A nossa política doméstica entretém-se com polémicas deste tipo. O Ministério divulgou um estudo sobre as faltas dos professores que constituem um problema político que deve preocupar os responsáveis pela Educação. Os sindicatos responderam com o registo de faltas de Walter Lemos, enquanto autarca, que só é um problema político por ter sido indevidamente trazido para a discussão das aulas de substituição.
Se se reconhece que as faltas dos professores constituem um problema nas escolas, por os alunos ficarem desocupados, Walter de Lemos, quer no seu percurso, tenha faltado muito quer tenha faltado pouco, tem que combater as faltas dos professores.
Repare-se que quando se fala em faltas dos professores, não se diz que são ilegítimas, injustificadas, ou o que quer que seja, não se fala de A ou de B, apenas deste problema que é o dos alunos ficarem sem aulas. Imagino até que a maior parte das faltas estão justificadas legalmente. O problema é que as faltas existem. E persiste a questão: o que fazer quando um professor falta, numa escola. Ora no caso do autarca Walter de Lemos o problema foi resolvido com perda de mandato. No caso dos professores, como se faz?
No que respeita ao perfil do Secretário de Estado, parece-me abusivo, tirar desse facto qualquer ilacção nem sobre a pessoa – não sabemos o que o levou a essas faltas, nem se isso constitui um padrão normal na sua actividade – nem sobre a sua adequação às presentes funções.
Ainda o vencimento do Governador do Banco de Portugal
Da lei orgância do Banco de Portugal, Art. 40.º:
“Os membros do conselho de administração:
a) Têm direito à retribuição que for estabelecida anualmente por uma comissão de vencimentos constituída pelo Ministro das Finanças ou um seu representante, que presidirá, pelo presidente do conselho de auditoria e por um antigo governador, designado para o efeito pelo conselho consultivo;
b) Gozam das regalias de natureza social atribuídas aos trabalhadores do Banco, nomeadamente, e atentas as condições específicas das suas funções, os benefícios de reforma ou aposentação e sobrevivência, nos termos fixados pela comissão de vencimentos;”
Três ou quatro pessoas definem no maior secretismo este vencimento que sai do erário público. Repare-se que o ministro das finanças, quero dizer, o governo é politicamente responsável por este vencimento, mas não tem que o explicar a ninguémn porque ele é secreto. A dita comissão de vencimentos também decide as espantosas reformas de que estes senhores – governador e vices – beneficiam.
Em Portugal temos demais disto: pessoas que se autoavaliam e que são excelentes, todas elas. Já se viu alguém criticar acerrimamente algum detentor de um cargo de nomeação? Não, não é preciso. Eles estarão lá até os eleitos o desejarem, ou o substituirem por alguém da sua área de influência! E, quando saírem, será sempre com louvores, seja o Miguel Beleza ou o Vitctor Constâncio. Todos têm o desplante de aparecerem como politicamente neutros, como se estivessem num verdadeiro mercado de trabalho, independente do governo e do parlamento, e não numa rodízio de privilégios.
Allan Greenspan
Allan Greenspan é “chairman” do Federal Reserve Bank, o banco central dos EUA. O seu salário para 2005 está publicitado no “site” do banco: $180,100, (149,665.81 EUR) montante que corresponde mais ou menos ao que aparece no requerimento de Agostinho Lopes. Veja http://www.federalreserve.gov/generalinfo/faq/faqbog.htm#3.
Eles comem tudo e não deixam nada
Gostava de ver na televisão, aquele que, no mundo das ideias de Platão, seria a imagem da seriedade. Aparecia sempre com papéis debaixo do braço, era o homem que sabia da verdade das contas públicas e que a pedido dos governos a comunicava imparcialmente. Pois este homem, que vem pôr os pontos nos i, que aparentemente desoculta o que todos os outros escondem, a verdade orçamental, esconde de todos nós precisamente… aquilo que lhe pagamos.
O vencimento de Constâncio, segundo publicitado pelo Independente, pelo Correio da Manhã e pelo requerimento do deputado Agostinho Lopes, ascende a 272.628 euros por ano o que ultrapassa o vencimento do lendário Allan Greenspan que se limita a 146 mil euros. Podia-se dar o caso de um ter um patrão rico e outro um patrão pobre ou então do currículo do administrador do nosso banco central ultrapassar em mérito o do presidente da Reserva Federal dos EUA. Ora tudo isto joga no sentido contrário, de diminuir Constâncio e aumentar Greenspan. Enfim, talvez, Constâncio seja tão procurado que, para o retermos, não temos outro remédio senão pagar-lhe mais de 50 mil contos por ano.
