Berlin Alexanderplatz

Chegou a altura de arrumar de vez este livro  – Berlin Alexanderplatz – ou, pelo menos, tentá-lo.

A história passa-se algures no final dos anos vinte do século passado. Andava um homem perdido nas ruas e praças de Berlim. Acompanhei-o durante anos nessa deriva de náufrago à procura de algo que lhe oferecesse um sentido. 

Fui levado pela mestria narrativa de Alfred Döblin. As minhas dificuldades de leitura não eram menores do que as que Franz Biberkopf enfrentava na sua vida. Não é em Hochdeutsch que se dá esta narrativa, mas, sobretudo, no falar popular berlinense da altura, coisa difícil para um aprendente de alemão.

A verdade é que já conhecia a história através da magnífica série de Fassbinder que vira numa RTP 2, ainda a preto e branco, e que voltei, agora, a rever numa reedição cuidada.

A narração começa com Franz a sair da prisão, depois de uma pena de quatro anos por homicídio involuntário, na pessoa de Ida, a sua companheira. Este passado é, como nos ensina Heidegger, uma parte fundamental do presente do nosso homem. O seu regresso é uma tentativa de o ultrapassar, com a sua intenção de “anständig sein”, isto é de passar a ser honesto1, coisa que a vida não lhe há-de permitir, pois constantemente o reconduzirá ao mundo do crime.

Pois temos um homem fundamentalmente bom, mas que não o consegue ser na prática. É com inocência que o vemos em assaltos, a vender publicações nazis com a famigerada braçadeira no braço, a bater de forma quase mortal na nova companheira e a arrepender-se também profundamente de algumas destas ações. Vemos sobretudo a sua deceção com as ações dos que julgava amigos e que o hão de fazer vítima e arrastar para a loucura e para a perdição total. 

Vemos a severa limitação da resolução de Franz Biberkopf com quem estamos, por vezes, maldizendo-o, mas é com ele que estamos sofrendo com ele e por ele, mesmo quando é ele que leva o sofrimento aos outros. Vemos também uma outra personagem que é a Berlim do final dos anos 20.

1″Biberkopf hat geschworen, er will anständig sein, und ihr habt gesehen, wie er wochenlang anständig ist, aber das war gewissermaßen nur eine Gnadenfrist. Das Leben findet das auf die Dauer zu fein und stellt ihm hinterlistig ein Bein.”

(Bibrlkopf jurou que queria ser honesto e vimos como ele é honesto durante a semana toda, mas isso era, por assim dizer, apenas um misericordioso adiamento. A vida acha isso um coisa demasiado delicada para durar e passa-lhe uma rasteira traiçoeira.)

 

O cânone escolar ou o regresso do livro único

 

A revolução de abril de 1974 consagrou o fim do livro único nas escolas portuguesas, por isso, a recente imposição de um cânone literário pelas Metas curriculares deveria ser objeto de reflexão e discussão. Será que estamos a regressar a um novo mundo a preto e branco, em que ao professor não resta outra possibilidade que não a de ler com os seus alunos os mesmos textos que todos os outros leem sincronizadamente pelo país fora?

A imposição de um cânone pode ser legitimada pela história literária ou por necessidades de ordem didática e pedagógica. Os textos selecionados para a escola têm também que obedecer a critérios de qualidade literária e de adequação ao público escolar, no que respeita à idade, valores, conhecimentos e experiências de vida requeridas para que a leitura seja significativa.

Há com certeza autores e obras incontornáveis, como é o caso de Luís de Camões e de Os Lusíadas. Será também o caso de Eça de Queirós, mas já não estou certo de que seja o caso de Os Maias. Isto é, podemos perguntar se não há outros romances de Eça que tenham um valor literário e um significado histórico equivalente a Os Maias. Se a resposta for afirmativa, porque impomos aos professores esse romance em particular? Não estaremos perante um abuso de poder de alguns autores de programas escolares? A decisão de escolher um certo texto é sempre feita em detrimento de outros que ficam severamente prejudicados por não serem lidos com a mesma frequência e intensidade.

O atual ministro da educação antes de o ser pugnava por programas escolares mais curtos, neutros no que respeita às correntes pedagógicas. Ora o que vemos nas Metas é não só a imposição de preceitos didáticos, mas também de objetos de leitura que se constituem como parte do programa e não como meios de desenvolver essa atividade.

Essa imposição começa logo no 1º ano:

– Por exemplo, “Corre, Corre, Cabacinha” de Alice Vieira in O Menino da Lua e Corre, Corre, Cabacinha. Porque razão é escolhido este conto em particular e porque a versão de Alice Vieira quando existe, por exemplo, a versão de Eva Meijuto com ilustração de André Letria?

