resumiríamos com a sigla “CEF”, isto é, tinha que leccionar inglês a rapazes que tinham como horizonte de vida ser canalizadores. Por isso, o título do primeiro capítulo é significativo: “It´s a long road to pedagogy”. Mc Court tenta sobreviver como professor o que implica conquistar os seus alunos, o que não é feito sem vítimas e sem retrocessos, pois acontecem inúmeros incidentes, por exemplo, conflitos pessoais com alunos que o levam a não ter o seu contrato renovado no ano seguinte.

Mc Court lastima a sua necessidade dessa conquista afectiva, desse reconhecimento perante a turma. O “novo professor” é o bombo da festa a ser testado pelos jovens alunos. Quando consegue ter a turma quase toda na mão, encontra o último obstáculo, um aluno que desafia a sua autoridade. O professor está no bando e tem de conquistar a liderança contra um rival. Aqui surge a panóplia de truques – cada tem os seus – e Mc Court limita-se a narrar os factos, de como obteve o reconhecimento.

Para dominar a assistência, Mc Court descobriu uma receita notável: narrar histórias comoventes da sua infância em Limerick, na Irlanda. Os alunos também aprenderam a distrair o professor com perguntas sobre o seu passado na Irlanda. Depressa Mc Court compreendeu a estratégia: evitar as lições de “spelling” e os exercícios, distraindo o professor com a sua “miserable childhood”. Entre professor e narrador, Mc Court viveu uma missão difícil nestas escolas, onde, parece se ter tornado numa referência na biografia dos seus alunos.

Facto exemplar desta situação é o passeio de Mc Court com vinte e cinco raparigas negras na baixa de Nova Iorque. O professor atrevera-se a levar ao cinema as alunas de uma certa turma que mais nenhum professor da escola arriscava. A narrativa é de um humor irresistível. Um professor branco, um sobrevivente, leva 29 meninas negras ao centro de Nova Iorque. As meninas também eram sobreviventes e conhecem todos os truques, como saltar a barreira do Metro para não pagar bilhete e deixar o professor sozinho na bilheteira a pagar o cinema para ficarem com dinheiro para outras coisas, etc.

Da carreira de professor, ficamos com o retrato que os portugueses têm da coisa. Tudo se resume a uma máxima: “professor bom é demasiado bom para ensinar”. Muitos estudam de tudo o que serve para subir na carreira e dar menos aulas ou delas fugir para sempre, tornar-se “principal” ou “supervisor”, isto é cargos não docentes, melhor remunerados.

Mc Court conseguiu finalmente, o seu Eldorado, dar aulas numa escola, cujos alunos afluem a Harvard e a outras das melhores universidades.

Aqui a problemática muda: professor de “creative writing”, tem de conduzir meninos com uma vida rotineiramente satisfatória a ganhar ideias para escrever. Se nas escolas profissionais, foram as justificações de faltas e atrasos – “excuse notes” – que serviram de desencadeador da escrita, na escola da elite, foram as receitas de culinária a desempenhar esse papel.

Revelou-se também a contradição entre a expectativa das famílias centrada na ideia da nobreza do acto de escrita e o facto de à genialidade não corresponder qualquer padrão moral supostamente elevado na mesma medida. Por isso, Frank relata as objecções de encarregados de educação à presença do vagabundo, ladrão, proxeneta, traficante e escritor Herbert Huncke numa das suas aulas. Ora, Huncke era um figura central do movimento Beat, companheiro de Kerouac e de Ginsberg e uma presença constante nos cafés daquela zona de Nova York. Mas nem a biografia de Hemingway seria recomendável neste aspecto. Na escrita, risca-se e arrisca-se muito.

Erros de edição lamentáveis

O mistério da sombra que ri é um livro de aventuras juvenil publicado pela Clássica Editora e escolhido para o conjunto

de obras incluídas no Plano Nacional de Leitura (PNL).