O maior escândalo, contudo, é que este salário é rodeado do maior secretismo. Não sabemos de que fonte foi obtida esta informação e o Banco de Portugal recusa-se a dizer quanto paga aos seus administradores. Se a informação é verdadeira, temos que dizer: “Viv’ós comunistas! Viv’á imprensa livre!” Sei que são duas coisas contraditórias, mas que, felizmente, em democracia se conjugam muito bem!
A democracia só ganha em discutir o que esta gente ganha, se merecem esse dinheiro ou não, se não há ninguém que consiga desempenhar esse cargo por um pouco menos… nem que seja o próprio Greenspan!
Parece-nos cada vez mais que já não temos referências éticas nem à esquerda nem à direita. Se pensarmos que alguém está na política a defender ideais e princípios claros, sem nada ter a esconder, é melhor desconfiar…
Até agora eu pensava que era contraditório um dirigente público ter um vencimento secreto de cerca de 50 000 contos por ano e considerar-se socialista, sobretudo se essa pessoa está precisamente a exigir sacrifícios duríssimos aos seus concidadãos.
Quanto tempo dá por cada consulta do seu médico?
Umas dores lombares, resquício dum acidente desportivo, levaram-me ao ortopedista. Havia muito que adiava aquela consulta, requerida pelo médico de clínica geral. Como gosto de natação e de outras actividades físicas, apesar de as praticar irregularmente, temia ouvir uma série de proibições em catadupa. Um dia, lá me resolvi, que mais não fosse para poder colocar um x de feito na lista de tarefas da minha agenda.
Preparava-me para uma longa explanação, quando o médico, me fez, em três minutos, algumas perguntas de sim ou não e, impedindo qualquer exercício retórico do paciente, deu a sua receita: meu amigo, você tem é que fazer exercício, ir para um ginásio. Nada de mais exames eu esperava uma ecografia da coluna -, apenas isso: vá a um ginásio. Nem tipos de exercícios, nada!
Pagos 70 euros por esta célere consulta de cerca de 5 minutos, aí incluídas saudações e despedidas, pus-me a pensar no seguinte: quanto do meu tempo de trabalho está condensado nos 70 euros que eu dei por aqueles 5 minutos?
Imaginei então uma situação modelo: quantas horas é que um trabalhador de formação superior tem de dar, em troca, por uma hora de um médico, considerando uma consulta de duração de meia-hora um tempo infindável para muitos médicos ao preço de 50 euros e um salário mensal de cerca de 1500 euros. Lembro que o salário médio do trabalhador por conta de outrem, em Portugal, anda pelos 900 euros. Faça as contas, se quiser.
Eu cheguei à seguinte conclusão. O médico cobra ao seu ex-colega da academia, mas de outro curso menos promissor, 10 horas por cada uma das suas. Isto é, para pagar a meia-hora de consulta, o licenciado teve que pagar 5 horas de trabalho. Infelizmente, a maior parte das consultas médicas é inferior a meia hora e raras são as que a ultrapassam.
Num próximo artigo, vou tentar explicar por que razão é que existe esta abissal diferença.
Reparem que não está aqui implícita nenhuma crítica aos rendimentos dos médicos, pois acho que devem ser exactamente como os das outras pessoas: tão altos quanto possível. A questão é: por que razão pode esta discrepância ser tão grande?
A escrvatura em tempo de desculpas
Deve Portugal pedir desculpa a África pelo tráfico de escravos?
Em tempo de desculpas, a Alemanha pelo Holocausto aos judeus, a Igreja aos mesmos por causa da inquisição e, ao mundo da Ciência, por Galileu, será que Portugal deveria pedir desculpa aos africanos por causa do tráfico? A exigência foi feita por Joaquim Chissano, presidente de Moçambique, no seu recente doutoramento “honoris causa” na Universidade de Coimbra.
