Umas dores lombares, resquício dum acidente desportivo, levaram-me ao ortopedista. Havia muito que adiava aquela consulta, requerida pelo médico de clínica geral. Como gosto de natação e de outras actividades físicas, apesar de as praticar irregularmente, temia ouvir uma série de proibições em catadupa. Um dia, lá me resolvi, que mais não fosse para poder colocar um x de feito na lista de tarefas da minha agenda.
Preparava-me para uma longa explanação, quando o médico, me fez, em três minutos, algumas perguntas de sim ou não e, impedindo qualquer exercício retórico do paciente, deu a sua receita: meu amigo, você tem é que fazer exercício, ir para um ginásio. Nada de mais exames eu esperava uma ecografia da coluna -, apenas isso: vá a um ginásio. Nem tipos de exercícios, nada!
Pagos 70 euros por esta célere consulta de cerca de 5 minutos, aí incluídas saudações e despedidas, pus-me a pensar no seguinte: quanto do meu tempo de trabalho está condensado nos 70 euros que eu dei por aqueles 5 minutos?
Imaginei então uma situação modelo: quantas horas é que um trabalhador de formação superior tem de dar, em troca, por uma hora de um médico, considerando uma consulta de duração de meia-hora um tempo infindável para muitos médicos ao preço de 50 euros e um salário mensal de cerca de 1500 euros. Lembro que o salário médio do trabalhador por conta de outrem, em Portugal, anda pelos 900 euros. Faça as contas, se quiser.
Eu cheguei à seguinte conclusão. O médico cobra ao seu ex-colega da academia, mas de outro curso menos promissor, 10 horas por cada uma das suas. Isto é, para pagar a meia-hora de consulta, o licenciado teve que pagar 5 horas de trabalho. Infelizmente, a maior parte das consultas médicas é inferior a meia hora e raras são as que a ultrapassam.
Num próximo artigo, vou tentar explicar por que razão é que existe esta abissal diferença.
Reparem que não está aqui implícita nenhuma crítica aos rendimentos dos médicos, pois acho que devem ser exactamente como os das outras pessoas: tão altos quanto possível. A questão é: por que razão pode esta discrepância ser tão grande?

A diferença de rendimento horário foi só uma maneira de realçar o custo relativo da medicina privada em Portugal. Não ponho a questão da legitimidade desse preço. Por mim, os médicos podem pôr o preço que quiserem pelos seus serviços. O problema é o seguinte: o que é que torna possível esses custos. Queria escrever sobre isso no artigo seguinte. Se ainda não o fiz, é porque me faltam documentos que eu tinha por aqui e que desapareceram. Mas vou fazê-lo mesmo assim. A minha opinião é que, mesmo considerando o capital que os médicos têm de investir, eles ganham demasiado, tendo em consideração o rendimento médio dos seus clientes. Mas não vem ao caso criticá-los por isso. Eu, se pudesse, ganhava tanto como eles. Ainda por cima, o meu patrão acha que eu ganho demasiado e eu, que sou um tolo, reconheço-lhe alguma razão. Voltando aos custos a medicina: numa operação feita numa clínica privada, a factura veio discriminada: cerca de 3000 euros, 1500 euros para o cirurgião, 450 euros para o anestesista e cerca de 1000 euros para a clínica. A estadia foi de apenas uma noite, num luxo comparável a uma pensão de baixa qualidade. Duração da intervenção: menos de uma hora, antecedida de um encontro e sucedida por outro. 1500 euros pagam o quê além da própria operação? 450 euros pagam o quê, além da injecção? Riscos? Quanto deveriam ganhar os polícias?
A diferença de rendimento horário foi só uma maneira de realçar o custo relativo da medicina privada em Portugal. Não ponho a questão da legitimidade desse preço. Por mim, os médicos podem pôr o preço que quiserem pelos seus serviços. O problema é o seguinte: o que é que torna possível esses custos. Queria escrever sobre isso no artigo seguinte. Se ainda não o fiz, é porque me faltam documentos que eu tinha por aqui e que desapareceram. Mas vou fazê-lo mesmo assim. A minha opinião é que, mesmo considerando o capital que os médicos têm de investir, eles ganham demasiado, tendo em consideração o rendimento médio dos seus clientes. Mas não vem ao caso criticá-los por isso. Eu, se pudesse, ganhava tanto como eles. Ainda por cima, o meu patrão acha que eu ganho demasiado e eu, que sou um tolo, reconheço-lhe alguma razão. Voltando aos custos a medicina: numa operação feita numa clínica privada, a factura veio discriminada: cerca de 3000 euros, 1500 euros para o cirurgião, 450 euros para o anestesista e cerca de 1000 euros para a clínica. A estadia foi de apenas uma noite, num luxo comparável a uma pensão de baixa qualidade. Duração da intervenção: menos de uma hora, antecedida de um encontro e sucedida por outro. 1500 euros pagam o quê além da própria operação? 450 euros pagam o quê, além da injecção? Riscos? Quanto deveriam ganhar os polícias?
Tocaste no ponto aonde eu queria chegar: o corporativismo.
Já tenho os números para fazer outro artigo sobre o assunto: não há mercado
na medicina em Portugal. Quero dizer: não conhecemos a variação de preço
entre clínicas e entre médicos. A relação qualidade / preço é-nos dada boca
a boca – uns dizem bem, outros dizem mal do mesmo médico. Além do mais, os
preços são definidos em grande parte pela Ordem. A limitação do mercado é
feita também pela medicina pública. Quem não tiver paciência para esperar
por uma operação no hospital do estado, prontifica-se a pagar o que quer que
seja. O médico, como, além de dar consultas particulares, também trabalha no
hospital, não se sente pressionado para baixar o preço a fim de não deixar
fugir o cliente.
Tocaste no ponto aonde eu queria chegar: o corporativismo.
Já tenho os números para fazer outro artigo sobre o assunto: não há mercado
na medicina em Portugal. Quero dizer: não conhecemos a variação de preço
entre clínicas e entre médicos. A relação qualidade / preço é-nos dada boca
a boca – uns dizem bem, outros dizem mal do mesmo médico. Além do mais, os
preços são definidos em grande parte pela Ordem. A limitação do mercado é
feita também pela medicina pública. Quem não tiver paciência para esperar
por uma operação no hospital do estado, prontifica-se a pagar o que quer que
seja. O médico, como, além de dar consultas particulares, também trabalha no
hospital, não se sente pressionado para baixar o preço a fim de não deixar
fugir o cliente.