O autor do livro na capa é Alfred Hitchcock. Quando o vi nas listas do PNL fiquei entusiasmado pela descoberta de mais esta faceta do grande realizador de cinema.

Há uns anos, coloquei os meus alunos a investigar a biografia de Hitchcock como autor. Era um aspecto interessante pois Hitchcock, além de autor, seria também personagem.

Agora numa pesquisa mais a fundo vim a descobrir que Hitchcock apenas faz parte do título. A série foi publicada nas décadas de 60 e 70. Este título, em particular, em 1969. Tinha como título Alfred Hitchcock and the three investigators. O autor deste livro da série foi William Arden, pseudónimo de Dennis Lynds. A edição de 1979 inclui mesmo o nome do autor na capa.

O grande realizador patrocina de facto a colecção, dá-lhe o seu nome e escreve algumas linhas de introdução, mas não é o autor.

Ana e a árvore da vida (2)

Episódio 1 – Filha de Eva (se ainda não o leu, clique aqui)

 

Episódio 2 – A visita de Henoch

Havia aquela preocupação de Ana que era, ao fim e ao cabo, a dura aprendizagem da morte de todos os jovens quando assistem ao fim das gerações que os antecedem, com a particularidade de ela e os seus irmãos serem os iniciadores dessa tradição. Adão não conseguia esconder o mal-estar que constantemente o invadia. Eram muitas as memórias perdidas que lhe faltavam em momentos decisivos, cada vez mais frequentes as caminhadas pelos rebanhos, pelas terras agrícolas e pelas cabanas da sua gente em que tinha que pedir para parar e sentar-se ofegante, deixando o agora inseparável cajado apoiado numa parede ou numa árvore. Eva suportava-lhe os queixumes, os resmungos num silêncio culpado, como se ela não tivesse as suas próprias dores e tivesse que ajudar o marido a carregar as suas.

Num desses dias, fora anunciada a chegada de Henoch por um mensageiro que o precedera um mês antes. As visitas mútuas dos grandes patriarcas tinham-se institucionalizado uns séculos antes. Eram uma oportunidade de forjar alianças com o casamento de jovens pertencentes a diferentes grupos familiares, já que a regra de casar fora da família natural se tinha generalizado.

Quando Henoch chegou, com a sua enorme caravana, o dia foi de festa. Adão recebeu-o efusivamente e conversou longamente com ele. "Henoch, são poucos os anos da tua vida, mas já tens alguns cabelos brancos. Já estás a morrer sem o saber." Henoch encolhia os ombros e sorria. "Sou forte e sinto-me bem. Quanto ao resto, que seja feita a vontade do Senhor". A Adão perpassou na face uma expressão de amargura: "Não tivesse eu transgredido, seria outra a herança da humanidade". Henoch tentou demovê-lo desses pensamentos, o envelhecimento, explicava-lhe, era para os homens a sua natureza, a única realidade que conheciam. O que interessava é que cada um estivesse de consciência tranquila perante o Senhor. Adão ainda insistiu no tema. "Sei que é pecado, mas às vezes penso naquela árvore que estava no meio do jardim. Se eu lhe tivesse deitado a mão antes de ser expulso". Henoch, olhou para ele com uma expressão dura: "Que Deus te perdoe, Adão…"

Ana escutara aquele pedaço de conversa e uma ideia começou a germinar: "Falam da árvore da vida. Se eu conseguisse o fruto, dá-lo-ia ao meu pai".

Enquanto Henoch ali esteve, houve festas, banquetes, orações ao Senhor e sacrifícios oficiados por Henoch que percebia que a Adão restavam apenas alguns anos e queria que ele acabasse a sua vida na "graça do Senhor". Dos filhos de Henoch, o primogénito, Metusalém já era, ele próprio, um patriarca e vivia longe do pai. Vieram vários filhos com ele, alguns muito jovens. Dan, que tinha mais ou menos a idade de Ana, rapidamente se tornou seu amigo. Era forte, muito musculoso, cabelos longos, uns olhos negros com umas espessas sobrancelhas, que pareciam ler-lhe a alma quando nos dela os fixava.  Henoch e Adão observaram os dois em animadas conversas e trocaram um olhar entre si que foi como se tivessem assinado um contrato.