Embora a escravatura seja um fenómeno antigo, o tráfico e a exploração de escravos africanos para a América, teve uma dimensão diferente por se integrar numa economia mais extensiva, numa agricultura de plantação em que, de acordo com a terminologia marxista, o modo produção capitalista era dominante. A produção esclavagista da América, tanto do Sul, como do Centro e do Norte, alimentava de matéria-primas as indústrias da velha e da Nova Inglaterra, assim como a dos países europeus, aonde esses produtos e matérias-primas chegavam. E tudo se integrava numa cadeia de custos, de valor, por igual, que viu o escravo, como meio de produção, adquirir um preço, formado no mercado, pelo seu justo valor, graças, à concorrência entre produtores e consumidores.
O processo de produção do escravo consistia em provocar guerras em África, cuja extensão e frequência só se justificava por esse negócio. Enquanto o tráfico de escravos tinha uma pequena dimensão, o escravo era também um subproduto marginal da guerra. Quando o tráfico se tornou central, operou-se uma mudança dramática: a guerra passou a ser um meio de obter escravos para vender aos europeus. Entre os séculos XVI e XIX, a geografia política africana, anterior à ocupação europeia efectiva do final do século das luzes, consistia na formação e no desabar de potentados, reinos ou impérios, através de constantes guerras entre grupos étnicos rivais que lutavam para controlar as rotas do tráfico, em seu benefício e em prejuízo de outros.
Quando lemos, hoje, anúncios de jornal do século XIX, referindo circunstâncias de qualidade e de preço do escravo, não podemos deixar de nos sentir indignados pelo enorme contraste entre, por um lado, as mudanças socio-económicas e culturais – racionalismo, iluminismo, desenvolvimento científico e técnico, revolução comercial e industrial, direitos do homem, democracia, separação de poderes, etc… – e, por outro, a escravização de populações inteiras, uma prática que a priori se consideraria arcaica e anterior ao cristianismo.
É possível fazer um paralelo entre a escravatura antiga, a grega e a romana, e a moderna, a que prosseguiu quase até ao final do século XIX. Atenienses e espartanos reduziram populações inteiras ao estado de escravos, de tal maneira que, segundo algumas estimativas, a de Kitto, por exemplo, só 1/4 da população da Ática, teria o título de cidadão, no auge da democracia ateniense do século V. Em Roma, a necessidade de escravos chegou a ser também um motivo para a guerra. A violência da escravatura nestas civilizações não seria com certeza inferior à violência da moderna.
Mas Finley, como sabemos, mostrou-nos que o título de escravo, na Antiguidade, era um conceito essencialmente jurídico e não económico. Isto é, haveria pessoas que não eram escravos e que se viam forçadas a trabalhar. E, pelo contrário, havia escravos que viviam muito melhor do que cidadãos e que desempenhavam funções elevadas. Refere-se, por exemplo, que num determinado momento, o director do banco de Atenas seria um escravo.
Para ilustrarmos isso, lembremo-nos da Odisseia, do momento em que Ulisses regressa incógnito e reencontra um seu escravo que era o porqueiro. Euríloco era um verdadeiro gestor, com uma quantidade enorme de escravos ao seu dispor e o seu centro de produção de porcos tinha centenas de animais. Ele sentia-se livre para oferecer churrascos ao estrangeiro que o visitava, por causa da obrigação de dar um bom acolhimento. Mas, por outro lado, lamentava que Ulisses tivesse desaparecido, pois, como seu senhor, este ter-lhe-ia arranjado uma bela e jovem esposa. Se nos lembrarmos que Ulisses, o rei de Ítaca, antes de ir para a guerra, estava com um arado no campo, concluímos da enorme diferença entre essa escravatura e a actual. A comédia grega e latina mostra-nos o escravo como um habitante da casa que recebia castigos físicos quando se comportava mal (estou a lembrar-me de Menandro), mas que aparece quase como um membro da família, subalterno, é certo. Por outro lado, o antigo estatuto, em certos casos, era conhecido e tido em conta. Um tinha sido um antigo príncipe trácio; outro, era de uma família rica de Chipre e fora apanhado por piratas no mar, etc.