– O que é que o texto de Alves Redol, A Flor Vai Ver o Mar tem de único, de tal modo que se torne obrigatório no 1º ano?

– Porque é que o professor tem de escolher entre duas obras específicas de António Torrado (O Coelhinho BrancoVamos Contar um Segredo e outra História?

– Embora os poemas de Eugénio de Andrade, Aquela Nuvem e outras e os da Matilde Rosa Araújo de O Livro da Tila sejam de grande valor literário, é discutível a sua inclusão como objetos de trabalho obrigatórios, pois há outros textos concorrentes do mesmo nível.

– A seleção de trava-línguas e lengalengas da Luísa Ducla Soares é apenas uma de entre várias. Porque se impõe uma delas?

– O mesmo se pode dizer dos contos de Maria Alberta Menéres.

– Que dizer da opção entre Beatrix Potter e Elizabeth Shaw?

A justificação desta seleção é de um conservadorismo atroz: “a escola, a fim de não reproduzir diferenças socioculturais exteriores, assume um currículo mínimo comum de obras literárias de referência para todos os alunos que frequentam o Ensino Básico.” Podemo-nos perguntar que diferenças socioculturais vai resolver esta abstrusa lista de obras literárias que vai do 1º ao 9º ano. Eu não consigo vislumbrar nenhumas!

Uma lista obrigatória de obras literárias não serve nem a leitura nem a literatura. Muitos alunos, em vez de lerem os textos originais, decoram leituras feitas por outros, a fim de se prepararem para testes e exames e têm sucesso com essa estratégia – o que fazem com Os Maias, por exemplo. 

A defesa da qualidade da leitura deve ser feita com um mínimo de regulamentação. O que aparece aqui é a mera imposição de opções pessoais dos autores das Metas.

O cânone faz-se como o Plano Nacional de Leitura tem feito, selecionando as obras que têm qualidade literária, classificando-as de acordo com a idade e os graus escolares. Cabe às comunidades de leitores escolher os textos, de acordo com os programas de português, mas as obras, só em casos de absoluta e indiscutível relevância histórica, literária e cultural, é que devem fazer parte dos programas.

Assim, no primeiro ano, os alunos devem ouvir ler e começar a ler textos que chamem a atenção para o som e a sua representação gráfica, como rimas e lengalengas tradicionais. Devem ouvir ler contos tradicionais portugueses, mas não cabe às autoridades educativas legislar sobre os livros onde os professores irão buscar esses contos.

O programa de Português, ainda em vigor, caracteriza os textos que devem ser lidos no 1º ciclo e remete a escolha para a lista do Plano Nacional de Leitura deixando a cada professor essas escolhas.

Estamos perante um evidente regresso ao livro único.

Ramos Rosa

Estão esculpidos de pedra na nossa memória, de tal maneira, que os julgamos de sempre, eternos. Mas, de repente, salta uma notícia que nos diz que eles estão em algum lugar e não se resumem àquela imagem e às palavras que lhes associamos. Foi-se embora hoje ficando para sempre: António Ramos Rosa (1958-2013)

 

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só.

 

António Ramos RosaO Grito Claro, 1958

 

http://ardaguarda.blogs.sapo.pt/236555.html

 

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-antonio-ramos-rosa-1606787

 

http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/acasadosprodigios.pdf (grato ao João Pedro Aido)

Ramos Rosa

Estão esculpidos de pedra na nossa memória, de tal maneira, que os julgamos de sempre, eternos. Mas, de repente, salta uma notícia que nos diz que eles estão em algum lugar e não se resumem àquela imagem e às palavras que lhes associamos. Foi-se embora hoje ficando para sempre: António Ramos Rosa (1958-2013)

 

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada

mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida

num quarto só.

 

António Ramos RosaO Grito Claro, 1958

 

http://ardaguarda.blogs.sapo.pt/236555.html

 

http://www.publico.pt/cultura/noticia/morreu-antonio-ramos-rosa-1606787

 

http://downloads.expresso.pt/expressoonline/PDF/acasadosprodigios.pdf (grato ao João Pedro Aido)

As metas eram necessárias?

Se não indispensáveis, seriam pelo menos muito úteis se não se perdessem numa atomização e burocratização hierarquizante que nos fazem perder de vista a manta, diante dos retalhos. A este respeito, a proposta anterior era ainda pior. Mas a maior simplicidade foi prejudicada pela ambição de fazer programa por essa via.

As metas servir-nos-iam se nos dessem uma perspetiva global, sintética, do nível de desempenho que se deve esperar dum aluno. Seriam úteis se integradas num percurso escolar centrado em desempenhos reais e não apenas numa vaga noção de maior exigência que conduzirá apenas a maior insucesso.