Quando se fez boa a ocasião, Adão falou com a filha: "Ana estás na idade de casar. Vimos que te dás com Dan. Vamos casar-vos antes de Henoch regressar a sua casa, pois irás com Dan". Ana ficou surpreendida com esta decisão, mas não teve coragem de argumentar, por causa do tom solene do pai que ela já ouvira dezenas de vezes com outros irmãos. Ficou magoada por o pai a deixar ir assim embora. Não podia revelar o que lhe ia na alma: "Não casaria antes do pai morrer". Mas só baixou a cabeça. Foi como se tivesse dito "sim".

Dan não cabia em si de contente. Sentia-se honrado por casar com uma filha do "Pai Adão". Ainda por cima, lindíssima, cabelos pretos, pele muito branca, com olhos verdes, elegante e atlética.

Ana começou a perguntar a toda gente "onde era o Éden".  Invariavelmente, todos lhe diziam que o caminho se tinha perdido. Já ninguém sabia lá ir. Mesmo Adão e Eva ficavam confusos com a direcção para onde se deviam dirigir. Não se recordavam e discutiam quando tinham que dizer se tinham vindo de poente ou de nascente, de norte ou sul, ou de algum ponto intermédio. Henoch disse que era pecado querer saber e que já muitos tinham desaparecido a tentar lá chegar.

Apenas Dan, querendo exibir os seus conhecimentos, lhe dissera algo mais. Estava muito nervoso e combinou encontrar-se com ela num sítio do campo, longe da casa de Adão onde poderiam ser surpreendidos por Henoch ou Adão. "Conheço um homem que tentou lá chegar,  arrependeu-se a tempo e voltou para trás. Viu os querubins. Ele contou-me a sua história. Sei que é no sentido do pôr-do-sol. Adão e Eva devem ter saído pelo lado nascente".

Conversaram longamente abraçados. "Estou preparada para te amar, mas não para ir contigo e Henoch. Ama-me agora porque nunca mais me verás". Acabou assim este episódio: sob um céu mesopotâmico de lua-cheia, dois corpos amantes entrelaçados, com a conivência duma primeva seara de cevada.

 

Ana e a árvore da vida (2)

Episódio 1 – Filha de Eva (se ainda não o leu, clique aqui)

 

Episódio 2 – A visita de Henoch

Havia aquela preocupação de Ana que era, ao fim e ao cabo, a dura aprendizagem da morte de todos os jovens quando assistem ao fim das gerações que os antecedem, com a particularidade de ela e os seus irmãos serem os iniciadores dessa tradição. Adão não conseguia esconder o mal-estar que constantemente o invadia. Eram muitas as memórias perdidas que lhe faltavam em momentos decisivos, cada vez mais frequentes as caminhadas pelos rebanhos, pelas terras agrícolas e pelas cabanas da sua gente em que tinha que pedir para parar e sentar-se ofegante, deixando o agora inseparável cajado apoiado numa parede ou numa árvore. Eva suportava-lhe os queixumes, os resmungos num silêncio culpado, como se ela não tivesse as suas próprias dores e tivesse que ajudar o marido a carregar as suas.

Num desses dias, fora anunciada a chegada de Henoch por um mensageiro que o precedera um mês antes. As visitas mútuas dos grandes patriarcas tinham-se institucionalizado uns séculos antes. Eram uma oportunidade de forjar alianças com o casamento de jovens pertencentes a diferentes grupos familiares, já que a regra de casar fora da família natural se tinha generalizado.