Esta diversidade de situações de vida era muito menor na escravatura moderna, porque, para se manter como tal, o estatuto de escravo não podia colidir com os estatutos das pessoas livres que viviam numa cada vez mais aberta economia de mercado, em que a força de trabalho se tornara uma mercadoria. A proletarização do camponês e do artesão na economia industrial deixava um lugar muito restrito para o escravo: o trabalho de plantação e a esfera doméstica. Além disso, estavam marcados pela sua origem africana. Mais ninguém, por mais que o desejasse se podia tornar escravo – nem sequer para pagar um dívida, como se fazia nos tempos bíblicos. O resultado era que negro que na América não fosse escravo, era uma coisa esquisita, e corria o risco de ser tratado como tal.
A escravatura na África subsariana difere em extensão, tanto da Antiguidade Clássica, como da moderna escravatura do Novo Mundo. Não se trata aqui de justificar ou desculpar o que quer que seja. Mas o facto das sociedades africanas terem menor especialização económica, uma menor divisão do trabalho impedia uma distinção muito clara entre pessoa livre e escravo. Havia também uma enorme diversidade de estatutos. Um escravo do antigo Império do Mali (séc. XIII), pôde-se tornar no imperador Sakura. Isso foi possível porque, nesse reino, os escravos da coroa, desempenhavam funções administrativas. Talvez, nessa situação, ser escravo da coroa seja melhor do que ser um simples camponês. Em todo o caso, não pretendo contrastar em termos de valores uma situação com a outra. É verdade que a escravatura, assim como o tráfico para os países árabes e para o os do norte de África, teve uma grande extensão, nos séculos anteriores à chegada dos portugueses.
O papel que coube a Portugal foi o de iniciar a participação dos europeus num tráfico intercontinental que terá roubado de modo directo a África cerca de 10 milhões de almas, segundo alguns cálculos. Quantas pessoas morreram em guerras para produzir esses 10 milhões e em fomes provocadas pela desestruturação económica associada a essas constantes guerras é algo que, penso, não está contabilizado.
O pior é que o português ficou particularmente marcado como o traficante de escravos por excelência, por a escravatura ter continuado nos territórios portugueses muito para além da sua proibição formal e de a ela ter sucedido um tipo de trabalho forçado que, em substância, era escravatura efectiva (veja-se o caso paradigmático de São Tomé).
Será que temos que pedir desculpa a África pela escravatura? Para Vasco Pulido Valente (coluna do Público, algures, há umas semanas atrás), a resposta é não: as vítimas já não existem e os traficantes também não. Mas mesmo que queiramos assumir as culpas dos nossos compatriotas traficantes, a questão de a quem é que devemos pedir desculpa não é fácil de resolver porque as elites africanas pactuaram quase sempre com a escravatura. Por exemplo, os van Dunen são hoje um apelido importante em Angola, mas são descendentes de traficantes de escravos. Quando encontramos alguém a revoltar-se contra os portugueses, nunca é para abolir o tráfico de escravos, mas, quanto muito, por causa dos seus lucros nesse negócio.
No final do século XIX, encontramos em Angola um movimento anti-metropolitano. Os naturais de Angola, brancos, negros e mestiços de Luanda e Benguela revoltam-se contra os portugueses que chegam, mas porque os que vêm, roubavam-lhes os lugares na administração colonial. Este grupo que perde os seus privilégios é solidário – em termos familiares – com os que nas décadas anteriores iam ao interior buscar escravos.
É engraçado, quando vemos intelectuais nacionalistas, como o Carlos Lopes da Guiné, a falarem da resistência do povo contra o tráfico de escravos. Pois claro que houve resistência, mas é abusivo considerarem o movimento nacionalista como herdeiro dessa resistência. Em Moçambique, por exemplo, temos que considerar que o fenómeno paralelo da resistência à escravatura é a dos camponeses que resistiram tanto ao trabalho forçado colonial como às aldeias comunais impostas pelo Estado nacionalista e socialista.
Então, por falta de destinatário credível, não podemos pedir desculpa a ninguém.
Nós, portugueses, temos, sim, que procurar a verdade do nosso passado, abandonar ideias falsas e que nos têm sido justamente criticadas, como a do carácter excepcional dos portugueses na relação com os povos africanos, a de sermos invulgares produtores de mestiçagem e a do Portugal de Quinhentos ser uma das maiores potências da Europa. Temos que formar a exacta dimensão do que fomos: uma potência europeia de segunda linha que teve um protagonismo notável em “dar novos mundos ao mundo”, que legitimou a conquista do Ultramar com a ideologia medieval da “fé” e do “império”, mas que, também, iniciou um negócio desprezível, em cujo enredo nenhuma personagem, mas mesmo, nenhuma – sejam africanos, espanhóis, franceses, ingleses ou holandeses -, tem as mãos limpas.