Por exemplo, os “attainment targets” do National Curriculum inglês aproximam-se deste conceito. Referem-se às quatro competências do inglês: falar, ouvir, ler e escrever e definem nove níveis de desempenho que um aluno pode realizar em cada uma. Cada nível é descrito num parágrafo de cerca de 50 palavras (http://www.education.gov.uk/schools/teachingandlearning/curriculum/primary/b00198874/english/attainment/en2).

Tal como estão definidas, as metas substituem-se ao programa oficial e colidem com ele.

As metas eram necessárias?

Se não indispensáveis, seriam pelo menos muito úteis se não se perdessem numa atomização e burocratização hierarquizante que nos fazem perder de vista a manta, diante dos retalhos. A este respeito, a proposta anterior era ainda pior. Mas a maior simplicidade foi prejudicada pela ambição de fazer programa por essa via.

As metas servir-nos-iam se nos dessem uma perspetiva global, sintética, do nível de desempenho que se deve esperar dum aluno. Seriam úteis se integradas num percurso escolar centrado em desempenhos reais e não apenas numa vaga noção de maior exigência que conduzirá apenas a maior insucesso.

Por exemplo, os “attainment targets” do National Curriculum inglês aproximam-se deste conceito. Referem-se às quatro competências do inglês: falar, ouvir, ler e escrever e definem nove níveis de desempenho que um aluno pode realizar em cada uma. Cada nível é descrito num parágrafo de cerca de 50 palavras (http://www.education.gov.uk/schools/teachingandlearning/curriculum/primary/b00198874/english/attainment/en2).

Tal como estão definidas, as metas substituem-se ao programa oficial e colidem com ele.

Novas metas, novos manuais escolares

As editoras seguem febrilmente as iniciativas legislativas no campo da educação. Não há nada de novo que apareça que não conduza a um novo projeto editorial. A publicação das metas culrriculares revistas, pois já as havia, conduziram à atualização dos manuais.

No caso do Português do 2º ciclo, com a inserção de outros textos com os respetivos materiais didáticos, os manuais já não são os que foram escolhidos pelas escolas, numa seleção que deveria ter uma validade de 6 anos.

Se o sistema fosse coerente, as escolas deveriam analisar de novo a oferta e fazer uma nova seleção de entre os novos manuais.

Esta opção, a dita atualização, prejudicará as famílias grandes que terão que gastar mais dinheiro do que o previsto, pois o manual de Português já não pode transitar para os mais novos.

A necessidade de rever os manuais prova que as metas são, na verdade, uma nova proposta programática. A criação duma nova área – a educação literária – e a mudança dos termos programáticos evidenciam uma cruzada contra os programas em vigor. Mas estes surgiram de um trabalho muito extenso, com reflexões aprofundadas sobre o ensino da gramática, da oralidade, da leitura e da escrita e incluíram um grande programa de formação de professores a nível nacional que movimentou muita gente.

Novas metas, novos manuais escolares

As editoras seguem febrilmente as iniciativas legislativas no campo da educação. Não há nada de novo que apareça que não conduza a um novo projeto editorial. A publicação das metas culrriculares revistas, pois já as havia, conduziram à atualização dos manuais.

No caso do Português do 2º ciclo, com a inserção de outros textos com os respetivos materiais didáticos, os manuais já não são os que foram escolhidos pelas escolas, numa seleção que deveria ter uma validade de 6 anos.

Se o sistema fosse coerente, as escolas deveriam analisar de novo a oferta e fazer uma nova seleção de entre os novos manuais.

Esta opção, a dita atualização, prejudicará as famílias grandes que terão que gastar mais dinheiro do que o previsto, pois o manual de Português já não pode transitar para os mais novos.

A necessidade de rever os manuais prova que as metas são, na verdade, uma nova proposta programática. A criação duma nova área – a educação literária – e a mudança dos termos programáticos evidenciam uma cruzada contra os programas em vigor. Mas estes surgiram de um trabalho muito extenso, com reflexões aprofundadas sobre o ensino da gramática, da oralidade, da leitura e da escrita e incluíram um grande programa de formação de professores a nível nacional que movimentou muita gente.

Adão e Eva reloaded

Adão e Eva

 

Afinal, Adão e Eva existiram mesmo, mas, ao contrário do que Génesis nos conta, podem muito bem não ter dormido juntos, ou sequer ter travado “conhecimento” mútuo, no sentido genésico que este termo tem no referido contexto1. Terão vivdo na mesma época, apenas separados por uns míseros vinte e um mil anos, no máximo.

A crer num artigo do Público de 2 de Agosto que nos informa sobre uma pesquisa genética da Universidade de Stanford, Adão, o homem que nos doou o cromossoma Y, terá vivido há 120 a 156 mil anos e a Eva, que doou a toda a humanidade a sua mitocôndria, terá vivido há cerca de 99 mil a 148 mil anos.