Quando Henoch chegou, com a sua enorme caravana, o dia foi de festa. Adão recebeu-o efusivamente e conversou longamente com ele. "Henoch, são poucos os anos da tua vida, mas já tens alguns cabelos brancos. Já estás a morrer sem o saber." Henoch encolhia os ombros e sorria. "Sou forte e sinto-me bem. Quanto ao resto, que seja feita a vontade do Senhor". A Adão perpassou na face uma expressão de amargura: "Não tivesse eu transgredido, seria outra a herança da humanidade". Henoch tentou demovê-lo desses pensamentos, o envelhecimento, explicava-lhe, era para os homens a sua natureza, a única realidade que conheciam. O que interessava é que cada um estivesse de consciência tranquila perante o Senhor. Adão ainda insistiu no tema. "Sei que é pecado, mas às vezes penso naquela árvore que estava no meio do jardim. Se eu lhe tivesse deitado a mão antes de ser expulso". Henoch, olhou para ele com uma expressão dura: "Que Deus te perdoe, Adão…"

Ana escutara aquele pedaço de conversa e uma ideia começou a germinar: "Falam da árvore da vida. Se eu conseguisse o fruto, dá-lo-ia ao meu pai".

Enquanto Henoch ali esteve, houve festas, banquetes, orações ao Senhor e sacrifícios oficiados por Henoch que percebia que a Adão restavam apenas alguns anos e queria que ele acabasse a sua vida na "graça do Senhor". Dos filhos de Henoch, o primogénito, Metusalém já era, ele próprio, um patriarca e vivia longe do pai. Vieram vários filhos com ele, alguns muito jovens. Dan, que tinha mais ou menos a idade de Ana, rapidamente se tornou seu amigo. Era forte, muito musculoso, cabelos longos, uns olhos negros com umas espessas sobrancelhas, que pareciam ler-lhe a alma quando nos dela os fixava.  Henoch e Adão observaram os dois em animadas conversas e trocaram um olhar entre si que foi como se tivessem assinado um contrato.

Quando se fez boa a ocasião, Adão falou com a filha: "Ana estás na idade de casar. Vimos que te dás com Dan. Vamos casar-vos antes de Henoch regressar a sua casa, pois irás com Dan". Ana ficou surpreendida com esta decisão, mas não teve coragem de argumentar, por causa do tom solene do pai que ela já ouvira dezenas de vezes com outros irmãos. Ficou magoada por o pai a deixar ir assim embora. Não podia revelar o que lhe ia na alma: "Não casaria antes do pai morrer". Mas só baixou a cabeça. Foi como se tivesse dito "sim".

Dan não cabia em si de contente. Sentia-se honrado por casar com uma filha do "Pai Adão". Ainda por cima, lindíssima, cabelos pretos, pele muito branca, com olhos verdes, elegante e atlética.

Ana começou a perguntar a toda gente "onde era o Éden".  Invariavelmente, todos lhe diziam que o caminho se tinha perdido. Já ninguém sabia lá ir. Mesmo Adão e Eva ficavam confusos com a direcção para onde se deviam dirigir. Não se recordavam e discutiam quando tinham que dizer se tinham vindo de poente ou de nascente, de norte ou sul, ou de algum ponto intermédio. Henoch disse que era pecado querer saber e que já muitos tinham desaparecido a tentar lá chegar.

Apenas Dan, querendo exibir os seus conhecimentos, lhe dissera algo mais. Estava muito nervoso e combinou encontrar-se com ela num sítio do campo, longe da casa de Adão onde poderiam ser surpreendidos por Henoch ou Adão. "Conheço um homem que tentou lá chegar,  arrependeu-se a tempo e voltou para trás. Viu os querubins. Ele contou-me a sua história. Sei que é no sentido do pôr-do-sol. Adão e Eva devem ter saído pelo lado nascente".

Conversaram longamente abraçados. "Estou preparada para te amar, mas não para ir contigo e Henoch. Ama-me agora porque nunca mais me verás". Acabou assim este episódio: sob um céu mesopotâmico de lua-cheia, dois corpos amantes entrelaçados, com a conivência duma primeva seara de cevada.