Sócrates
Política
Sou bastante conservador nos meus hábitos eleitorais. Em vez de procurar saber quem devo eleger, tento, antes, descobrir se é a altura de deixar de votar em quem costumo. E nunca se me ofereceu situação mais fácil do que a actual. Não é por o nome Sócrates me levar para um dos terrenos em que gosto de estar: o da reflexão, do debate, da crítica.
Por esse lado, votaria neles todos, um de cada vez, está claro: Sócrates, Platão, Aristóteles, São Tomás, Bacon, Espinosa, Descartes, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Nietsche, Wittgensetein, etc. Porque foi assim que fiz a minha formação filosófica: historicamente. Sempre convencido de que o último arrumava todos os anteriores. Devo dizer que nessa altura tinha parado em Marx, que com uma das “teses sobre Feuerbach” tinha arquivado todos os filósofos anteriores.
Nada mais falso. Depois de me ter distanciado de Marx e dos seus seguidores, recuperei o tempo perdido, olhando para muitos dos anteriores, e outros, posteriores, que estavam marginalizados.
Não que isso venha ao caso com este Sócrates. É só a questão do nome. Não sei se ele passou por isto que eu disse. Em todo o caso, parece-me que não é tema que possa discutir com Santana.
A verdade é que gostaria de pensar um bocadinho sobre política, gostaria que fosse mais difícil decidir para exercitar o meu gosto pela reflexão. Não, não é preciso.
Sim, num dia, em que até o Bloco de Esquerda se inclinou reverentemente perante a vidente de Fátima, não é mesmo possível pensar.
É só esperar e votar.
O regresso dos exames
Educação

(Imagem retirada de http://www-pors.hit.no/~trondc/teach.gif)
Paulo Portas, na entrevista que concedeu a Judite de Sousa, declarou que o pior que podia acontecer era o próximo ministro da educação ser “mais um teórico”. No seu programa, propõe-se o estabelecimento de exames de final de ciclo, que justifica dizendo: “não concebo o ensino sem notas e sem exames”. Defender os exames, para o líder do PP, não é, pois, teoria. Para o PP, a paixão pela educação faz-se, talvez, por… crenças, convicções. Se uma página da história da educação em Portugal corre mal ou gera muitas decepções, a solução para o PP é voltar atrás. E este regresso ao passado parece ser um valor em si próprio, o que é sintomático desta campanha que se diz ‘pelos valores’.
A questão é que valores educativos são os do PP. Neste caso particular, os exames implicam também uma preferência, uma prioridade que resulta e evidencia valores.
Como se sabe, os exames foram abolidos com base no argumento de serem considerados um meio de selecção social. A ideologia pedagógica dominante nas décadas de 70 e 80, reprovava o papel da escola como meio de confirmar e legitimar privilégios de classe e reproduzir as desigualdades sociais. Nessa altura, no nosso meio estudantil universitário, a crítica era feita em termos da oposição entre avaliação contínua e exames.
Como resultado desta onda em que pontuam as chamadas ciências da educação, como os respectivos ramos especializados da psicologia e da sociologia (onde se destacam as obras de Bourdieu), não só os principais exames nacionais foram abolidos no currículo escolar, como os professores foram pressionados a dar mais relevância à avaliação de diagnóstico e à avaliação formativa do que à avaliação sumativa (terminologia que entrou – e bem – no vocabulário educativo pela mão de Benjamin Bloom).
Isto é, o professor avalia mais o resultado do seu trabalho do que o desempenho dos seus alunos. As notas resultam hoje de uma mistura de coisas de ordem diversa, como as atitudes, os valores, o comportamento e o aproveitamento. A escala de classificações no ensino básico foi reduzida de 0 a 20 para 1 a 5, diminuindo a amplitude da expressão de diferenças entre os alunos. Inventou-se a distinção abstrusa entre retenção (ao nível do ano lectivo) e reprovação (no final de ciclo). Na primeira, o aluno não transita de ano lectivo, depois do professor ter cumprido uma série de procedimentos, que começam no segundo período, no outro o aluno não transita de ano lectivo, por uma decisão feita no 3º período.