Esta cronologia evidencia um injusta assimetria, já que, embora possa acontecer que a mitocôndria do dito Adão seja a da referida Eva, esta, pode em qualquer dos casos, não ter nada dele. Isto porque todas as mitocôndrias, incluindo a minha e a sua, seja homem ou mulher, têm origem materna, pois as dos pais perdem-se inevitavelmente por força da violência deste modo de reprodução que manda para a reciclagem uma boa parte do pobre espermatozóide, na traumática entrada no óvulo. A única forma de os machos entregarem à posteridade a referida parte das suas células seria através da clonagem, mas neste caso, só as doaríamos a machos que as perderiam, logo, na geração seguinte.

Não é que nós, homens, não doemos nada à parte feminina da geração seguinte. Na verdade, todas as mulheres têm um cromossoma X com ADN masculino que se recombina com o do óvulo, tal como o ADN dos outros cromossomas do núcleo celular. O problema é que, como se recombina, perde a marca da sua origem masculina e não permite estas pesquisas de história genética.

 Mitocondrias

A mitocôndria é um importante organelo da célula, essencial na disponiblização de energia, que tem uma origem feminina, isto é, cada célula do nosso corpo tem cópias da mitocôndria do óvulo, salvo as inevitáveis mutações, que mais não são do que erros de ortografia cometidos pelo RBN (ácido ribonucleico). Como a mitocôndria tem o seu próprio ADN, ele é o mesmo da Eva primordial e nunca se combinou com o ADN de nenhum homem.

Na imagem à esquerda2, pode-se ver, sob o número 9, com a forma de chinelos, a mitocôndria, a amarelo, a parte que contém o seu ADN, afastada do núcleo da célula.


1
“E conheceu Adäo a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim” (Génesis, 4:1)

2 Imagem retirada de “Mitocôndria” in Wikipédia(https://pt.wikipedia.org).

Imagem de Adão e Eva retirada de “Adão e Eva” in Wikipédia(https://pt.wikipedia.org).

Adão e Eva reloaded

Adão e Eva

 

Afinal, Adão e Eva existiram mesmo, mas, ao contrário do que Génesis nos conta, podem muito bem não ter dormido juntos, ou sequer ter travado “conhecimento” mútuo, no sentido genésico que este termo tem no referido contexto1. Terão vivdo na mesma época, apenas separados por uns míseros vinte e um mil anos, no máximo.

A crer num artigo do Público de 2 de Agosto que nos informa sobre uma pesquisa genética da Universidade de Stanford, Adão, o homem que nos doou o cromossoma Y, terá vivido há 120 a 156 mil anos e a Eva, que doou a toda a humanidade a sua mitocôndria, terá vivido há cerca de 99 mil a 148 mil anos.

Esta cronologia evidencia um injusta assimetria, já que, embora possa acontecer que a mitocôndria do dito Adão seja a da referida Eva, esta, pode em qualquer dos casos, não ter nada dele. Isto porque todas as mitocôndrias, incluindo a minha e a sua, seja homem ou mulher, têm origem materna, pois as dos pais perdem-se inevitavelmente por força da violência deste modo de reprodução que manda para a reciclagem uma boa parte do pobre espermatozóide, na traumática entrada no óvulo. A única forma de os machos entregarem à posteridade a referida parte das suas células seria através da clonagem, mas neste caso, só as doaríamos a machos que as perderiam, logo, na geração seguinte.

Não é que nós, homens, não doemos nada à parte feminina da geração seguinte. Na verdade, todas as mulheres têm um cromossoma X com ADN masculino que se recombina com o do óvulo, tal como o ADN dos outros cromossomas do núcleo celular. O problema é que, como se recombina, perde a marca da sua origem masculina e não permite estas pesquisas de história genética.

 Mitocondrias

A mitocôndria é um importante organelo da célula, essencial na disponiblização de energia, que tem uma origem feminina, isto é, cada célula do nosso corpo tem cópias da mitocôndria do óvulo, salvo as inevitáveis mutações, que mais não são do que erros de ortografia cometidos pelo RBN (ácido ribonucleico). Como a mitocôndria tem o seu próprio ADN, ele é o mesmo da Eva primordial e nunca se combinou com o ADN de nenhum homem.

Na imagem à esquerda2, pode-se ver, sob o número 9, com a forma de chinelos, a mitocôndria, a amarelo, a parte que contém o seu ADN, afastada do núcleo da célula.


1
“E conheceu Adäo a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim” (Génesis, 4:1)

2 Imagem retirada de “Mitocôndria” in Wikipédia(https://pt.wikipedia.org).

Imagem de Adão e Eva retirada de “Adão e Eva” in Wikipédia(https://pt.wikipedia.org).