Política: mercado livre

Será que para estarmos de acordo com a organização mundial do comércio teremos que voltar a dias de trabalho de dez horas? Esta e outras do género parecem ser as reivindicações dos empresários chineses. Nas suas fábricas aliam as técnicas mais avançadas de produção do século XXI a condições de trabalho típicas do século XIX. Há casos em que os trabalhadores fazem 10 horas por dia. Os salários são 5 a 6 vezes inferiores aos nossos.

A nossa indústria não pode concorrer com tais condições num mercado totalmente aberto. A solução que os estrategas da economia nos propõem é alterarmos a nossa posição na divisão internacional do trabalho, passando a produtos de maior densidade tecnológica e com mais design, isto é, em vez de fazer tecidos, passaremos a vender fábricas de tecidos ultra-modernas, onde os chineses colocarão os seus trabalhadores ultra-explorados a produzir com altas taxas de produtividade e salários baixíssimos.

Vamos fomentar o nosso desemprego para dar emprego de baixíssima qualidade a milhões de chineses. Se usam a mesma tecnologia, era caso, para lhes exigir:

– semanas de, no máximo, 40 horas;

– repressão efectiva do trabalho infantil;

– ingualdade salarial entre homens e mulheres;

– condições de segurança e higiene no trabalho;

– liberdade de associação sindical;

– direito à greve

. Se algumas destas ou de outras condições não fossem cumpridas, esses produtos não deveriam concorrer nos nossos mercados com os das nossas fábricas. Quem não se preocupa absolutamente nada com isso são os nossos grandes capitalistas porque podem mobilizar os seus capitais para a China e beneficiar também da docilidade e do baixo preço do trabalho chinês. Mas os trabalhadores ficam sem solução: nem podem ir para a China trabalhar nem trabalhar cá com salários chineses!

3 comentários em “Política: mercado livre”

  1. O que há tempos ouvi um senhor dizer foi muito próximo do que eu acredito. Estranho é que um mostrengo prodigioso como a China só agora dê entrada em cena no mercado mundial. Com franqueza, assusta-me muito mais o que a China faz pelos seus do que o que os chineses nos têm feito e venham a fazer. Subitamente, o inimigo passa a ser a China. Mas não é bem um inimigo. Um inimigo que não é bem um inimigo porque convém ter amigos em altos lugares, os mesmos onde hoje vivem e decidem os empresários chineses. Há uns meses o conflito era Atlântico. Hoje já é amarelo. Nada como uma bela visita de um presidente americano a arrastar a asa à Europa para que todos fiquem de acordo com o inverosímil. O descalabro ambiental e humano em que se está a transformar a China não poderá suster-se interminavelmente. O que de melhor pode ocorrer é a sua abertura ao mundo. Comercial e culturalmente já aqui estão. A maravilhosa literatura chinesa já impõe universos e horizontes que desprezámos décadas a fio. Pela mesma intumescida visão de nós mesmos. O temor amarelo não esconde bem um dispensável, senão perigoso, vilipêndio do incógnito. Mas, ainda assim, De tudo o mais o que é inqualificável é este namoro arrebatado pelo mercado chinês. Quando o continente da democracia e o continente do liberalismo abraçam a maior ditadura do mundo, não se lhes peça meças de idoneidade.

  2. Estou inteiramente de acordo. Não há nenhum perigo amarelo. A China e a sua cultura estão connosco, europeus, desde Marco Polo até Mao Tsé Tung. Há apenas um problema que é de ordem política e económica: que condições devemos exigir, nós, trabalhadores, para a liberalização do mercado mundial. A China é apenas o caso mais dramático dentro desta questão meramente económica e política. A China libertou a iniciativa privada que estava asfixiada pela burocracia estatal, mas manteve a opressão ideológica e política desse modelo. O resultado é um capitalismo selvagem de que beneficiam essencialmente os grandes capitalistas do mundo inteiro, aqueles que têm capacidade para deslocalizar e investir lá. Quem perde são os trabalhadores europeus e americanos mais fragilizados que vêem os seus postos de trabalho fugirem para outros países. A liberalização não é global: os capitais mexem-se livremente, mas as fronteiras continuam fechadas ao trabalho. O resultado é que a China constitui uma reserva de trabalho barato que não tem liberdade para lutar pelos seus direitos. Salários baixos, tabalhadores oprimidos, combinam-se com alta tecnologia, para obter elevadas taxas de lucro, uma enorme acumulação de capital, num modelo virado para a exportação que inunda os nossos mercados com produtos baratíssimos. A única maneira de concorrer com eles talvez seja sujeitar os nossos trabalhadores às mesmas condições. Como não podemos fazer isso em toda extensão, a tendência será para a descida dos salários reais nos países que não conseguirem fazer coisas tecnológicamente mais avançadas do que aquelas que a maioria dos chineses faz – porque eles estão a avançar em todos os níveis tecnológicos. Preparemo-nos para grandes minorias sem trabalho, a escapulirem-se para a criminalidade, vidas feitas de expedientes, ruptura dos sistemas de apoio social, como o subsídio de desemprego, aumento da toxico-dependência, etc… Casas vazias à venda e pessoas a morar na rua ou em condições cada vez mais precárias etc…

  3. Estou inteiramente de acordo. Não há nenhum perigo amarelo. A China e a sua cultura estão connosco, europeus, desde Marco Polo até Mao Tsé Tung. Há apenas um problema que é de ordem política e económica: que condições devemos exigir, nós, trabalhadores, para a liberalização do mercado mundial. A China é apenas o caso mais dramático dentro desta questão meramente económica e política. A China libertou a iniciativa privada que estava asfixiada pela burocracia estatal, mas manteve a opressão ideológica e política desse modelo. O resultado é um capitalismo selvagem de que beneficiam essencialmente os grandes capitalistas do mundo inteiro, aqueles que têm capacidade para deslocalizar e investir lá. Quem perde são os trabalhadores europeus e americanos mais fragilizados que vêem os seus postos de trabalho fugirem para outros países. A liberalização não é global: os capitais mexem-se livremente, mas as fronteiras continuam fechadas ao trabalho. O resultado é que a China constitui uma reserva de trabalho barato que não tem liberdade para lutar pelos seus direitos. Salários baixos, tabalhadores oprimidos, combinam-se com alta tecnologia, para obter elevadas taxas de lucro, uma enorme acumulação de capital, num modelo virado para a exportação que inunda os nossos mercados com produtos baratíssimos. A única maneira de concorrer com eles talvez seja sujeitar os nossos trabalhadores às mesmas condições. Como não podemos fazer isso em toda extensão, a tendência será para a descida dos salários reais nos países que não conseguirem fazer coisas tecnológicamente mais avançadas do que aquelas que a maioria dos chineses faz – porque eles estão a avançar em todos os níveis tecnológicos. Preparemo-nos para grandes minorias sem trabalho, a escapulirem-se para a criminalidade, vidas feitas de expedientes, ruptura dos sistemas de apoio social, como o subsídio de desemprego, aumento da toxico-dependência, etc… Casas vazias à venda e pessoas a morar na rua ou em condições cada vez mais precárias etc…

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