Percebe-se facilmente que o valor que preside a este estado de coisas é o da igualdade de oportunidades, ou talvez, o da igualdade pura e simples, na medida em que se tenta escamotear as diferenças individuais. A expressão “facilitismo”, que o vulgo, que não sabe ldquo;eduquês”, utiliza, refere precisamente esta situação: hoje é muito mais ácil concluir o nono ano de escolaridade sem saber muito mais do que antigamente era necessário para a quarta classe. Caricaturando a situação, podemos dizer que a escolaridade obrigatória passou de quatro para nove anos e que hoje os alunos têm mais do dobro do tempo para aprender as mesmas coisas do que antigamente.
Se isto é verdade para um número apreciável de alunos que prossegue de nível em nível sem aproveitamento, não o é para muitos outros que seguem com sucesso os programas do segundo e terceiro ciclos que são bastante exigentes. Mas convenhamos que todos os testes confirmam isto: muitos alunos progridem no sistema sem um desempenho satisfatório.
Contudo, esta facilidade em cumprir a escolaridade obrigatória revelou ser um presente envenenado: todos fazem a escola toda, mas ela perdeu valor. Porque quase todos a fazem sem dificuldade, o mercado de trabalho deixou de dar valor a essa marca e muitas famílias que passam por dificuldades económicas e sentem a necessidade de pôr os filhos a trabalhar, não vêm na escola um meio de os preparar para o desempenho de qualquer profissão.
Assim, se é verdade que preparamos alguns jovens para prosseguir estudos, continuamos a ter muitos jovens sem qualquer reparação para nada no final do ensino básico. O abandono escolar continua a ser um flagelo, precisamente porque não conseguimos convencer as famílias da utilidade da escola. Como os professores do secundário e do superior se queixam da qualidade dos novos alunos, temos que conceder que também a preparação para o prosseguimento de estudos deixa muito a desejar.
A instauração da avaliação sumativa ao nível do ano de escolaridade e os exames de final de ciclo vêm precisamente contra este conceito de igualdade substancial que se pretendeu impor no sistema educativo.
Valorizar-se-á o mérito absoluto dos alunos relativamente aos programas oficiais e não o seu percurso de aprendizagem nem o esforço desenvolvido em ultrapassar as suas dificuldades. Como resultado, os que não têm mérito suficiente para ultrapassar essas barreiras serão eliminados. A qualidade dos sobreviventes será superior. Com este darwinismo educativo, os professores terão turmas mais homogéneas e alunos mais competentes para seguir programas mais exigentes. A qualidade subirá.
O aumento da competitividade no sistema educativo, talvez traga um melhoria das aprendizagens de todos e não só dos sobreviventes, pois todos sabem que, para ter sucesso, é preciso trabalhar mais. Mas é líquido que uma maior selecção resultará em maiores taxas de insucesso escolar. E a sensação de insucesso levará ao abandono escolar, a não ser que se criem soluções profissionalizantes antes do fim da escolaridade obrigatória. Se não se fizer isto, podemos ter como certo um aumento do abandono escolar.
O exame resultará pois em coisas contraditórias: mais insucesso, mais abandono escolar e… maior qualidade dos sobreviventes. Quanto aos que ficam pelo caminho, podeis estar certos que são os que pertencem a estratos sociais de mais baixos rendimentos, os que têm dificuldades a todos os níveis, na habitação, no emprego dos pais e até na alimentação. Talvez seja nestas variáveis que se deve investir para realizar efectivamente a igualdade de oportunidades: removendo os obstáculos que impedem as crianças de ter sucesso.
O sistema de avaliação tradicional baseia-se na turma como forma de organização e no ano como unidade de valiação. Não se cumprindo as condições de passagem de ano, é necessário repetir tudo, mesmo as disciplinas em que o aluno teve sucesso.
Quando um aluno repete um ano lectivo, ninguém tem em consideração o ponto em que aluno ficou. Esta noção de repetição, de “repetente”, parece-me anacrónica face aos avanços da pedagogia (pense-se por exemplo em soluções do tipo da “aprendizagem de mestria”). Será que o Estado não consegue criar soluções organizativas e pedagógicas para as escolas que criem simultaneamente maior qualidade, maior efectividade dos programas e que sejam simultaneamente inclusivas, que não sejam um simples regresso ao passado?
