Extraído de http://www.alamedadigital.com.pt/lancamento/o_eduques.php . Acho excelente porque ilustra muito bem a ilusão sociológica que elimina os sujeitos que agem – professores e alunos – para relevarem os processos.
Não me vou dar ao trabalho de recensear exemplos de críticas ao eduquês no discurso dos professores, dos políticos, dos encarregados de educação e dos… pedagogos.
Às tantas, é como se nunca ninguém tivesse estado do lado negro da coisa. Isto é, o eduquês é sempre outro.
Tentar definir “eduquês” é o cabo dos trabalhos. Vou me limitar a dar alguns contributos para essa definição.
Primeiro que tudo, o eduquês é um dialecto. Não um dialecto de uma língua natural como o português, mas um dialecto profissional internacional que se desenvolve em praticamente todas as línguas ocidentais. Uma gíria ou um calão, se quiserem ser rigorosos. Isto quer dizer que uma afirmação em eduquês pode ser traduzida para português vulgar. Alguns exemplos, do vulgar para o eduquês:
– aulas, lições – processo de ensino-aprendizagem
– ensinar – organizar o processo de aprendizagem.
– autoridade – gestão educativa
– estudar – descobrir
– decorar – descobrir
– reprovar, chumbar, repetir o ano – ser retido (pois o referente não pode ser expresso com uma frase na forma activa)
– chumbo – retenção
– falta disciplinar – mediação disciplinar
– mau comportamento – atitudes pouco adequadas
– castigo – não há
– passar de ano – transitar
– nota – nível
– professor – orientador educativo (por exemplo, na Escola da Ponte não há professores)
– actividade – projecto
– aprender – construir aprendizagens
– plano de aula – (eduquês antigo), deve-se dizer plano do processo de aprendizagem
– conhecimentos – não há (veja competência)
– saber – não há (veja saber-fazer)
– competência – saber-fazer que o aluno desenvolve no processo de ensino-aprendizagem.
– saber-fazer – coisa que resulta do processo de descoberta em situação de ensino-aprendizagem.
– objectivo – palavra de eduquês antigo: não se definem objectivos, elencam-se competências.
– frequências – testes sumativos em eduquês antigo, actualmente, provas de avaliação do processo de ensino aprendizagem.
– aluno – sujeito do processo de ensino-aprendizagem ou construtor das suas competências.
Como vimos, há coisas do “vulgar” que não são dizíveis em eduquês. Por isso, os orientadores educativos, dizem-nas com as palavras de antigamente. Quando não têm nenhuma autoridade eduquesa por perto falam com prazer em “vulgar”. Alguns até se atrevem a dizer que dão aulas e ensinam coisas aos alunos. Isto é dum grande atrevimento, pois, verdadeiramente, os aprendentes são os construtores das suas próprias aprendizagens e os orientadores educativos estão lá só para organizar esse processo da forma o mais invisível possível.


Parabéns Luís pelo excelente trabalho de tradução para um português «normalizado».
Não estejas tanto tempo sem escreveres no blog, pois as leituras dos teus artigos não são tempo perdido.
Obrigado pelo gentil comentário.
Viva Luís.
Subscrevo o comentário do prof.PSI20
Certeiro, meu caro. Vou linká-lo no meu blogue.
Abraço.
Viva.
Segunda leitura (com mais uma bocadito de tempo):
exercício inteligente;
tem algumas hilariantes;
na próxima digo quais
manhã linko no correntes;
aquele abraço.
Fi-lo para ti.
Obrigado
Viva Luís.
Muito obrigado mesmo.
Aquele abraço.
Viva Luís! Excelente exercício sobre o discurso do Eduquês! Sou educadora de infância e talvez por isso “encaixei” com alguma facilidade alguns aspectos do discurso “eduquês” (no jardim de infãncia as crianças fazem “descobertas” ao “seu ritmo”, não há avaliação sumativa, não existem retenções…). mas ultimamente ando muito preocupada com o descarado controlo ideológico a que muitos professores assitem sem reagir! Obrigada pelo alerta. Um abraço. Adília Lino, Montenegro-Faro
O eduquês é um rótulo negativo que abrange denasiadas coisas. Necessitamos de dividir as águas, de muita análise crítica.
Obrigado