A febre do código Da Vinci
Crítica
Finalmente, li O código Da Vinci! Um pouco
forçadamente, é certo, para saber do que se trata,
quando, no café ou em reuniões de família,
alguém fala dele. Isso acontece tão frequentemente, que
a leitura se tornou obrigatória. As referências não
vêm geralmente a propósito da história contada no
livro, mas sim das teses históricas que constituem o seu
material. Para muitos leitores, o romance vale como ensaio, síntese
ou mesmo documento histórico.
É, contudo, um romance policial. No início,
somos colocados perante o mistério de um homicídio e
com duas personagens que se envolvem no caso. A progressão
faz-se por meio de charadas, mensagens cifradas que se trata de
descodificar. O mistério para o leitor é apenas o
seguinte: aquilo que o narrador não nos revela e adia.
Portanto, nem sempre coincidentes, são vários os
mistérios que se desenvolvem, o do leitor e os das
personagens. O narrador, omnisciente, mesmo que quisesse não
nos poderia nunca dar tudo de uma vez, pois o tempo do contar tem de
alguma maneira de se corresponder com o tempo do acontecer romanesco.
As próprias sincronias romanescas resolvem-se, necessariamente
em diacronias discursivas.
Além disso, o contador quer deixar-nos em
pulgas, ansioso pelo próximo capítulo e doseia
intencionalmente a informação para obter esse efeito. O
romance apresenta-se como uma trança que se vai fazendo.
Larga-se uma sequência espaço-temporal para acorrer a
outra que, mais à frente se vai encontrar com a primeira. E de
várias sequências e de várias pontas se faz este
jogo.
Logo de início, assistimos ao assassinato do
conservador do Louvre. Enquanto morre numa dolorosa morte lenta, o
conservador defronta-se com um problema: como deixar o seu segredo
apenas a certas pessoas e não a outras. Temos o pensamento, a
perspectiva da personagem, mas não o próprio segredo.
Desconfiados – então se temos o pensar do homem para umas
coisas porque não a temos para outras? -, aceitamos o contrato
e prosseguimos ou fechamos o livro. Aceitei e fui de sequência
em sequência, de capítulo em capítulo, tenso, com
os nervos à flor da pele, até ao fim.
De enigma em enigma, seguimos as duas personagens que
tentam descobrir a mensagem da vítima. A esta sequência
acrescenta-se a da polícia que tenta descobrir o assassino e a
deste que pensa deter finalmente o segredo de que era detentor o
conservador e comunica com o seu mandante.
O desenvolvimento destas três sequências,
os enigmas a resolver, as aproximações da polícia,
as decepções dos criminosos vão-nos criando
indícios a respeito de quem é o mandante do crime e
qual o móbil do seu crime. Este problema só existe
porque o narrador dá-nos perspectivas interiores incompletas
das personagens. Assim, a respeito dum tal misterioso Professor
que se corresponde com o chefe da Opus Dei e com o executante do
crime, adensa-se – na mente deste leitor -, a suspeita à volta
do chefe da polícia, devido às suas tentativas de
incriminar, perseguir e prender os nossos dois heróis. Esta
suposição é, a seu tempo, desmentida pelo
próprio curso dos acontecimentos.
A matéria histórica aparece através
do móbil do crime. O conservador fora assassinado por ser
chefe duma sociedade secreta, o Priorado do Sião,
e detinha o segredo do Santo Graal que era, nada mais nada menos que
a verdadeira história do cristianismo. Era do interesse do
Vaticano que os documentos que os templários detiveram, antes
da sua destruição no século XIV, fossem
destruídos, pois eles contavam uma história de Jesus
contrária aos seus ensinamentos.
Toda
a história da igreja primitiva, assim como as suas crenças
originárias teriam sido modificadas no tempo de Constantino,
mudanças que foram consagradas no Concílio de Niceia.
Jesus é apresentado como um jovem homem assexuado, pois, em
nenhum momento, nos é mostrada nos evangelhos, a ventura dum
encontro afectivo e sexual que dê um pouco de cor à sua
breve vida terrena. Na verdade, há outros textos que nos
contam a história de maneira diversa. Maria Madalena era, na
verdade, a companheira de Jesus e não a prostituta arrependida
de que os evangelistas nos falam.
Madalena
correspondia ao modelo das deusas antigas que representavam a
fertilidade e a capacidade criadora da natureza. Deus, de acordo com
o Priorado do Sião, deveria dar lugar à Deusa; o amor
sexual verdadeira força genesíaca de toda a natureza
deveria ser santificado e não repudiado como coisa impura a
que os santos deviam renunciar. Haveria então uma linhagem que
ia de Jesus até à dinastia dos merovíngios, os
célebres reis taumaturgos que precederam Carlos Magno e a sua
dinastia.
Então,
o segredo incluiria também o nome dos herdeiros do santo
matrimónio entre Jesus e Madalena. Entre os grão-mestres
do Priorado do Sião incluíam-se nomes como Da Vinci,
Isaac Newton e Jean Cocteau. O primeiro teria nas suas próprias
obras cifrado alguns dados da história de Cristo. Por exemplo,
a androginia de Mona Lisa é tido como exemplo do sagrado
feminino. Na última ceia, os traços femininos de uma
das personagens permite-nos identificá-la como a companheira
de Jesus. Mas são poucos os factos iconológicos
tratados no livro e não apresentam de modo nenhum uma
evidência que se possa considerar esmagadora.
Dan
Brown afirma referir-se a factos e documentos históricos, mas
um documento histórico só prova alguma coisa num
contexto de análise e crítica documental que não
é nem pode ser de modo nenhum o caso de um romance policial. O
Priorado do Sião é
apenas uma organização criada no século XX e que
inventou a sua própria história, com uma sucessão
de grão-mestres que remontam a Da Vinci e Newton.
Apesar
dos documentos citados, são muitos os analistas que contestam
a validade. Quanto aos merovíngios, não há
ninguém que consiga provar que é seu descendente. Eles
eram cristãos, pelo que suspeito que não se tenham
considerado eles próprios descendentes de Cristo.
Encontrem-se
ou não os herdeiros dos merovíngios, ou mesmo os de
Cristo e Madalena, e apenas constataremos a sua comum humanidade. Se
é interessante a história de Cristo e Madalena, claro
que é, mas é uma história que não é
mais nem menos válida da que nos é contada pela Igreja.
Centralismo democrático
Política
O sistema funciona assim:
O partido elege um presidente, um secretário-geral, ou qualquer coisa do género. Normalmente, há uma ou duas listas suportadas por n assinaturas dos militantes. A votação é feita de modo indirecto em congressos de delegados, de modo directo em mesas de votos espalhadas pelo país todo, ou ainda, de modo ainda mais indirecto, no comité central do partido.
O senhor que sai desta eleição tem o poder total. Não só é o candidato do partido a primeiro-ministro, como, ele e a sua equipa, filtram todas as listas de candidatos a deputados do partido.
As listas distritais são cozinhadas na comissão nacional do partido. Os comités distritais fazem é certo propostas mas estas têm de estar de acordo com o ranking nacional de militantes e o peso de cada um nesse top é avaliado pela comissão política nacional.
Os partidos apresentam listas nacionais nos distritos. A deslocação dos candidatos de um para outro distrito depende da elegibilidade e do dito ranking e não da representação dos habitantes do distrito. Se é assim, porque não nos apresentam uma única lista nacional?
Não estou a defender a representação de interesses particulares, regionais, pois reconheço que a eleição é de carácter nacional. Mas, mesmo assim, os candidatos devem ser escolhidos pelas organizações distritais dos partidos, mesmo mantendo a obrigação de defender um programa de governo. Penso que, em votações essenciais, os deputados deviam estar obrigados a seguir a posição maioritária da sua bancada. Isso impediria acontecimentos lamentáveis como o orçamento do queijo limiano.
Como se vê o actual sistema torna a maioria parlamentar dependente do seu governo, uma vez que é escolhida por ele e, mesmo assim, não impede casos de regionalismo de vista curta como o de Daniel Campelo.
Se as listas distritais fossem decididas a nível distrital, os deputados seriam menos dependentes dum centro único do poder – o líder do partido e o primeiro-ministro. O governo teria que negociar muito mais com a sua própria maioria e com as outras bancadas. Os deputados seriam menos amorfos. Teriam que fazer trabalho de base no seu distrito para ganhar a candidatura. Os amigos do secretário-geral (ou presidente) não teriam hipótese. Haveria menos amuos como o de Pôncio Monteiro no PSD.
